Poemas neste tema

Passado e Futuro

Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Matinal

Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.

Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.

Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.

Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.

Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.

E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.

1 058
Cirstina Areias

Cirstina Areias

Dispersão

Je me sens eparpillée travers les siècles...

Eu me sinto espalhada pelos séculos...
Há pedaços de mim na Grécia Antiga,
Há pedaços de mim na imensidão,
Meteoros de mim me ultrapassam,
Estou além e estou aquém
Sem rumo eu sou.

Não é meu o meu sonho, minha tristeza,
O meu verso cativo,
Alguém levou
O poeta de ontem e de sempre
Violou minha alma,
Me roubou.

Não pertence a mim o sentimento
A palavra me escapa,
O sangue esvai
Eu não vivo,
Eu existo nas estrelas
Dos que foram, dos que estão,
Dos que virão.

Demócritos, Pessoas, Sades,
Não nascidos,
Carrascos meus, ladrões
Nesta enlouquecida festa
Eu me entrego
Vadia, sem pudor
Pelas bocas ancestrais dos que hão de vir...

Não sou eu e não há Tempo e não há lei
Eu me empresto,
Eu me dou,
Eu me concedo...
Eu me deixo perdida em suas mãos,
Eu me deito amorosa entre seus versos!

E, por mais que eu me busque, que eu me olhe,
É poeira o que eu vejo, é dispersão...

837
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Soneto Contemporâneo

Aos coeternos.

Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões

Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.

Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.

De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.

Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.

2 168
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Tempo

Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã

que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem

as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. Por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda

houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu, ou ganhou.
1 669
Heliodoro Baptista

Heliodoro Baptista

Como um cão

Como um cão curvo-me
e procuro ler nas marcas
que a noite não pôde
recolher o tempo.

Anima-me a superfície fabulária
onde o olhar do dia revolve
o que foi alvoroço vida
ou sinal te'nue.

Detenho-me na pegada junto à cama
e a mão precavida incha a memo'ria
nenhuma sensação acende
o que já está perdido.

(Perdidos os meus passos? A minha voz?
é assim tão terrível o amor ao homem?
a justiça foi calcinada em que ritual?)

Pouso então devagarinho
o ouvido na parede húmida
e eis que uma sombra volta-se
num largo aceno de simpatia.

Na paz indizível sopra
a fina aragem desanoitecida
a leve impressão
de um cochichar
uma porta entreaberta
onde pulsa uma esperança.

(Ontem já foi passado
e o minuto que vem
já é futuro).
1 165
Cora Coralina

Cora Coralina

Lucros e Perdas

I

Eu nasci num tempo antigo,
muito velho,
muito velhinho, velhíssimo.

(...)

III

Fui menina do tempo antigo.
Comandado pelos velhos:
Barbados, bigodudos, dogmáticos —
botavam cerco na mocidade.
Vigilantes fiscalizavam,
louvavam, censuravam.
Censores acatados. Ouvidos.
Conspícuos.
Felizmente, palavra morta.

(...)

V

Fui moça desse tempo.
Tive meus muitos censores
intra e extra-lar.
Botaram-me o cerco.
Juntavam-se, revelavam-se
incansáveis. Boa gente.
Queriam me salvar.

VI

Revendo o passado,
balanceando a vida...
No acervo do perdido,
no tanto do ganhado
está escriturado:
" — Perdas e danos, meus acertos.
— Lucros, meus erros.
Daí a falta de sinceridade nos meus versos".


In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
3 724
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Fonte

Passado, sombra de uma nuvem
na água trêmula


Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.

In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 107
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ordem

Quando a folhinha de Mariana
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.

Hoje quem é que pode?
660
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Veneza

Dentro deste quarto um outro quarto
Como um Carpaccio nas ruas de Veneza
Segunda imagem sussurro de surpresa
E um pouco assim são as ruas de Veneza

Em fundo glauco de laguna ou vidro
E um pouco assim em nossa vida o duplo
Espelho sem perdão do não vivido
Caminho destinado a ser perdido
2 703
Maurício Batarce

Maurício Batarce

Passos Temporais

A verdadeira vida vivida
Deve ser regada de mundo.
Os sonhos devem buscar
As grandes distâncias
E os olhos devem estar ligados
À verdade.

Na verdadeira vida vivida
Tudo funciona em harmonia.
A procura de nossas origens
Faz parte dela
E o passado serve como ponte
Para o que somos.

A verdadeira vida vivida
Nos transmite a voz da maturidade,
Demonstrando nosso presente a cada instante.
Nessa verdade, quando menos se espera,
O tempo já se foi.

O homem que é preso ao relógio
Leva rasteiras em sua verdadeira vida vivida.
Cada passo do ponteiro
É uma eternidade a menos
E o começo de uma nova eternidade.

Na verdadeira vida vivida
Escutamos o caminhar para o futuro
E aos poucos chegamos ao infinito.
As verdadeiras vidas vividas
Nada mais são do que
Verdadeiros passos temporais...

777
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Habitação

Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada —
Isto é habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses

Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância
2 671
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Primeiro Automóvel

Que coisa-bicho
que estranheza preto-lustrosa
evém-vindo pelo barro afora?

É o automóvel de Chico Osório
é o anúncio da nova aurora
é o primeiro carro, o Ford primeiro
é a sentença do fim do cavalo
do fim da tropa, do fim da roda
do carro de boi.

Lá vem puxado por junta de bois.
1 728
Reynaldo Valinho Alvarez

Reynaldo Valinho Alvarez

Canto Em Si

1
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.

A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.

Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.

No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.

A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.

A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...

2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.

Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.

Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.

Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.

Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.

Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.

1 055
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

brasil

Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo

Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil

Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.

Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.

Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.

Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.

Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.

579
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Crepúsculo Dos Deuses

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exactamente
A palidez de Athena cintilou no dia
Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas
Celebrámos a vitória: a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade
Como golfinhos a alegria rápida
Rodeava os navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exacta
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia
Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se»*
* Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano, o Apóstata (Cedrenus, Resumo da História).
2 394
Pablo Neruda

Pablo Neruda

De Uma Viagem

De uma viagem volto ao mesmo ponto,
por quê?
Por que não volto aonde antes vivi,
ruas, países, continentes, ilhas,
onde tive e estive?
Por que será este lugar a fronteira
que me elegeu, que tem este recinto
senão um látego de ar vertical
sobre meu rosto, e umas flores negras
que o longo inverno morde e despedaça?
Ai, que me assinalam:
— este é o preguiçoso,
o senhor enferrujado,
daqui não se moveu,
deste duro recinto
foi ficando imóvel
até que endureceram seus olhos
e cresceu-lhe uma hera no olhar.
1 272
Luis Germano Graal

Luis Germano Graal

Se de Repente

Se de repente
Subitamente
A qualquer instante
A qualquer momento
De repente e não mais que de repente
A gente
Ressuscitar

Se tudo o que aconteceu
Foi
Pantonima
Truque
Magia
Função de circo?

Se das cinzas
Se dos restos incendiados
Desta nave
Renascer
Aquela ave
Que antigamente renascia?

Se a gente parar de fazer perguntas
E procurar respostas?
Se as palavras
Pularem dos livros e das petições
Deixando todas as páginas
Em branco?

Se as folhas de papel
Retornarem
Às árvores originais?

Se as árvores originas
Voltarem
Aos elementos que foram antes?

Se o próprio antes retornar
Voltar
Ao que tinha sido ainda antes?

837
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Noite - XCIX

Outros dias virão, será entendido
o silêncio de plantas e planetas
e quantas coisas puras passarão!
Terão cheiro de lua os violinos!


O pão será talvez como tu és:
terá tua voz, tua condição de trigo,
e falarão outras coisas com tua voz:
os cavalos perdidos do outono.


Ainda que não seja como está disposto
o amor encherá grandes barricas
como o antigo mel dos pastores,


e tu no pó de meu coração
(onde haverá imensos armazéns)
irás e voltarás entre melancias.
1 145
Lucídio Freitas

Lucídio Freitas

Perscrutadoramente

Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.

Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.

Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —

O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!

1 446
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Globulárias e Latadas

claro, posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrás (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as águas literárias,
nenhum de nós sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades são bem favoráveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita é sua própria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu próprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigências
de tantos
assim chamados gênios extravagantes que nada
são.
não vou culpá-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida Gardênia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapéu de pelúcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor
ao sair do mundo de Globulárias e
latadas
passará a
maquinaria
de seu antigo negócio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirá seu legado
a um
funcionário do despacho
que ressurgirá como
Lázaro,
manuseando uma importância
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de Rondó
e
digitados
em espaço três em papel de
arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
é um
bocado de
verrugas.
“não, não, sr. Chinaski:
tem que ser em Rondó!”
“ei, cara”, perguntarei,
“você já ouviu falar
dos anos 30?”
“os anos 30? o que é
isso?”
meu atual editor
e eu
às vezes
discutíamos os anos 30,
a Depressão
e
alguns dos truques que
nos ensinaram –
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
ócio para
se dedicar à agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, água apenas
cedo pela manhã, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nós
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
há aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
915
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Anos 1930

lugares para caçar
lugares onde se esconder estão
cada vez mais difíceis de achar, e bichos de estimação
canários e peixes dourados também, você já reparou
nisso?
lembro quando salões de bilhar eram salões de bilhar
e não só mesas em
bares;
e lembro quando as mulheres da vizinhança
costumavam cozinhar panelões de came ensopada para seus
maridos desempregados
quando suas barrigas doíam
de medo;
e lembro quando crianças costumavam olhar a chuva
por horas e
brigavam interminavelmente por um filhote
de rato; e
lembro quando os boxeadores eram todos judeus e irlandeses
e nunca davam a você uma
luta ruim; e quando os biplanos voavam tão baixo que
dava para ver a cara do aviador e seus óculos de proteção;
e quando uma barra de sorvete em cada dez tinha dentro um bilhete
de sorteio; e quando por 3 centavos dava para comprar doces o bastante
para fazê-lo passar mal
ou durar toda uma
tarde; e quando as pessoas da vizinhança criavam
galinhas em seus quintais; e quando recheávamos um automóvel
de brinquedo de 5 centavos com
cera de vela para fazê-lo durar
eternamente; e quando montávamos nossas próprias pipas e patinetes
e lembro
quando nossos pais brigavam
(dava para ouvi-los por quarteirões)
e eles brigavam por horas, gritando maldições pesadas
e os guardas nunca
vinham.
lugares para caçar e lugares para se esconder,
eles simplesmente não estão mais
por aí. lembro quando
cada 40 lote estava vago e cheio de mato, e o senhorio
só recebia seu aluguel
quando você tinha
como pagar, e cada dia era claro e bom e cada momento era
cheio de promessas.
1 126
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Amei um dia

Amei um dia... uni dia... eu já nem sei
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...

Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...

Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...

Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...

Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...

Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
1 732
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Canção de Amor Para a Mulher Que Vi Quarta-feira Nas Pistas De Corrida

lembrando Savannah 20 anos atrás
uma cama com dossel
e ruas cheias de capacetes e caçadores
coisas que fiz então
deixaram marcas;
ha ha, diz você,
mas elas voltam vivas enquanto compro pão
ou amarro o cadarço do sapato
e pouco importa
exceto que dá certo para mim
assim como as pernas daquela mulher deram certo para mim
assim como o sol dá certo para mim assim como dá certo para o cacto
e assim como você dá certo para mim
lendo este poema.
e as pernas daquela mulher caminham
enquanto as observo
e os cavalos na próxima corrida
e as montanhas ficam lá
observando
marcas e pernas de uma mulher
pule de 10 no número seis na ponta
e para longe no oceano
ou parado no parque
como uma estátua
eu a vejo
caminhando.
cavalos parados por toda parte:
conchas como de Savannah em meus bolsos:
eu amei você mulher
com certeza assim como eu a nomeei
ferrugem e areia e nylon.
você deu certo para mim
coisa selvagem.
1 104
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Suas

minhas mulheres do passado ficam tentando me localizar.
encolho-me em armários escuros e puxo as cobertas
sobre minha cabeça.
nas corridas de cavalos eu fico na área reservada
fumando cigarro após cigarro
observando os cavalos que saem para a apresentação
e olhando sobre meu ombro.
vou até o guichê de apostas e esse rabo se parece ao modo
como aquele outro rabo parecia.
desvio-me dela.
então aquela cabeleira poderia tê-la debaixo dela.
caio fora da área reservada e vou até a arquibancada.
não quero um retorno ao passado.
não quero um retorno âquelas
mulheres do meu passado.
não quero tentar mais uma vez, não quero vê-las
novamente, nem a silhueta delas;
eu as dou todas, dou todas elas a todos os outros homens
sequiosos, eles podem ficar com todas aquelas gracinhas,
aqueles peitos aquelas bundas aquelas mentes
e suas mães e pais e irmãs e
irmãos e filhos e cães e ex-namorados
e namorados atuais, podem ficar com todas elas
e fodê-las todas
se quiserem.
fui um amante terrível e ciumento que as maltratava
e não conseguia entendê-las
e é melhor que agora estejam com outros
pois isso será melhor para elas e isso será
melhor para mim
por isso, quando telefonarem ou escreverem ou deixarem
recados
eu as passarei, todas, para seus novos
e legais companheiros.
eu não mereço o que elas têm e quero
deixar tudo por isso mesmo.
800