Poemas neste tema

Paixão

Isabel Machado

Isabel Machado

Sugar

Me dá meu beijo
me suga feito redemoinho
para o centro da luz
que me espera

Sem pressa
e guloso ao mesmo tempo
sem tempo de esperar
como quem vai morrer amanhã

Deixa encravado na pele
o cheiro da manhã
a nos envolver
a enternecer tanta vida
que suspira
que reflete
em cada ato
em cada tato
em cada canto
do meu quarto

897
Adélia Prado

Adélia Prado

Tenda E Cimitarra

O amor de Mahmoud
me põe mal-acostumada.
Corro o perigo de me deitar na preguiça,
querer comida na boca.
Meu amor por ele é sincero
mas muito judiador:
Tem Nossa Senhora no seu terra, benzinho?
Tem borboletas lá?
Quero comprar coisas no bazar de vocês,
pechinchar por sinais,
trocar simpatias com o turco maravilhoso
me olhando fixo e escuro
de tanta paixão por mim.
Mahmoud cerra os dentes de raiva,
cospe espadas em curva feito lua e
mesmo delicado me morde,
grunhindo na língua dele
uns belos sons que não entendo.
Mahmoud, nosso amor está prestes
a ficar conjugal, agora estou segura
de que nunca vais ver que envelheci.
1 016
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Só Um Sopro

Um
sopro
De um amor que sofro
Não pouco
Só louco
Pegajoso
Da alma que achou-se pouca
Ainda sofro
E louco morro
Aguardo o sopro
De um amar louco
Não pouco
Igual ao outro
E aí então, não serei só louco
Nem só sopro
Serei vento e sopros
Um do outro
Nem loucos
Nem poucos

1 083
C. R. Nazareth

C. R. Nazareth

Filhas de Vênus

A orgulhosa Vênus, deusa do prazer sem igual,
empresta a suas filhas sensuais a chama imortal.
Seja no gelado deserto ou no calor tropical,
a todas confere desejo e prazer sem igual.

A todas confere da paixão o calor
e a todas excita, conduzindo ao profundo ardor.
Assim, não importa o lugar do mundo aonde se vá,
a doce explosão da volúpia lá estará.

Cálido arrebatamento através dos corpos balançando,
na ânsia do jorrar, o auge do prazer alcançando.
Em meio aos gemidos, seja morena ou loira, é uma arte,
uma filha de Vênus é imperatriz em toda parte.

2 097
Rosa Leonor Pedro

Rosa Leonor Pedro

MA E MI

Meu amor, procuro o ritmo do teu corpo no meu corpo,
procuro o alento do teu peito no meu
o ar que a tua boca respira na minha.

Procuro em ti o ritmo interno, bem dentro,
no fundo de cada movimento, no centro do teu coração.

Quero-te inteira na minha vida na minha alma
quero dançar contigo esta harmonia de sentir
e saber-te em cada átomo, em cada elemento,
sentir-te bem fundo no meu ventre,
ser tua mãe e tua filha ao mesmo tempo, que é não ter tempo.

Quero ser a árvore e a semente, quero ser a terra lavrada
e por cima dela emergir para sempre:
como no mar me deitas e me embalas antes de nascer,
sempre nos teus braços,
recomeçar esta dança do ventre
da eterna bailarina
que neste mundo eu sou...

1 014
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Antecipadamente escorregadia

Nas sombras
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio

Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais

O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado

Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada

Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão
960
Maria do Carmo Lobato

Maria do Carmo Lobato

Fusão

É este sentimento que a mim me une a ti, Ana,
E que brame no imenso mar infinito do meu ser,
Que a mim me sacode o peito e a mim me acende e inflama
E com ele a mim me deleito pelo teu querer.

É este sentimento enorme que em mim se derrama
E punge no meu peito e arde e por ti chama
E em chama ardente queima e eu mim fogoso chama
Teu vigoroso nome, Ana, na conclama do meu ser que o pronuncia,

E a mim transcende o corpo e a mim me invade o espírito
E me unifico em ritos e grito com tua voz,
Que cala no meu peito urdido em grã silêncio,

Quem grã fala eloqüêntica me grita nossos nós,
Fundidos em fusão catártica e autêntica,
Silêntica unifico no seio nossos sós.

1 087
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - III

Áspero amor, violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado,
lança das dores, corola da cólera,
por que caminhos e como te dirigiste a minha alma?


Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias de meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumaça, mostraram minha morada?


O certo é que tremeu a noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,


enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas e espinhos
abriu no coração um caminho queimante.
1 183
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Minha Tiete

fiz uma leitura no último sábado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.

Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
1 302
Sylvio Persivo

Sylvio Persivo

Resquícios

Só me lembro de teus olhos brilhantes
Me dizendo coisas impossíveis de dizer
E de teu sorriso imenso, radiante
Se alimentando de todo o meu prazer.

Depois ...Lembrar ficou tão difícil
Na confusão de beijos e de abraços.
Tomei teu corpo, o que tornou-se vício,
E perdi os sentidos no gozo de teus braços.

E fui feliz, deus, louco e criança
Tanto que, sem música, criei a dança
Irreal que chamei de felicidade

E quando, enfim o real nos despertou,
Apesar da dor valeu, pois só quem amou
Teve, na vida, um pouco de Verdade!

850
C. Almeida Stella

C. Almeida Stella

Tango

Chorava um bandoneon
Num canto de bar.
Meu vestido vermelho
O cabelo preso numa flor,
E o tango falando de amor,
Contrastavam com a luz neon.
Nossos corpos em uníssono,
Um balë tão sensual...
Movimentos em compasso,
Acompanhavam cada passo
Deste tango figurado,
Como um estranho ritual.
Batia o coração descompassado!
Teus lábios sensuais me enfetiçavam,
Tuas mãos macias brincavam em mim
Como o vento brinca, namorando
As flores de um jardim.
Teus olhos escuros, meio ciganos,
Insinuavam promessas,
Dessas, que misturam
Amor, desejo, paixão e mais, muito mais...
Um perfume no ar
E abraçado ao violino
Solitário bailarino,
O bandoneon a chorar
Um velho tango de amor,
Naquele canto de bar!

1 034
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Desejo

Porque
me negar o desejo
Que nessa carne reclama,
De não provar de teu beijo
Se a libido é quem clama?

Porque te negar essa carne
Que de tão fresca te chama,
De saciar tua fome
Se a libido é quem clama?

Porque me negar à mistura
Que nessa carne se entrança,
De delirar na entrega
Se a libido é quem clama?

Porque adiar essa entrega
Que nesse medo se aplaina,
De saciar minha fome
Se a libido é quem clama?

Porque se a libido é quem chama
Que nessa fome se entrança,
Devo queimar nessa chama
Se ouvir o desejo que clama..

955
C. Almeida Stella

C. Almeida Stella

Descoberta

Um CD
uma música
nós dois
um clima
o amor

Noite de estrelas
perfume de madrugada...
sensualidade

A camisa de botões entreabertos
me dá uma pequena amostra
da tua masculinidade...

eu não resisto

e abrindo botão por botão
deixo cair no chão
este primeiro obstáculo

eu te desnudo...

e te toco
te invado
percorro os teus caminhos,
invento trilhas,
descubro o teu ponto G

eu te sinto...

sem atropelos
eu brinco nos teus pêlos,
ora tímida,
ora ousada...

minhas mãos no teu corpo
fazem a sua "Cavalgada".

Te exploro
te provoco
te causo alvoroço,

brinco no teu cabelo
na tua boca
no teu rosto

te acaricio o peito
tuas costas
teu pescoço.

Passeio na tua cintura...

e pouco a pouco
eu te deixo louco

te acarinho aqui,
ali primeiro,
te toco no corpo inteiro

te encho de desejo
te levo ao delirio
incendeio esse corpo teu.

Então eu te descubro...

Eu te possuo
já não és mais o menino.
És um homem
tão...e somente meu!

1 002
Carlos Queirós

Carlos Queirós

Erótica

A noite descia
como um cortinado
sobre a erva fria
do campo orvalhado.

e eu (fauno em vertigem)
a rondar em torno
do teu corpo virgem,
sonolento e morno,

pensava no lasso
tombar do desejo;
em breve, o cansaço
do último beijo...

E no modo como
sentir menos fácil
o maduro pomo
do teu corpo grácil:

ou sem lhe tocar
– de tanto o querer! –
ficar a olhar,
até o esquecer,

ou como por entre
reflexos do lago,
roçar-lhe no ventre
luarento afago;

perpassando os meus
nos teus lábios húmidos,
meu peito nos teus
brancos
seios
túmidos...

1 862
Calex Fagundes

Calex Fagundes

Tudo

Quando eu bebo,
bebo tudo.
O licor desejado e aquele
que ainda couber...

Talvez ainda sobre espaço para beber
para anestesiar a ressaca de ontem.
Penetrar no recinto dos fantasmas
e participar dele.

Saber-se na vertigem
das perdições inconcebíveis.
Saber-se à boca da sarjeta
os restos de lua e luz
confusa, difusa
das percepções da noite.

Sim, a visita de Netuno
com seus mares
com suas águas
onde tudo pode ser e nada é.

A ingestão do âmbar
o cheiro dos perfumes...

A náusea de saber-se
uma pequena tristeza
na multidão dos seres
na noite de todos os desesperos.

Quando eu como,
como tudo.
Como se buscasse saciar
a fome do mundo.

Como não fosse o amanhã
o construtor do prato feito.
Como se fosse necessário
criar a reserva para
as sete vacas do porvir.


Quando eu amo,
amo tudo.
Eu te quero,
e quero toda.

Quero beber e comer de ti
pois é essa a verdadeira sede
e fome a ser saciada.

Pois é esse o verdadeiro desejo
e não é só de prazer.
É a real necessidade de ter tudo
da mulher que amo.

E saber-se inteiramente contido
em cada gota de esperma,
saliva, sangue ou suor
por ti e por mim derramada
imolada, ofertada...
no perfeito ato de entrega.

Sem meias porções,
sem meias sensações
sem mascarar as ilusões
e sim esculpir na carne,
construir nas porosidades
de todos interstícios
a mistura de humores
o miscigenar de espíritos.

Assim, cada vez que eu te amar,
te amarei por inteiro
e você inteira.

E na explosão
meu gozo será com o teu
para dar todo impulso
e te encontrar.
flor escancarada,
pronta para germinar
e criar dentro de ti.

Quererei ser teu
dentro de ti. Vivo.
Vivo, carne, alma.
Ser.
Todo.
Teu.

1 300
C. Almeida Stella

C. Almeida Stella

Passeio

Blusa em organza branca
em transparência delicada
insinuando
mostrando tudo... mostrando nada

Botõezinhos perolados... semi-abertos
delicados...
guardam uma fronteira
entre a imaginação e a realidade
de caminhos inexplorados

Tua mão se perde na transparência
dessa diáfana blusinha.
Atravessa timidamente os limites
que os botõezinhos entreabertos deixam ver
e que o teu desejo... adivinha

Tua mão é macia
ela vai brincando,
acarinhando
invadindo a minha geografia
explorando vales, montes, planicies,
detendo-se um pouco aqui
um pouco ali,
desvendando caminhos nunca trilhados
criando atalhos...

Minha pele sente o teu toque,
a tua sedução
e no calor da tua mão
ela vibra
pede mais.

Em seu passeio sensual
tua mão desperta em mim
milhares de sensações
e aquela coisa tão louca
aquele grande desejo
de ter...

não somente a tua mão...
assim...
a me percorrer...
mas também... a tua boca!

871
Pablo Neruda

Pablo Neruda

1

Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.

Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.

Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
1 138
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os invulneráveis

Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?

Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.

Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.

É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
1 022
Edmilson

Edmilson

Um dia é pouco

Um dia vida minha, vou tirar você desta coisinha
e te envolver na guerra de novos abraços.
Sacar do calhamaço um último pedido e me esquecer de
ter te oferecido apenas o silêncio,
me esquecer de ter adormecido frente ao contra-senso
de esconder palavras...

Um dia bucetinha, vou colar você na ladainha
do desejo e cobrir de beijo teu mistério.
E aquele critério de mulher com classe irá por água abaixo
quando eu retirar do cacho tua vulva esperta
e detonar prazeres pelas labaredas deste corpo em chamas...

Um dia vagabunda vou ejacular na sua tumba
e desdizer que a flor da morte é mais fecunda que a dor da vida.
Vou chorar na despedida,
mas meu coração gelado
vai zombar do teu projeto mal pensado
de suicidar-se,
e desprezar os novos ares que te acolheram
e te arrastaram deste mundo louco...

Um dia, meu amor é pouco, um dia é muito pouco...

793
Calex Fagundes

Calex Fagundes

Um soneto

Preciso de você todos os dias;
todas as horas, todos os tempos.
Preciso de todos teus momentos
para chegar. de fato, às vias.

Preciso de teu fogo, de teu cio,
Preciso desfraldar os ventos.
Transcender ímpetos, rebentos,
Fazer-me macho, cobrir-te a fio.

Macho abusado, líquida fragrância
escorre de ti, minha fêmea louca.
Sonhos de carne, punhal de ânsia.

Pêndulo vibrante dentro da tua boca
transborda o visgo, última instância,
me tens e levas, oh pérola barroca.

1 626
Líria Bordinhão Dahlke

Líria Bordinhão Dahlke

Mãos, toques, desejos

Aquelas mãos em toques eternos
em alguns minutos apenas horas se tornaram
Eternos movimentos das pontas dos dedos
Procuravam retorno desejado presente na pele...

Cúmplices, entrelaçados
Numa imagem sem nome, sem entendimento
Sem cobranças
Somente sentimento e desejo

Adoradora química
Dos lábios fortes em toques essenciais
Que nem o melhor de todos que já tive
Poderia imaginar...

987
Liz Christine

Liz Christine

Romantismo

não desejo sua dor...
assistir o seu prazer
me faz descobrir...
você é meu amor
preciso te fazer...
e quero te ver
bem, alegre, satisfeito...
seu prazer me diz respeito
porque minha satisfação...
depende
da sua realização...
entende?

Meu romantismo
é o mais puro egoísmo...

Quero te ver realizado
Meu amor apaixonado
Não por você, mas por mim
Porque isso me dá prazer, só por isso... prazer,
prazer é o meu sentido! O que me guia, inspiração,
poesia, tesão, sexo... você é minha doce paixão!

1 051
Liz Christine

Liz Christine

Meu brinquedo

Você quer me algemar?
Me desnudar
Me cobrir
Com beijos
Em seu olhar
Faíscam desejos
Quero te amar
Sem medo
Quero ser
Seu brinquedo
Quero te ver
Me desvendando
Me fudendo
Com amor
Estou nua
Te dizendo
Sem pudor
Me possua
Me ame sem medo
E seja meu brinquedo

1 116
Liz Christine

Liz Christine

Orgia

Gemidos
Sussurro
Lábios, pele, beijo
Em seus ouvidos
Ainda procuro
Como descrever o que vejo?
O que sinto ao te ver
Em meio a essa orgia
Nunca quis te pertencer
Tão livre, e você nem sabia
Tudo que poderia
Encontrar
Experimentar
Em si mesma, você
Minha nudez
Meu prazer
Você vê
Um engano? Talvez
Eu queira ser
Sua, talvez, eu nem sei
O que eu senti?
Ao te ver me olhando
Você beijando alguém
Uma pessoa gemendo
E eu gozando
Quero o seu beijo, vem
Estou dizendo
Sussurrando
Meus lábios te procurando
E outro corpo me domina
Outra língua me fascina
Vários corpos, sua mão
E eu tento dizer
Eu te amo
Amo sua mão
Mas você nem vai saber
Que era pra você que eu falei
E foi então
Nesse exato momento
Que escutei
Algum pensamento
Alguém pensando em voz alta
"aquela ali, a ruivinha
a ruivinha é a mais tarada"
Eu, tarada?
Nem vou responder
Te amo calada
E nem vou me arrepender
De estar te pervertendo
Você não era assim
Se liberte em mim
Amor, orgia
Talvez algum dia
Você saiba que eu sentia

967