Poemas
Perdão e Reconciliação
Poemas neste tema
José Angel Buesa
Poema do regresso
Venho do fundo escuro de uma noite implacável,
e contemplo os astros com um gesto de assombro.
Ao chegar à tua porta me confesso culpável,
e uma pomba branca se me pousa no ombro
Meu coração humilde se detém em tua porta,
com a mão estendida como um velho mendigo;
e teu cachorro me late de alegria na horta,
porque, apesar de tudo segue sendo meu amigo.
Ao fim cresceu o roseiral aquele que não crescia
e agora oferece suas rosas atrás da grade de ferro;
Eu também hei mudado muito desde aquele dia,
pois não tem estrelas as noites do exílio.
Talvez tua alma está aberta atrás da porta fechada;
porém ao abrir tua porta, como se abre a um mendigo,
olha-me docemente, sem perguntar-me nada,
e saberás que não hei voltado... porque estava contigo.
e contemplo os astros com um gesto de assombro.
Ao chegar à tua porta me confesso culpável,
e uma pomba branca se me pousa no ombro
Meu coração humilde se detém em tua porta,
com a mão estendida como um velho mendigo;
e teu cachorro me late de alegria na horta,
porque, apesar de tudo segue sendo meu amigo.
Ao fim cresceu o roseiral aquele que não crescia
e agora oferece suas rosas atrás da grade de ferro;
Eu também hei mudado muito desde aquele dia,
pois não tem estrelas as noites do exílio.
Talvez tua alma está aberta atrás da porta fechada;
porém ao abrir tua porta, como se abre a um mendigo,
olha-me docemente, sem perguntar-me nada,
e saberás que não hei voltado... porque estava contigo.
1 380
Mario Ribeiro Martins
O Triste
Ei-la, tristonha, como nunca esteve:
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
857
Renato Rezende
[Re-Nato]
O poder da respiração—entrando e saindo do corpo
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
975
Gláucia Lemos
Poema dos Olhos
Pões em mim os teus olhos.
Carregados de uma busca indefinida
envolvidos em uma dor que me é palpável
tão sutil no olhar
no sentir tão denso.
Pões em mim os teus olhos.
E só há trevas. E a luz se foi.
Estranho essa agonia
que te arrebata e se expõe
mas os lábios não murmuram.
Há um pedido sem voz soluçando em teu silêncio.
Na garganta te travam
a culpa e o remorso
e te espumam no sangue
e em teus olhos te traem.
Amargura de mater dolorosa
sangra no teu olhar num só pedido.
Desço. Não sei se creio.
Vacilo e desço.
Em tua dor ponho afinal meus olhos
e te perdôo.
03.06.96
Carregados de uma busca indefinida
envolvidos em uma dor que me é palpável
tão sutil no olhar
no sentir tão denso.
Pões em mim os teus olhos.
E só há trevas. E a luz se foi.
Estranho essa agonia
que te arrebata e se expõe
mas os lábios não murmuram.
Há um pedido sem voz soluçando em teu silêncio.
Na garganta te travam
a culpa e o remorso
e te espumam no sangue
e em teus olhos te traem.
Amargura de mater dolorosa
sangra no teu olhar num só pedido.
Desço. Não sei se creio.
Vacilo e desço.
Em tua dor ponho afinal meus olhos
e te perdôo.
03.06.96
1 272
Raimundo Bento Sotero
Além do mal
Não levo em conta o mal que me fizeste,
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
1 060
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
1 618
Renata Pallottini
Quando os Céus se Cerrarem
"ouve tu então nos céus e perdoa
o pecado do teu povo Israel
e torna a levá-lo à terra
que tens dado a seus pais.
I Reis, 8:34
Quando os céus se cerrarem, não por seca,
mas por extrema dor, sobre o teu povo,
que pecou contra ti e ainda peca
e pecará, o mísero, de novo,
e houver fome na terra, não de trigo
ou de carne, mas fome de ternura,
para estancar a fúria do inimigo
e a sua enorme e súbita loucura,
ouve do céu, Senhor, ouve e perdoa:
a gente que ontem fez a tua casa
e a fez grandiosa, e a fez dourada e boa
hoje, expulsa do Anjo e de sua asa,
entrepara e pergunta, se esqueceste:
para que herança, ó Deus, nos elegeste?
o pecado do teu povo Israel
e torna a levá-lo à terra
que tens dado a seus pais.
I Reis, 8:34
Quando os céus se cerrarem, não por seca,
mas por extrema dor, sobre o teu povo,
que pecou contra ti e ainda peca
e pecará, o mísero, de novo,
e houver fome na terra, não de trigo
ou de carne, mas fome de ternura,
para estancar a fúria do inimigo
e a sua enorme e súbita loucura,
ouve do céu, Senhor, ouve e perdoa:
a gente que ontem fez a tua casa
e a fez grandiosa, e a fez dourada e boa
hoje, expulsa do Anjo e de sua asa,
entrepara e pergunta, se esqueceste:
para que herança, ó Deus, nos elegeste?
1 474
Roberto Pontes
Epitáfio
Aqui jaz o amor um dia dito
só de beijos e flores viveria.
E não morreu por falta de sustento,
ardor e sonho, pois estes vivem sempre
ao jugo seco da crua existência.
Deixou de haver o sopro simples,
o desejo de ser o conivente,
o comparsa do outro na paixão
que a vida faz ruir devagarinho.
Quem esta morte de bom grado aceita
quer deixar escrito na memória,
na verdade indestrutível de um poema,
o seu perdão, o seu adeus,
o seu soturno desamparo ausente.
só de beijos e flores viveria.
E não morreu por falta de sustento,
ardor e sonho, pois estes vivem sempre
ao jugo seco da crua existência.
Deixou de haver o sopro simples,
o desejo de ser o conivente,
o comparsa do outro na paixão
que a vida faz ruir devagarinho.
Quem esta morte de bom grado aceita
quer deixar escrito na memória,
na verdade indestrutível de um poema,
o seu perdão, o seu adeus,
o seu soturno desamparo ausente.
1 260
Sophia de Mello Breyner Andresen
Oásis
Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu — o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra
Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu — o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra
Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira
2 076
Renato Russo
Vinte e Nove
Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
( Já que você não me quer mais )
Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão
( E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez )
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
( Já que você não me quer mais )
Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão
( E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez )
1 235
Ana Cristina Cesar
Deus na Antecâmera
Mereço(merecemos,
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
1 651
Florbela Espanca
Desafio
Ela
“Ó luar que lindo és,
Luar branco de janeiro!
Não há luar como tu,
Nem amor como o primeiro.”
Ele
Deixa-me rir, ó Maria!
Qual é para ti o primeiro?!
Chamas o mesmo ao segundo,
Chamas o mesmo ao terceiro!
Ela
O que Deus disse uma vez
Na minh’alma já é velho;
Vai pedir ao Senhor Cura
Que o leia no Evangelho!
...........................................
Uma voz ouve-se ao longe
Que sobe alto, desgarrada:
“Por muito amar, Madalena,
No céu serás perdoada!”
“Ó luar que lindo és,
Luar branco de janeiro!
Não há luar como tu,
Nem amor como o primeiro.”
Ele
Deixa-me rir, ó Maria!
Qual é para ti o primeiro?!
Chamas o mesmo ao segundo,
Chamas o mesmo ao terceiro!
Ela
O que Deus disse uma vez
Na minh’alma já é velho;
Vai pedir ao Senhor Cura
Que o leia no Evangelho!
...........................................
Uma voz ouve-se ao longe
Que sobe alto, desgarrada:
“Por muito amar, Madalena,
No céu serás perdoada!”
3 411
Fernando Pessoa
Quando te vais a deitar
Quando te vais a deitar
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.
1 277
Carlos Drummond de Andrade
Caso do Vestido
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego ?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido,
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com êle. . .
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com êle
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
Os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei. .. disse que sim.
Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas.
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
tive uma febre terça,
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca.
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido;
que não sei onde êle anda.
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por êle,
ao depois amor pegou.
Mas então êle enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido,
e disse apenas: Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, êle se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há. . . nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
vestido, naquele prego ?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido,
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com êle. . .
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com êle
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
Os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei. .. disse que sim.
Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas.
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
tive uma febre terça,
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca.
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido;
que não sei onde êle anda.
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por êle,
ao depois amor pegou.
Mas então êle enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido,
e disse apenas: Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, êle se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há. . . nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
1 909
Carlos Drummond de Andrade
Castidade
O perdido caminho, a perdida estrela
que ficou lá longe, que ficou no alto,
surgiu novamente, brilhou novamente
como o caminho único, a solitária estrela.
Não me arrependo do pecado triste
que sujou minha carne, como toda carne.
O caminho é tão claro, a estrela tão larga,
os dois brilham tanto que me apago neles.
Mas certamente pecarei de novo
(a estrela cala-se, o caminho perde-se),
pecarei com humildade, serei vil e pobre,
terei pena de mim e me perdoarei.
De novo a estrela brilhará, mostrando
o perdido caminho da perdida inocência.
E eu irei pequenino, irei luminoso
conversando anjos que ninguém conversa.
que ficou lá longe, que ficou no alto,
surgiu novamente, brilhou novamente
como o caminho único, a solitária estrela.
Não me arrependo do pecado triste
que sujou minha carne, como toda carne.
O caminho é tão claro, a estrela tão larga,
os dois brilham tanto que me apago neles.
Mas certamente pecarei de novo
(a estrela cala-se, o caminho perde-se),
pecarei com humildade, serei vil e pobre,
terei pena de mim e me perdoarei.
De novo a estrela brilhará, mostrando
o perdido caminho da perdida inocência.
E eu irei pequenino, irei luminoso
conversando anjos que ninguém conversa.
1 231
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noites Sem Nome, do Tempo Desligadas
Solidão mais pura do que o fogo e a água,
Silêncio altíssimo e brilhante.
As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.
Silêncio altíssimo e brilhante.
As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.
1 196
Carlos Drummond de Andrade
Fórmula de Saudação
“As flores orvalhadas
parecem pressurosas
de ofertar
ao amado Reitor
ao bondoso Ministro
ao querido Prefeito
a fragrância de suas pétalas.
Colhei-as e aspirai-as
e que o suave olor
por elas derramado
vos permita esquecer
pequenos dissabores
passageiros desgostos
que nossa irreflexão
já vos tenham causado.
Arrependidos pois,
ousamos implorar
um indulto completo,
bem assim prometemos
envidar mil esforços
para que dora em diante
nosso procedimento
só vos desperte júbilo
como indenização
pelo passado.
Feliz aniversário,
muitas felicidades!”
parecem pressurosas
de ofertar
ao amado Reitor
ao bondoso Ministro
ao querido Prefeito
a fragrância de suas pétalas.
Colhei-as e aspirai-as
e que o suave olor
por elas derramado
vos permita esquecer
pequenos dissabores
passageiros desgostos
que nossa irreflexão
já vos tenham causado.
Arrependidos pois,
ousamos implorar
um indulto completo,
bem assim prometemos
envidar mil esforços
para que dora em diante
nosso procedimento
só vos desperte júbilo
como indenização
pelo passado.
Feliz aniversário,
muitas felicidades!”
737
Adélia Prado
Argumento
Tenho três namorados.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.
Um deles cuspiu no chão, o que escolhi pra casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.
Um deles cuspiu no chão, o que escolhi pra casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.
1 143
Adélia Prado
A Cólera Divina
Quando fui ferida,
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma
— ainda não sei —,
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
— ele, um bicho que não é gente —,
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas,
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma
— ainda não sei —,
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
— ele, um bicho que não é gente —,
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas,
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
1 158
Charles Bukowski
Maus Momentos No Hotel da 3Rd Com a Vermont
Alabam era um ladrão sorrateiro e ele entrou no meu
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.
seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!
ele apenas me derrubou
outra vez.
quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!
ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.
finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.
foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.
então desci e bati na porta
dele.
bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!
o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou
fiquei ali parado observando
o cara.
e falei, me desculpa,
Alabam.
então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.
éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.
naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.
ainda me restava uma garrafa de
porto.
saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.
falei, que tal um trago,
Rebelde?
ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.
seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!
ele apenas me derrubou
outra vez.
quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!
ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.
finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.
foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.
então desci e bati na porta
dele.
bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!
o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou
fiquei ali parado observando
o cara.
e falei, me desculpa,
Alabam.
então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.
éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.
naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.
ainda me restava uma garrafa de
porto.
saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.
falei, que tal um trago,
Rebelde?
ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
1 117
Adélia Prado
Viés
Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.
1 520
Castro Alves
Mãe Penitente
"Ouve-me, pois!... Eu fui uma perdida;
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime é que hoje perco a vida,
Mas dele em breve há de salvar-me a morte!
"E minhaalma, bem vês, que não se irrita,
Antes bendiz estes mandões ferozes,
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!
"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto cândido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — pútrida semente!
"Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu berço escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.
"Por isso agora tua mãe te implora
E a teus pés de joelhos se debruça.
Perdoa à triste — que de angústia chora,
Perdoa à mártir — que de dor soluça!
"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto é este que em meu seio rola?
Meu Deus, é o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime é que hoje perco a vida,
Mas dele em breve há de salvar-me a morte!
"E minhaalma, bem vês, que não se irrita,
Antes bendiz estes mandões ferozes,
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!
"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto cândido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — pútrida semente!
"Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu berço escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.
"Por isso agora tua mãe te implora
E a teus pés de joelhos se debruça.
Perdoa à triste — que de angústia chora,
Perdoa à mártir — que de dor soluça!
"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto é este que em meu seio rola?
Meu Deus, é o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"
4 128
Gregório de Matos
Ao Mesmo Assumpto e na Mesma Occasião
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
2 763
José Lannes
Confissão
Vou caminhando para ti, Senhor!
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
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