Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
Flávio Villa-Lobos
Norte
Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
866
Reinaldo Ferreira
Meu quase sexto sentido
Por detrás da névoa incerta,
Da bruma desconcertante,
Há uma verdade encoberta,
Que é, por trás da névoa incerta,
Intemporal e constante.
Oh névoa! Oh tempo sem horas!
Oh baça visão instável!
Que mal meus olhos afloras,
Em vão transmutas, descoras...
Meu olhar é infatigável.
Quero saber-me quem sou
Para além do que pareço
Enquanto não sei e sou!
Nuvem que a mim me ocultou,
Ai! Meramente aconteço.
Com menos finalidade
De que uma folha caída
Na boca da tempestade,
Porque ele é, na verdade,
Morte a caminho da Vida;
E eu não sei donde venho
Nem sei, sequer, pra aonde vou.
Rompa-se a névoa encoberta!
Quero saber-me quem sou!
Da bruma desconcertante,
Há uma verdade encoberta,
Que é, por trás da névoa incerta,
Intemporal e constante.
Oh névoa! Oh tempo sem horas!
Oh baça visão instável!
Que mal meus olhos afloras,
Em vão transmutas, descoras...
Meu olhar é infatigável.
Quero saber-me quem sou
Para além do que pareço
Enquanto não sei e sou!
Nuvem que a mim me ocultou,
Ai! Meramente aconteço.
Com menos finalidade
De que uma folha caída
Na boca da tempestade,
Porque ele é, na verdade,
Morte a caminho da Vida;
E eu não sei donde venho
Nem sei, sequer, pra aonde vou.
Rompa-se a névoa encoberta!
Quero saber-me quem sou!
1 977
António Ramos Rosa
86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha
86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
856
Reinaldo Ferreira
No princípio, só a vida existia
No princípio, só a vida existia;
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.
Tudo era certo, simples, claro.
Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.
Eu, porém, não sei nada.
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.
Tudo era certo, simples, claro.
Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.
Eu, porém, não sei nada.
2 053
Reinaldo Ferreira
Bispo de Pádua
Seria frade, é certo.
Mas que doce e estável céu aberto
Então, o meu destino !
Seguiria, talvez, Tomás dAquino
E outros claros sóis
Da teologia.
E por fecundo amor à luz do dia,
Feroz, destroçaria
O pérfido Averrois
Recalcitrante,
Com trinta silogismos de lógica esmagante,
Excedendo, porventura, o próprio Frade Angélico
No meu santo furor aristotélico !
E na maturidade,
Atingida aquela obesidade
Que deve ter um frade,
Dotaria as conclusões a minha inteligência
Sobre Potência
e Acto
Ao mundo estupefacto
De tal clarividência.
Após, o irmão copista,
Um precioso artista,
Paciente por excelência,
Copiaria o muito que eu pensava
No bárbaro latim da decadência,
Iluminando as frases ressequidas
Com galantes maiúsculas refloridas.
Em Pádua, subiria a ser reitor,
Por virtude e fulgor
Da minha erudição;
E, firme desde início,
Recusaria o sólio pontifício
No transe aflitivo de Avinhão.
Já então,
Por antecipação,
Nas forjas legendárias
Onde o bisonho Vulcano temperou
As cóleras incendiárias
Do Júpiter Tonante,
Um bando rutilante,
Ingénuo e palrador,
De serafins, cantando,
Estaria burilando,
Com gemas siderais
E trémulos orvalhos matinais,
O fulvo resplendor
Da minha santidade.
Entre santos e santas veneráveis,
Nos paços inefáveis
Da bem-aventurança,
Como um rio que transborda o leito,
A nova correria, sem tardança,
De haver um novo eleito;
E a excelsa e moderada academia
Entre si disputaria
A rara regalia
Da minha vizinhança.
Teimoso e resistente como um cedro,
Que fortes argumentos não teria
O indomável Pedro ?
E Paulo, o das epístolas ardentes ?
E a trigueira Maria de Magdala,
De que os olhos, carvões incandescentes,
São, mais que a muda boca, eloquentes ?
Mas um Santo que fora em vida grego,
E, dizem, muito lido em história antiga,
Prudente, acalmaria os imprudentes,
Lembrando que fora por intrigas,
Por miseráveis brigas,
Que outrora tivera o seu ocaso
A glória dos Deuses no Parnaso.
.......................
Paris,
Burgo cinzento,
Da cor do pensamento,
Vestiria de luto
Um hermético céu de nuvens negras,
Sombrio e triunfal,
Por esse velho astuto,
Malabarista arguto
Das mil e uma regras
Da lógica formal.
E esse velho,
Por quem chorava o meigo céu da França,
De olhar agudo, como o dum judeu,
Cortante, como o ferro duma lança,
Esse velho, esse velho era eu.
.......................
Da Gália
- A Doutora,
A muito sabedora -
Partiria, entretanto,
Um certo santo
Esfomeado de azul,
De rumo para a Itália.
.......................
Combatera uma bula,
Fora reitor em Pádua,
Prelado de Mogúncia
(E Papa não fora
Por um triz...)
E saía de Paris
Em lazarenta mula,
Viúvo de ambições
E noivo da renúncia.
.......................
O céu dessa manhã gloriosa
Dir-se-ia, de ambarino e pouco azul,
Cavado numa pétala de rosa...
Já então o degelo abraçava
No seu harém de cristal
O corpo nu das montanhas
- Hirtas, distantes,
Impossuíveis e místicas amantes
Raptadas a um convento das Espanhas.
E ao longo das cogulas concubinas,
Violadas, sem esperanças,
A água deslisava como um choro,
Tombava, toda a desfazer-se em tranças...
Pensativas,
Em voos circulares de procissão
Dum estranho ritual,
As nuvens punham, nos cumes das cativas,
Grinaldas de Irreal.
.......................
Ora o céu não é um pálio
Para a passagem de quem
Vai para o trono da morte
Desde as entranhas da mãe,
Nem o mundo coroação,
Nem as vidas que pisamos
Poeira erguida, ao de leve,
Pelo manto que envergamos,
Nem Deus o erro prudente,
Degrau de altura do trono,
Osso de esprança atirado
À boca dos cães sem dono.
Nós somos mais, porque vamos
Lutando contra o capricho
Que fez de nós uma estrela
Num firmamento de lixo.
.......................
Sobre um declive juncado
De podres pássaros mortos,
Desço os atalhos que, tortos,
Sobem a Deus.
E cego aos voos parados
Que o mesmo frémito impele
E um só cansaço frustrou,
Lúcido e louco, prossigo
Pra exaltação e castigo
De quem não sou.
.......................
E um terror satânico e antigo,
O que nasceu comigo
À hora em que acordei
Para a miséria da minha condição,
Ergue-se todo,
Num garrote de lodo
E solidão...
.......................
No horto das consciências desfolharam-se os deuses.
Vastos devastadores
- A Paixão e a Dúvida -
Disputaram às raízes
Os pedúnculos airosos,
E um longo estio de indiferença
Evaporou nas seivas
As ilusões piedosas.
Já a morte não abre
Para encruzilhada
Dos dois caminhos eternos.
.......................
Mais do que mitos infernais ou laços
Dum sobre-humano engenho aterrador,
Proíbem-me os umbrais, cujo transpor
É todo o fim dos meus perdidos passos.
.......................
Porquê ? Porque hei-de ver apenas isto ?
Eu que sou autêntico, que existo
Sem símbolos, real, naturalmente ?
.......................
Deuses, inferno e céu, foi tudo em vão;
Mito após mito, ergueu-se o ígneo horror
Do Eterno sem Deus, e com ele o esplendor...
Ao cabo, os homens são o que homens são.
Mas que doce e estável céu aberto
Então, o meu destino !
Seguiria, talvez, Tomás dAquino
E outros claros sóis
Da teologia.
E por fecundo amor à luz do dia,
Feroz, destroçaria
O pérfido Averrois
Recalcitrante,
Com trinta silogismos de lógica esmagante,
Excedendo, porventura, o próprio Frade Angélico
No meu santo furor aristotélico !
E na maturidade,
Atingida aquela obesidade
Que deve ter um frade,
Dotaria as conclusões a minha inteligência
Sobre Potência
e Acto
Ao mundo estupefacto
De tal clarividência.
Após, o irmão copista,
Um precioso artista,
Paciente por excelência,
Copiaria o muito que eu pensava
No bárbaro latim da decadência,
Iluminando as frases ressequidas
Com galantes maiúsculas refloridas.
Em Pádua, subiria a ser reitor,
Por virtude e fulgor
Da minha erudição;
E, firme desde início,
Recusaria o sólio pontifício
No transe aflitivo de Avinhão.
Já então,
Por antecipação,
Nas forjas legendárias
Onde o bisonho Vulcano temperou
As cóleras incendiárias
Do Júpiter Tonante,
Um bando rutilante,
Ingénuo e palrador,
De serafins, cantando,
Estaria burilando,
Com gemas siderais
E trémulos orvalhos matinais,
O fulvo resplendor
Da minha santidade.
Entre santos e santas veneráveis,
Nos paços inefáveis
Da bem-aventurança,
Como um rio que transborda o leito,
A nova correria, sem tardança,
De haver um novo eleito;
E a excelsa e moderada academia
Entre si disputaria
A rara regalia
Da minha vizinhança.
Teimoso e resistente como um cedro,
Que fortes argumentos não teria
O indomável Pedro ?
E Paulo, o das epístolas ardentes ?
E a trigueira Maria de Magdala,
De que os olhos, carvões incandescentes,
São, mais que a muda boca, eloquentes ?
Mas um Santo que fora em vida grego,
E, dizem, muito lido em história antiga,
Prudente, acalmaria os imprudentes,
Lembrando que fora por intrigas,
Por miseráveis brigas,
Que outrora tivera o seu ocaso
A glória dos Deuses no Parnaso.
.......................
Paris,
Burgo cinzento,
Da cor do pensamento,
Vestiria de luto
Um hermético céu de nuvens negras,
Sombrio e triunfal,
Por esse velho astuto,
Malabarista arguto
Das mil e uma regras
Da lógica formal.
E esse velho,
Por quem chorava o meigo céu da França,
De olhar agudo, como o dum judeu,
Cortante, como o ferro duma lança,
Esse velho, esse velho era eu.
.......................
Da Gália
- A Doutora,
A muito sabedora -
Partiria, entretanto,
Um certo santo
Esfomeado de azul,
De rumo para a Itália.
.......................
Combatera uma bula,
Fora reitor em Pádua,
Prelado de Mogúncia
(E Papa não fora
Por um triz...)
E saía de Paris
Em lazarenta mula,
Viúvo de ambições
E noivo da renúncia.
.......................
O céu dessa manhã gloriosa
Dir-se-ia, de ambarino e pouco azul,
Cavado numa pétala de rosa...
Já então o degelo abraçava
No seu harém de cristal
O corpo nu das montanhas
- Hirtas, distantes,
Impossuíveis e místicas amantes
Raptadas a um convento das Espanhas.
E ao longo das cogulas concubinas,
Violadas, sem esperanças,
A água deslisava como um choro,
Tombava, toda a desfazer-se em tranças...
Pensativas,
Em voos circulares de procissão
Dum estranho ritual,
As nuvens punham, nos cumes das cativas,
Grinaldas de Irreal.
.......................
Ora o céu não é um pálio
Para a passagem de quem
Vai para o trono da morte
Desde as entranhas da mãe,
Nem o mundo coroação,
Nem as vidas que pisamos
Poeira erguida, ao de leve,
Pelo manto que envergamos,
Nem Deus o erro prudente,
Degrau de altura do trono,
Osso de esprança atirado
À boca dos cães sem dono.
Nós somos mais, porque vamos
Lutando contra o capricho
Que fez de nós uma estrela
Num firmamento de lixo.
.......................
Sobre um declive juncado
De podres pássaros mortos,
Desço os atalhos que, tortos,
Sobem a Deus.
E cego aos voos parados
Que o mesmo frémito impele
E um só cansaço frustrou,
Lúcido e louco, prossigo
Pra exaltação e castigo
De quem não sou.
.......................
E um terror satânico e antigo,
O que nasceu comigo
À hora em que acordei
Para a miséria da minha condição,
Ergue-se todo,
Num garrote de lodo
E solidão...
.......................
No horto das consciências desfolharam-se os deuses.
Vastos devastadores
- A Paixão e a Dúvida -
Disputaram às raízes
Os pedúnculos airosos,
E um longo estio de indiferença
Evaporou nas seivas
As ilusões piedosas.
Já a morte não abre
Para encruzilhada
Dos dois caminhos eternos.
.......................
Mais do que mitos infernais ou laços
Dum sobre-humano engenho aterrador,
Proíbem-me os umbrais, cujo transpor
É todo o fim dos meus perdidos passos.
.......................
Porquê ? Porque hei-de ver apenas isto ?
Eu que sou autêntico, que existo
Sem símbolos, real, naturalmente ?
.......................
Deuses, inferno e céu, foi tudo em vão;
Mito após mito, ergueu-se o ígneo horror
Do Eterno sem Deus, e com ele o esplendor...
Ao cabo, os homens são o que homens são.
1 461
Reinaldo Ferreira
Onde, aguardando, esperasse
Onde, aguardando, esperasse,
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.
Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,
Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.
Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,
Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.
1 738
António Ramos Rosa
Interrompendo o Vazio
Interrompendo o vazio
busca os seus limites
negros
Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
busca os seus limites
negros
Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
965
António Ramos Rosa
A Imponderável Abordagem
Nada é necessário nada é suficiente
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
548
António Ramos Rosa
Há Quem Procure…
Há quem procure sob abóbadas e abóbadas
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
1 036
António Ramos Rosa
Terra Aérea
Aqui o livro abriu-se
à claridade da água
*
Para o cimo plano lâmpadas incertas navegam
folhas e lábios reúnem-se
*
Livres onde a respiração é o movimento
a tranquila exaltação
*
As palavras onduladas indivisíveis múltiplas
*
Antes de começar e só quando começa
a circulação da luz
de um sol azul claro
*
Terra mais viva aérea terra amiga
sem segredos e obscura e viva
*
Sem movimento a boca exalta
o suspiro que alimenta e dilata
*
Com os lábios do fogo
com os lábios da água
subimos à torre da lucidez do silêncio
*
O cimo é azul como o sol do princípio
*
Nenhum apelo no silêncio das árvores
Quietude plena quase um frémito uma asa
A terra é uma frase completa e contínua
*
Subimos descemos pela escada esculpida
Em cada janela a terra tem um rosto igual
*
Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia
de uma pura igualdade e permanência suave
*
Habitar a terra é ser o olhar e a luz
Não se diz o sim nem sequer se segreda
*
Um mais aéreo e íntimo movimento
Amplitude calma liberdade
*
Todo o olhar é uma confirmação do lugar e do ser
Força permanência suavidade
*
A quase totalidade do esplendor do ser
*
Uma festa mais extrema luz mais luminosa
Domínio do ar do espaço e do lugar
à claridade da água
*
Para o cimo plano lâmpadas incertas navegam
folhas e lábios reúnem-se
*
Livres onde a respiração é o movimento
a tranquila exaltação
*
As palavras onduladas indivisíveis múltiplas
*
Antes de começar e só quando começa
a circulação da luz
de um sol azul claro
*
Terra mais viva aérea terra amiga
sem segredos e obscura e viva
*
Sem movimento a boca exalta
o suspiro que alimenta e dilata
*
Com os lábios do fogo
com os lábios da água
subimos à torre da lucidez do silêncio
*
O cimo é azul como o sol do princípio
*
Nenhum apelo no silêncio das árvores
Quietude plena quase um frémito uma asa
A terra é uma frase completa e contínua
*
Subimos descemos pela escada esculpida
Em cada janela a terra tem um rosto igual
*
Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia
de uma pura igualdade e permanência suave
*
Habitar a terra é ser o olhar e a luz
Não se diz o sim nem sequer se segreda
*
Um mais aéreo e íntimo movimento
Amplitude calma liberdade
*
Todo o olhar é uma confirmação do lugar e do ser
Força permanência suavidade
*
A quase totalidade do esplendor do ser
*
Uma festa mais extrema luz mais luminosa
Domínio do ar do espaço e do lugar
1 111
António Ramos Rosa
É Um Rumor Apagado Talvez
É um rumor apagado talvez
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
614
António Ramos Rosa
Tu Existes Na Lentidão de Um Círculo
Tu existes na lentidão de um círculo
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
1 071
António Ramos Rosa
Saborear a Lenta Emanação
Saborear a lenta emanação
do limiar. Sorver a alteridade.
Abrir a luz com deslumbradas mãos.
Traçar a fugidia figura da origem.
do limiar. Sorver a alteridade.
Abrir a luz com deslumbradas mãos.
Traçar a fugidia figura da origem.
1 067
António Ramos Rosa
Sem Desígnios Sem Pedir Transparências
Sem desígnios sem pedir transparências
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
1 059
José Saramago
22
E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
1 104
Abū al-Qāsim ash-Shābbī
A estranha narrativa
Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.
(Versão de Luís Filipe Parrado, a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em "The flag of childhood - poems from the middle east"; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).
812
Lalla Romano
Como o cego se aferra
Como o cego se aferra
ao braço que o conduz
e a criança faminta
busca o seio da ama
cada um sobre a terra
a outro pede o seu bem
Pobre em si mesmo cada um
é para o outro rico
Cada um é a tempo mãe
e filho:
nutre e sacia-se
:
Come il cieco si afferra
al braccio che lo conduce
e il bambino che ha fame
cerca il seno di donna
ognuno sulla terra
chiede all'altro il suo bene
Ognuno povero in sé
è ricco per l'altro
Ognuno a un tempo è madre
e figlio:
nutre e si sfama
ao braço que o conduz
e a criança faminta
busca o seio da ama
cada um sobre a terra
a outro pede o seu bem
Pobre em si mesmo cada um
é para o outro rico
Cada um é a tempo mãe
e filho:
nutre e sacia-se
:
Come il cieco si afferra
al braccio che lo conduce
e il bambino che ha fame
cerca il seno di donna
ognuno sulla terra
chiede all'altro il suo bene
Ognuno povero in sé
è ricco per l'altro
Ognuno a un tempo è madre
e figlio:
nutre e si sfama
916
Luís Filipe Castro Mendes
Bichos da terra tão pequenos
Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
1 034
Álvares de Azevedo
Panteísmo
MEDITAÇÃO
O dia descobre a terra: a noite descobre os céus.
MARQUÊS DE MARICÁ.
Eu creio, amigo, que a existência inteira
É um mistério talvez; — mas n'alma sinto
De noite e dia respirando flores,
Sentindo as brisas, recordando aromas
E esses ais que ao silêncio a sombra exala
E enchem o coração de ignota pena
Como a íntima voz de um ser amigo,
Que essas tardes e brisas, esse mundo
Que na fronte do moço entorna flores,
Que harmonias embebem-lhe no seio —
Têm uma alma também que vive e sente...
A natureza bela e sempre virgem
Com suas galas gentis na fresca aurora,
Com suas mágoas na tarde escura e fria,
E essa melancolia e morbideza
Que nos eflúvios do luar ressumbra —
Não é apenas uma lira muda
Onde as mãos do poeta acordam hinos
E a alma do sonhador lembranças vibra...
Por essas fibras da natura viva,
Nessas folhas e vagas, nesses astros,
Nessa mágica luz que me deslumbra
E enche de fantasia até meus sonhos —
Palpita porventura um almo sopro,
Espírito do céu que as reanima,
E talvez lhes murmura em horas mortas
Estes sons de mistério e de saudade,
Que lá no coração repercutidos
O gênio acordam que enlanguesce e canta!
(...)
São idéias talvez... Embora riam
Homens sem alma, estéreis criaturas:
Não posso desamar as utopias,
Ouvir e amar à noite entre as palmeiras
Na varanda ao luar o som das vagas,
Beijar nos lábios uma flor que murcha,
E crer em Deus como alma animadora
Que não criou somente a natureza,
Mas que ainda a relenta em seu bafejo,
Ainda influi-lhe no sequioso seio
De amor e vida a eternal centelha !
Por isso, ó meu amigo, à meia-noite
Eu deito-me na relva umedecida,
Contemplo o azul do céu, amo as estrelas,
Respiro aromas, e o arquejante peito
Parece remoçar em tanta vida,
Parece-me alentar-se em tanta mágoa,
Tanta melancolia, e nos meus sonhos,
Filho de amor e Deus, eu amo e creio!
Imagem - 00280001
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
O dia descobre a terra: a noite descobre os céus.
MARQUÊS DE MARICÁ.
Eu creio, amigo, que a existência inteira
É um mistério talvez; — mas n'alma sinto
De noite e dia respirando flores,
Sentindo as brisas, recordando aromas
E esses ais que ao silêncio a sombra exala
E enchem o coração de ignota pena
Como a íntima voz de um ser amigo,
Que essas tardes e brisas, esse mundo
Que na fronte do moço entorna flores,
Que harmonias embebem-lhe no seio —
Têm uma alma também que vive e sente...
A natureza bela e sempre virgem
Com suas galas gentis na fresca aurora,
Com suas mágoas na tarde escura e fria,
E essa melancolia e morbideza
Que nos eflúvios do luar ressumbra —
Não é apenas uma lira muda
Onde as mãos do poeta acordam hinos
E a alma do sonhador lembranças vibra...
Por essas fibras da natura viva,
Nessas folhas e vagas, nesses astros,
Nessa mágica luz que me deslumbra
E enche de fantasia até meus sonhos —
Palpita porventura um almo sopro,
Espírito do céu que as reanima,
E talvez lhes murmura em horas mortas
Estes sons de mistério e de saudade,
Que lá no coração repercutidos
O gênio acordam que enlanguesce e canta!
(...)
São idéias talvez... Embora riam
Homens sem alma, estéreis criaturas:
Não posso desamar as utopias,
Ouvir e amar à noite entre as palmeiras
Na varanda ao luar o som das vagas,
Beijar nos lábios uma flor que murcha,
E crer em Deus como alma animadora
Que não criou somente a natureza,
Mas que ainda a relenta em seu bafejo,
Ainda influi-lhe no sequioso seio
De amor e vida a eternal centelha !
Por isso, ó meu amigo, à meia-noite
Eu deito-me na relva umedecida,
Contemplo o azul do céu, amo as estrelas,
Respiro aromas, e o arquejante peito
Parece remoçar em tanta vida,
Parece-me alentar-se em tanta mágoa,
Tanta melancolia, e nos meus sonhos,
Filho de amor e Deus, eu amo e creio!
Imagem - 00280001
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 077
Patrizia Vicinelli
De outro ponto foram vistas as estações
De outro ponto foram vistas as estações
até ali desconhecidas
só então pôde sentar-se e admirar
o sentido da alternância.
Por sua raiz gasosa transforma-lhe
a base visível
e o purifica a trajetória
de noite e dia a luz,
o céu.
Funde-se a mulher à sua sombra
e no entanto treme ao fogo do início
assim se desloca em seus passos
Ísis ao horizonte meta
assim ela foge à sua distância.
Por que não filtra a espera aromada
ou seja deter-se
sua ânsia vaza haverá fim
de perfil pôr o que a mantém unida
aquela que arranca a raiz, um sopro.
Batem então no ferro a matéria de si
e o plasma cada ângulo contínuo
da vista
uma distância de seu centro exata
a define.
Nos diversos planos da linguagem
é envolto
e assim gera as formas de sua busca
ele aprendeu como deixar-se sulcar
e ser cingido pelos rastros.
Com um lance de olhos sentia
a presença simultânea de tudo o
que na terra cresce
e esta consciência da situação atual
o ajudava como uma disciplina.
O que não está completo força
o modo de avançar,
meta, meta, queimado e requeimado,
durante a costa dos milênios.
Incessante foi visto renascer e morrer
o mundo até onde
não houve mais tempo nem luz bastante
para seguir os paradoxos demoníacos
ora lançado como dura pedra mole
nas águas do rio,
agitando dentro cacos de realidades díspares.
Enquanto isso cantam no peito os vultos
de seus sonhos
muda de manhã em albas até douradas,
qual certeza virá de mundos paralelos, atritos
postos sobre ou sob, vinculantes.
Deslizando longamente sobre o flanco
da pirâmide atávica
o bloqueia quando quer como exercício
e entretanto a miséria do homem
é consumada dentro de si, na arca
de seu espaço interior
buscava violar o que de inadequado
se recompõe a cada instante.
A atração dinâmica do fazer faltou
naquele ponto
e ao final da mais demorada dança
o abandono e o silêncio
da grandiosa solidão
o tornava eterno,
como assentado sobre um ponto raso
da terra, sob as estrelas.
Não era mais convocado à batalha
fazia muito tempo.
Meu silêncio é talvez o único início,
disse o homem sedento, e sentou-se
a olhar a evidência de seu destino.
O cavaleiro que observa a lua
não busca nem espera nada.
Bebia aquele vinho macio de agosto
e deixava a porta aberta
sobre a laguna quente de fim de agosto,
música em violas daquele tempo, vinho de Graal.
Perguntava-se se não era fantasia sua,
enquanto risos de jovens mulheres
bêbadas fendiam o ar.
Enrubesce-lhe o silêncio o vinho
e lhe dá corpo
respirando bate o ritmo da mente
no ar intacto
ora em círculo o olhar, a perda
o desvela,
um perfeito paralelepípedo de uma batalha
naval do settecento,
de sombras feitas de esfumaturas.
Em setembro além da luz tão baixa
e rasante há névoa
e o cheiro de funghi porcini aspirados
longamente, como nas ceias de inverno,
dentro de envelopes plásticos.
A configuração do mal tão conhecida
era então impalpável, parecia
não ter rastros.
No entanto a lua ao primeiro dia minguante
estende a noite sem pressa,
a estrutura em seu conjunto
ainda é esfera, depois vai mudar.
Já pensa que o santo Graal é demasiado
distante, e o copo está se ofuscando
de rubro _qualquer coisa, senhor, mas me empurra
adiante_, novamente o copo vibra vermelho
e a lua entre as árvores cai com a neblina certa
até os pinhos e as acácias, mas não os grilos, não
as aranhas, as libélulas até ontem mesmo.
Não há chegada não há parada não
há partida, mas a sucessão sem trégua.
Isto sim, que a cada nível se suceda
um outro, por geração espontânea,
o soubera pela roda que girava
enquanto os mundos findavam, em voltas.
(tradução de Maurício Santana Dias)
:
Da un altro punto furono viste le stagioni
fino lì sconosciute
solo allora poté sedersi ad ammirare
il senso dell’alternanza.
Dalla sua radice gassosa ne muta
la base visibile
e lo cimenta la traiettoria
di notte e giorno la luce,
il cielo.
È fusa la donna alla sua ombra
eppure trema al fuoco dell’inizio
così se li sposta i suoi passi
Iside all’orizzonte mèta
ora essa fugge la sua lontananza.
Perché non cola l’attesa profumata
ossia fermarsi
la sua ansia volta avrà la fine
di profilo porre cosa la tiene unita
quella che stacca la radice, un alito.
Batte allora sul ferro la materia di sé
e lo plasma ogni angolo continuo
della vista
una distanza del suo centro esatta
la definisce.
I piani diversi del linguaggio
ne è avvolto
così genera le forme della sua ricerca
egli ha imparato come lasciarsi solcare
ad essere cinto dalle tracce.
Con un colpo d’occhio sentiva
la presenza simultanea di tutto ciò
che nella terra cresce
e questa coscienza della situazione attuale
lo aiutava come una disciplina.
Ciò che non è compiuto spinge
il modo del procedere,
mèta, mèta, arsi e riarsi,
durante la costa dei millenni.
Incessante se lo vide rinascere e morire
il mondo fino a dove
non ci fu più tempo né abbastanza luce
per seguitare i paradossi demoniaci
sbalzato come dura pietra molle ora
nelle acque del fiume,
si agitava dentro pezzi di realtà dissimili.
Nel mentre cantano nel petto i volti
dei suoi sogni
muta al mattino in albe anche dorate,
quale certezza venga da mondi paralleli, attriti
posti sopra o sotto, vincolanti.
Scivolando lungamente sul fianco
della piramide atavica
lo blocca quando vuole come esercizio
e intanto la miseria dell’uomo
va consumata dentro di sé, nell’arca
del suo spazio interiore
intendeva infrangere ciò che da inadeguato
si ricompone ad ogni istante.
L’attrazione dinamica del fare mancò
a quel punto
e alla fine della danza più lunga,
l’abbandono e il silenzio
della grandiosa solitudine
lo rendeva eterno,
come collocatosu di un punto raso
della terra, sotto le stelle.
Non era più chiamato in battaglia
da tanto tempo.
Il mio inizio è forse il solo inizio,
disse l’uomo assetato, e si sedette
a guardare l’evidenza del suo destino.
Il cavaliere che guarda la luna,
non cerca e non aspetta niente.
Beveva quel soffice vino d’agosto
e teneva la porta aperta
sulla laguna afosa della fine d’agosto,
musica in viole di quel tempo, vino di Graal.
Si chiedeva se non fosse una sua fantasia
mentre risa fendevano l’aria,
di giovani donne ubriache.
Arrossisce il suo silenzio il vino
e gli dà corpo
col respiro batte il ritmo della mente
nell’aria intatta
ora a cerchio lo sguardo, la perdita
lo svela,
un parallelepipedo di una battaglia navale
del settecento,
esatto d’ombre fatte di sfumature.
In settembre oltre la luce così bassa
e radente c’è nebbia
e l’odore di funghi porcini annusati
a lungo, come nelle cene d’inverno
dentro le buste di plastica.
La configurazione del male così conosciuta
era allora impalpabile, sembrava
non ci fosse traccia.
Intanto la luna al primo giorno calante
porge la notte in adagio,
la struttura tutto sommato
è tonda ora, poi cambierà.
Già pensa che il santo Graal è troppo
lontano, e il bicchiere si sta offuscando
di rosso, – qualsiasi cosa signore, ma spingimi
avanti – nuovamente il bicchiere brilla rosso
e la luna fra gli alberi cade con la certa nebbia
fino ai pini e alle acacie, ma non i grilli, non
i ragni, le libellule fino a ieri poi.
Non c’è arrivo non c’è sosta non
c’è partenza, ma il succedersi senza tregua.
Questo sì, che ad ogni livello ne succeda
un altro, per generazione spontanea
l’aveva saputo dalla ruota che girava
mentre i mondi finivano, a volte.
deOpere (1994).
821
Angela Santos
Senda
A mim retornam
os caminhos,
risco-os em cada muro que se ergue...
e sigo o rasto da voz que se alteia
cada manhã de custo e diligente teima
Se não mais me abraçam as palavras doces,
resta-me a ponte que lancei no dia
em que a tempestade me abeirou do abismo
dou o enlace amante ao desconhecido
onde se afigura uma estrela guia
surgindo do breu , do inominável espaço,
onde sinto o eco dos meus próprios passos....
Sei que há-de ser lá - onde quer que seja-
o lugar, o abrigo, casa a que regresso
reatando, enfim, invisíveis fios
que à vida me trazem presa pelo umbigo.
os caminhos,
risco-os em cada muro que se ergue...
e sigo o rasto da voz que se alteia
cada manhã de custo e diligente teima
Se não mais me abraçam as palavras doces,
resta-me a ponte que lancei no dia
em que a tempestade me abeirou do abismo
dou o enlace amante ao desconhecido
onde se afigura uma estrela guia
surgindo do breu , do inominável espaço,
onde sinto o eco dos meus próprios passos....
Sei que há-de ser lá - onde quer que seja-
o lugar, o abrigo, casa a que regresso
reatando, enfim, invisíveis fios
que à vida me trazem presa pelo umbigo.
637
Angela Santos
Gume do Ser
Colho o sentido de cada
gesto e signo
para adentrar as razões
deste caminho a fazer-se
de perplexidades, desatinos, descaminhos...
Acredito chegar ainda
ali, onde possa vislumbrar ou pressentir
o sentido mais além deste tudo aqui
A paz que desce nestes dias
afronta-me e até o amor florescido
se me torna estranho
Por que caminhos chega esta quietude
se me sei só na vaga alterosa
no ruído surdo do mundo ?
Da paz não sei senão
a palavra onde habita
e não sei se quero a paz
de que não sou....
O mundo convulsivo chama...
como não ir seu encontro,
se a voz do sangue soa em mim,
irreprimível.
gesto e signo
para adentrar as razões
deste caminho a fazer-se
de perplexidades, desatinos, descaminhos...
Acredito chegar ainda
ali, onde possa vislumbrar ou pressentir
o sentido mais além deste tudo aqui
A paz que desce nestes dias
afronta-me e até o amor florescido
se me torna estranho
Por que caminhos chega esta quietude
se me sei só na vaga alterosa
no ruído surdo do mundo ?
Da paz não sei senão
a palavra onde habita
e não sei se quero a paz
de que não sou....
O mundo convulsivo chama...
como não ir seu encontro,
se a voz do sangue soa em mim,
irreprimível.
1 086
Angela Santos
Entre Mundos
Que afago virá
sossegar-me o coração
e que luz por entre as brumas
me fará, por fim, saber
o sentido inaudito
do que me ata aos dias.....
eu que nada sei
eu que acordei com o sopro
e me disse com o primeiro grito
eu que resisti ao mundo,
antes de o saber azul e bordado de fragas
e entranhado de lume
não sei o que virá acordar-me
do sossego se vier ...
e que caminho acharei depois de ter caminhado
por entre urzes e gritos e o desatino do mundo.
E depois o que virá ?Sabe-lo de que me serve
se hoje é o tempo todo e isto que sou e sinto
o que devo sentir e ser.
sossegar-me o coração
e que luz por entre as brumas
me fará, por fim, saber
o sentido inaudito
do que me ata aos dias.....
eu que nada sei
eu que acordei com o sopro
e me disse com o primeiro grito
eu que resisti ao mundo,
antes de o saber azul e bordado de fragas
e entranhado de lume
não sei o que virá acordar-me
do sossego se vier ...
e que caminho acharei depois de ter caminhado
por entre urzes e gritos e o desatino do mundo.
E depois o que virá ?Sabe-lo de que me serve
se hoje é o tempo todo e isto que sou e sinto
o que devo sentir e ser.
1 039
Angela Santos
Origens
Gravadas
na alma as marcas
desse emergir lento da terra de ninguém:
e no corpo réstias do sal
que aflora no sangue e nas lágrimas,
amnióticas águas nascentes da mãe.
O primeiro vislumbre de luz,
O som do primeiro grito
O medo do salto pra vida
o saber secreto de que nascemos à vez
e um a um partimos,
primordial e derradeira forma
de estarmos inteiramente a sós.
Um distinto sinal em nossas vidas,
O desenho único na anatomia da mão
a irrepetivel impressão digital
e outras distintas marcas impressas:
a resistência sobre-humana
quantas vezes impensada,
a teimosia do sonho
de outros cumes alcançar,
o permanente sentido dado
ao que se faz e é
Ousadia de criar asas
e levantar-se do chão,
de recriar e persistir
natureza que se desnatura,
afã e busca,
a cada novo golpe a cada novo voo
a indomável vontade de ser mais
e ir mais além
Anima, Animus,
e contudo sopro
humana fragilidade em nossa sina inscrita
quando veloz é a corrente que submerge
e bruta a força da vida,
irmanando na mesma química
homens, bichos, estrelas, pedras
as entranhas da terra
e as águas marinhas.
Ténues fios seguram o cálice da vida
onde sôfregos bebemos cada gota consentida,
isso que leva adiante e torna maiores
ante a inexorável forma que nos determina,
o sobre-humano gesto
que em si mesmo inscreve distintos sinais
Sinais é o que somos
nem deuses , nem demónios
humanos tão só humanos,
humanos até na desumanidade
ou antes de mais e depois de tudo
frágeis seres inacabados
buscando razões para erguer a ponte
que nos leve além
e nos faça chegar mais perto de Ser
que ainda não fomos.
na alma as marcas
desse emergir lento da terra de ninguém:
e no corpo réstias do sal
que aflora no sangue e nas lágrimas,
amnióticas águas nascentes da mãe.
O primeiro vislumbre de luz,
O som do primeiro grito
O medo do salto pra vida
o saber secreto de que nascemos à vez
e um a um partimos,
primordial e derradeira forma
de estarmos inteiramente a sós.
Um distinto sinal em nossas vidas,
O desenho único na anatomia da mão
a irrepetivel impressão digital
e outras distintas marcas impressas:
a resistência sobre-humana
quantas vezes impensada,
a teimosia do sonho
de outros cumes alcançar,
o permanente sentido dado
ao que se faz e é
Ousadia de criar asas
e levantar-se do chão,
de recriar e persistir
natureza que se desnatura,
afã e busca,
a cada novo golpe a cada novo voo
a indomável vontade de ser mais
e ir mais além
Anima, Animus,
e contudo sopro
humana fragilidade em nossa sina inscrita
quando veloz é a corrente que submerge
e bruta a força da vida,
irmanando na mesma química
homens, bichos, estrelas, pedras
as entranhas da terra
e as águas marinhas.
Ténues fios seguram o cálice da vida
onde sôfregos bebemos cada gota consentida,
isso que leva adiante e torna maiores
ante a inexorável forma que nos determina,
o sobre-humano gesto
que em si mesmo inscreve distintos sinais
Sinais é o que somos
nem deuses , nem demónios
humanos tão só humanos,
humanos até na desumanidade
ou antes de mais e depois de tudo
frágeis seres inacabados
buscando razões para erguer a ponte
que nos leve além
e nos faça chegar mais perto de Ser
que ainda não fomos.
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