Poemas neste tema

Paixão

José Bento

José Bento

Primeiro é abraçá-la

Primeiro é abraçá-la e apalpá-la,
e num instante com beijos entretê-la.
Primeiro é provocá-la e encendê-la.
depois lutar com ela e derrubá-la.
Primeiro é insistir e arregaçá-la,
as pernas pondo entre as pernas dela.
Primeiro é acabar isto com ela,
depois vem o deleite de gozá-la.
Não fazer, como soem os casados,
mais que chegar e achá-la preparada:
de tão doce, dá fome verdadeira.
Hão-de ser os deleites desejados;
se não, não dão prazer nem valem nada,
pois não há quem o barato comprar queira.
1 169
José Bento

José Bento

Que fazeis, bela

- Que fazeis, bela? - Olho-me a este espelho.
- E porquê nua? - Pra melhor olhar-me.
- E em vós que vedes? - Que quero gozar-me.
- E porque não vos gozais? - Sem aparelho?
- O que vos falta? - Quem seja em amor velho.
- Pois, que sabe esse fazer? - Sab'rá forçar-me.
- E como vos forçará? - Com abraçar-me,
sem esperar licença nem conselho.
- E não resistireis? - Bem pouca coisa.
- Para quê tanto? - Menos que aqui digo;
que ele me saberá vencer, se é atilado.
- E se foge, por ver-vos pudorosa?
- Hei-de ter esse tal por inimigo,
vil, parvo, mole, pouco abonado.
1 081
Chico Buarque

Chico Buarque

O que será

(À flor da terra)

Chico Buarque e Milton Nascimento 1976

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decéncia, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abbençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

1 879
Ângelo de Lima

Ângelo de Lima

Eu ontem vi-te…

Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.
1 751
Marcelo Batalha

Marcelo Batalha

Naquela Noite

Pareces mais alta do que és
Mais pela alteza que pela altura.
Naquele noite contemplei no teu sorriso
Todo o meu amor arraigado ;
Tentei registrá-lo em vão.
Tu não mereces a foto que tirei...
Me dirigiste poucas palavras, mas
Teus cabelos molhados falaram bastante.
A clara morenice brilhou dentre tantas,
A voz grave fez solo entre os artistas,
O jeito arredio levou a ribalta para o cantinho da sala.
Haja folego ! Juventude madura,
Olhos de diamante, plácida beleza,
Meu mundo está a teus pés !

790
Francisco Batista de Lima

Francisco Batista de Lima

Kalynos

E os sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repetente erguem-se, — e os mais amantes
as prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
(Américo Faço, in Os Sátiros)

Se o vento
que me beija a boca,
beijasse também a tua,
então, extáticos, beijar-nos-íamos,
in ævo.

Se o desejo que te fela o sexo,
fosse o teu desejo que é o meu
avidamente também fela,
então, no símbolo do câncer,
felar-nos-ímos...

A realidade, porém, é bem outra:
asperges-me com teu hissope vivificador
e na floresta, teu pai, vetusto sátiro
toca sua flauta concupiscente

e encante, e enlouquece,
e possui a Ninfa que em mim
hás encarnado pelos sortilégios —
ao sabor da ambrosia,
ardente beijo famélico & rude —
que a velha Grécia tos ensinou.

850
Bastos Portela

Bastos Portela

Maldita

A uma fidalga egoísta

Passas... E, ao ver-te, a multidão murmura,Numa febril agitação: - "É ela!Como é divina! E que ideal canduraO seu olhar dulcíssimo revela!...

E dizem outros: - "Haverá donzelaQue seja assim tão divinal e pura,Ou que tenha - tão simples e singela! -O mesmo encanto e a mesma formosura?!"

Todos te exalçam, meu amor... Entanto,Ninguém dirá que te maldigo tantoE que no peito, infelizmente, encerro

O desespero atroz de um desvairadoQue luta, em vão, aflito e apaixonado,Para vencer teu coração de ferro!

982
Bastos Portela

Bastos Portela

Do Nosso Livro

I
Quando acaso, divina, se levanta
Para mim, teu olhar meio e profundo,
Eu penso que outro olhar que tenha tanta
Beleza assim, não haja neste mundo!

Outras vezes com as santas te confundo...
E juro que esse olhar que me quebranta,
Foi, por capricho, feito assim segundo
O modelo do olhar de alguma santa!

Ai! nem sei te dizer como é divino
Esse olhar de celeste e doce encanto
Em que vejo luzir o meu destino...

- Esse olhar ideal de ardentes lumes,
Que eu odeio, maldigo, e adoro tanto
Na confusão do amor e dos ciúmes!

II

Vês?... eu não posso te fitar!... Entanto,
Muitas vezes nos teus meus olhos fito;
Pois nunca vi olhar assim maldito
Que me encantasse e me atraísse tanto!

Fujo-te, as vezes, com rancor; e, enquanto
De ti me esquivo e o teu olhar evito,
Blasfemo, e choro, e me lastimo, aflito,
Por te não ver, ó meu divino encanto...

E volto, enfim! Mas, se outra vez consigo
Fugir ao fogo desse olhar malvado,
Torno a chorar por te não ver comigo!

E vivo assim nesse penas eterno,
- Desse modo vencido e dominado
Por esse amor que mais parece um inferno!

921
Marcelo Batalha

Marcelo Batalha

Rainha

Suas pernas
que assombram, santas cruzadas
que desvendam curvas tão amadas
Me convocam
Me amordaçam
Me derretem por inteiro, em vão

Seus lábios
que entoam o sons de maior beleza
que tremem, à toa, por incerteza
Me desejam
Me cortejam
Me ferem, longe dos meus

Seus olhos
que brilham, pelos meus, na multidão
que vigiam, com rigor, meu pobre coração
Me provocam
Me paralisam
Me remetem às grandes loucuras

Como podem pertencer a outrém ?
Quem pode desejá-la com tal ardor ?

Rainha, estrela do meu tormento
Sem você não sou ninguém
Ouve agora esse meu lamento
Mal conheço a face do amor...

826
Marcelo Batalha

Marcelo Batalha

Com desejo

Peão...
Sossego ?
Sem calma : sempre a bola
da vez. Chicote
no couro, à beira,
ao largo - no fio -
do rio
no frio amargo
peneira o ouro.
Fracote não tem vez !
Imola sua alma...
Pelego ?
Peão !

A dama,
virtude
de amor inconteste,
é revolta, chaga,
de paixão quase inerte
que aguarda, por sorte,
que o forte
aborte a guarda,
liberte o peão,
o traga de volta,
e reempreste calor
e plenitude
à cama.

E que, então, os dois,
em comunhão,
rejam os hinos
de um ardoroso balanço,
arfando, no peito,
aquele amar arraigado,
procurado,
saciado: um uno par
satisfeito, quando,
no remanso do gozo,
como meninos, deixam
a obrigação
- e a razão - para depois.

743
Tamara Baroni

Tamara Baroni

Cobiça

O ventre morbido
frémito na garganta
nos olhos em relampagos
fogos cintilam as facas e
eu, confundida de medo, alegria,
ainda de vida..., conheço a cobiça
entendo o aperto do corpo meu
cumplice, amigo. Não posso.
Em lava de ardente flash back
me abro a torrentes celestes:
te quero.Não devo. Me tenta mais
o desejo que o fato. O sexo
que me queima: te quero. Te agarro. Não
posso... que absurdo! Jogamos entre
nós un jogo de olhos. Tua pele
me tenta. Me tenta
o respiro. Me dobro ao desejo
ao violento sabor meu novo
mestre de amor mais novo
meu cúmplice amigo.

728
Angela Santos

Angela Santos

Reconstrução

Prende-me
ao tempo
despido de história,
à memória branca,
à leveza de ser…

Prende-me a ti
desassossego, caos
viagem, maré ……

E desfaz-me, depois
para que me despoje e faça
à imagem do eu
que tiver que ser.

1 150
Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

99.

Um selinho mais doce que doce ambrosia,
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?


Surripui tibi, dum ludis, mellite Iuventi,
suaviolum dulci dulcius ambrosia.
verum id non impune tuli: namque amplius horam
suffixum in summa me memini esse cruce,
dum tibi me purgo nec possum fletibus ullis
tantillum vestrae demere saevitiae.
nam simul id factum est, multis diluta labella
guttis abstersisti omnibus articulis,
ne quicquam nostro contractum ex ore maneret,
tamquam commictae spurca saliva lupae.
praeterea infesto miserum me tradere amori
non cessasti omnique excruciare modo,
ut mi ex ambrosia mutatum iam foret illud
suaviolum tristi tristius elleboro.
quam quoniam poenam misero proponis amori,
numquam iam posthac basia surripiam.



1 357
Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

51.

Ele me parece igual a um deus,
ele – que digo? – até supera os deuses,
que, sentado à tua frente, sem parar
te olha e te escuta

o doce riso; ai, ai, pobre de mim
que perdi a cabeça: pois assim
que te vi, Lésbia, não sobrou nenhuma
palavra em minha boca e,

a língua imóvel, pelo corpo arde
um fogo lento, os tímpanos tilintam
com a própria vibração, enquanto a noite
apaga a luz dos olhos.

O ócio, Catulo, é o teu veneno;
no ócio exultas, todo te transbordas;
o ócio reinos bem-aventurados
e reis desventurou.



Ille mi par esse deo videtur,
ille, si fas est, superare divos,
qui sedens adversus identidem te
spectat et audit

dulce ridentem, misero quod omnis
eripit sensus mihi: nam simul te,
Lesbia, aspexi, nihil est super mi
vocis in ore,

lingua sed torpet, tenuis sub artus
flamma demanat, sonitu suopte
tintinant aures, gemina teguntur
lumina nocte.

Otium, Catulle, tibi molestum est:
otio exsultas nimiumque gestis:
otium et reges prius et beatas
perdidit urbes.



3 197
Renato Rezende

Renato Rezende

[Rapina]

É a poesia que traz o homem para a terra.

Tempo estilhaçado.

Maneira de nunca mais pensar:

Passe um dia inteiro numa praia.

Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:

Saiba apodrecer.

Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.

Um dia abandono a casa iluminada.

Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.

Tudo está solto.

Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.

Não queimaria se não fosse fogo.

Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.

Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.

A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.

Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.

Estou apaixonado.

Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.

O fim do fim.

Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora

Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.

Caia nesse espaço

Até a morte:

Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa

(pois eu já não sou eu)

Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)

Escrevo para morrer.

Então tá, não sou poeta.

Minha pátria é minha língua.

Umbela Joeira

CONVENTO:

Meu reino

teândrico

O poeta é um b-urubu.

Bífido.

Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
948
Antônio Ribeiro dos Santos

Antônio Ribeiro dos Santos

Ode Anacreôntica

Amor se queixa
Que está roubado;
Que os farpões, Nize,
Lhe tem furtado.

Em ira aceso,
Qual fero Marte
Te busca, ó Nize,
Por toda a parte.

Ah! tem jurado,
Que se te alcança,
Há de tomar
Crua vingança.

Mas tu não fujas,
De Amor não temas
Nem seta, ou dardo,
Ou vis algemas.

Se ele vier
Com fero ardor,
Põe-te risonha,
Ri-te de Amor.

Desses teus olhos
Com um só mover
O bravo Amor
Podes vencer.

Se contra ti
Os céus armar,
Dos deuses todos
Podes zombar.

Cum só volver
Dos olhos teus
Podes vencer
Amor e os céus.

1 043
Renato Rezende

Renato Rezende

[Ossos]

Eu fazia, fazia e continuava com a sensação de ser nada. Vazio. Enquanto você, sem fazer nada, era. É. Me ensina a ser, assim, já sendo—sem esse constante vir a ser.

Segure o Amor e solte todo o resto.

Solta.

Tudo é perfeito habitando o Amor,

Amor,

Eu te mando pelo correio um grande coração de chocolate, para você devorar de olhos fechados, como se fosse o meu próprio coração apaixonado.

[depois me manda de volta,
num potinho,
o resultado do meu amor no seu sistema digestivo]

eu te amo desta forma ardente porque sei que nosso amor nunca
vai se realizar

eu te amo porque você é impossível
eu te faço impossível para poder te amar

eu gozo no impossível

eu quero o impossível

[eu sou um poeta místico?]

(Fecho os olhos e me deito sob o sol, fora do tempo, sem história ou linguagem)

Meus olhos estão leves, como se flutuassem fora do corpo.

Sou um homem casto e uma mulher devassa

Com doçura imagino ser devorado por demônios, enormes insetos cegos com garras, até que só restem os ossos, o esqueleto ardente

O sol explode no centro do meu coeur.

O mago ordenou entoando em língua de mortos

que cortassem meu corpo
limpassem meus ossos
recobrindo tudo
com carne nova

Vi o corpo todo em fogo. É preciso incendiar o corpo. Preciso
explodir no aqui.
Emergir do lado de lá.

Como reinventar-se? Como dar nascimento a si mesmo?

Não na linguagem, mas no próprio ser?

O corpo é a linguagem.

Quem inspira e expira em mim agora são meus pés.
1 013
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

Do Amor Final

Nos dejúrios do amor, quando dizemos
Tudo o que salva a humana condição,
A vida fica em grã levitação,
Mas, quase sempre, tontos, nos perdemos.

Quem não teve do amor a sagração?
Em nosso maisquerer, todos sofremos.
Quantas mágoas e penas recebemos
Ao sentirmos a força da paixão!

E agora vens, ó última esperança!
No fim da tarde, bailo a contradança
Das pavanas gentis de teu olhar.

No pas de deux que une as nossas almas,
Chegas plena de Deus e então me acalmas
E me mostras as ilhas de teu Mar.

1 368
Erich Fried

Erich Fried

O que é

É louco
diz a razão
É o que é
diz o amor
É desastroso
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desesperado
diz a inteligência
É o que é
diz o amor
É ridículo
diz o orgulho
É inconsequente
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor
Was es ist
Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinnig
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe
3 215
João Lobeira

João Lobeira

Senhor gentil

Senhor gentil,
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
       Leonoreta,
       fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
       nom me meta
       em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
       Leonoreta,
       fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
       nom me meta
       em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
       Leonoreta,
        fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
        nom me meta
        em tal coi[ta] voss'amor!
633
Domingos Carvalho da Silva

Domingos Carvalho da Silva

O Pastor de Hienas

Madrugada madrugada
fugirei de madrugada
com um sol em cada nuvem
e uma lua em cada estrada.
Levarei nas mãos a grade
da cela em que encerrei.
Fugirei de madrugada
contigo ou outra qualquer
pra violar os caminhos
que pelo mundo se perdem.

Fugirei de madrugada
entre embarcações do porto:
os pulsos cheios de sangue,
veias rotas pelo corpo.
Fugirei do teu abraço.
Fugirei do teu castigo.
Abraçarei as hienas.
Queimarei medas de trigo.

Serei fantasma nos campos.
Morto nas encruzilhadas.
Só os corvos hão de encontrar
o meu corpo, que abraçavas...
Fugirei de madrugada
como um ciclone inclemente,
beijando o ventre das águas,
como beijava o teu ventre.

Madrugada madrugada
Esponja que apaga estrelas.
Fugirei de madrugada
estilhaçando as algemas.
Irei como um incendiário
com o olhar em labaredas
e a mão erguida agitando
o facho de teus cabelos.


Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).

In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
1 186
Angela Santos

Angela Santos

Cansaços

Verde
planície,
teus olhos
teu corpo
doce orvalho em minha pele

Meu sol a pino
flamejante a tua língua
arrastando do meu corpo
exausto
restos de frio.

625
Ruy Guerra

Ruy Guerra

Tatuagem

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Eu quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo te alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teo braço
Repousa frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Eu quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Eu quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo mas não sentes

1 326
Paulo Eiró

Paulo Eiró

Surpresa

Achei-a reclinada, em desalinho
(Só de nisso pensar, quase endoideço!),
Tal como pombo cândido e travesso
Por entre a loura palha de seu ninho.

Ergue a cabeça e, vendo-me sozinho,
Aos ombros lança um chale pelo avesso,
Gritando-me: "Sai!" Não obedeço,
Que um "Ficai!" em seus olhos adivinho.

Delirante, o seu peito mal composto
Aperto, beijo os dedos de veludo,
A espraiada madeixa, o belo rosto.

Diz-me corando, enquanto a adoro mudo,
E sua voz penetra-me de gosto:
"Já que parte entrevistes, dou-vos tudo!".


Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 698