Poemas neste tema
Política e Poder
Adélia Prado
O Ditador Na Prisão
O ditador escreve poesia.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal florescem os beijinhos
e as abelhas rodeiam-nos afainosas,
tornando o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e uma boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro.
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério, avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal florescem os beijinhos
e as abelhas rodeiam-nos afainosas,
tornando o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e uma boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro.
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério, avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.
2 234
Claudio Willer
Sobre os 40 Anos da Morte de García Lorca (1936-1976)
Eu vi pouca coisa nos jornais & revistas sobre os 40 anos
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
1 163
Claudio Willer
As Palavras da Tribo
poema coletivo em parceria com Roberto Piva,
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 333
Eudoro Augusto
Final de Século
A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 075
Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Tirado do Jornal El Espectador, Bogotá, 27.3.94
Cuando el Che Guevara dejó Cuba
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
1 007
Eudoro Augusto
Suma Biológica de Cacá de Aquino
Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 158
Pablo Neruda
I - Nestes Anos
Agora
nestes anos
depois do meio século,
um silêncio medroso
do Ocidente
treme, encolhido.
Outra vez, outra vez a guerra,
talvez a guerra.
O mapa frio
cruzado por ciprestes,
por sombras verticais,
a noite atravessada
por punhal ou relâmpago.
É assim a ameaça
sobre o teto e o pão.
Silêncio
de árvore com folhas negras,
a sombra
cobre a Grécia.
Outra vez água amarga
sobre a idade radiante
das estátuas cegas.
Que acontece?
Onde estamos?
Faz já tempo um rei e uma rainha
foram pré-fabricados,
“made in England”
Logo é a história
deste tempo terrível,
os cruéis oficiais
ressuscitados
da ópera sangrenta,
os norte-americanos que administram
a rosa
de Praxiteles
arrasando
com isto e com aquilo.
Quem o tivera pensado,
quem
se atrevera
a pensar que as pedras
mais puras,
cortadas com o fio da aurora,
iam ser maculadas,
que a Grécia ia cair
numa fossa negra
de Chicago.
Quem o diria
senão os astros gregos,
as linhas
da trágica musa
do tempo mais antigo,
e assim foi sucedendo.
As abelhas
zumbem
elaborando
mel com sangue,
luz de martírio,
alvéolos
de arquitetura ultrajada.
1 112
Fernando Correia Pina
Fado da Serafina
Por trás ou pela frente, é indiferente.
Na boca ou entre as mamas, é trabalho
e a quem disser que gozo doidamente
o foda eternamente um bom caralho.
O leite que bebi azedou todo,
a carne que comi não soube a nada
e é sempre a mesma coisa quando fodo,
a ensossa fast-foda requentada.
Envelhecida, triste e sifilítica,
do bar de luxo fui para o passeio
e do passeio passei à beira-estrada
e hoje a cona me ralha apocalíptica -
pega por pega, antes foras política,
puta por puta, mil vezes deputada.
Na boca ou entre as mamas, é trabalho
e a quem disser que gozo doidamente
o foda eternamente um bom caralho.
O leite que bebi azedou todo,
a carne que comi não soube a nada
e é sempre a mesma coisa quando fodo,
a ensossa fast-foda requentada.
Envelhecida, triste e sifilítica,
do bar de luxo fui para o passeio
e do passeio passei à beira-estrada
e hoje a cona me ralha apocalíptica -
pega por pega, antes foras política,
puta por puta, mil vezes deputada.
1 552
Pablo Neruda
Ii - Jovens Alemães
Como um ramo vermelho
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
1 209
Pablo Neruda
Iii - a Cidade Ferida
Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.
E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.
Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.
E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.
Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
961
Pablo Neruda
Aqui Vem Nazim Hikmet
Nazim, das prisões
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
1 457
Pablo Neruda
Desde Dobris a Aurora
Em dobris, junto a Praga,
conversando com
Jorge Amado,
meu companheiro de anos e de lutas:
De onde
vens agora?
Eu, dos largos rios
da Guatemala e México,
do fulgor verde
do rio Doce, adentro.
Levava
fogo de aves selvagens,
orvalho
de foz.
Contei-lhe meus caminhos.
Ele regressava
da Bulgária, trazia
luz de roseiras vermelhas
no peito,
e contou-me as coisas,
os homens, as empresas,
o socialismo em marcha
naquela
terra eriçada, agora construtora.
Era tarde, as brasas
ardiam
na lareira de pedra.
Fora
o vento removia sussurrando
as folhas das faias.
Juntos peregrinamos,
perseguidos,
e eis que aqui a paz
nos reunia.
Tínhamos
pão,
luz,
fogo,
terra,
castelo.
Não eram só nossos,
eram de todos.
Não queríamos
falar. O vento
falava por nós.
Estendia-se
no bosque,
voava
com as folhas desprendidas.
O vento
ia ensinando,
cantando
o que nós éramos,
éramos e tínhamos.
A claridade terrestre
nos rodeava.
Solene era o silêncio.
Longos haviam sido os caminhos.
E a aurora batia as janelas
de novo
para ir conosco pelo mundo.
conversando com
Jorge Amado,
meu companheiro de anos e de lutas:
De onde
vens agora?
Eu, dos largos rios
da Guatemala e México,
do fulgor verde
do rio Doce, adentro.
Levava
fogo de aves selvagens,
orvalho
de foz.
Contei-lhe meus caminhos.
Ele regressava
da Bulgária, trazia
luz de roseiras vermelhas
no peito,
e contou-me as coisas,
os homens, as empresas,
o socialismo em marcha
naquela
terra eriçada, agora construtora.
Era tarde, as brasas
ardiam
na lareira de pedra.
Fora
o vento removia sussurrando
as folhas das faias.
Juntos peregrinamos,
perseguidos,
e eis que aqui a paz
nos reunia.
Tínhamos
pão,
luz,
fogo,
terra,
castelo.
Não eram só nossos,
eram de todos.
Não queríamos
falar. O vento
falava por nós.
Estendia-se
no bosque,
voava
com as folhas desprendidas.
O vento
ia ensinando,
cantando
o que nós éramos,
éramos e tínhamos.
A claridade terrestre
nos rodeava.
Solene era o silêncio.
Longos haviam sido os caminhos.
E a aurora batia as janelas
de novo
para ir conosco pelo mundo.
1 138
Pablo Neruda
Iii - a Polícia
Nós somos
da polícia.
— E você? Quem é?
Donde vem, aonde
pretende dirigir-se?
Seu pai? Seu cunhado?
Com quem dormiu as sete noites últimas?
— Eu dormi com meu amor, eu sou talvez,
talvez, talvez,
sou da Poesia —
E assim uma gôndola
mais negra que as outras
atrás de mim os transportou em Veneza,
em Bolonha, na noite,
no trem: sou uma sombra errante
seguida pela sombras.
Eu vi em Veneza, erguido o Campanile
elevando entre as pombas de São Marcos
seu tricórnio de polícia.
E Paulina, nua, no museu,
quando beijei sua bela boca fria
me disse: Tem em ordem seus papéis?
Na casa de Dante
sob os velhos telhados florentinos
há interrogatórios, e David
com seus olhos de mármore, sem pupilas
se esqueceu de seu pai, Buonarrotti,
porque o compelem diariamente a contar
o que com olhos cegos fitou.
No entanto aquele dia
em que me trasladaram à fronteira suíça
a polícia se deu conta de repente
que lhe saía no encalço
a militante poesia.
Não esquecerei a multidão romana
que na estação, de noite,
arrancou-me das mãos
da perseguidora polícia.
Como esquecer o gesto guerrilheiro
de Guttuso e o rosto de Giuliano,
a onda de ira, o soco nos narizes
dos sabujos, como esquecer Mário,
de quem no exílio
aprendi a amar a liberdade da Itália,
e agora irada sua cabeça branca
divisei confundindo-se
no mar agitado
de meus amigos e de meus inimigos?
Não esquecerei o pequeno
guarda-chuva de Elsa Morante
caindo sobre um peito policial
como a pesada pétala
de uma força florida.
E assim na Itália
por vontade do povo,
peso de poesia,
firmeza solidária,
ação da ternura
ficou meu destino.
E assim foi como
foi este livro nascendo
rodeado de mar e limoeiros,
escutando em silêncio,
detrás do muro da polícia,
como lutava e luta,
como cantava e canta
o valoroso povo
que ganhou uma batalha para que eu pudesse
descansar na ilha que me esperava
com um ramo em flor de jasmim na sua boca
e em suas pequenas mãos a fonte de meu canto.
da polícia.
— E você? Quem é?
Donde vem, aonde
pretende dirigir-se?
Seu pai? Seu cunhado?
Com quem dormiu as sete noites últimas?
— Eu dormi com meu amor, eu sou talvez,
talvez, talvez,
sou da Poesia —
E assim uma gôndola
mais negra que as outras
atrás de mim os transportou em Veneza,
em Bolonha, na noite,
no trem: sou uma sombra errante
seguida pela sombras.
Eu vi em Veneza, erguido o Campanile
elevando entre as pombas de São Marcos
seu tricórnio de polícia.
E Paulina, nua, no museu,
quando beijei sua bela boca fria
me disse: Tem em ordem seus papéis?
Na casa de Dante
sob os velhos telhados florentinos
há interrogatórios, e David
com seus olhos de mármore, sem pupilas
se esqueceu de seu pai, Buonarrotti,
porque o compelem diariamente a contar
o que com olhos cegos fitou.
No entanto aquele dia
em que me trasladaram à fronteira suíça
a polícia se deu conta de repente
que lhe saía no encalço
a militante poesia.
Não esquecerei a multidão romana
que na estação, de noite,
arrancou-me das mãos
da perseguidora polícia.
Como esquecer o gesto guerrilheiro
de Guttuso e o rosto de Giuliano,
a onda de ira, o soco nos narizes
dos sabujos, como esquecer Mário,
de quem no exílio
aprendi a amar a liberdade da Itália,
e agora irada sua cabeça branca
divisei confundindo-se
no mar agitado
de meus amigos e de meus inimigos?
Não esquecerei o pequeno
guarda-chuva de Elsa Morante
caindo sobre um peito policial
como a pesada pétala
de uma força florida.
E assim na Itália
por vontade do povo,
peso de poesia,
firmeza solidária,
ação da ternura
ficou meu destino.
E assim foi como
foi este livro nascendo
rodeado de mar e limoeiros,
escutando em silêncio,
detrás do muro da polícia,
como lutava e luta,
como cantava e canta
o valoroso povo
que ganhou uma batalha para que eu pudesse
descansar na ilha que me esperava
com um ramo em flor de jasmim na sua boca
e em suas pequenas mãos a fonte de meu canto.
1 223
Pablo Neruda
Iv - o Anjo Soviétivo
Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.
Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.
Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.
E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.
Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.
Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.
E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
1 032
Pablo Neruda
I - Meu Amigo Das Ruas
Pelas ruas de Praga no inverno diariamente
passei junto aos muros da casa de pedra
em que foi torturado Julius Fucik.
A casa não diz nada, pedra cor de inverno,
barras de ferro, janelas surdas.
Mas diariamente passei por ali,
olhei, toquei os muros, busquei o eco,
a palavra, a voz, a pisada pura
do herói.
E assim saiu seu semblante
uma vez, e suas mãos outra tarde,
e logo todo o homem foi acompanhando-me,
foi acompanhando-me,
através da praça Wencelas, um bom amigo,
comigo pelo velho mercado de Havelska,
pelo jardim de Starhov, de onde
Praga se eleva como uma rosa cinzenta.
passei junto aos muros da casa de pedra
em que foi torturado Julius Fucik.
A casa não diz nada, pedra cor de inverno,
barras de ferro, janelas surdas.
Mas diariamente passei por ali,
olhei, toquei os muros, busquei o eco,
a palavra, a voz, a pisada pura
do herói.
E assim saiu seu semblante
uma vez, e suas mãos outra tarde,
e logo todo o homem foi acompanhando-me,
foi acompanhando-me,
através da praça Wencelas, um bom amigo,
comigo pelo velho mercado de Havelska,
pelo jardim de Starhov, de onde
Praga se eleva como uma rosa cinzenta.
1 212
Pablo Neruda
Iv - o Dever de Morrer
Mas quando ao relógio chegou a comprida hora
da morte, cumpriste,
cumpriste com a mesma tranquilidade alegre,
cumpriste com o dever de morrer.
Nada se rompe entre tua vida e tua morte:
é uma só linha sem ruptura
aquela que edificaste.
A linha continua viva,
continua reta e crescente
andando, andando sempre,
de dentro da morte tua até outras vidas,
vagando, vagando sempre, acumulando seres,
acumulando seres, existências,
como um grande rio se enche de outros rios,
como na música o som
se enriquece e se eleva,
assim tua voz, tua vida continuam
andando por toda a terra.
Não são herança mas sangue vivo,
não são lembrança mas ação segura,
e és o herói humano,
não o semideus de pedra,
o que saturou sua dimensão de homem
com todo o conteúdo da vida,
não de sua vida somente
mas também de todas,
de todas nossas vidas,
e em ti a liberdade não são duas asas
num escudo, nem uma estátua morta,
mas a firme mão do Partido
que sustenta a tua
e assim da firmeza,
que em ti cresceu de muitas outras vidas,
as novas vidas recolheram
e semearam sementes.
Os homens continuaram,
desde o minuto em que tombou teu rosto,
a luta, e se tingiu nossa bandeira
com o sangue sagrado
de teu coração invencível.
da morte, cumpriste,
cumpriste com a mesma tranquilidade alegre,
cumpriste com o dever de morrer.
Nada se rompe entre tua vida e tua morte:
é uma só linha sem ruptura
aquela que edificaste.
A linha continua viva,
continua reta e crescente
andando, andando sempre,
de dentro da morte tua até outras vidas,
vagando, vagando sempre, acumulando seres,
acumulando seres, existências,
como um grande rio se enche de outros rios,
como na música o som
se enriquece e se eleva,
assim tua voz, tua vida continuam
andando por toda a terra.
Não são herança mas sangue vivo,
não são lembrança mas ação segura,
e és o herói humano,
não o semideus de pedra,
o que saturou sua dimensão de homem
com todo o conteúdo da vida,
não de sua vida somente
mas também de todas,
de todas nossas vidas,
e em ti a liberdade não são duas asas
num escudo, nem uma estátua morta,
mas a firme mão do Partido
que sustenta a tua
e assim da firmeza,
que em ti cresceu de muitas outras vidas,
as novas vidas recolheram
e semearam sementes.
Os homens continuaram,
desde o minuto em que tombou teu rosto,
a luta, e se tingiu nossa bandeira
com o sangue sagrado
de teu coração invencível.
1 204
Pablo Neruda
V - Em Sua Morte
Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra,
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.
Foi primeiro o silêncio, o estupor das coisas, e depois
chegou do mar uma onda grande.
De algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas
estava feita esta onda.
De história, espaço e tempo recolheu sua matéria
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.
Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre
e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava
as metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e
quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.
Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lenin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina ou de oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.
Junto a Lenin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranquilo,
entrou na História acompanhado
de Lenin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lenin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lenin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do Norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as sílabas elétricas
por toda a extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram
de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém o aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.
Ser homens! É esta
a lei staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultam
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
a madureza do homem e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
e atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.
Mas também ajudou às macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.
Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhes a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.
Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei em meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava ã espuma solene do oceano.
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.
Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com os velhos olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.
E ali velamos juntos, um poeta,
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.
Foi primeiro o silêncio, o estupor das coisas, e depois
chegou do mar uma onda grande.
De algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas
estava feita esta onda.
De história, espaço e tempo recolheu sua matéria
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.
Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre
e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava
as metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e
quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.
Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lenin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina ou de oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.
Junto a Lenin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranquilo,
entrou na História acompanhado
de Lenin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lenin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lenin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do Norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as sílabas elétricas
por toda a extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram
de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém o aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.
Ser homens! É esta
a lei staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultam
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
a madureza do homem e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
e atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.
Mas também ajudou às macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.
Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhes a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.
Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei em meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava ã espuma solene do oceano.
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.
Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com os velhos olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.
E ali velamos juntos, um poeta,
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.
1 133
Pablo Neruda
Vi - Estás Em Toda Parte
Estirpe de Fucik, linhagem
de alegres silenciosos,
por toda a terra estendeis
o ferro humano inextinguível.
Coréia, terra amada, provaste
aos bestiais invasores
de Filadélfia que a raça
de Fucik, sobre a cinza,
sobre o incêndio e o martírio,
continua acesa e vence a morte.
Longe, no Paraguai obscuro
e venenosamente verde,
os pequenos encarcerados,
os perseguidos na selva,
ao cair sobre as folhas
ensanguentadas, junto ao rio,
fecham para sempre a mesma
boca sobre-humana de Fucik.
No Irã o petróleo
volta às mãos do povo
escrevendo com letras rubras
teu nome, Júlio de Praga.
E a moça do Vietnam
que com doces mãos de flor
maneja a metralhadora,
em sua bolsa arranhada
pelos espinhos da selva,
leva teu livro em caracteres
que não poderias ler:
o livro que nos últimos dias
os justiçados de Atenas
levam escrito nos nobres rostos
para que os assassinos
descubram de novo tuas palavras
sobre o sangue poeirento.
de alegres silenciosos,
por toda a terra estendeis
o ferro humano inextinguível.
Coréia, terra amada, provaste
aos bestiais invasores
de Filadélfia que a raça
de Fucik, sobre a cinza,
sobre o incêndio e o martírio,
continua acesa e vence a morte.
Longe, no Paraguai obscuro
e venenosamente verde,
os pequenos encarcerados,
os perseguidos na selva,
ao cair sobre as folhas
ensanguentadas, junto ao rio,
fecham para sempre a mesma
boca sobre-humana de Fucik.
No Irã o petróleo
volta às mãos do povo
escrevendo com letras rubras
teu nome, Júlio de Praga.
E a moça do Vietnam
que com doces mãos de flor
maneja a metralhadora,
em sua bolsa arranhada
pelos espinhos da selva,
leva teu livro em caracteres
que não poderias ler:
o livro que nos últimos dias
os justiçados de Atenas
levam escrito nos nobres rostos
para que os assassinos
descubram de novo tuas palavras
sobre o sangue poeirento.
1 141
Pablo Neruda
Ii - Ali Estava Meu Irmão
Ali estive.
Ali vi
não só areia e ar,
não só camelos e metais,
mas o homem,
o remoto
irmão meu,
nascendo agora no meio
da solidão planetária,
diferenciando-se
da natureza,
conhecendo
o mistério
da eletricidade e da vida,
dando a mão ao Este
e ao Oeste,
dando a mão ao céu
e à terra
repartindo,
existindo,
assegurando
o pão e a ternura
entre seus filhos.
Oh territórios duros,
contrafortes lunares,
em vós
ascende
a semente
do tempo socialista
e sobe
da pedra
a flor e a formosura,
a usina que fala ao céu
com palavras de fumo
e com os minerais dominados elabora ferramentas e alegria.
Ali vi
não só areia e ar,
não só camelos e metais,
mas o homem,
o remoto
irmão meu,
nascendo agora no meio
da solidão planetária,
diferenciando-se
da natureza,
conhecendo
o mistério
da eletricidade e da vida,
dando a mão ao Este
e ao Oeste,
dando a mão ao céu
e à terra
repartindo,
existindo,
assegurando
o pão e a ternura
entre seus filhos.
Oh territórios duros,
contrafortes lunares,
em vós
ascende
a semente
do tempo socialista
e sobe
da pedra
a flor e a formosura,
a usina que fala ao céu
com palavras de fumo
e com os minerais dominados elabora ferramentas e alegria.
1 149
Pablo Neruda
II - o Desfile
Diante de Mao Tse-Tung
o povo desfilava.
Não eram aqueles
famintos e descalços
que desceram
as áridas gargantas,
que viveram em covas,
que comeram raízes,
e que quando baixaram
foram vento de aço,
vento de aço de Yennan e o Norte.
Hoje outros homens desfilavam,
sorridentes e seguros,
decididos e alegres,
pisando fortemente a terra libertada
da pátria mais larga.
E assim passou a jovem orgulhosa,
vestida de azul operário, e junto a seu sorriso,
como uma cascata de neve,
quarenta mil bocas têxteis,
as fábricas de seda que marcham e sorriem,
os novos construtores de motores,
os velhos artesãos do marfim,
andando, andando
diante de Mao,
toda reunida a China, grão a grão,
de férreos cereais,
e a seda escarlate palpitando no céu
como as pétalas enfim conjugadas
da rosa terrestre,
e o grande tambor pesava
diante de Mao,
e um trovão escuro
dele subia
saudando-o.
Era a voz antiga
da China, voz de coro,
voz de tempo enterrado,
a velha voz, os séculos
o saudavam.
E então como uma árvore
de flores repentinas
os meninos,
aos milhares,
saudaram, e assim
os novos frutos e a velha terra,
o tempo, o trigo,
as bandeiras do homem por fim reunidas,
ali estavam.
Ali estavam, e Mao sorria
porque lá das alturas
sedentas do Norte
nasceu este rio humano,
porque das cabeças
de moças
cortadas pelos norte-americanos
(ou por Chiang, seu lacaio),
nas praças,
nasceu esta vida enorme.
Porque do ensinamento do Partido,
em pequeninos livros mal impressos,
saiu esta lição para o mundo.
Sorria, pensando
nos ásperos anos
passados,
a terra cheia de estrangeiros, fome
nas humildes choças,
o Yang Tsé mostrando em seu lombo
os répteis de aço
encouraçados
dos imperialistas invasores,
a pátria saqueada
e hoje, agora,
limpa a terra,
a vasta China límpida,
e pisando o seu.
Respirando a pátria
desfilavam os homens
diante de Mao
e com sapatos novos
golpeavam a terra, desfilando,
enquanto o vento nas bandeiras vermelhas
brincava e no alto
Mao Tse-Tung sorria.
o povo desfilava.
Não eram aqueles
famintos e descalços
que desceram
as áridas gargantas,
que viveram em covas,
que comeram raízes,
e que quando baixaram
foram vento de aço,
vento de aço de Yennan e o Norte.
Hoje outros homens desfilavam,
sorridentes e seguros,
decididos e alegres,
pisando fortemente a terra libertada
da pátria mais larga.
E assim passou a jovem orgulhosa,
vestida de azul operário, e junto a seu sorriso,
como uma cascata de neve,
quarenta mil bocas têxteis,
as fábricas de seda que marcham e sorriem,
os novos construtores de motores,
os velhos artesãos do marfim,
andando, andando
diante de Mao,
toda reunida a China, grão a grão,
de férreos cereais,
e a seda escarlate palpitando no céu
como as pétalas enfim conjugadas
da rosa terrestre,
e o grande tambor pesava
diante de Mao,
e um trovão escuro
dele subia
saudando-o.
Era a voz antiga
da China, voz de coro,
voz de tempo enterrado,
a velha voz, os séculos
o saudavam.
E então como uma árvore
de flores repentinas
os meninos,
aos milhares,
saudaram, e assim
os novos frutos e a velha terra,
o tempo, o trigo,
as bandeiras do homem por fim reunidas,
ali estavam.
Ali estavam, e Mao sorria
porque lá das alturas
sedentas do Norte
nasceu este rio humano,
porque das cabeças
de moças
cortadas pelos norte-americanos
(ou por Chiang, seu lacaio),
nas praças,
nasceu esta vida enorme.
Porque do ensinamento do Partido,
em pequeninos livros mal impressos,
saiu esta lição para o mundo.
Sorria, pensando
nos ásperos anos
passados,
a terra cheia de estrangeiros, fome
nas humildes choças,
o Yang Tsé mostrando em seu lombo
os répteis de aço
encouraçados
dos imperialistas invasores,
a pátria saqueada
e hoje, agora,
limpa a terra,
a vasta China límpida,
e pisando o seu.
Respirando a pátria
desfilavam os homens
diante de Mao
e com sapatos novos
golpeavam a terra, desfilando,
enquanto o vento nas bandeiras vermelhas
brincava e no alto
Mao Tse-Tung sorria.
1 152
Pablo Neruda
VI - China
China, por muito tempo nos mostraram tua efígie
pintada especialmente para ocidentais:
eras uma velhinha enrugada,
infinitamente pobre,
com uma tigela vazia de arroz
na porta de um templo.
Entravam e saíam os soldados
de todos os países,
o sangue salpicava as paredes,
te saqueavam como a casa sem dono,
e davas ao mundo um aroma estranho,
mescla de chá e cinza,
enquanto na porta do templo com teu prato
vazio, nos fitavas com teu olhar antigo.
Em Buenos Aires se vendia teu retrato
feito especialmente para senhoras cultas,
e nas conferências tuas sílabas mágicas
surgiam de repente como luz enterrada.
Todos sabiam algo das dinastias
e ao dizer Ming ou Celadom franziam os lábios
como se comessem um morango,
e assim querias que para nós fosses
uma terra sem homens, uma pátria
onde o vento entrava pelos templos vazios
e saía cantando, só, pelas montanhas.
Queriam que acreditássemos
que dormias,
que dormirias com um sonho eterno,
que eras a “misteriosa”,
intraduzível, estranha,
uma mãe mendiga com farrapos de seda,
enquanto isso de cada um de teus portos
se afastavam os barcos carregados de tesouros
e os aventureiros entre si disputavam
tua herança: minerais
e marfins, planejando,
depois de sangrar-te, como levariam
um bom barco carregado com teus ossos.
pintada especialmente para ocidentais:
eras uma velhinha enrugada,
infinitamente pobre,
com uma tigela vazia de arroz
na porta de um templo.
Entravam e saíam os soldados
de todos os países,
o sangue salpicava as paredes,
te saqueavam como a casa sem dono,
e davas ao mundo um aroma estranho,
mescla de chá e cinza,
enquanto na porta do templo com teu prato
vazio, nos fitavas com teu olhar antigo.
Em Buenos Aires se vendia teu retrato
feito especialmente para senhoras cultas,
e nas conferências tuas sílabas mágicas
surgiam de repente como luz enterrada.
Todos sabiam algo das dinastias
e ao dizer Ming ou Celadom franziam os lábios
como se comessem um morango,
e assim querias que para nós fosses
uma terra sem homens, uma pátria
onde o vento entrava pelos templos vazios
e saía cantando, só, pelas montanhas.
Queriam que acreditássemos
que dormias,
que dormirias com um sonho eterno,
que eras a “misteriosa”,
intraduzível, estranha,
uma mãe mendiga com farrapos de seda,
enquanto isso de cada um de teus portos
se afastavam os barcos carregados de tesouros
e os aventureiros entre si disputavam
tua herança: minerais
e marfins, planejando,
depois de sangrar-te, como levariam
um bom barco carregado com teus ossos.
1 093
Pablo Neruda
IV - Tudo É Tão Simples
De manhã na aldeia
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!
Vem comigo à aldeia!
Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.
Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!
Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.
Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.
Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.
Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!
Vem comigo à aldeia!
Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.
Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!
Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.
Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.
Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.
Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
1 232
Pablo Neruda
III - Dando Uma Medalha À Madame Sun Yat Sem
À MADAME SUN YAT SEN
Esta medalha que Ehrenburg te deixou no peito
é uma espiga de ouro da colheita do grande país da
paz, da União Soviética.
Teu peito é digno desta espiga de ouro, Sung Sin Ling.
Nós te conhecemos daqueles tempos em que a China
despertou,
e logo quando a China foi traída e martirizada,
uma vez mais pelos seus velhos inimigos,
e desde o primeiro dia te vemos quando a China
foi libertada na primeira fila, na vanguarda com os libertadores
Assim te vemos, querida amiga, ao chegar ao aeroporto:
pareceste-nos mais jovem de quanto pensamos e mais simples,
como teu povo que sofreu e combateu tanto
e que, na vitória, sorri e saúda todos os povos do mundo.
Nós, os homens da Latino-América, conhecemos
vossos inimigos.
Nosso continente tem toda a riqueza, o petróleo,
o cobre, o açúcar, o nitrato, o estanho,
mas tudo isto pertence a nossos inimigos, aos mesmos
que expulsastes para sempre.
Enquanto nossa gente dos campos e aldeias não tem
sapatos nem cultura,
eles levantaram, com o produto do saque, casas
de cinquenta andares em Nova York
e com nossas riquezas fabricaram as armas para
escravizar outros povos.
Por isso a vitória do povo chinês é nossa vitória.
Por isso a nova China é amada e respeitada
por todos os povos.
Uns quantos diplomatas em São Francisco e em Washington
não querem “reconhecer” a China Popular. Estes
senhores não sabem que existe.
Poderiam também não “reconhecer” a Terra e apesar
disso esta se move,
e se move para adiante, não para trás, como eles
quiseram.
Os senhores de São Francisco não “reconhecem”
à nova China,
mas poderiam fazer eles uma encosta ao longo da América
e se perguntassem a milhões de mineiros, de
camponeses, ao professor e ao poeta, ao velho e ao jovem,
desde o Alaska até o Pólo Sul, teriam a resposta:
“Reconhecemos e amamos Mao Tse-Tung. É nosso
grande irmão”.
Por isso, querida amiga da paz, Sung Sin Ling,
esta espiga de ouro que lá da generosa terra de Stalin
chegou a teu peito de mulher grande e simples,
não chegou ali por casualidade ou capricho,
mas porque te amamos
e amamos a paz que defendes não só para teu povo,
mas para que todos os povos
se reconheçam e possam construir sua vida livremente.
Esta medalha que Ehrenburg te deixou no peito
é uma espiga de ouro da colheita do grande país da
paz, da União Soviética.
Teu peito é digno desta espiga de ouro, Sung Sin Ling.
Nós te conhecemos daqueles tempos em que a China
despertou,
e logo quando a China foi traída e martirizada,
uma vez mais pelos seus velhos inimigos,
e desde o primeiro dia te vemos quando a China
foi libertada na primeira fila, na vanguarda com os libertadores
Assim te vemos, querida amiga, ao chegar ao aeroporto:
pareceste-nos mais jovem de quanto pensamos e mais simples,
como teu povo que sofreu e combateu tanto
e que, na vitória, sorri e saúda todos os povos do mundo.
Nós, os homens da Latino-América, conhecemos
vossos inimigos.
Nosso continente tem toda a riqueza, o petróleo,
o cobre, o açúcar, o nitrato, o estanho,
mas tudo isto pertence a nossos inimigos, aos mesmos
que expulsastes para sempre.
Enquanto nossa gente dos campos e aldeias não tem
sapatos nem cultura,
eles levantaram, com o produto do saque, casas
de cinquenta andares em Nova York
e com nossas riquezas fabricaram as armas para
escravizar outros povos.
Por isso a vitória do povo chinês é nossa vitória.
Por isso a nova China é amada e respeitada
por todos os povos.
Uns quantos diplomatas em São Francisco e em Washington
não querem “reconhecer” a China Popular. Estes
senhores não sabem que existe.
Poderiam também não “reconhecer” a Terra e apesar
disso esta se move,
e se move para adiante, não para trás, como eles
quiseram.
Os senhores de São Francisco não “reconhecem”
à nova China,
mas poderiam fazer eles uma encosta ao longo da América
e se perguntassem a milhões de mineiros, de
camponeses, ao professor e ao poeta, ao velho e ao jovem,
desde o Alaska até o Pólo Sul, teriam a resposta:
“Reconhecemos e amamos Mao Tse-Tung. É nosso
grande irmão”.
Por isso, querida amiga da paz, Sung Sin Ling,
esta espiga de ouro que lá da generosa terra de Stalin
chegou a teu peito de mulher grande e simples,
não chegou ali por casualidade ou capricho,
mas porque te amamos
e amamos a paz que defendes não só para teu povo,
mas para que todos os povos
se reconheçam e possam construir sua vida livremente.
1 007
Pablo Neruda
VII - a Grande Marcha
Mas ocorria algo no mundo.
Teu retrato não nos satisfazia.
Era formosa tua pobre majestade,
mas não nos bastava.
A bandeira soviética ondulava
beijada pela pólvora
entre os corações dos homens.
Tu, China, nos faltavas, e através dos mares
ouvimos de repente que a voz do vento
já não cantava só por teus largos caminhos.
Incorpora-se Mao
e ao longo da China
e ao longo
de tantos sofrimentos,
vimos subir seus ombros
envoltos pela aurora.
De longe, da América, a cuja margem
meu povo escuta cada onda do mar,
vimos surgir sua tranqüila cabeça,
e seus sapatos dirigirem-se rumo ao Norte.
Para Yennan com poeirento traje
se encaminha seu grave movimento:
e vimos desde então que as nuas terras
da China lhe entregavam homens,
pequenos homens, enrugados velhos,
sorrisos infantis.
Vimos a vida.
Não estava só o velho território.
Não era a lua de água
enchendo a espectral arqueologia.
De cada pedra um homem,
um novo coração com um fuzil,
e te vimos povoada, China, pelos teus soldados,
pelos teus, enfim, comendo pasto,
sem pão, sem água, andando o comprido dia
para que a aurora pudesse nascer.
Teu retrato não nos satisfazia.
Era formosa tua pobre majestade,
mas não nos bastava.
A bandeira soviética ondulava
beijada pela pólvora
entre os corações dos homens.
Tu, China, nos faltavas, e através dos mares
ouvimos de repente que a voz do vento
já não cantava só por teus largos caminhos.
Incorpora-se Mao
e ao longo da China
e ao longo
de tantos sofrimentos,
vimos subir seus ombros
envoltos pela aurora.
De longe, da América, a cuja margem
meu povo escuta cada onda do mar,
vimos surgir sua tranqüila cabeça,
e seus sapatos dirigirem-se rumo ao Norte.
Para Yennan com poeirento traje
se encaminha seu grave movimento:
e vimos desde então que as nuas terras
da China lhe entregavam homens,
pequenos homens, enrugados velhos,
sorrisos infantis.
Vimos a vida.
Não estava só o velho território.
Não era a lua de água
enchendo a espectral arqueologia.
De cada pedra um homem,
um novo coração com um fuzil,
e te vimos povoada, China, pelos teus soldados,
pelos teus, enfim, comendo pasto,
sem pão, sem água, andando o comprido dia
para que a aurora pudesse nascer.
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