Poemas neste tema

Propósito e Sentido da Vida

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Um dia / Pensei na fama e em mim o sonho veio

Um dia
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
1 344
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No meio das grandezas e das glórias

No meio das grandezas e das glórias
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
1 324
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A essência de mistério o seu horror

A essência de mistério o seu horror
Está não só em nada compreender
Mas em não saber porque nada se compreende.
1 325
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sou mais que o SER que transcende

Sou mais que o SER que transcende
Criatura e Criador.
Se esse SER ninguém entende,
Ele a mim e ao meu horror
Menos. Vida, pensamento,
Tudo o que nem se adivinha...
É tudo como um momento
Numa eternidade minha.

Mais que mundo e eternidade
Num, siIente cataclismo,
Mais que ideia, ser, verdade,
Acaba no meu abismo.
E essas águas que esvair
Se vêm ao meu profundo —
Ninguém as ouve a cair,
Nem eu me concebo um fundo.
1 250
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Enquanto nesta vida

Enquanto nesta vida
É possível, com subterfúgios mil,
Esquecer-se (...) não pensar,
Fechar-se em imaginações (...)
Mas na morte — oh horror que mais eu temo! —
O grande Facto iniludível jaz.
Este perpétuo, dorido hesitar
Do pensamento temo e (...)
Não me horroriza tanto, como o ter
De resolver na Morte esse problema.

O Mistério é um Facto: eis o horror,
Eis todo o horror expresso.
É um Facto no qual vida, universo,
Seres, (...)
Cidades com seus comércios, lidas
É um livro de sonho aberto.
Proporções gigantescas e interiores
Tomam do sonho a ilusão e a aparência.

Não é a dúvida que me tortura;
É a certeza do (...) Facto,
Para o qual me é impossível ou cerrar
Ou pensar em cerrar os olhos d'alma.

E a existência desse Facto inerente
A tudo que aparece e que (...)
Uma irrealidade transparente,
Horrorosa, (...) perturbadora,
Onde mão invisível vai escrevendo
Desconhecido lema suspeitado
De horror inconcebido.

A consciência clara deste Facto,
Mais que imanente, alheia-me de tudo
E de todos, raivoso e (...)
Ao vê-los como vão, rindo e chorando
Felizes! — outros
Não haverá maneira d'esquivar-nos
D'encontrar o que houver?
É haver esse Facto e encontrá-lo
Que faz o horror da minha vida inteira

(Olhei de frente a frente a Verdade
Para poder sequer fingir sorrir.)

Pudesse eu a sonhar passar a vida
Mas ao Facto (...) da Morte
É impossível fugir. Queira, não queira,
Acorrentado à inevitabilidade
O homem sobe inconsciente ou (...)
Para ela.
838
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

D. Juan

Ser de eleição em cujo olhar a natureza
Acendeu a fagulha altiva que fascina,
Tu trazias aquela aspiração divina
De realizar na vida a perfeita beleza.

Creste achá-la no amor, na indizível surpresa
Da posse — o sonho mau que desvaira e ilumina.
Vencido, escarneceste a virtude mofina...
Tua moral não foi a da massa burguesa.

Morreste incontentado, e cada seduzida
Foi um ludíbrio à tua essência. Em tais amores
Não encontraste nunca o sentido da vida.

Tua alma era do céu e perdeu-se no inferno...
Para os poetas e para os graves pensadores
Da imortal ânsia humana és o símbolo eterno.

1907
1 109
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Às vezes passam

Às vezes passam
Em mim relâmpagos do pensamento
Intuitivo e aprofundador
Que angustiadamente me revelam
Momentos dum mistério que apavora;
Duvidosos, deslembrados, confrangem-me
De terror que entontece o pensamento
E vagamente passa, e o meu ser volve
À escuridão e ao menor horror.

No sangue frio que nas veias minhas
Gira, no ar que sorvo, luz que vejo,
Circula, entra, nada-me uma dor;
E eu talvez à ternura outrora afeito
(Se o pensamento me não dominasse)
Sinto — como não sei — a alma mirrada
E pálida no ser.

Não é apenas, (...), o pensamento
Que assim me traz; é o pensamento fundo,
A consciência funda e absoluta
De todos os problemas minuciosos
Do mundo, transsentidos no meu ser.
1 234
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já estão em mim exaustas,

Já estão em mim exaustas,
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos       [...]
        [...]        — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me  (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
878
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os mistérios profundos e horrorosos;

Os mistérios profundos e horrorosos;
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.

E haver eu ser eu.
895
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MOMENTS - III

III

A philosopher of name
In the best of mind once said:
«Man is... » the rest is immaterial
And need not be chronicled.
1 187
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Vida assim nos Afeiçoa

Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!

"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;

"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”

Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
1 060
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [b]

Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?

Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão

Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 540
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ubiquidade

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

Petrópolis, 11.3.1943
1 278
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quisera / Do pensamento e sentimento dessas

Quisera
Do pensamento e sentimento dessas
Almas ser testemunha subjectiva.
De que está cheia aquela vacuidade,
E em que pensam, se não pensam nunca.
Outro mistério — o de vários seres,
Formas talvez de um mesmo que os transcende,
Compreendendo-se (...) por serem
Profundamente o mesmo. E assim acrescendo-se
Assim (...)     numa espécie
De egoísmo transcendental.
1 285
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como varia

 Como varia
A sensualidade, a inteligência,
A vontade, o (...) de um a outro,
Assim varia em todos a intuição
Do universal mistério. Sentem todos
Uns vagamente, outros conscientemente
O mistério, mas eu mais do que todos.
1 468
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, o horror metafísico da Acção!

Ah, o horror metafísico da Acção!
Os meus gestos separam-se de mim
E eu vejo-os no ar, como as velas dum moinho,
Totalmente não meus, e sinto dentro
Deles a minha vida circular!
Sou sempre o mesmo, sempre o mesmo, sempre!
Sempre o que tudo vê e tudo sente
No seu sentido misterioso e enorme...
Sempre... Nada me cura nem me apraz!
                                Ah qualquer coisa
Que anulasse meu ser e mo deixasse!...
1 211
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

HORA MORTA

Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...

Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...

Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)

Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...

Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há

Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?
1 501
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mais que a existência

Mais que a existência
É um mistério o existir, o ser, o haver
Um ser, uma existência, um existir —
Um qualquer, que não este, por ser este —
Este é o problema que perturba mais.
O que é existir — não nós ou o mundo —
Mas existir em si?
2 687
Inge Müller

Inge Müller

Quem ajuda a mim

Quem ajuda a mim
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol

:

Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht


.
.
.
823
Sousândrade

Sousândrade

Harpa XXXV - Visões

..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!

(...)

Imagem - 00310003


Poema integrante da série Noites.

In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 580
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Reflexão No 1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
1 102
Juan Gelman

Juan Gelman

Limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.

(tradução de Antonio Miranda)

:

Límites

¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?

Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.

1 928
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah que nunca a verdade definida

Ah que nunca a verdade definida
Mate a alma, que vive de não tê-la!

Talvez que nunca, ó negra sperança linda!,
A alma encontre o horror definitivo
Da verdade absoluta, onde se acabe
Que ser, que ter, que procurar.

Cada Deus seja falso e, onde é, supremo;
Sol centro dum sistema de verdades
E sistemas solares de ilusão
No espaço da verdade sem limite
E sem definição — inexistente
Para quanto é o sujeito.
823
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SER: Sou assim a íntima essência

Sou assim a íntima essência
Do suspiro, do lamento
Do profundo pensamento
Que há por nome «Existência».
Mais vago e maior eu sou,
E quem melhor pensa bem;
Eu assim tremendo encontro
O ponto final do Além.

Nada digo e digo tudo
Com meu nome mudo frio;
Causa à alma um arrepio
Meu simbolizar de tudo;
E o pensamento estremece
Dum íntimo horror ingente
Por que além de mim conhece
Que nada há e nada sente.

2 487