Poemas neste tema
Amor Romântico
Fernando Pessoa
CANÇÃO ABRUPTA
CANÇÃO ABRUPTA
O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual
Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)
Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual
Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)
Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
1 360
António Ramos Rosa
No Vértice Obscuro do Encontro
Como se abre um corpo? Como as águas descem
da tua cintura, como as mãos cegas se incendeiam?
Até ao vértice escuro do encontro, até à terrível margem
da sede. Um negro peixe do fundo gira entre os limos.
Entro no redemoinho: toda a sombra é meu corpo.
Eleva-se o amor com seus tentáculos para fundar a vertigem.
Quem cai em mim, quem ascende em minhas veias?
Obscura é a gruta, obscuras as delícias.
Um odor perfeito, um odor animal desprende-se da terra.
As raízes do corpo têm a força dos deuses.
Como se conquistássemos uma colina próxima do sol,
somos um corpo na veemente limpidez da água.
Distinguimos na luz uma luz desconhecida.
Que nitidez de alegria nas veias silenciosas!
Das gargantas da sombra sobem folhas ligeiras.
da tua cintura, como as mãos cegas se incendeiam?
Até ao vértice escuro do encontro, até à terrível margem
da sede. Um negro peixe do fundo gira entre os limos.
Entro no redemoinho: toda a sombra é meu corpo.
Eleva-se o amor com seus tentáculos para fundar a vertigem.
Quem cai em mim, quem ascende em minhas veias?
Obscura é a gruta, obscuras as delícias.
Um odor perfeito, um odor animal desprende-se da terra.
As raízes do corpo têm a força dos deuses.
Como se conquistássemos uma colina próxima do sol,
somos um corpo na veemente limpidez da água.
Distinguimos na luz uma luz desconhecida.
Que nitidez de alegria nas veias silenciosas!
Das gargantas da sombra sobem folhas ligeiras.
1 067
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
953
Fernando Pessoa
Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
2 030
Gláucia Lemos
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
1 002
Fernando Pessoa
Eu tenho um colar de pérolas
Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
2 992
Fernando Pessoa
Morto, hei-de estar a teu lado
Morto, hei-de estar a teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
1 400
Fernando Pessoa
Menina de saia preta
Menina de saia preta
E de blusa de outra cor,
Que é feito daquela seta
Que atirei ao meu amor?
E de blusa de outra cor,
Que é feito daquela seta
Que atirei ao meu amor?
1 620
Fernando Pessoa
Corre a água pelas calhas
Corre a água pelas calhas
Lá segundo a sua lei.
Pareces, vista de lado,
Aquela que te julguei.
Lá segundo a sua lei.
Pareces, vista de lado,
Aquela que te julguei.
846
Fernando Pessoa
O heavy day that comes with so much glee
O heavy day that comes with so much glee
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.
O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.
My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.
He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.
Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.
Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.
O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.
My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.
He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.
Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.
Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
1 463
Fernando Pessoa
LE MIGNON
Let them speak ill of me. I do not care
Why shouldst thou care that fairer art than I?
My lips so oft have rested on thy hair,
So oft on thy lips, and so oft
On thy white arms that yet pretend to lie
On my dreams cushions like a vague thing soft...
Let them speak. Life is sweet if thy lips mean
Life. Love is sweet if thou art love.
The scorners cannot know what kisses screen
Our throbbing heart from heart nor prove
That full possession our mad love can scene
With perverse actions like an empire's end
That sinks among the galleys and doth blend
Its sunset with the landscape's emerald green.
Let them speak. Put thy hand within my hand
And let us love as maid and boy are said
To love. But we are none and love is red
On our hot souls thrill and understand.
Oh, to thy bed!
Oh to thy bed, fairer than maidens' couches
And curtained over with strange care for strangeness,
Let's to thy bed and kiss naked while touches
Selected from our hotter dreams transcend
Lust with thought lust acted upon our frames.
The magic misery of our wedded names
Shall light the future with impassioned strangeness.
Antinous!
Why shouldst thou care that fairer art than I?
My lips so oft have rested on thy hair,
So oft on thy lips, and so oft
On thy white arms that yet pretend to lie
On my dreams cushions like a vague thing soft...
Let them speak. Life is sweet if thy lips mean
Life. Love is sweet if thou art love.
The scorners cannot know what kisses screen
Our throbbing heart from heart nor prove
That full possession our mad love can scene
With perverse actions like an empire's end
That sinks among the galleys and doth blend
Its sunset with the landscape's emerald green.
Let them speak. Put thy hand within my hand
And let us love as maid and boy are said
To love. But we are none and love is red
On our hot souls thrill and understand.
Oh, to thy bed!
Oh to thy bed, fairer than maidens' couches
And curtained over with strange care for strangeness,
Let's to thy bed and kiss naked while touches
Selected from our hotter dreams transcend
Lust with thought lust acted upon our frames.
The magic misery of our wedded names
Shall light the future with impassioned strangeness.
Antinous!
1 486
Liz Christine
Mais
Quero dormir
Esquecer
Escrever
Sorrir
Lua cheia
Que semeia
Não quero te exaurir
Chega de gozar
Pare de provocar
E vamos dormir
Mas se você aguentar
Por que não...
até o dia clarear?
Esquecer
Escrever
Sorrir
Lua cheia
Que semeia
Não quero te exaurir
Chega de gozar
Pare de provocar
E vamos dormir
Mas se você aguentar
Por que não...
até o dia clarear?
1 061
Jean de La Fontaine
Epigrama
Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os prazeres são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.
De prazeres que não separo.
A volúpia e os prazeres são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.
3 633
Fernando Pessoa
Ao teu seio irei beber
Ao teu seio irei beber
O conforto de sofrer.
O conforto de sofrer.
1 325
Rodrigo de Souza Leão
Os segredos de Raimunda Toada
Desnudou-se toda a realidade,
Posso vê-la desnuda flor,
Tão intensa a flor do amor.
Digo-te isso sem maldade.
Minha paixão feminina.
Dos prazeres é sacerdotisa,
Toca em mim feito brisa.
Me banha tal água cristalina.
Ó sublime paz que me devora,
Ao vê-la cavalgando corcunda.
Beleza em seu corpo mora.
Mas prefiro, sincero sua bunda.
Por isso Raimunda Toada.
Empina, mostra a bundinha danada.
Posso vê-la desnuda flor,
Tão intensa a flor do amor.
Digo-te isso sem maldade.
Minha paixão feminina.
Dos prazeres é sacerdotisa,
Toca em mim feito brisa.
Me banha tal água cristalina.
Ó sublime paz que me devora,
Ao vê-la cavalgando corcunda.
Beleza em seu corpo mora.
Mas prefiro, sincero sua bunda.
Por isso Raimunda Toada.
Empina, mostra a bundinha danada.
741
Leila Mícollis
Poema ao mais recente amor
Estar entre teus pêlos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer;
beber parte de teus líquens e teus rios
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer;
beber parte de teus líquens e teus rios
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
845
Ovídio
Os amores, V: 1-1, 9-26
Era intenso o calor, passava do meio dia;
Estava eu em minha cama repousando.
(...) Eis que vem corina numa túnica ligeira,
Os cabelos lhe ocultando o alvo pescoço;
Assim entrava na alcova a formosa Semiramis,
Dizem, e Laís que amaram tantos homens.
Tirei-lhe a túnica, mas sem empenho de vencer:
Venceu-a, sem mágoa, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa, ali diante de meus olhos.
Em seu corpo não havia um só defeito.
Que ombros e que braços me foi dado ver, tocar!
Os belos seios, que doce comprimi-los!
Que ventre mais polido logo abaixo do peito!
Que primor de ancas, que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi não louvável,
E lhe estreitei a nudez contra o meu corpo.
O resto, quem não sabe? Exaustos, repousamos.
Que outros meios-dias me sejam tão prósperos.
Estava eu em minha cama repousando.
(...) Eis que vem corina numa túnica ligeira,
Os cabelos lhe ocultando o alvo pescoço;
Assim entrava na alcova a formosa Semiramis,
Dizem, e Laís que amaram tantos homens.
Tirei-lhe a túnica, mas sem empenho de vencer:
Venceu-a, sem mágoa, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa, ali diante de meus olhos.
Em seu corpo não havia um só defeito.
Que ombros e que braços me foi dado ver, tocar!
Os belos seios, que doce comprimi-los!
Que ventre mais polido logo abaixo do peito!
Que primor de ancas, que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi não louvável,
E lhe estreitei a nudez contra o meu corpo.
O resto, quem não sabe? Exaustos, repousamos.
Que outros meios-dias me sejam tão prósperos.
1 179
Soares Feitosa
Femina
Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.
Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.
Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.
Nem aqueles lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.
Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.
pois tinham o calor
da tua mão.
Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.
Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.
Nem aqueles lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.
Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.
1 338
Carolina Kujawski
Um pensamento
A língua
O beijo
O cheiro
Do amor
A água
A lágrima
Que corre
Cai, e grita
E chora
O beijo.
A língua
A fala, e fala
Do amor
Faz
Constrói
Destrói
E briga
Chora
O beijo
Do amado
Lábios molhados
Do amante
Da água
Da língua
O beijo
Um beijo
E apenas
Beijo
O
B
E
I
J
O
O beijo
O cheiro
Do amor
A água
A lágrima
Que corre
Cai, e grita
E chora
O beijo.
A língua
A fala, e fala
Do amor
Faz
Constrói
Destrói
E briga
Chora
O beijo
Do amado
Lábios molhados
Do amante
Da água
Da língua
O beijo
Um beijo
E apenas
Beijo
O
B
E
I
J
O
947
Fernando Pessoa
A tua janela é alta,
A tua janela é alta,
A tua casa branquinha.
Nada lhe sobra ou lhe falta
Se não morares sozinha.
A tua casa branquinha.
Nada lhe sobra ou lhe falta
Se não morares sozinha.
1 336
Lélia Coelho Frota
Recém-casado
É pelos corpos que nos perdemos
de nós mesmos, para nos ganharmos.
É pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
É pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo
estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne -
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e
ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde água a quebrar-se eu me
constele
na sua barca, conduzida à praia.
de nós mesmos, para nos ganharmos.
É pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
É pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo
estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne -
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e
ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde água a quebrar-se eu me
constele
na sua barca, conduzida à praia.
1 066
Sérgio Godinho
Aos amores!
Aos amores!
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vao mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têem de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Aos amores!
No convento as noviças cantam as madrugadas
e a bela monja escreve cartas arrebatadas
"é por virtude tua que tu és o meu vício
por ti eu lanço os ventos ao precipício"
O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
sopra na franja, maneira de se pentear
vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
foi uma bela monja que nunca conheceu
Aos amores!
(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes
verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores)
A Marta, quinze anos, vê na televisão
um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão
faz baby-sitting à espera de parecer mulher
quando é que o amor lhe explica o que dela quer?
Depois da dor, como conservar a inocência?
leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
e parta o vidro em caso de necessidade
deixe o seu coração ir em liberdade
Aos amores!
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vao mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têem de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Aos amores!
No convento as noviças cantam as madrugadas
e a bela monja escreve cartas arrebatadas
"é por virtude tua que tu és o meu vício
por ti eu lanço os ventos ao precipício"
O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
sopra na franja, maneira de se pentear
vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
foi uma bela monja que nunca conheceu
Aos amores!
(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes
verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores)
A Marta, quinze anos, vê na televisão
um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão
faz baby-sitting à espera de parecer mulher
quando é que o amor lhe explica o que dela quer?
Depois da dor, como conservar a inocência?
leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
e parta o vidro em caso de necessidade
deixe o seu coração ir em liberdade
Aos amores!
1 303
Eugénia Tabosa
Sentidos
Meus dedos
lentos
percorrendo
a medo
teu corpo
aberto
oferto.
Meus dedos
surpresos
soltando
o calor
o cheiro
de teu corpo
descoberto.
Meus dedos
olhos
trazendo
imagens
mensagens
ao meu corpo
trémulo.
…
Esqueci
teu nome
teu rosto
o quando
e o porquê
Só existes
em meus dedos
lentos
percorrendo
a medo
teu corpo
aberto
oferto.
Meus dedos
surpresos
soltando
o calor
o cheiro
de teu corpo
descoberto.
Meus dedos
olhos
trazendo
imagens
mensagens
ao meu corpo
trémulo.
…
Esqueci
teu nome
teu rosto
o quando
e o porquê
Só existes
em meus dedos
1 316
Vicent Andrés Estellés
Tot açò que ja no pot ser
Et besaria lentament,
et soltaria els cabells,
tacariciaria els muscles,
tagafaria el cap
per a besar-te dolçament,
estimada meua, dolça meua,
i sentir-te, encara més nina,
més nina encara sota les mans,
dessota els pèls del meu pit
i sota els pèls de lengonal,
i sentir-te sota el meu cos,
amb els grans ulls oberts,
més que entregada confiada,
feliç dins els meus abraços.
Et veuria anar, tota nua,
anant i tornant per la casa,
tot açò que ja no pot ser.
Sóc a punt de dir el teu nom,
sóc a punt de plorar-lo
i descriurel per les parets,
adorada meua, petita.
Si em desperte, a les nits,
em desperte pensant en tu,
en el teu daurat i petit cos.
Testimaria, tadoraria
fins a emplenar la teua pell,
fins a emplenar tot el teu cos
de petites besades cremants.
És un amor total i trist
el que sent per tu, criatura,
un amor que memplena les hores
totalement amb el record
de la teua figura alegre i àgil.
No deixe de pensar en tu,
em pregunte on estaràs,
voldria saber què fas,
i arribe a la desesperació.
Com testime! Em destrosses,
tacariciaria lentament,
amb una infinita tendresa,
i no deixaria al teu cos
cap lloc sense la meua carícia,
petita meua, dolça meua,
aliena probablement
a lamor que jo sent per tu,
tan adorable! Timagine
tèbia i nua, encara innocent,
vacil.lant, i ja decidida,
amb les meues mans als teus muscles,
revoltant-te els cabells,
agafant-te per la cintura
o obrint-te les cames,
fins a fer-te arribar, alhora,
amb gemecs i retrocessos,
a lespasme lent del vici;
fins a sentir-te enfollir,
una instantània follia:
tot açò que ja no pot ser,
petita meua, dolça meua.
Et recorde i estic plorant
i sent una tristesa enorme,
voldria ésser ara al llit,
sentir el teu cos prop del meu,
el cos teu, dolç i fredolic,
amb un fred de col.legiala,
encollida, espantada; vull
estar amb tu mentre dorms,
el teu cul graciós i dur,
la teua adorable proximitat,
fregar-te a penes, despertar-te,
despertar-me damunt el teu cos,
tot açò que ja no pot ser.
Et mire, i sense que tu ho sàpies,
mentre et tinc al meu davant
i testrenyc, potser, la mà,
tevoque en altres territoris
on mai havem estat;
contestant les teues paraules,
visc una ègloga dolcíssima,
amb el teu cos damunt una catifa,
damunt els taulells del pis,
a la butaca dun saló
de reestrena, amb la teua mà
petita dintre la meua,
infinitament feliç,
contemplant-te en lobscuritat,
dos punts de llum als teus ulls,
fins que al final em sorprens
i sens dubte em ruboritzes,
i ja no mires la pantalla,
abaixes llargament els ulls.
No és possible seguir així,
jo bé ho comprenc, però ocorre,
tot açò que ja no pot ser.
Revisc els dolços instants
de la meua vida, però amb tu.
És una flama, és una mort,
una llarga mort, aquesta vida,
no sé per què the conegut,
jo no volia conèixer-te...
A qualsevol part de la terra,
a qualsevol part de la nit,
mor un home damor per tu
mentre cuses, mentre contemples
un serial de televisió,
mentre parles amb una amiga,
per telèfon, dalgun amic;
mentre que et fiques al llit,
mentre compres en el mercat,
mentre veus, al teu mirall,
el desenvolupament dels teus pits,
mentre vas en motocicleta,
mentre laire et despentina,
mentre dorms, mentre orines,
mentre mires la primavera,
mentre espoles les estovalles,
mor un home damor per tu,
tot açò que ja no pot ser.
Que jo me muir damor per tu.
et soltaria els cabells,
tacariciaria els muscles,
tagafaria el cap
per a besar-te dolçament,
estimada meua, dolça meua,
i sentir-te, encara més nina,
més nina encara sota les mans,
dessota els pèls del meu pit
i sota els pèls de lengonal,
i sentir-te sota el meu cos,
amb els grans ulls oberts,
més que entregada confiada,
feliç dins els meus abraços.
Et veuria anar, tota nua,
anant i tornant per la casa,
tot açò que ja no pot ser.
Sóc a punt de dir el teu nom,
sóc a punt de plorar-lo
i descriurel per les parets,
adorada meua, petita.
Si em desperte, a les nits,
em desperte pensant en tu,
en el teu daurat i petit cos.
Testimaria, tadoraria
fins a emplenar la teua pell,
fins a emplenar tot el teu cos
de petites besades cremants.
És un amor total i trist
el que sent per tu, criatura,
un amor que memplena les hores
totalement amb el record
de la teua figura alegre i àgil.
No deixe de pensar en tu,
em pregunte on estaràs,
voldria saber què fas,
i arribe a la desesperació.
Com testime! Em destrosses,
tacariciaria lentament,
amb una infinita tendresa,
i no deixaria al teu cos
cap lloc sense la meua carícia,
petita meua, dolça meua,
aliena probablement
a lamor que jo sent per tu,
tan adorable! Timagine
tèbia i nua, encara innocent,
vacil.lant, i ja decidida,
amb les meues mans als teus muscles,
revoltant-te els cabells,
agafant-te per la cintura
o obrint-te les cames,
fins a fer-te arribar, alhora,
amb gemecs i retrocessos,
a lespasme lent del vici;
fins a sentir-te enfollir,
una instantània follia:
tot açò que ja no pot ser,
petita meua, dolça meua.
Et recorde i estic plorant
i sent una tristesa enorme,
voldria ésser ara al llit,
sentir el teu cos prop del meu,
el cos teu, dolç i fredolic,
amb un fred de col.legiala,
encollida, espantada; vull
estar amb tu mentre dorms,
el teu cul graciós i dur,
la teua adorable proximitat,
fregar-te a penes, despertar-te,
despertar-me damunt el teu cos,
tot açò que ja no pot ser.
Et mire, i sense que tu ho sàpies,
mentre et tinc al meu davant
i testrenyc, potser, la mà,
tevoque en altres territoris
on mai havem estat;
contestant les teues paraules,
visc una ègloga dolcíssima,
amb el teu cos damunt una catifa,
damunt els taulells del pis,
a la butaca dun saló
de reestrena, amb la teua mà
petita dintre la meua,
infinitament feliç,
contemplant-te en lobscuritat,
dos punts de llum als teus ulls,
fins que al final em sorprens
i sens dubte em ruboritzes,
i ja no mires la pantalla,
abaixes llargament els ulls.
No és possible seguir així,
jo bé ho comprenc, però ocorre,
tot açò que ja no pot ser.
Revisc els dolços instants
de la meua vida, però amb tu.
És una flama, és una mort,
una llarga mort, aquesta vida,
no sé per què the conegut,
jo no volia conèixer-te...
A qualsevol part de la terra,
a qualsevol part de la nit,
mor un home damor per tu
mentre cuses, mentre contemples
un serial de televisió,
mentre parles amb una amiga,
per telèfon, dalgun amic;
mentre que et fiques al llit,
mentre compres en el mercat,
mentre veus, al teu mirall,
el desenvolupament dels teus pits,
mentre vas en motocicleta,
mentre laire et despentina,
mentre dorms, mentre orines,
mentre mires la primavera,
mentre espoles les estovalles,
mor un home damor per tu,
tot açò que ja no pot ser.
Que jo me muir damor per tu.
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