Poemas neste tema

Propósito e Sentido da Vida

Rui Costa

Rui Costa

Senhora de Londres escolhendo Limões

Não, nem todo o limão é amarelo quando
a mão de alguém o toca e humaniza, pequeno deus
aos tombos do céu de um pensamento manual e
exigente. Às vezes, quando a sede não é muita,
um do fundo é erguido à altura do olhar e então,
por mágica rotação da sorte que nos astros se reflecte,
encontra uma outra luz na mão que o recebe e deposita
em morada assaz prosaica e de plástico. Na vida,
a caminho do futuro que ele nunca saberá onde fica,
o limão continuará a ser inteiro
e o seu sumo continuará a ser sumo,
pela mesma sábia razão por que a história dos homens
é sempre muito maior do que eles.

623
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Onde Não Treme a Sombra

Onde não treme a sombra
e a cabeça treme com a brecha
e nenhum horizonte e sem a mão
que cega cor se acende algum
amor ou raiva algum alento algum
alguém?

Onde o espaço se desfaz delidamente
onde o osso não resiste
onde a pedra é sonâmbula
onde não se ouve já senão
um rumor duro espesso e duro
como um silêncio iminente
um silêncio não ainda não
e ainda se vive de um ainda não
1 026
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Oh for a less meaningless horizon than the land and the sea!

Oh for a less meaningless horizon than the land and the sea!
Oh for a rest from places and a lapse from the sense of times!
Waves, ever waves, to and fro … Ever waves roll, and we
What do we wait, what do we seek, what do we pause for and flee?
What in us lusts for more round us than the strech of minutes and climes?

Ah, and no bark to bear us towards Impossible, and that a real place,
An attainable place, full of the depths and rests of the Unattainable!
But ever the sea, the sea, like the passing of many a face...
Ever the sea, and the sea runs a restless and half-hearted race
Towards not the shore, nor the land, but what? Who can measure or tell?

No ship to bear us homeward, past earth and sea and the sky!
None to spread sails to a breeze blowing but not with a whither!
And ever, like a lost meaning, the sea never passing by,
Ever the measurable sea, sad as a formless cry,
And the most hearts can be is (to) be two and sorrow together!

To-morrow will tire us of all! But we lack heart to be tired indeed
The purpose our souls came for is lost and never stared at...
Let us at least by the shore construe our aches for a deed
Into a meaningless ache and a desolate and purposeless greed...
Become we one with the sea's lost purpose and dream and wish nothing
                                                                                                but that...
1 584
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Ainda Resiste

à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro

Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo

Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio                    ou talvez um ininteligível
grito?

O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal                 Tropeço
em membros de palavras         um jogo
quase de acaso e pura perda

Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase                um negro violento
um ruído branco     áspero     surdo

As árvores são de sombra     Não cantam pássaros
nas sombras

As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta

A mão escreve sangue            e o sangue é branco
ou negro                             e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio

Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes

Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre

Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos

mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse

A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma

Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
974
Amália Bautista

Amália Bautista

Outra porta giratória

Temos que a vida não era só empurrar,
nem um jogo de miragens duvidosas.
Não era perder-nos, às voltas
numa porta giratória,
nem desconfiar de todos os reflexos,
nem crer qualquer coisa só porque
a imagem parecia verdadeira.
Havia que encontrar o ponto justo
onde acaso e destino são o mesmo,
o momento exacto em que a porta
giratória nos oferece uma saída.

634
Amália Bautista

Amália Bautista

Teus olhos

Quando se esgotam os caminhos
que a razão podia aconselhar-nos
abrem-se teus olhos e com eles tudo
volta a inundar-se da escura luz
que dá sentido ao mundo e à vida.
 

544
Notívaga Noturna

Notívaga Noturna

Prazer

prazer.
ardor.
arder.
atar.
foder.
fundir.
unir.
assar.
amassar.
doer.
morder.
libertar.
soltar:
a vida o espírito o corpo o tudo.
chorar.
sofrer.
desejar.
acreditar.
querer.
sonhar.
soltar:
o corpo o espírito a vida o tudo.
beijar,
beijar,
beijar:
um sorvete com caramelo, chocolate entremeado de beijar.
desaparecer aparecendo doce.
existir,
existir,
existir,
haverá afinal tanto pecado em apenas querer ser feliz?
tua pele,
no meu pêlo.
minha pele,
tocando a tua.
teus seios,
em meu singelo peito...
tua alma,
em meu pequeno coração...
minha boca,
em tua boca. louca.
minha alma. louca.
em tua alma. louca.
Será pecado ter este prazer de existir?
Se era pra ser assim,
Por quê antes não foi?
Por que não te encontrei enquanto navegando displicente na existência?
Precisava ser agora?
Quando tudo já parecia definido e travado...
Quando todo um destino já parecia ter sido selado?
Só não podia não ser, jamais.
A vida não teria tido sentido, nem alma.
A alma não teria tido uma vida, nem sentido.
A existência não teria tido vida, nem sentido, nem alma.

1 187
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

3. Para o Incêndio da Festa

Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue

O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar

Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue

Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa

Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia

Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca     estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa

Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa

E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa

Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza

Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?

Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste

Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa

Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 208
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Por Quê?

Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
1 789
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas vezes jurei ser

Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.
1 212
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.
830
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Os Argonautas

Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:

só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.

1 409
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem. . . sem que êle estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai inundando tudo. . .
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos — voltarão?
Meu coração não sabe.

Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.


Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos.
1 784
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Consideração do Poema

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convém.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinícius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.

— Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis ai meu canto.

Êle é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel. . . Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.
4 754
Juan Gelman

Juan Gelman

Costumes

não é para ficar em casa que fazemos uma casa
não é para ficar no amor que amamos
e não morremos para morrer
temos sede e
paciências de animal
1 887
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXIII

E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?

E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?

São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?

Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
562
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXV

Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?

Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?

Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?

A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
1 096
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Ni siquiera soy polvo

No quiero ser quien soy. La avara suerte
me ha deparado el siglo diecisiete,
el polvo y la rutina de Castilla,
las cosas repetidas, la mañana
que, prometiendo el hoy, nos da la víspera,
la plática del cura y del barbero,
la soledad que va dejando el tiempo
y una vaga sobrina analfabeta.
Soy hombre entrado en años. Una página
casual me reveló no usadas voces
que me buscaban, Amadís y Urganda.
Vendí mis tierras y compré los libros
que historian cabalmente las empresas:
el Grial, que recogió la sangre humana
que el Hijo derramó para salvarnos,
el ídolo de oro de Mahoma,
los hierros, las almenas, las banderas
y las operaciones de la magia.
Cristianos caballeros recorrían
los reinos de la tierra, vindicando
el honor ultrajado o imponiendo
justicia con los filos de la espada.

Quiera Dios que un enviado restituya
a nuestro tiempo ese ejercicio noble.
Mis sueños lo divisan. Lo he sentido
a veces en mi triste carne célibe.
No sé aún su nombre. Yo, Quijano,
seré ese paladín. Seré mi sueño.
En esta vieja casa hay una adarga
antigua y una hoja de Toledo
y una lanza y los libros verdaderos
que a mi brazo prometen la victoria.
¿A mi brazo? Mi cara (que no he visto)
no proyecta una cara en el espejo.

Ni siquiera soy polvo. Soy un sueño
que entreteje en el sueño y la vigilia
mi hermano y padre, el capitán Cervantes,
que militó en los mares de Lepanto
y supo unos latines y algo de árabe...
Para que yo pueda soñar al otro
cuya verde memoria será parte
de los días del hombre, te suplico:
mi Dios, mi soñador, sigue soñándome.


(1977)


Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", págs. 488 e 489 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 249
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Pedro É o Quando

Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?

Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,

os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,

ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
1 161
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. Não Procures Verdade No Que Sabes

Não procures verdade no que sabes
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
1 257
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Promessa

Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.
1 132
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cantiga de Enganar

O mundo não vale o mundo,
meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo,
meu bem,não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê? de mim? ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa. . . e se sobe
algum som deste declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de correntes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e de enfermos,
de meninos internados
ou de freiras em conventos.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixem desprender-se,
menos que simples palavra,
menos que folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contém, o mero registro
da energia concentrada.
Não é nem isto, nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não fôr antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta.
De sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
de escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
— mas a conta não existe —
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
Façamos mundos: idéias.
Deixemos o mundo aos outros,
já que o querem gastar.
Meu bem, sejamos fortíssimos
— mas a força não existe —
e na mais pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
— mas o tempo não existe —,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.
1 395
Adélia Prado

Adélia Prado

Pontuação

Pus um ponto final no poema
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.
1 072
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Quem Somos Nós?

desenvolva
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar

arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis

ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor

a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?

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