Poemas neste tema

Amor Romântico

Martha Medeiros

Martha Medeiros

não tente chegar na hora marcada

não tente chegar na hora marcada
ele pode vir antes, ou chegar depois
o amor deixa sempre esperando
1 186
Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Ligações Cruas

Gemeu
a escuridão...
No abraço silencioso
entre o muro e a noite,
tombaram os corpos.
Sobre as almas,
escorreram a dor e a paixão...
Por todas as esquinas,
esqueceram seus beijos
os amantes nictálopes.
Cada beco
ficou úmido, extático...
Tocaram, trocaram-se.
Um gomo de prazer
fartou o sono.
Assim,
o sexo se ajoelhou
perante as estrelas
e transpirou amor.
824
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Sonho Azul

Voando
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação

Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.

1 677
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Lenda dos Sonhos

Noite
lenta, eterna, magia dos espíritos...
Apalpo a distância do movimento...
O brilho profundo do luar
Aquece o gesto sentido do amor
E transformo-te na lenda dos sonhos.
As estrelas cantam o brilho sublime
Dentro da ternura do teu olhar
Reflectindo sobre a imensidão do oceano
O calor sensual do teu abraço.
Murmúrios delicioso povoam os céus
Embalando a doçura dos teus beijos
E o arco-íris eleva-se no horizonte
Colorindo as ondas quentes dos teus cabelos
Por onde navegam as verdades dos teus sentimentos.
Os sentidos flutuam pelo aroma verdadeiro
Da simplicidade da tua generosidade
Criando a simbiose dos teus desejos.
Na canção embriagante dos sinos celestiais
Envolvo-me na tua sinceridade
E torno-te eterna dentro do meu peito.

1 428
Ricardo Redisch

Ricardo Redisch

Estilhaços

O amor é uma química poderosa,
mas de equilíbrio muito delicado.
Quando seus elementos se confundem
o conjunto pode voar pelos ares.

É a semântica então que se embaralha
num corredor de frases mutiladas,
e qualquer comunicação envolve
vários ressentimentos ofegantes.

Ao telefone, a fala é transportada
em longos fios de arame farpado,
numa sucessão de signos sem vida.

O discurso, então, deixa de ser pleno,
transforma-se num crispado murmúrio:
fenda que dói no corpo da palavra.



Do livro 'Sinergias', publicado em 2011 pela editora Livros de Safra
615
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Adão

Ah...Deus!
Retira de mim vossa vergonha,
De que me serve?
Já não podeis
Retira-me de Vós!
Provei do proibido
E já não estou perdido,
Desnudei algum segredo
E vi, ali, além...
Há...Deus,
Além de Vós...

Ah...Deus!
Mais alguém me viu sem pele.

Mais que vós vistes
E tocou-me com os olhos
De carne viva incandescente,
Que morderam e despiram,
Sem mãos, cem mãos,
Ou gengivas com dentes
Que também morderam,
Sem dor, cem gozos...
Para me travesti de Deus!
Há...Deus,
Além de Vós...

Ah...Deus!
Poupa-me de vosso legado,
De vosso zelo cioso,
De cicerônicas prestanças,
Pois tudo que carrego é pressa,
De amar...Ah!... Mar...
Sem vergonhas, sem-vergonha,
Mas ponde-vos a meu lado,
Sem esquecimento ou desprezo,
Pois já não sou o vosso anjo
E trago o desiderato de ser mais...
Um ser, único, homem,
E vós me servireis...
Dagora,
Tenho que servir Eva,
Ela já me serve agora.
Há...Deus,
Além de Vós...

Ah...Deus!
Olhei além do turvo que destes,
Onde o silêncio cantava
Insólita balada,
Que não era solitária,
Orquestrada para duas almas
Dagora abraçadas, desnudadas,
Misturando carne nalma...
E me senti água desgarrada,
Que lá no alto reconhecia sua amada
E protestava em tamanha escala,
Que o céu riscava,
Esbravejava, gritava, trovejava,
E como lágrima voltava
Para o seio de sua amada,
Seu amor, Ah!...Mar...Amo!
Como é bom descobrir
Amar...!
Há...Deus,
Além de Vós...

Ah...Deus!
Chamastes de serpente
Ao meu desejo...
Mas o desejo brada alto
E forja-se no silêncio
Do peito,
Por detrás dos olhos,
Para que não se veja germinar
E não se possa exterminar
Antes de se estar imperecedouro,
Sendo a insídia de todo amor
Que sempre nos possui...
Cego, esconso, intricado.
Em meio ao infinito,
Cheio de onipotência, onipresente.
O tudo, o nada, o vago, o que faltava...
Simplesmente Amor... Mar...
Provedor de nós...
Pai de minha transgressão,
De toda a rebeldia,
De estar à vossa revelia,
Fruto desse Amor... Eva...
Há...Deus,
Além de Vós...

780
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Fora da História

Loucos
monumentos de pedra e tijolo
erguidos a deuses cruéis e a reis insanos
guerras inglórias, impérios exaustos
heróis, profetas e santos
todos povoam o passado,
gravemente.

Tudo é lógico, tudo está registrado em pedras, em papéis, em lendas,
explicam guias turísticos e professores de História
enquanto olhamos pela janela.

Os poderosos venceram batalhas, construíram impérios
massacraram, escravizaram, consolidaram reinos,
salvaram seus povos, fizeram palácios, muralhas e estradas,
sua glória final erguida em pirâmides para os mortos,
gigantescos palácios, templos para os deuses que os protegeram.

Os práticos venceram a Natureza drenando pântanos,
lendo os calendários escritos pelas estrêlas,
ensinando o cultivo de plantas,
construindo canais e cidades,
buscando a imortalidade na cura das doenças,
reescrevendo a superfície da Terra.

Os bons e sábios venceram o Mal,
falaram com a voz da santidade,
convertendo milhões com a sua dor e a sua palavra
(quando tudo isto já for vaga memória
e a maldade tiver reconquistado as almas,
poderemos ainda olhar suas estátuas de olhar solene
e seus coloridos vitrais).

Mas, mas, mas
e os apaixonados felizes,
os que faziam loucuras à espera de um olhar,
que não entendiam diferenças
entre noite e dia, entre sonhar e viver,
e sua felicidade, incontáveis gotas de chuva
a se armazenar em secretos lençóis,
onde estão as lembranças de seus feitos?

E os amargurados,
a olhar sem ver as ondas em algum cais,
a beber sem notar um vinho entre estranhos,
e suas lembranças, reflexos do sol no orvalho
que temem perder com o calor do dia,
doloridas farpas infeccionadas que lhes restam,
em que estranhos templos suas memórias repousarão,
que ruínas conhecerão as suas sombras?

Mas a História a êles não registra,
aos que atravessaram o ar com palavras,
suaves promessas eternas,
para que macias mãos pousassem nas suas,
aos que possuíam longos silêncios
que não conseguiam mais carregar,
quadros de tristeza e dor pintados dentro de si
com lágrimas há muito secas.

Não eram poderosos,
não eram práticos,
não eram bons nem sábios,
nada sabemos deles
mas os entendemos
e estes, sim
fizeram tudo.

921
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.
1 342
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Paráfrase de Ronsard

Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.

Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.

Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...

Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
1 281
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Solau do Desamado

Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
1 410
Martha Medeiros

Martha Medeiros

de todos os versos de amor

de todos os versos de amor
as rimas e frases reinventadas
as jogadas de efeito
os subterfúgios e os hai-kais
anotações de diário
de todos os nomes que dei
para crises de adolescência
e carências plagiadas
de todo o minimalismo
clichês e letras de música
de toda minha literatura
você ainda é a melhor página
971
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se eu pudesse te amar de dia

se eu pudesse te amar de dia
diria que você é meu sol
mas te amo tarde da noite
e não como eu queria
você é meu farol
e já não sei quem me guia
1 014
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ingênuo Enleio

Ingênuo enleio de surpresa,
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
À tua voz nos meus ouvidos.

Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.

Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... Musical adejo...
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.

Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.
1 334
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ternura

Enquanto nesta atroz demora,
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;

Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;

Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;

Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;

E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha...
771
Verónica Mendes

Verónica Mendes

Bebo

bebo,
das pedras salgadas
o cálice da vida...
das colinas bravias o seu calor,
procuro na dor o gosto da alegria,
e nos teus lindos olhos,
um grito de amor!

958
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nascer de Novo

Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.

Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?

Eis que um segundo nascimento,
não adivinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.

A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
1 340
Martha Medeiros

Martha Medeiros

você não imagina o que imaginei pra nós

você não imagina o que imaginei pra nós
transas nos lugares mais insólitos
poeira, estrada, bebedeira, arame farpado
sexo, cheiro azedo, línguas inquietas
teu jeito canastrão, eu meio vadia
ninguém é dono de ninguém, ninguém é
de ferro
suspense, tudo muito suado, berros,
vertigem
e uma gargalhada lá no finalzinho da
história
ao nos vermos no espelho, casados
1 113
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Você Meu Mundo Meu Relógio de Não Marcar Horas

Você meu mundo meu relógio de não marcar horas; de esquecê-las. Você meu andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas acesas. Meu sono festival meu acordar entre girândolas. Meu banho quente morno frio quente pelando. Minha pele total. Minhas unhas afiadas aceradas aciduladas. Meu sabor de veneno. Minhas cartas marcadas que se desmarcam e voam. Meu suplício. Minha mansa onça-pintada pulando. Minha saliva minha língua passeadeira possessiva meu esfregar de barriga em barriga. Meu perder-me entre pelos algas águas ardências. Meu pênis submerso. Túnel cova cova cova cada vez mais funda estreita mais mais. Meus gemidos gritos uivos guais guinchos miados ofegos ah oh ai ui nhem ahah minha evaporação meu suicídio gozoso glorioso.
1 390
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ainda Que Mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
1 235
Marcelo Ribeiro

Marcelo Ribeiro

Armas da Paixão

Removes
a poeira fina de minha alma
E sopras toda melancolia para fora
Tomas o Sol por tua tocha
E a Lua como espada

Te aquartelas em meus sonhos
E fechas as estradas da discórdia
Vestes o manto da paixão
E pelejas contra o mundo;
Em vão...

Rende-se ao que sinto
Amando-te, traspassado pelo fogo da razão
Não minto!
Vejo-te soltar as armas
Despir-se parva
Entregando-se, por fim
Amada

Desnuda-te o espírito
Cumprindo-se ao rito
Acabando por seres minha;
Nua, cândida, alva...

927
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Velho Amor

Mestre Rodrigo, o da DPHAN,
que me perdoe se neste canto
hoje canto a gentil balzaca
de seus encantos e quebrantos,
aquela que, noite após noite,
e dia após dia, inclusive
os domingos — outrora livres,
os feriados — antes gozados,
ele levava consigo como
a laranja leva no gomo
sua doce razão de ser,
ou, senão, como o peixe leva
em seu volteio pelas águas
a arte e ciência de nadar
(no seu caso, é arte de amar).
Oh, como vai nosso Rodrigo
M. F. de Andrade, atento
ao que possa fazer o vento,
intempérie, maldade, acaso,
a seu amor, e como luta,
bravo e sutil, em campo raso,
contra a solércia do inimigo!
Aqui vence um capoeira, adiante
um cartola, e outros, centenas
de investidas contra as serenas
feições e formas do seu love!
Merendava, de repente ouve
guai lancinante: “Aqui-del-rei!”
Corre presto a São Luís, Bahia,
São José ou São João del-Rei,
Parati — ao Brasil inteiro —,
pois essa bela — quem diria —
por toda parte anda e nem sempre
há a devida cortesia
nem o extasiado respeito
à dama que mora em seu peito.
De outro amante assim tão gamado
juro não sei, que este encanece
sem azedume em face à sorte
que tanto exige de ternura
e de defesa contra a morte
— morte, ruína, eterna ameaça
a pairar sobre sua amada.
Em velho paço, úmido beco,
numa igreja desmoronada
ou no pico de serra agreste,
ei-la que recebe a flechada,
o mortal insulto, mas chega
Rodrigo para defendê-la,
salvá-la, de carinho ungi-la.
E como sabe restituir-lhe
o viço perdido, a espontânea
graça do berço, sem disfarce!
“Batom não uses, minha filha,
que teus lábios ao natural
têm o desenho de uma ilha
feita do mais vivo coral.
Tira este excesso de pintura,
fruto de visível engano,
pois a original formosura
mais resplende a cada novo ano.
Nada de truques bossa-nova,
iê-iê-iê e pop-art, querida.
Nunca mais dormirei tranquilo
nem terá gosto minha vida
se adotares um novo estilo.”
Assim diz Rodrigo, e convoca
os mais argutos, credenciados
companheiros para o serviço
do seu bem, e todos acodem
a essa amável intimação:
Por Dom Rodrigo e sua dama!
Por aquela que ele mais ama
e a quem, entre naves e in-fólios,
deu a própria luz de seus olhos.
Alguém pergunta-me: “É paixão
que inflama e passa?” e eu lhe respondo:
Dura há trint’anos bem contados,
hoje completos, tão repletos,
que, pensando bem, são três séculos.
Já que pequei por indiscreto,
darei todo o serviço: o nome
da namorada rodriguiana,
essa imarcescível Roxana,
é a Arte Antiga do Brasil,
que com seu diadema de História
no dia 23 de abril
há trint’anos nele encontrou
o mais fiel e humilde escudeiro,
o que não aspira a maior glória
senão ir à Glória do Outeiro.
São trint’anos de luta vã?
Não e nunca, pois amanhã
todo o país, agradecido,
saberá louvar, por inteiro,
este casal Rodrigo-PHAN.
24/04/1966
807
Lívia Araújo

Lívia Araújo

Senta e Espera

A angústia
em repouso
Do meu ardor o ensejo
É quando em ti o olhar pouso
Eu não mais fujo, eu só te vejo.

Alegre ou triste, tens nos olhos um segredo
Que engana a todos e me engana
Quando me negas um beijo.

É então que me alimentas a chama.

Com loucura de quem ama,
Corro, canso, caio, arquejo
Eu me equivoco, não me chamas
Mas é a ti que desejo.

819
Zazé

Zazé

Espelho Meu

Vejo a minha imagem
reflectida no espelho
e ele devolve-me um olhar baço,
triste, de saudade;

Aflora então aos meus ouvidos
o som da tua voz,
arrepia-se-me a pele
pela lembrança do teu toque,
pela emoção do sentimento que há em nós;

E o espelho
parecendo adivinhar,
reflecte então
o brilho do meu olhar!!

916
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era verão ou qualquer troço assim

era verão ou qualquer troço assim
lua cheia ou algo parecido
uma saudade ou quase a mesma coisa
era amor ou mais ou menos isso
1 134