Poemas neste tema
Paixão
Patrícia Clemente
Sensatez
Se eu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do amor, tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria.
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.
Mas a paixão não quer a sobriedade,
Nem seriedade sabe o coração,
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.
E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol, pra me afiar os dentes
Do amor, tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria.
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.
Mas a paixão não quer a sobriedade,
Nem seriedade sabe o coração,
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.
E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol, pra me afiar os dentes
1 127
Antero de Quental
Intimidade
Quando, sorrindo, vais passando, e toda
Essa gente te mira cobicosa,
Es bela - e se te nao comparo a rosa,
E que a rosa, bem ves, passou de moda...
Anda-me as vezes a cabeca a roda,
Atras de ti tambem, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidao ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.
Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!
E nao te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor...
Essa gente te mira cobicosa,
Es bela - e se te nao comparo a rosa,
E que a rosa, bem ves, passou de moda...
Anda-me as vezes a cabeca a roda,
Atras de ti tambem, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidao ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.
Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!
E nao te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor...
2 482
Réca Poletti
Caminhando
vou abocanhando leve
as peles morenas
ou pálidas
vou deitando
em cada uma
me plantando
em cada corpo
vou beijando
bocas pretas
e vermelhas
e tocando as línguas quentes
vou bebendo
todos os amores
cuspindo
todos os venenos.
as peles morenas
ou pálidas
vou deitando
em cada uma
me plantando
em cada corpo
vou beijando
bocas pretas
e vermelhas
e tocando as línguas quentes
vou bebendo
todos os amores
cuspindo
todos os venenos.
957
Antero de Quental
Pepa
Dá-me pois olhos e lábios;
Da-me os seios, da-me os bracos;
Da-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abracos!
Empresta-me a voz ingênua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!
Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!
Presta-me a tua inocência,
Para eu ir ao ceu voar...
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!
Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Da-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;
Por que, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Nao posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!
Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Por que eu tenho um lírio douro
Há três anos por abrir,
E, se Ihe deres um riso,
Há-de cuidar que e a aurora...
E talvez que o lírio se abra,
Talvez que se abra nessa hora!
Por Alá, minha palmeira!
Quando ao sol me for deitar,
Faze sombra do meu lado...
Por que eu quero-te abracar!
Damor te requeiro, ondina,
Quando te fores a erguer,
Ver-te no espelho das fontes...
Por que eu quero-te beber!
Da-me os seios, da-me os bracos;
Da-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abracos!
Empresta-me a voz ingênua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!
Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!
Presta-me a tua inocência,
Para eu ir ao ceu voar...
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!
Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Da-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;
Por que, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Nao posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!
Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Por que eu tenho um lírio douro
Há três anos por abrir,
E, se Ihe deres um riso,
Há-de cuidar que e a aurora...
E talvez que o lírio se abra,
Talvez que se abra nessa hora!
Por Alá, minha palmeira!
Quando ao sol me for deitar,
Faze sombra do meu lado...
Por que eu quero-te abracar!
Damor te requeiro, ondina,
Quando te fores a erguer,
Ver-te no espelho das fontes...
Por que eu quero-te beber!
1 884
Angela Melim
Um amor impossível
para Márcia
Amanhã
este fogo cresce.
Amanhã, tremor
Amanhã, suspiro.
Insiste
um amor impossível
amanhã.
Insiste,
sim.
Um amor impossível pode ser amanhã.
Amanhã
este fogo cresce.
Amanhã, tremor
Amanhã, suspiro.
Insiste
um amor impossível
amanhã.
Insiste,
sim.
Um amor impossível pode ser amanhã.
1 341
Maria Teresa M. Carrilho
Como uma flor vermelha, a abrir
Na noite pálida
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor
O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor
Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor
Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor
O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor
Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor
Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...
789
Luís Delfino
A Primeira Lágrima
Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,
Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e douro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.
Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.
E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados..
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,
Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e douro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.
Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.
E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados..
1 755
Antero de Quental
Beatrice
Nem visao, nem real: amor! amor somente!...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
3 496
Hilda Hilst
Fragmentos
Muros castos e tristes
Cativos de si mesmos
Como criaturas que envelhecem
Sem conhecer a boca
De homens e mulheres.
Muros Escuros, tímidos:
Escorpiões de seda
No acanhado da pedra.
Há alturas soberbas
Danosas, se tocadas.
Como a tua própria boca, amor,
Quando me toca...
Cativos de si mesmos
Como criaturas que envelhecem
Sem conhecer a boca
De homens e mulheres.
Muros Escuros, tímidos:
Escorpiões de seda
No acanhado da pedra.
Há alturas soberbas
Danosas, se tocadas.
Como a tua própria boca, amor,
Quando me toca...
1 667
Luís Delfino
Que Vos Daria?
Se tiverdes um dia um capricho, senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
1 332
Valéry Larbaud
Noturno
Os teus noturnos lábios débeis pedem
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
980
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nossa Senhora da Piedade
Acolho-te em meus braços
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
1 058
Lígia Diniz
Por Você
Mas o que sinto acima de tudo é medo
Eu, o girassol mais antigo
A catedral mais imponente
A torre mais forte
desmoronou por você
As dunas mais firmes
desmancharam no vento (você)
O mar mais bravio
se acalmou (por você)
A floresta mais viva
queimou (com você)
O sussurro mais suave
virou um grito (em você)
A mulher mais madura
A criança mais leve e alegre
A mais fiel amiga
A mais corajosa e perseverante,
Eu
Caí por você.
Eu, o girassol mais antigo
A catedral mais imponente
A torre mais forte
desmoronou por você
As dunas mais firmes
desmancharam no vento (você)
O mar mais bravio
se acalmou (por você)
A floresta mais viva
queimou (com você)
O sussurro mais suave
virou um grito (em você)
A mulher mais madura
A criança mais leve e alegre
A mais fiel amiga
A mais corajosa e perseverante,
Eu
Caí por você.
815
Luiza Amélia de Queiroz
O homem não ama
Jamais o seu peito mais duro que o aço,
Palpita a não ser a louca ambição.
Supõe-se - orgulhoso - que é soberano,
Que todas as belas vassalas lhe são!
Mais falso que a brisa que as flores bafeja,
Se mil forem belas... a mil finge amar...
Assim um já disse, e assim fazem todos,
Embora não queiram jamais confessar,
Cruéis, como Nero, são todos os homens!
Ateiam as chamas de ardente paixão,
Depois... observam, sorrindo, os estragos...
E dizem, cobardes! que têm coração!!
(De Flores Incultas, 1875)
1 455
Lígia Diniz
Querer
Há certas coisas que não cabem em uma linha
Não cabem em uma estrofe
Não cabem em um poema,
em mil poemas.
Não cabem em uma idéia
Não cabem em uma alma,
em um corpo, em mil corpos
Há certas coisas que se chamam,
sem se chamar - não cabem em um nome -
Se chamam fogo.
Não cabem em uma estrofe
Não cabem em um poema,
em mil poemas.
Não cabem em uma idéia
Não cabem em uma alma,
em um corpo, em mil corpos
Há certas coisas que se chamam,
sem se chamar - não cabem em um nome -
Se chamam fogo.
1 035
Angela Santos
Cismos
Eu
havia prometido que a palavra estancaria.
Prometi
mas nem todas as promessas são cumpriveis,
a fortaleza da razão cede ao terramoto do coração.
Veloz e livre corre o pensamento, porque é livre....
e livre das amarras da lógica e da razão
sai desgarrado potro livre, selvagem, indomável....
Que fazer se o coração de si mesmo é senhor?
Este alvoroço, essa revolução dos sentidos,
acordaram de repente,
à força não sei de quê,
o vulcão adormecido.
Não sei a extensão do cismo, nem das fendas que abriu
não sei o mal que causou,
se algum mal deixou...
dele só conheço agora
o bem , que ao passar, em mim deixou
havia prometido que a palavra estancaria.
Prometi
mas nem todas as promessas são cumpriveis,
a fortaleza da razão cede ao terramoto do coração.
Veloz e livre corre o pensamento, porque é livre....
e livre das amarras da lógica e da razão
sai desgarrado potro livre, selvagem, indomável....
Que fazer se o coração de si mesmo é senhor?
Este alvoroço, essa revolução dos sentidos,
acordaram de repente,
à força não sei de quê,
o vulcão adormecido.
Não sei a extensão do cismo, nem das fendas que abriu
não sei o mal que causou,
se algum mal deixou...
dele só conheço agora
o bem , que ao passar, em mim deixou
903
Lígia Diniz
Enquanto
Por me dares sempre teu riso
Por me dares sempre teus olhos
Por me dares sempre tua boca,
E tomares a minha, sempre.
Por me embebedares com palavras
E por deixar-me te dopar com as minhas
Por beberes minhas frases,
Minha falas, meus sons.
Por me sentir em teus braços
Por me sentires em teus braços
Por meus braços te sentirem
Por ser em ti sem mim
Por não seres meu, por não ser tua,
Quero sempre ser pois tenho medo.
Por me dares sempre teus olhos
Por me dares sempre tua boca,
E tomares a minha, sempre.
Por me embebedares com palavras
E por deixar-me te dopar com as minhas
Por beberes minhas frases,
Minha falas, meus sons.
Por me sentir em teus braços
Por me sentires em teus braços
Por meus braços te sentirem
Por ser em ti sem mim
Por não seres meu, por não ser tua,
Quero sempre ser pois tenho medo.
823
Lêdo Ivo
Os Peixes
Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
1 638
Angela Santos
Dança
E
se um dia eu chegasse
ao jeito dos bandidos,
e sem notícia,
acordasse os teu sentidos?
Há um corpo que vibra em segredo
o teu,
e o meu que o pressente
sem ousar arrancar-te ao sono
e trazer-te para a praça
onde Afrodite nos convida
a entrar na dança…
Vem que se adivinha
no teu olhar negro, fugidio
a indiferença simulada
do desejo.
Vem!
é tempo de acontecer
amor!
se um dia eu chegasse
ao jeito dos bandidos,
e sem notícia,
acordasse os teu sentidos?
Há um corpo que vibra em segredo
o teu,
e o meu que o pressente
sem ousar arrancar-te ao sono
e trazer-te para a praça
onde Afrodite nos convida
a entrar na dança…
Vem que se adivinha
no teu olhar negro, fugidio
a indiferença simulada
do desejo.
Vem!
é tempo de acontecer
amor!
1 072
Cláudio Alex
Quem é aquela mulher?
Deixe que eu te leve no sonho.
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.
Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.
Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.
Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.
Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.
Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.
Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?
852
Angela Santos
Cansaço
Desejado
Nas
dobras dos lençóis de linho
exala-se um suspiro
que enche a tarde de languidez
e paz
Aromas de paixão soltos pelo ar
corpos que se abandonam
à volúpia e ao amor.
A serenidade sobrevem
ao cansaço desejado
e invade a tarde morna que cai
Longe do mundo e tão perto de si,
dois corpos amantes esquecem que há tempo
e retêm só o mágico instante
do total abandono
de seus corpos irmãos no reencontro.
Nas
dobras dos lençóis de linho
exala-se um suspiro
que enche a tarde de languidez
e paz
Aromas de paixão soltos pelo ar
corpos que se abandonam
à volúpia e ao amor.
A serenidade sobrevem
ao cansaço desejado
e invade a tarde morna que cai
Longe do mundo e tão perto de si,
dois corpos amantes esquecem que há tempo
e retêm só o mágico instante
do total abandono
de seus corpos irmãos no reencontro.
1 080
Angela Santos
Eros
A
face juvenil de Eros
levemente roça o corpo de Vénus
fundem-se nos olhos
e resplandecem
incêndios crepúsculos
nas bocas, nas mãos nos corações
frementes
E sempre, assim, acontece
no momento do encontro
nesse mágico instante
de dois olhares que atravessam
do que houver para atravessar
alma, mares, muros, espadas…
vencido o Amor não será
Como força que nasce
não se sabe bem de onde
como vaga que nos leva
à orla de um oceano
como vulcão que incendeia
o peito e o corpo todo,
assim Eros renascido
com seu rosto de menino
se roça em nós como em Vénus
E nada então é maior do que o amor
que em si junta beleza,
erotismo vida
no instante único em que o amor
se transmuda em amar!
face juvenil de Eros
levemente roça o corpo de Vénus
fundem-se nos olhos
e resplandecem
incêndios crepúsculos
nas bocas, nas mãos nos corações
frementes
E sempre, assim, acontece
no momento do encontro
nesse mágico instante
de dois olhares que atravessam
do que houver para atravessar
alma, mares, muros, espadas…
vencido o Amor não será
Como força que nasce
não se sabe bem de onde
como vaga que nos leva
à orla de um oceano
como vulcão que incendeia
o peito e o corpo todo,
assim Eros renascido
com seu rosto de menino
se roça em nós como em Vénus
E nada então é maior do que o amor
que em si junta beleza,
erotismo vida
no instante único em que o amor
se transmuda em amar!
1 220
Cláudio Alex
Metamorfose Blues
O pensamento, essas mãos remotas
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
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Angela Santos
Eva
Mordo
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva
Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva
Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.
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