Poemas neste tema

Amor Romântico

Zazé

Zazé

Lembranças

Lembro-me de como batia
No meu peito, o coração enquanto te esperava
Lembro-me das mãos suadas,
Do primeiro olhar trocado,
Do beijo terno á chegada

Lembro-me do calor das tuas mãos nas minhas,
De como falámos, de mim, de ti
Sem nos darmos conta do tempo;
Lembro-me dos primeiros beijos
Ainda receosos do que estava por vir

Lembro-me depois como nos abraçámos
Como nos despimos na ânsia e na pressa
De nos encontrarmos no branco da cama
pele na pele, toque electrizante;
Do teu cheiro, do teu sabor
Magicamente já conhecidos.

Lembro-me como sentimos
Que aquela não era a nossa primeira vez,
Como antecipámos cada toque, cada gesto
Um do outro;
Como me senti, como te senti em mim
Sabendo que ali era o meu lugar
Lembrando-me de nunca te esquecer

Lembranças vivas na minha memória
Como tu
Como nós!!

968
Martha Medeiros

Martha Medeiros

há mulheres

há mulheres
que têm diversos namorados
depois casam e têm diversos filhos e filhas
eventualmente um ou dois amantes
e chegam no fim da vida
sem nunca sentirem-se amadas como as artistas
há mulheres
que tiveram uns poucos flertes ligeiros
no máximo um amor platônico
não casam, não fazem filhos
cultivam meia dúzia de amigos
e nunca se sentem benquistas


há mulheres
que preferem ficar sozinhas
não amam senão viagens, plantas e espelhos
e no entanto os homens morrem por elas
largam a família, se atiram a seus pés
amam estas mulheres com o amor mais
puro que existe
e nem isso conquista


fraqueza, defeito
desvio cultural
herança genética, trauma de infância
carência existencial
vá saber a razão
para tanto
eu te amo ocasional


nenhuma mulher se sente
amada o suficiente
desista
1 353
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Oferenda

Venho te oferecer meu coração
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol

1 290
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu tinha por ti amor

eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempo
1 157
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Ânfora

Nem percebeste a leve brisa.
Eu
que sou tormenta
fúria e vento.
Só tu
cabes em mim.

905
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Autópsia

e ficou atestado que quando rasgaram
suas pálpebras
encontraram de por-de-sol e lua
lua minguante lua crescente
lua cheia
e estrelas
o precário e doído equilíbrio da vida
latejava no cérebro cansado
nas virilhas ainda quentes
o aconchego
e a calma do sexo apaziguado
Do sangue que escorria ente as veias
e artérias
um perfume de jasmim seco
No labirinto de nervos e entranhas
que não mais viviam
(fácil de ser visto)
TEU NOME

1 009
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Véspera de Reis

Imperfeito tempo
em que és
o instante perfeito
Exato instante
de que é feita
a eternidade

1 070
Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquele, porque é loiro

aquele, porque é loiro
o perto da janela, porque tem olhos profundos
o de amarelo, porque parece carente
ali atrás, de barba, porque me deu bola
o de jaqueta de couro, porque adorei a jaqueta
à minha esquerda, baixinho, porque eu também não sou alta
lá no fundo, cabisbaixo, por causa do silêncio
o que está fumando, porque tem conserto
o de aparelho nos dentes, porque
um dia ele tira
aquele meio careca, porque tem seu charme
o de camiseta rasgada, até mesmo esse
mira, todo homem é quase perfeito
971
Martha Medeiros

Martha Medeiros

uma amiga

uma amiga
tem embaixo do colchão
marco alemão


eu tenho mais do que dinheiro
em cima do colchão
um brasileiro
1 154
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sobre a cama

Disjecta membra diz
o meu amado
batendo com a palma no lençol
e rimos amplos os dois
como crianças
e tudo é pena ao ar
e amor ao vento
desmembrados os membros
sobre a cama
aberto o corpo ao tempo
de brincar.
1 030
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o sentido da vida

o sentido da vida
é o que a gente sente


por um filho
que é a cara da gente


por um trabalho
que ocupa a mente


por um amor
que nos deixa doente


pena que isso não baste
por mais que se tente
1 353
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vejo o Fogo

Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.

Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.

Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
986
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Maravilha Imóvel

Ninguém responde, nada responde. Não, tu não existes.
E todavia conheço as tuas pausas, o teu ardor, as vogais
incandescentes. Contigo escrevo na água, permaneço,
vibro, ondulo. Dilato-me. Alcanço o solo.
A minha boca ascende lentamente fulgurando.

És tu o corpo já sem distância, sem fronteiras?
O informulável, inacessível, ausente já?
O olhar penetrou até ao fundo o corpo amado.
Múltiplas as figuras multiplicam o deserto.
Que palavras se incendeiam, que cinzas ainda ardem?

Tudo se consumou. A maravilha imóvel
é agora uma cabeleira apagada, e não o azul
e não o verde. E no entanto algo flui e continua.
Como se a mão tocasse as veias negras da figura
ou as veias brancas, o silêncio desenhado.
1 065
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Entenda-me

vasculha-me e adentre meu passado,
me chame de culpado
por meus erros infantis.
bata-me, cuspa em minha cara, me odeie
me chama de canalha por tudo
que outrora fiz.

invada minha vida como espiã
abra minhas gavetas, leia minhas cartas
e me ame.
me ame com a fúria
que o ciúme concerne
e me deseje, me deseje
como quem quer outro homem...

me fale palavrões, me transe obscena.
me fale quão importante sou para ti
me ame querendo ser selvagemente
possuída
por teu poeta que finge de fingir...

me veja, me beija, me tenha por inteiro.
sou teu, sem censuras ou pudores.
sou teu par, teu tigre e teu chegar
sou teu silêncio
quando nada quiseres escutar

enfim, sou um poeta, teu poeta
que sequer pensa em limites...
portanto (minha louca),
mesmo onde nada existir
por certo eu estarei presente
pronto para te fazer mulher.

987
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Ausente

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
1 302
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Fugitivo

Avanço ou não avanço. Nada muda.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.

O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.

Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
1 017
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nudez

Toquei um nome quando a luz amanhecia.
Era uma ferida menor do que um suspiro.
Ondulava um campo, um luminoso mar.
Nada podia faltar porque as palavras o diziam.
Imediata era a sede, o coração na espuma.

Cheguei e era o espaço, a suave inteligência
de um corpo. Eram pálpebras e lábios.
Era um pássaro, o pulsar de uma pedra, os dedos
como um sopro cálido, o vento nos cabelos.
Era leve a nudez e a frescura da sombra.

Nasci dormindo, sonhando, abrindo os olhos
num pleno descanso transparente. Conheci
a realidade completa do desejo, o diamante
da água. Voluptuosa, a folhagem estremecia.
Eu adormecia a teu lado como um puro esquecimento.

Tu erguias-te da penumbra vegetal. Uma mulher
nasce sem cessar. Tu ardias na aresta azul
do horizonte. Um pássaro cantava
no centro de uma árvore. Eu vibrava
numa terra imóvel, num país imenso.
1 114
Martha Medeiros

Martha Medeiros

amar em outro idioma

amar em outro idioma
encurrala
quando se quer dizer sim
se cala
quando se quer dizer não
se embroma
1 256
Janete Rodrigues Ribeiro

Janete Rodrigues Ribeiro

Busca

Ah! Quisera me perder na noite dos tempos
Correndo ligeira e leve como os ventos
Procurando a linha do horizonte
Buscando do amor, a verdadeira fonte!

Ah! Quisera doar-me assim, por inteira,
E apresentar-me doce, suave,
como a lua, faceira,
Ao meu amor primeiro, amor emoção,
Que fizesse vibrar todas as fibras do meu coração!

Ah! Quisera num abraço final
De tua vida, ser a medida do sal,
E num beijo, jurando eterna paixão,
Entregar-me em teus braços,
de alma e coração!

867
João Ribeiro

João Ribeiro

Simples Balada

"Tu vais partir, Dom Gil! Sus! Cavaleiro!
"Essa tristeza de tua alma espanca.

"Deixa o penhor de um beijo derradeiro
"No retrato gentil de Dona Branca".,

Mas tanto fel no longo beijo havia,
E tanta incomparável amargura,

Que o solitário beijo aos poucos ia
Roubando à tela a pálida figura.

Cresce, recresce, as linhas devastando,
Nódoa voraz pela figura entorna.

Dom Gil, onde se vai, demorando
Não aparece, aos lares não retorna?!

E o beijo avulta devorando a trama
Do quadro, haurindo a pálida figura...

Tarde chega Dom Gil. De longe exclama:
— "Vou ver-te agora, ó santa criatura!"

Funda tristeza o rosto lhe anuvia;
Quem de Dom Gil esta tristeza espanca?

Havia um beijo — eis tudo quanto havia!
A tela estava inteiramente branca.

1 302
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Falo de Um Desequilíbrio

Falo de um desequilíbrio gracioso
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite

e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.

Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.

Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
1 072
Martha Medeiros

Martha Medeiros

já meio sem esperança

já meio sem esperança
de encontrá-la depois dos quarenta
eis que um amigo me apresenta
uma mulher de trança


manteve-se meio a distância
mas já havia dito bom dia
e era mais do que queria
um coração que descansa


falava de maneira lenta
com palavras que ninguém alcança
suspeitei que era uma mulher mansa
dessas que não se enfrenta


quanto mais eu temia a aliança
mais ela me seduzia
um amor que não se comenta
diga que homem sustenta


fazia notar sua presença
como que distraída
sabia ficar isenta
do próprio pecado que inventa


quanto mais queria tocá-la
mais escorregadia
preso nessa paixão tardia
ninguém pagaria a fiança


enquanto meu amor arrebenta
seu olhar tripudia
quem é essa mulher que se ausenta
e ao mesmo tempo me tenta


é a mulher de trança
aquela que só se contenta
quando toda a imprensa
vem testemunhar sua vingança


não sabia que a mulher de trança
acabara de ter sido traída
1 093
Luís Delfino

Luís Delfino

A Primeira Lágrima

Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,

Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e douro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.

Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.

E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados..

1 755
Luís Delfino

Luís Delfino

Que Vos Daria?

Se tiverdes um dia um capricho, senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;

Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...

Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.

Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.

1 337