Poemas neste tema

Paixão

Costa Alegre

Costa Alegre

Visão

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.
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Hermes Fontes

Hermes Fontes

Rosa

Rosa do meu Jardim, que ardes na minha Jarra,
filha do meu afã, mártir do meu amor!
Minha grande paixão egoísta te desgarra
as pétalas, te aspira o segredo interior.

Pois que estamos a sós — eu volúvel cigarra,
tu, borboleta rubra estacionada em flor —
deveras ter comigo uma folha de parra,
a fim de preservar-te a beleza e o pudor...

Pois que! tão nua assim, tão fresca e tão punícea,
rosa da Tentação, rosa da Impudicícia,
és o próprio Pecado: e há virtude em pecar...

— Pecar morrendo em ti, sangrando em teus espinhos,
remindo num Desejo os desejos mesquinhos,
gozando pelo Olfato e amando pelo Olhar...


Poema integrante da série Segunda Parte: As Flores.

In: FONTES, Hermes. Microcosmo. Rio de Janeiro: Livr. Leite Ribeiro & Maurillo, 1919. p.55-5
1 773 3
Castro Alves

Castro Alves

Penso em Ti

EU PENSO em ti nas horas de tristeza
Quando rola a esperança emurchecida
Nas horas de saudade e morbidez
Ai! Só tu és minha ilusão querida
Eu penso em ti nas horas de tristeza.

Vê quanta sombra me escurece o seio!
Que palidez sombria no meu rosto!
Tu és a única luz da treva em meio
Tu és a minha estrela do sol posto...
Contigo a sombra não me tolda o seio.

Quando a teus pés o meu viver sescoa,
Esqueço a minha sorte, o meu martírio,
Minhalma como a pomba em sangue voa
Para ir se abrigar à tua, ó lírio,
Quando a teus pés o meu viver sescoa ...

Bendito o riso desses lábios túmidos!
Bendito o meigo olhar tão peregrino!
Como o sol abre a flor nos campos úmidos
Crenças desperta o teu divino olhar...
E o riso, o riso desses lábios túmidos

Ai! volve! volve peregrina estrela...
Minhalma é o templo de um amor suave
À tua espera o lampadário vela...
À tua espera perfumou-se a nave...
Ai! volve! volve peregrina estrela!

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Heinrich Heine

Heinrich Heine

Que mundo grosso

Que mundo grosso, gente avara,
– E mais e mais sem mais sabor!
Diz de você... o quê, amor?
Que não tem vergonha na cara.

Mundinho avaro, mundo cego,
Sempre disposto a julgar mal.
Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Jogo

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

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Judith Teixeira

Judith Teixeira

Sinfonia Hibernal

Adoro o Inverno.
Envolvo-me assim mais no teu carinho
Friorenta e louca
Nascem-me na alma os beijos
Que se vão aninhar na tua boca!

Gosto da neve a diluir-se ao sol
Em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo
E a neve fulgente
Dos meus dentes trémulos
Vai fundir-se na taça ardente,
Rubra e original
Na qual eu bebo os teus beijos em fogo!

Tu adormentas a minha dor na doce sombra dos teus cabelos,
E eu envolvo-me toda nos teus braços
Para dormir e sonhar!
- Lá for a que não deixe de chover,
E o vento que não deixe de clamar!

Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
Se me abrasa o teu olhar
Vivíssimo?!
Ateia, meu amor, o fogo em que me exalto
- Enrola-me mais
Ainda mais no teu afago;
Que esta alegria do nosso amor
Suavíssimo,
Será mais forte e gritará mais alto!
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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Lésbia

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
planta mortal, carnívora, sangrenta,
da tua carne báquica rebenta
a vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
ri, ri, risadas de expressão violenta
o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
a morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
cruel e demoníaca serpente
das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
fluem capros aromas e os letargos,
os ópios de um luar tuberculose...

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Bocage

Bocage

Retrato próprio

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

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Natália Correia

Natália Correia

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Amor

Quand la mort est si belle,
Il est doux de mourir.
V. Hugo

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

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Alice Ruiz

Alice Ruiz

topa um pacto de sangue

topa um pacto de sangue
com essa cigana do futuro
que lê
o passado na tua boca
o presente no teu corpo
e nos teus olhos
tanto quanto nos astros?


Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
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Maciel Monteiro

Maciel Monteiro

Formosa

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pode ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual jamais no céu brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
jamais soube imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Nem Velas Nem Molho Branco

nem velas nem molho branco
hoje nosso jantar
acontece por baixo da mesa


desfias minhas pernas de seda
teu beijo promete mais tarde


jogo a toalha de renda no chão
me rendo
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Jorge de Sena

Jorge de Sena

NO COMBOIO DE EDIMBURGO A LONDRES

Que coisas se fariam - tão de seios
redonda e esbelta aqui sentada e loira
e lendo um livro idiota à minha frente!
As pernas que se juntam quanto abri-las
a duras mãos com dedos titilantes
para depois se unirem apertando
em húmidas paredes o que se entesa vendo-a ...
E ah como a boca se arredonda rósea!
E os dedos que são esguios, serão sábios?
Tão sábios como os meus e minha boca?
Que loura juventude nem me vê - quem pode
envelhecer sem raiva aos olhos dela,
se de alma e de entre pernas se é tão jovem sempre?

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Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo

Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte

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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Beijar bem

Ok: a gente quer encontrar alguém bonito, inteligente e espirituoso, alguém que não seja muito exibido nem vaidoso demais, que tenha um papo cativante e esteja parado na nossa. Mas e se beijar mal? Sem chance. Tem que beijar bem, tanto eles quanto elas. 

Quando escuto alguém dizendo que Fulano beija bem e Sicrano beija mal, quase volto a acreditar em histórias da carochinha. Beijo é a sorte de duas bocas entrarem em comunhão. Pode um Rafael beijar uma Ana e ser uma explosão vulcânica, e o mesmo Rafael beijar uma Cristina e ser um encontro labial de dar sono. Pessoas não beijam bem ou mal: casais se beijam bem ou mal. Há sempre dois envolvidos. 

A definição de um beijo bom é que pode ser questionável, mas quem está no meio do entrevero quase sempre reconhece o ósculo sublime. 

Beijo bom é beijo decidido, mesmo que a decisão seja levá-lo devagar ao longe. 

Beijo bom é beijo molhado, em que os beijadores doam tudo o que há para doar na cavidade bucal, sem assepsia, entrega absoluta. 

Beijo bom é beijo sem pressa, que não foi condenado pelos ponteiros do relógio, que se perde em labirintos escuros já que, é bom lembrar, estamos de olhos fechados. 

Beijo bom é beijo que você não consegue interromper nem que quisesse. 

Beijo bom é beijo que não permite que seu pensamento tome forma e voe para outro lugar. 

E, por fim, beijo bom é o beijo que está sendo dado na pessoa por quem você é completamente apaixonada. 

Existe beijo ruim? Existe. Beijo sem alma, beijo educado demais, beijo cheio de cuidados, beijo curto, beijo seco. Mas uma coisa é certa: precisa dois para torná-lo frio ou torná-lo quente. Todo mundo pode beijar bem, basta nossa boca encontrar com quem.
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Elíude Viana

Elíude Viana

Rota de Colisão

Digo para o meu desejo
esquecer o rumo do teu corpo
te largar numa esquina feminina
perder o endereço das tuas mãos.
Ando amnesiada pelos sóis de agosto
distribuindo risos postais
mostrando que não te quero
...Mas te busco
nas bocas que beijam avidamente
como se a vertente
de incontroláveis prazeres
atraísse a velocidade dos ônibus metropolitanos
aos becos escuros dos subúrbios.

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Menotti del Picchia

Menotti del Picchia

Fascinação - 1

Tudo ama!
As estrelas no azul, os insetos na lama,
a luz, a treva, o céu, a terra, tudo,
num tumultuoso amor, num amor quieto e mudo
tudo ama! tudo ama!

Há amor na alucinada
fascinação do abismo,
amor paradoxal humano e forte
que se traduz nas febres do sadismo,
nessa atração perpétua para o Nada,
nessa corrida doida para a Morte.

Por isso quando as lianas
em lascívias florais cercam de abraços
o tronco hirsuto e grosso,
têm, no amplexo mortal, crueldades humanas.
Há no erótico ardor de enlaçá-lo, abraçá-lo,
a assassina violência de dois braços
crispados num pescoço,
atenazando-o para estrangulá-lo!

É que o amor quer a morte. Num momento
resume a vida, os loucos entusiasmos
dos supremos espasmos...
Nesse furor que o invade,
tem a volúpia da ferocidade,
tem o delírio do aniquilamento!

É por isso que sempre vês, por tudo,
uma luta de morte, um desespero mudo:
a insídia da raiz que mina a terra e esgota,
o caule que ergue o fuste, a rama, em sobressalto,
agitando pelo ar a própria dor ignota
no torturante amor do mais puro e mais alto!


Publicado no livro Juca Mulato (1917).

In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.37. (Prestígio
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Eliakin Rufino

Eliakin Rufino

Sentimentos Cintilantes

as estrelas que flutuam nesse rio
são os olhos das serpentes encantadas
cobras grandes habitantes dessas águas
e estas luzes que vagueiam pelas praias
claridades de paixão e de areia
são meus olhos
encharcando o chão das várzeas
são de alegria estas lágrimas brilhantes
são diamantes que meus olhos choram
são loucos sentimentos cintilantes

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Bruno Kampel

Bruno Kampel

O convite

Se vieres...

...esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço
sobre-humano
uma estrada
e seu atalho
uma valsa
e seu compasso
uma dança
na esperança
de que a noite
cheire a vinho
e tenha gosto
e que o encontro
seja um pacto
e tenha essência.

Se quiseres...

...esta noite teremos
nossa pele
dedilhando suores
nossas mãos
visitando os calores
nossas bocas
cheirando sabores
nossa urgência
implorando favores
nossa cama
hospedando os clamores
nossos ais
declamando os ardores
nosso amor
desenhando os louvores.

Se deixares...

...esta noite veremos
os silêncios cantando
sem palavras
os poemas tremendo
de alegria
as estrelas gemendo
sem vergonha
a emoção delirando
docemente
a canção galopando
sem arreios
a ternura gerando
gestos quentes
eloquentes
dementes
frementes
urgentes.

Se pedires...

...esta noite
será então
um planeta
sem fronteiras
a pergunta
e a resposta
um delírio
sem limites
dois amantes
e seus jogos
o desejo
realizado
um encontro
de mutantes
sem idade
procurando
sem receio
prometendo
sem descanso
conjugando
grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua
e sua esquina
uma noite
ensolarada
o deserto
e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.

Esta noite
então...
se vieres
e quiseres...
se deixares
e pedires...
974 2
Cacaso

Cacaso

Face a Face

São as trapaças da sorte
são as graças da paixão
pra se combinar comigo
tem que ter opinião

Morena quando repenso
no nosso sonho fagueiro
o céu estava tão denso
inferno tão passageiro
uma certeza me nasce
e abole todo o meu zelo
quando me vi face a face
fitava o meu pesadelo
estava cego o apelo
estava solto o impasse
sofrendo nosso desvelo
perdendo no desenlace
no rolo feito novelo
até o fim do degelo
até que a morte me abrace

São as desgraças da sorte
são as traças da paixão
quem quiser casar comigo
tem que ter bom coração

Morena quando relembro
aquele céu escarlate
mal começava dezembro
já ia longe o combate
uma lambada me bole
uma certeza me abate
a dor querendo que eu morra
o amor querendo que eu mate
estava solta a cachorra
que mete o dente e não late
No meio daquela zorra
perdendo no desempate
girando feito piorra
até que a mágoa escorra
até que a raiva desate


Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Papos de Anjo da Guarda.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.141-142

NOTA: Música de Sueli Cost
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Eu Minto, Confesso

eu minto, confesso
me faço de boba, verdade
escondo a idade, me calo,
me sinto tão mal, um inferno
represento um papel, principal
sou mesmo uma atriz, infeliz
quem diz que eu não quero, eu consigo
viver por um triz, enlouqueço
te esqueço e te mato, te amo
atrás de um muro, qualquer
outro dia amanheço, de novo
e falo bobagens, pudera
não sou tão sensata, avisei
sem nada de mais, me despeço
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Herberto Helder

Herberto Helder

(Similia Similibus)

Quem deita sal na carne crua deixa
a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:
vasos redondos, os quadris
das fêmeas — e logo o meu dedo se põe a luzir
ao fôlego da boca: onde
o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda
é uma queimadura
vizinha
do coração — toda a minha mão se assusta,
transmuda,
se torna transparente e viva, por essa força que a traga
até dentro,
onde o sangue mulheril queimado
a arrasta pelos rins e aloja, brilhando
como um coração,
na garganta — o sal que se deita cresce sempre
ao enredo dos planetas: com unhas
frias e nuas
retrato as lunações, talho a carne límpida
— porque eu sou o teu nome quando
te chamas a toda a altura
dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam
a estrela
como uma pedra fechada no seu jardim selvagem
entre a água: tu tocas
onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam
na carne profunda: como em toda a olaria o movimento
toca a argila e a torna
atenta
à translação da casa pela paisagem rodando sobre si
mesma — a teia sensível,
que se fabrica no mundo entre a mão no sal
e a potência
múltipla de que esta escrita é a simetria,
une
tudo boca a boca: o verbo que estás a ser a cada
tua morte
ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira
se despenha
para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre
esse cabelo animal
que respira no sono, que transpira
como barro ou madeira ou carne salgada
exposta
a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.
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Aureliano Lessa

Aureliano Lessa

Êxtasis

Quando, após longa e pensativa pausa
— Eu te amo — dizem teus sonoros lábios,
Baixa do céu e pousa na minha alma
Uma nuvem de ofertas tão suaves;
Como de um sonho os mágicos eflúvios...
— Em êxtases me embebo, e nem meus lábios
Podem ao menos sussurar
— Eu te amo! —

A tua voz percorre as minhas veias,
Banha-me o coração, cerca minha alma.
Enleia-me a existência, e — teu escravo —
Sofro, gemo, desvairo, e quase expiro...


In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
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