Poemas neste tema
Paixão
Iderval Miranda
Do Amor e da Loucura
I
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
713
Hernâni Cidade
À Pertubadora
Olho-te muita vez tão fixamente,
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…
Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…
Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…
De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…
Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…
Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!
E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)
E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!
Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…
Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!
(in Antologia de poetas Alentejanos)
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…
Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…
Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…
De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…
Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…
Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!
E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)
E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!
Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…
Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!
(in Antologia de poetas Alentejanos)
855
Paulo F. Cunha
Duplo
Poderia dizer que te amo
porque sofro.
Mas não , não sofro , tenho raiva.
Raiva de ti , a quem amo ?
E amorraiva ou raivamor ?
Chego a conclusão insofismável
que te amo porque tenho raiva
e , no momento em que te amo
tenho vontade de te odiar
e , no momento em que te odeio
morro de vontade de te amar
Sou duplo , amo e odeio a ti
porque sofro.
Mas não , não sofro , tenho raiva.
Raiva de ti , a quem amo ?
E amorraiva ou raivamor ?
Chego a conclusão insofismável
que te amo porque tenho raiva
e , no momento em que te amo
tenho vontade de te odiar
e , no momento em que te odeio
morro de vontade de te amar
Sou duplo , amo e odeio a ti
1 026
Paulo F. Cunha
Ah!
Ah! A lembrança da moça
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração
pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .
que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado
com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração
pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .
que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado
com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .
1 000
Jáder de Carvalho
Trova
Meu olhar é um lampião,
vertendo, em luz dolorida,
toda uma velha paixão
na esquina da tua vida.
vertendo, em luz dolorida,
toda uma velha paixão
na esquina da tua vida.
612
Pedro Homem de Mello
Revelação
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.
Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.
Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!
Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!
Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.
Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.
Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!
Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!
1 904
Paulo F. Cunha
Te Quero
Te quero , te preciso .
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
842
Inês Romano
Encanto
Tu me fascinas e encantas
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
751
Isabel Machado
Estranha
Sou estranha
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
1 060
José Eduardo Mendes Camargo
Recordações
Desejo me enlear em teus braços,
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
713
Edgar Allan Poe
The Divine Right Of Kings
The only king by right divine
Is Ellen King, and were she mine
I'd strive for liberty no more,
But hug the glorious chains I wore.
Her bosom is an ivory throne,
Where tyrant virtue reigns alone ;
No subject vice dare interfere,
To check the power that governs here.
O! would she deign to rule my fate,
I'd worship Kings and kingly state,
And hold this maxim all life long,
The King — my King — can do no wrong. P
1845
Is Ellen King, and were she mine
I'd strive for liberty no more,
But hug the glorious chains I wore.
Her bosom is an ivory throne,
Where tyrant virtue reigns alone ;
No subject vice dare interfere,
To check the power that governs here.
O! would she deign to rule my fate,
I'd worship Kings and kingly state,
And hold this maxim all life long,
The King — my King — can do no wrong. P
1845
1 180
José Eduardo Mendes Camargo
Cigana
Chegaste tímida, descalça e com lascívia no andar
E cantaste e tocaste a minha alma
E dançaste e provocaste o meu desejo
E simulaste, insinuaste e dissimulaste
E súbito olhaste no fundo de meus olhos e me desnudaste.
E as nossas células em rebelião bailaram de prazer
E suspiraste e mergulhaste e te abandonaste
na alegria de se saber mulher e desejada.
E de repente, sumiste e não mais voltaste.
E até hoje permaneceste na beleza e sensualidade
de todas as mulheres.
E cantaste e tocaste a minha alma
E dançaste e provocaste o meu desejo
E simulaste, insinuaste e dissimulaste
E súbito olhaste no fundo de meus olhos e me desnudaste.
E as nossas células em rebelião bailaram de prazer
E suspiraste e mergulhaste e te abandonaste
na alegria de se saber mulher e desejada.
E de repente, sumiste e não mais voltaste.
E até hoje permaneceste na beleza e sensualidade
de todas as mulheres.
919
José Eduardo Mendes Camargo
Nuestra Atracción
No sé si es cósmica
o es química.
No sé si es admiración
o comprensión.
No sé si es afinidad
o continuidad.
No se si és ternura
o locura.
Hasta siento que es deseo
sazonado de pasión.
Leia Nuestra Atracción em Português
o es química.
No sé si es admiración
o comprensión.
No sé si es afinidad
o continuidad.
No se si és ternura
o locura.
Hasta siento que es deseo
sazonado de pasión.
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879
José Eduardo Mendes Camargo
Gitana
Tímida llegaste, descalza, andar lascivo
cantaste y tocaste mi alma
bailaste y provocaste mi deseo
simulaste, insinuaste y disimulaste
de súbito, miraste al fondo de mis ojos
y me dejaste desnudo.
Y nuestras células en rebeldía
bailaron de placer
y suspiraste y sumergiste y te abandonaste
en la alegría de hacerte mujer deseada.
De súbito, desapareciste.
Hasta hoy permaneces en la belleza y
sensualidad de todas las mujeres.
Leia Gitana em Português
cantaste y tocaste mi alma
bailaste y provocaste mi deseo
simulaste, insinuaste y disimulaste
de súbito, miraste al fondo de mis ojos
y me dejaste desnudo.
Y nuestras células en rebeldía
bailaron de placer
y suspiraste y sumergiste y te abandonaste
en la alegría de hacerte mujer deseada.
De súbito, desapareciste.
Hasta hoy permaneces en la belleza y
sensualidad de todas las mujeres.
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927
José Eduardo Mendes Camargo
Encantamento
Fechei os olhos para me proteger
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
884
José Eduardo Mendes Camargo
Lectura
Leí en tu ojos las palabras
que tus labios no osabam pronunciar.
Vi en tu cuerpo el amor
que tu brazos temían aceptar.
Sentí el temblor de mim piel
el temblor de tu alma.
Probé en tus manos el deseo
que nuestros cuerpos no consiguen disimular.
Leia Lectura em Português
que tus labios no osabam pronunciar.
Vi en tu cuerpo el amor
que tu brazos temían aceptar.
Sentí el temblor de mim piel
el temblor de tu alma.
Probé en tus manos el deseo
que nuestros cuerpos no consiguen disimular.
Leia Lectura em Português
700
Stéphane Mallarmé
Placet futile
Princesse! à jalouser le destin d'une Hébé
Qui poind sur cette tasse au baiser de vos lèvres,
J'use mes feux mais n'ai rang discret que d'abbé
Et ne figurerai même nu sur le Sèvres.
Comme je ne suis pas ton bichon embarbé,
Ni la pastille ni du rouge, ni jeux mièvres
Et que sur moi je sais ton regard clos tombé,
Blonde dont les coiffeurs divins sont des orfèvres!
Nommez-nous... toi de qui tant de ris framboisés
Se joignent en troupeau d'agneaux apprivoisés
Chez tous broutant les voeux et bêlant aux délires,
Nommez-nous... pour qu'Amour ailé d'un éventail
M'y peigne flûte aux doigts endormant ce bercail,
Princesse, nommez-nous berger de vos sourires.
Qui poind sur cette tasse au baiser de vos lèvres,
J'use mes feux mais n'ai rang discret que d'abbé
Et ne figurerai même nu sur le Sèvres.
Comme je ne suis pas ton bichon embarbé,
Ni la pastille ni du rouge, ni jeux mièvres
Et que sur moi je sais ton regard clos tombé,
Blonde dont les coiffeurs divins sont des orfèvres!
Nommez-nous... toi de qui tant de ris framboisés
Se joignent en troupeau d'agneaux apprivoisés
Chez tous broutant les voeux et bêlant aux délires,
Nommez-nous... pour qu'Amour ailé d'un éventail
M'y peigne flûte aux doigts endormant ce bercail,
Princesse, nommez-nous berger de vos sourires.
2 209
Frutuoso Ferreira
Noite de Brahma
Corre a Noite de Brahma... A Eternidade avulta...
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
1 014
Carlyle Martins
A Loucura do Nosso Amor
"Áurea! Vamos andar pelos caminhos,
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
853
Alfredo Castro
Psicologia do Adeus
Tempo de febre, tempo de loucura,
Esse tempo desfeito tão depressa,
Em que tua alma arrebatada e pura
Me vinha em festa, cheia de promessa.
Tempo de anseios, tempo de ventura,
Em que os teus sentimentos punhas nessa
Força que dava à minha mão, segura
No adeus, à tua. Era a paixão — confessa!
Era a paixão, que em teu olhar brilhava,
De radiosas visões te enchendo a vida,
Dos meus desejos te fazendo escrava.
Hoje, num gesto todo indiferente,
Tomando a minha mão na despedida,
Dás-me as pontas dos dedos, frouxamente!
Esse tempo desfeito tão depressa,
Em que tua alma arrebatada e pura
Me vinha em festa, cheia de promessa.
Tempo de anseios, tempo de ventura,
Em que os teus sentimentos punhas nessa
Força que dava à minha mão, segura
No adeus, à tua. Era a paixão — confessa!
Era a paixão, que em teu olhar brilhava,
De radiosas visões te enchendo a vida,
Dos meus desejos te fazendo escrava.
Hoje, num gesto todo indiferente,
Tomando a minha mão na despedida,
Dás-me as pontas dos dedos, frouxamente!
986
Emiliano Perneta
De um Fauno
Ah! quem me dera, quando passa em meu caminho
Juno! com seu andar de névoa que flutua,
Poder despi-la dessa túnica de linho...
E vê-la nua! Eu só compreendo estátua nua!
Nua! essa corça nua é branca, e é como a Lua...
Ser eu Apolo! embriagá-la do meu vinho!
Porém se estendo no ar os meus braços, recua,
Esquiva a dama apressa o passo miudinho...
A dama foge, não deseja que eu avance...
Meu desejo, porém, é um gamo. De relance,
Vendo-a, corre a querer sugar-lhe o claro mel...
Despe-a; carrega-a, assim, despida, para o leito...
E, nua, em flor, bem como um sátiro perfeito,
Sobre o feno viola essa Virgem cruel!
Juno! com seu andar de névoa que flutua,
Poder despi-la dessa túnica de linho...
E vê-la nua! Eu só compreendo estátua nua!
Nua! essa corça nua é branca, e é como a Lua...
Ser eu Apolo! embriagá-la do meu vinho!
Porém se estendo no ar os meus braços, recua,
Esquiva a dama apressa o passo miudinho...
A dama foge, não deseja que eu avance...
Meu desejo, porém, é um gamo. De relance,
Vendo-a, corre a querer sugar-lhe o claro mel...
Despe-a; carrega-a, assim, despida, para o leito...
E, nua, em flor, bem como um sátiro perfeito,
Sobre o feno viola essa Virgem cruel!
2 047
Everaldo Moreira Verás
Descer
A noite foi toda de desordem.
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
845
Francisco Mangabeira
Regina
Em alegrias fortes prorrompa
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
1 039
Casimiro de Abreu
Amor e Medo
I
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor — eu medo!...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.
E' que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
(...)
II
Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: — que seria da pureza d'anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
— Tu te queimaras, a pisar descalça,
— Criança louca, — sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: — qu'é da minha c'roa?...
Eu te diria: — desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...
Outubro, 1858
Imagem - 00300001
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor — eu medo!...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.
E' que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
(...)
II
Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: — que seria da pureza d'anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
— Tu te queimaras, a pisar descalça,
— Criança louca, — sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: — qu'é da minha c'roa?...
Eu te diria: — desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...
Outubro, 1858
Imagem - 00300001
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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