Poemas neste tema

Propósito e Sentido da Vida

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Gela-me a ideia de que a morte seja

Gela-me a ideia de que a morte seja
O encontrar o mistério face a face
E conhecê-lo. For mais mal que seja
A vida e o mistério de a viver
E a ignorância em que alma vive a vida,
Pior me relampeja pela alma
A ideia de que enfim tudo será
Sabido e claro — e este mistério imenso,
Que não entendo já, do que é de grande
Para não ser sabido e adivinhado,
Me pesa n'alma, venha a ser sabido
E a realidade em todo o seu horror
Desabe sobre a minha consciência
Condenada ao horror de ser consciente.
Pudesse eu ter por certo que na morte
Me acabaria, me faria nada
E eu avançara para a morte, pávido,
Mas firme do seu nada.

Mas para este mistério do universo
Que solução de realidade outra
Que uma realidade enfim real
E terrível de real, e pavorosa
De ter de ser com consciência suportada?
1 192
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

41 - TO ONE SINGING

O voice the angels kissed when unbreathed yet!
O lips made spiritual with uttering it!
O eyes wild with the lust of the divine
In thy felt presence, making thee its shrine!
O that this moment of thee were Thyself!
That thou ne’er fell'st from this Thou, and the pelf
Of gathered days with avarice of living,
Touched thee not from this moment of God's giving!
O eternal actuality of thee!
O by thy voice sculptured immutably
In some stone‑flesh of spirit! O set free
From being all contained in being seen!
O firmament of joy purely serene
With spaciousness of soul and stars of song
Above thyself, God's human heights among!

Sing on, and let thy singing be a couch
To that of me which to my soul doth vouch
Of God as of a self and of a home!
Dissolve me to thy notes! Make me become
An outside of myself, and have in me
Nought but a selfless sense of hearing thee!
Let me pertain to the sounds thou dost voice!
Let me be other than I and rejoice
Hearing time like a breeze pass by the place
Thy song imprisons in its halcyon grace!

Thy voice compels to parapets from heaven
Dim winged happinesses whence is woven
To our souls such a glamour, spirit‑fair,
That, feeling it, all life becomes despair
And all the sense of life to wish to die.
Sing on! Between the music's human cry
And thy song's meaning there is interposed
Some third reality, less life‑enclosed,
Some subtler tenderness than music makes
Or words sung, and its moonless moonlight takes
Our visionary moods by their child‑hand
And our tired steps begin to understand.

Sing, nor stop singing till bliss ache too much!
O that I could, without moving my hand,
Stretch forth some hand imaginary and touch
That body of thine thy singing giveth thee!
That kiss‑like touch would wake eternity
In me again, and, as by a great morn,
The night my body makes of me were torn
Away from being, and my unbodied shape
Would, like a ship doubling the final cape,
Come to that sight of port and shiver of coming
That God allows to those whose bliss of roaming
Is no more than the wish to find His peace
And mingle with it as a scent with the breeze.
1 397
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O horror de me sentir viver,

O horror de me sentir viver,
De me sentir um sonho ante outros sonhos...
Horroroso sonhar, o horror de ver-me
Mais que ignorante do que é isto tudo.
1 445
Ruy Belo

Ruy Belo

Homem para Deus

Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
Se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra
temei não partam dele as grandes negações
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
E no seu coração que todo o homem ri e sofre
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há-de implicar
embora diminuta uma qualquer consequência
O que deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes

Oh que difícil não é criar um homem para deus



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 20 | Editorial Presença Lda., 1984
1 545
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ARETHUSA

Still Arethusa keeps her course,
For, though the corporal dark of earth
Stifle, like an unconscious nurse,
The impulse for her second birth,
Yet her true will must ever be
These captive waves that shall be free.

So the forgotten water ever
With withdrawn life and hid emotion
Moves on in darkness, still a river,
Towards a sun upon an ocean;
And the found place there will not cease
To be the river's, not the sea's.

So keeps she, under the void dark
Of her oppressed seclusion still
Her careful self, whose soul shall work
Towards the outlet from the hill,
Past hived vaults and humid walls
And her dropped noise of waterfalls.
Uncaught throughout the spell of caves,
Forlorn under the mother stone,
Still the great destined river craves
Its purpose, liquid and alone,
And more, yet less, under the hills
Its unresisting motion wills.

And ever, while time frets the rocks
And space shuts dark the godless flow,
She runs, a will in waves that flocks
Around a darkness for a glow;
And onward still, because it is
What shall be, and the Gods are this.

And, still remembering to forget,
Still onward because Fate inclines,
Veiled Arethusa still doth wet
With purpose the weird cavern shrines,
Where, past their blind, dead, solid being,
Her watery will moves on to seeing.

Dim under phosphorescent zones
Of darkness wronged and stalactites,
Or complete darkness, where the moans
Of waters wail for destined sights,
Her course, that knows no day, doth still
Work out to day its nightly will.

Till, bright at last in the aired arms
Of the lone rocks laid in the sea,
Bare Arethusa free her charms
To light and to its panic glee,
And the sea clasp her, as she were
Venus there born and mistress there.
1 548
Debora Bottcher

Debora Bottcher

Momentos

Quase a Vida me foge dos sentidos quando te vejo.
O chão parece estar longe
E meus ouvidos ouvem música.
Constante... calma... suave...
Tudo, de repente, parece colorido à volta.
A percepção do importante se perde
Tanto se agiganta minha emoção.
E é nestes momentos
Quando a Vida me foge dos sentidos,
Que percebo quanto sentido tem a Vida.

914
Ruy Belo

Ruy Belo

Meditação magoada

Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.

Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.

Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.

Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
972
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do not think of me. Love me.

Do not think of me. Love me.
That shall somehow suffice.
……
……

Let us be purposeless
Sedately and for a task.
We can be nothing this
Dashes not with the mask
Of being anything...
Be we eer on the wing...

And towards nowhere flying,
Maybe we shall obtain
A thought of what our dying
May steal from life and pain...
1 229
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fazes renda de manhã

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão.
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?
2 423
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Significados

Comprava dicionários para compreender-me
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
1 107
João Marcio Furtado Costa

João Marcio Furtado Costa

Num Segundo, O Milênio

Num Segundo, O Milênio

(05/93)

Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?

736
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Ver o Nada

Estou limpando os filtros da percepção, olhando o nada:
– o mar batendo nas pedras
– essas andorinhas girando em alegres círculos
catando insetos no ar.
Estou na janela deste hotel há várias horas
vendo
esse estupendo Sol se pondo sobre o nada.
Sou tudo
o mar, a pedra, o pássaro, o Sol
um coração pequeno qual inseto
pulsando secretamente na janela
que me alberga no universo.
1 144
Natália Correia

Natália Correia

O Livro dos Amantes I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

2 135
Natália Correia

Natália Correia

Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

2 933
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Batismo No Jordão

Numa tarde banhei-me no rio Jordão.
Para quem vinha dos açudes de Minas
podeis imaginar minha santa satisfação.
Eu nadava. Nadava submergia nadava
e olhava atentamente o céu.
No entanto,
nenhuma pomba
nenhuma voz paterna
dizia ser eu um escolhido
embora me aguardasse em algum lugar
a inevitável crucificação.
1 143
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nasceu Para Ser Centelha

Nasceu para ser centelha
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
1 103
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE CLOWN

Through this mad mind relentless vaults
A grim ides weird and wild
With a meaning wilder than human fears
A clown in grotesque somersaults;
And I weep at him as a child
        In a man's hard tears.

There is no roof, there is no floor;
Horror! no space is known in all!
‑ Relentlessly I see he vaults! ‑
There is the clown and nothing more,
Who ceaselessly doth rise and fall ‑
The clown in grotesque somersaults.

Relentless, how relentlessly
In me, who seek what means each thing,
This spaceless vision neatly vaults!
My legs to vault almost forget me.
What awful meaning can this bring
        The clown in grotesque somersaults.
1 657
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Montanhas, solidões, objectos todos,

Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, cousas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
                                  A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.

No mais simples dos factos é que existe
O horror maior: nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
1 318
Charles Bukowski

Charles Bukowski

86'd

o que mais compromete o trabalho
é
tentar fazê-lo
sob uma bandeira
santificada.
a semelhança das intenções
com as dos outros
distingue o idiota
do descobridor

você pode aprender isso em
qualquer
sinuca de esquina, jóquei, bar,
universidade ou
cadeia.

as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d'água.

é bem desanimador saber que
milhões de pessoas estão preocupadas com
a bomba de hidrogênio
embora
já estejam
mortas.

mesmo assim continuam querendo
mulheres
dinheiro
fazer sentido.

e finalmente o Grande Bartender se inclina pra você
branco e puro e forte e místico
e diz que pra você já
basta
logo quando você acha
que está justamente
começando.
1 021
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

BLIND EAGLE

What is thy name? and is it true that thou
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?

Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.

Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?

What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
1 636
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Ao cair da noite

No banco do jardim, como numa sala de espera,
pergunta se alguém virá para a buscar, antes
que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
abro o caderno para lhe escrever: «Um dia
saberás o que disseram todas as cartas
que não abriste; e perante o vazio a que
a tua vida se resume, responderás que
pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito.»
Depois, vou ao correio. «Esqueceu-se
de pôr a morada», diz-me o empregado.
«Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
E meto na caixa o envelope em branco
para que alguém, um dia, o descubra num
fundo de posta restante. E ao ler o que
lhe escrevi, talvez se sente num banco
de jardim, pouco antes da noite, pensando
no que é a vida em que todo o futuro se
fixa nesse instante que não chegou a ser.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 87 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 652
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Abertura

Abrem-se os espaços calmos
abrem-se clareiras para estar indefinidamente num repouso fresco.
Que inexplicável confiança
removeu os últimos obstáculos!
As orientações são outras e são todas para o Único.
Abertura como uma avalancha de tranquilidade.
A altitude enche o peito de uma leveza vasta.
Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.
Já nada me falta vibro à beira do incompreendido.
O que procurei explode em evidências que me inundam.
Nada mais sou do que uma vibração unânime.
O ignorado habita o elementar sem impaciência.
Algo se completa a cada momento algo principia.
Ideias como brisas inteligência de horizonte.
Um soterrado corpo despertou e dilata-se luminoso.
Sem palavras respiro o gérmen que dá magnanimamente.
Sublime e simples é o lugar onde a luz domina.
Que presenças nas imagens que estremecem na brancura!
Modelado pelo imponderável o alento purifica-se
e une-se à inalterável continuidade do ser.
Longínquas reminiscências cristalizam no ar
e são gestos do ar e de um prodígio suave.
Como que do fundo da pedra me liberto e sou o espaço
que diz na vasta luz o sim do universo.
1 094
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Separa E o Que Une

O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.

É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.

Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.

Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.

Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
558
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Moradia

Talvez serenamente a moradia contínua
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
1 105