Poemas neste tema
Amor Romântico
Madi
Ficar
Ficar
Pra ficar com você, pensei numa tarde. É pouco
Pensei numa noite. Também é pouco
Pensei num dia inteiro. Não é suficiente
O meu amor não é amor de uma tarde,
de uma noite e nem de um dia
É amor para todas as tardes, todas as noites
e todos os dias de uma vida inteira
Pra ficar com você, pensei numa tarde. É pouco
Pensei numa noite. Também é pouco
Pensei num dia inteiro. Não é suficiente
O meu amor não é amor de uma tarde,
de uma noite e nem de um dia
É amor para todas as tardes, todas as noites
e todos os dias de uma vida inteira
880
Madi
Sóis
Sóis
São três estrelas, ímpares
Singulares
São lindas: de longe e de perto
Uma é por demais sedutora
Encanta, mas pouco oferece
A outra tem brilho certo
e virou meu livro aberto
A última tem senso de humor
e diz que ainda me tem amor
Gosto das três, desigualmente
Ímpares, singulares e lindas,
elas não são estrelas,
são sóis
São três estrelas, ímpares
Singulares
São lindas: de longe e de perto
Uma é por demais sedutora
Encanta, mas pouco oferece
A outra tem brilho certo
e virou meu livro aberto
A última tem senso de humor
e diz que ainda me tem amor
Gosto das três, desigualmente
Ímpares, singulares e lindas,
elas não são estrelas,
são sóis
934
Paio Soares de Taveirós
Senhor, Os Que Me Querem Mal
Senhor, os que me querem mal
sei eu bem que vos vam dizer
todos, senhor, por me fazer perder
convosco e nom por al:
dizem-vos ca vos quero bem,
senhor – e nom devo por en
eu escontra vós a perder.
E já desta mescra [a]tal
de me guardar nom hei poder,
ca vos sei mui gram bem querer,
pero me contra vós nom val;
e vós, por tolherdes-mi o sem,
nunca lhes queredes per rem
esta mescra de mim creer.
E, mia senhor, quer'eu punhar
se me posso salvar, se nom;
e dire[i]-lhes, a quantos som,
que mi o nom poderám provar;
mais eles sei eu que farám:
log'ante vós mi afrontarám
que vos amo de coraçom.
sei eu bem que vos vam dizer
todos, senhor, por me fazer perder
convosco e nom por al:
dizem-vos ca vos quero bem,
senhor – e nom devo por en
eu escontra vós a perder.
E já desta mescra [a]tal
de me guardar nom hei poder,
ca vos sei mui gram bem querer,
pero me contra vós nom val;
e vós, por tolherdes-mi o sem,
nunca lhes queredes per rem
esta mescra de mim creer.
E, mia senhor, quer'eu punhar
se me posso salvar, se nom;
e dire[i]-lhes, a quantos som,
que mi o nom poderám provar;
mais eles sei eu que farám:
log'ante vós mi afrontarám
que vos amo de coraçom.
705
Alexandre Dáskalos
O meu amor
O meu amor está triste
e enche-me de cuidados.
Onde está a almofada dos bilros?
Já provaste os dendêns com açucar?
Não reduzas a valsa a um cheese-burguer
num pub desconhecido!
Ele disse-me - não canses os olhos nos bilros.
O meu amor está triste e enche-me de cuidados.
e enche-me de cuidados.
Onde está a almofada dos bilros?
Já provaste os dendêns com açucar?
Não reduzas a valsa a um cheese-burguer
num pub desconhecido!
Ele disse-me - não canses os olhos nos bilros.
O meu amor está triste e enche-me de cuidados.
1 504
Paio Soares de Taveirós
O Meu Amigo, Que Mi Dizia
O meu amigo, que mi dizia
que nunca mais migo viveria,
par Deus, donas, aqui é já.
Que muito m'el havia jurado
que me nom visse, mais, a Deus grado,
par Deus, donas, aqui é já.
O que jurava que me nom visse,
por nom seer todo quant'el disse,
par Deus, donas, aqui é já.
Melhor o fezo ca o nom disse:
par Deus, donas, aqui é já.
que nunca mais migo viveria,
par Deus, donas, aqui é já.
Que muito m'el havia jurado
que me nom visse, mais, a Deus grado,
par Deus, donas, aqui é já.
O que jurava que me nom visse,
por nom seer todo quant'el disse,
par Deus, donas, aqui é já.
Melhor o fezo ca o nom disse:
par Deus, donas, aqui é já.
852
Madi
Duas caras
Duas caras
O meu amor tem duas caras:
a da alegria e a do ciúme
O meu amor tem duas caras:
a da alegria e a do ciúme
1 241
Madi
Novo Amor
Novo Amor
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
872
Madi
Louca
Louca
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
1 101
Paio Soares de Taveirós
Donas, Veeredes a Prol Que Lhi Tem
Donas, veeredes a prol que lhi tem
de lhi saberem ca mi quer gram bem!
Par Deus, donas, bem podedes jurar
do meu amigo, que mi fez pesar;
mais Deus! E que cuida mi a gãar
de lhi saberem que mi quer gram bem?
Sofrer-lh'-ei eu de me chamar senhor
nos cantares que fazia d'amor;
mais enmentou-me todo com sabor
de lhi saberem que mi quer gram bem.
Foi-m'el em seus cantares enmentar;
vedes ora se me dev'a queixar!
Ca se nom quis meu amigo guardar
de lhi saberem que mi quer gram bem.
de lhi saberem ca mi quer gram bem!
Par Deus, donas, bem podedes jurar
do meu amigo, que mi fez pesar;
mais Deus! E que cuida mi a gãar
de lhi saberem que mi quer gram bem?
Sofrer-lh'-ei eu de me chamar senhor
nos cantares que fazia d'amor;
mais enmentou-me todo com sabor
de lhi saberem que mi quer gram bem.
Foi-m'el em seus cantares enmentar;
vedes ora se me dev'a queixar!
Ca se nom quis meu amigo guardar
de lhi saberem que mi quer gram bem.
616
João Melo
Lirica XVII
Amada amada
porque suplicaste
que eu lançasse o meu esperma
contra o negro capim?
Avisaste-me é certo
que apenas te poderias dar
quando a lua furtiva se ocultasse
atrás das montanhas
Mas por um instante
imaginei loucamente
que fosse um acesso de romantismo
porque suplicaste
que eu lançasse o meu esperma
contra o negro capim?
Avisaste-me é certo
que apenas te poderias dar
quando a lua furtiva se ocultasse
atrás das montanhas
Mas por um instante
imaginei loucamente
que fosse um acesso de romantismo
1 459
Pedro Amigo de Sevilha
Sei Bem Que Quantos Eno Mund'amarom
Sei bem que quantos eno mund'amarom
e amam, tôdolos provou Amor;
e fez a mi amar ũa senhor
de quantas donas no mundo loarom
em todo bem; e des i mui coitado
me tev'Amor, pois que desenganado
fui dos que amam e dos que amarom.
E des entom, por quantos se quitarom
d'amar, por en travou em mim Amor,
ca provou mim por leal amador,
– e polos outros que o leixarom,
quer matar mim por esto, mal pecado!
Ca sabe já ca nom será vingado
nunca daqueles que se del quitarom.
E sabor [há] de mim, que por seu ando,
pero [sabe] ca me tev'em poder
desta dona que mi fez bem querer,
e matar-mi-á por esto e nom sei quando;
e prazer-m'-ia se Amor achasse,
depós mia morte, quem com el ficasse
com'eu fiquei – muit'há que por seu ando.
E matar-m'-á por esto, desejando
bem desta dona, pois nom há poder
sobre los outros de lhis mal fazer
- ca os outros forom-xi-lh'alongando;
e pero sei d'Amor, se lhis monstrasse
aquesta dona, pois que mi matasse,
matá-los-ia, seu bem desejando.
E nom sei al per que s'Amor vingasse,
nem per que nunca dereito filhasse
dos que se forom assi del quitando.
e amam, tôdolos provou Amor;
e fez a mi amar ũa senhor
de quantas donas no mundo loarom
em todo bem; e des i mui coitado
me tev'Amor, pois que desenganado
fui dos que amam e dos que amarom.
E des entom, por quantos se quitarom
d'amar, por en travou em mim Amor,
ca provou mim por leal amador,
– e polos outros que o leixarom,
quer matar mim por esto, mal pecado!
Ca sabe já ca nom será vingado
nunca daqueles que se del quitarom.
E sabor [há] de mim, que por seu ando,
pero [sabe] ca me tev'em poder
desta dona que mi fez bem querer,
e matar-mi-á por esto e nom sei quando;
e prazer-m'-ia se Amor achasse,
depós mia morte, quem com el ficasse
com'eu fiquei – muit'há que por seu ando.
E matar-m'-á por esto, desejando
bem desta dona, pois nom há poder
sobre los outros de lhis mal fazer
- ca os outros forom-xi-lh'alongando;
e pero sei d'Amor, se lhis monstrasse
aquesta dona, pois que mi matasse,
matá-los-ia, seu bem desejando.
E nom sei al per que s'Amor vingasse,
nem per que nunca dereito filhasse
dos que se forom assi del quitando.
586
Madi
Mais que um Passeio
Mais que um Passeio
Amar você não é um passeio
É um parque de diversão inteiro
Amar você não é um passeio
É um parque de diversão inteiro
741
Madi
Se eu pudesse
Se eu pudesse
Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa
Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia
Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta
Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir
Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa
Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia
Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta
Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir
1 017
Madi
Ontem
Ontem
Ontem, tu me perguntastes tal qual um adolescente
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
Ontem, tu me perguntastes tal qual um adolescente
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
777
Pedro Amigo de Sevilha
O Meu Amigo, Que Mi Gram Bem Quer
O meu amigo, que mi gram bem quer,
punha sempr', amiga, de me veer,
e punh'eu logo de lhi bem fazer,
mais vedes que ventura de molher:
quando lh'eu poderia fazer bem,
el nom vem i, e u nom poss'eu, vem.
E nom fica per mi, per bõa fé,
d'haver meu bem e de lho guisar eu;
nom sei se x'é meu pecado, se seu,
mais mia ventura tal foi e tal é:
quando lh'eu poderia fazer bem,
el nom vem i, e u nom poss'eu, vem.
E, per bõa fé, nom fica per mi,
quant'eu poss', amiga, de lho guisar
nem per el sempre de mi o demandar,
mais a ventura no-lo part'assi;
quando lh'eu poderia fazer bem,
el nom vem i, e u nom poss'eu, vem.
E tal ventura era pera quem
nom quer amig'e nem dá por el rem.
punha sempr', amiga, de me veer,
e punh'eu logo de lhi bem fazer,
mais vedes que ventura de molher:
quando lh'eu poderia fazer bem,
el nom vem i, e u nom poss'eu, vem.
E nom fica per mi, per bõa fé,
d'haver meu bem e de lho guisar eu;
nom sei se x'é meu pecado, se seu,
mais mia ventura tal foi e tal é:
quando lh'eu poderia fazer bem,
el nom vem i, e u nom poss'eu, vem.
E, per bõa fé, nom fica per mi,
quant'eu poss', amiga, de lho guisar
nem per el sempre de mi o demandar,
mais a ventura no-lo part'assi;
quando lh'eu poderia fazer bem,
el nom vem i, e u nom poss'eu, vem.
E tal ventura era pera quem
nom quer amig'e nem dá por el rem.
598
Tomaz Vieira da Cruz
Rebita
Mulata da minha alma
batuque dos meus sentidos,
meus nervos encandecidos
vibram por ti, sem ter calma.
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
E, triste, assim, vou dançar,
vou dançar e vou beber
o vinho do teu olhar,
que me faz entontecer.
Ouvindo, longe, tocar
o quissange do gentio,
que vive, além no palmar,
onde corre o verde rio!
E depois adormecer
na tua esteira de prata,
onde quero, enfim, morrer,
oh minha linda mulata.
..........................................
Mulata da minha alma,
batuque dos meus sentidos...
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
batuque dos meus sentidos,
meus nervos encandecidos
vibram por ti, sem ter calma.
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
E, triste, assim, vou dançar,
vou dançar e vou beber
o vinho do teu olhar,
que me faz entontecer.
Ouvindo, longe, tocar
o quissange do gentio,
que vive, além no palmar,
onde corre o verde rio!
E depois adormecer
na tua esteira de prata,
onde quero, enfim, morrer,
oh minha linda mulata.
..........................................
Mulata da minha alma,
batuque dos meus sentidos...
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
1 694
Pedro Amigo de Sevilha
Meu Senhor Deus, Pois Me Tam Muit'amar
Meu Senhor Deus, pois me tam muit'amar
fezestes, quam muit'amo, ũa molher,
rogue-vos outrem quanto xi quiser,
ca vos nom quer'eu mais desto rogar:
meu Senhor Deus, se vos em prazer for,
que mi a façades haver por senhor.
Esta dona, que mi faz muito mal,
porque nom quis nem quer que seja seu,
nom m'é senhor, mais gram coita mi deu;
e por esto vos rog'e nom por al:
meu Senhor Deus, se vos em prazer for,
que mi a façades haver por senhor.
Tal bem lhi quero no meu coraçom
que vos nom rogarei por outro bem
que mi façades, nem por outra rem;
mais por tanto vos rog'e por al nom:
meu Senhor Deus, se vos em prazer for
que mi a façades haver por senhor.
Ca sei que nom é tam forços'Amor
que me mate, se m'achar com senhor.
fezestes, quam muit'amo, ũa molher,
rogue-vos outrem quanto xi quiser,
ca vos nom quer'eu mais desto rogar:
meu Senhor Deus, se vos em prazer for,
que mi a façades haver por senhor.
Esta dona, que mi faz muito mal,
porque nom quis nem quer que seja seu,
nom m'é senhor, mais gram coita mi deu;
e por esto vos rog'e nom por al:
meu Senhor Deus, se vos em prazer for,
que mi a façades haver por senhor.
Tal bem lhi quero no meu coraçom
que vos nom rogarei por outro bem
que mi façades, nem por outra rem;
mais por tanto vos rog'e por al nom:
meu Senhor Deus, se vos em prazer for
que mi a façades haver por senhor.
Ca sei que nom é tam forços'Amor
que me mate, se m'achar com senhor.
372
Pedro Amigo de Sevilha
Quand'eu Um Dia Fui Em Compostela
Quand'eu um dia fui em Compostela
em romaria, vi ũa pastor
que, pois fui nado, nunca vi tam bela,
nem vi outra que falasse milhor;
e demandei-lhe logo seu amor
e fiz por ela esta pastorela.
[E] dix'eu logo: - Fremosa poncela,
queredes vós mim por entendedor?
Que vos darei boas toucas d'Estela,
e boas cintas de Rocamador,
e doutras doas a vosso sabor
e fremoso pano pera gonela.
E ela disse: - Eu nom vos queria
por entendedor, ca nunca vos vi
senom agora, nem vos filharia
doas que sei que nom som pera mim;
pero cuid'eu, se as filhass'assi,
que tal há no mundo a que pesaria.
E se veess'outra, que lhi diria,
se me dizesse ca "per vós perdi
meu amig'e doas que me tragia?"
Eu nom sei rem que lhi dissess'ali;
se nom foss'esto, de que me tem'i,
nom vos dig'ora que o nom faria.
Dix'eu: - Pastor, sodes bem razoada;
e pero creede, se vos nom pesar,
que nom est hoj'outra no mundo nada,
se vós nom sodes, que eu sábia amar;
e por aquesto vos venho rogar
que eu seja voss'home esta vegada.
E diss'ela, come bem ensinada:
- Por entendedor vos quero filhar;
e pois for a romaria acabada,
aqui, d'u sõo natural, do Sar,
cuido [eu], se me queredes levar,
ir-m'-ei vosc'e fico vossa pagada.
em romaria, vi ũa pastor
que, pois fui nado, nunca vi tam bela,
nem vi outra que falasse milhor;
e demandei-lhe logo seu amor
e fiz por ela esta pastorela.
[E] dix'eu logo: - Fremosa poncela,
queredes vós mim por entendedor?
Que vos darei boas toucas d'Estela,
e boas cintas de Rocamador,
e doutras doas a vosso sabor
e fremoso pano pera gonela.
E ela disse: - Eu nom vos queria
por entendedor, ca nunca vos vi
senom agora, nem vos filharia
doas que sei que nom som pera mim;
pero cuid'eu, se as filhass'assi,
que tal há no mundo a que pesaria.
E se veess'outra, que lhi diria,
se me dizesse ca "per vós perdi
meu amig'e doas que me tragia?"
Eu nom sei rem que lhi dissess'ali;
se nom foss'esto, de que me tem'i,
nom vos dig'ora que o nom faria.
Dix'eu: - Pastor, sodes bem razoada;
e pero creede, se vos nom pesar,
que nom est hoj'outra no mundo nada,
se vós nom sodes, que eu sábia amar;
e por aquesto vos venho rogar
que eu seja voss'home esta vegada.
E diss'ela, come bem ensinada:
- Por entendedor vos quero filhar;
e pois for a romaria acabada,
aqui, d'u sõo natural, do Sar,
cuido [eu], se me queredes levar,
ir-m'-ei vosc'e fico vossa pagada.
676
Mário da Silveira
Coroa de Rosas e de Espinhos
Sedenta de ódio, cega de despeito,
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.
Dizem: "Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, — porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.
Um grande amor é corno o resto... A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão da ignota chama."
Eu sei que tudo é como o fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia mais para quem ama.
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.
Dizem: "Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, — porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.
Um grande amor é corno o resto... A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão da ignota chama."
Eu sei que tudo é como o fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia mais para quem ama.
1 279
Pedro Amigo de Sevilha
Disserom-Vos, Meu Amigo
Disserom-vos, meu amigo,
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
731
Raquel Nobre Guerra
Objectos restantes
Objectos restantes do nosso último encontro:
o tubo de tabaco Lucky Strike (seguramente)
e a pontuada consoante «só».
Coisas sem significado que se deixam ficar
como um piropo sem resposta.
Emprestei-me à ideia do erro trágico poder ser belo
rendi-me ao bandido, acomodei-me entre camas
talvez assim nos percamos irremediavelmente.
Mas que farei eu deste lado do muro?
Mover-me na medida da tua distância
para as habituais ratoeiras de estante.
A casa aos baldões porque me deixaste
os explosivos mas não a farmácia
os primeiros socorros e o «Ser e Tempo»
que, quando muito, me alinha um átomo.
Nenhum clássico alternativo ao homem
mudou alguma vez o fuso do mundo.
A malha cai, o gajo escapa
é uma rosa, senhor, de plástico.
Que direi eu deste lado da história?
Que tudo há-de ir para o escuro se até esta luz,
nossa única saúde, foi fechada à perna.
Se pudesse chegar à expressão certa
mentir-te com Deus e Rock & Roll,
perdão, uma pequena elipse,
porque não não foi a flor desse romântico inglês
nem o homem de Porlock mais o paraíso coitado,
quem nos baralhou tão perto de um final feliz.
Foi a noite do teu rosto na noite do meu rosto.
Assim.
Sou até capaz de enunciar as razões
ratazanas da mais afiada prosa roendo
até que o resultado seja outro.
Mas não consigo melhor que isto:
duas beatas tuas encolhidas na cinza.
Pertencem-me para sempre esses cadaverzinhos
que fumaste depois de me beijares ao alto
e arrastar a voz a um amo-te
com a força da luz extrema.
o tubo de tabaco Lucky Strike (seguramente)
e a pontuada consoante «só».
Coisas sem significado que se deixam ficar
como um piropo sem resposta.
Emprestei-me à ideia do erro trágico poder ser belo
rendi-me ao bandido, acomodei-me entre camas
talvez assim nos percamos irremediavelmente.
Mas que farei eu deste lado do muro?
Mover-me na medida da tua distância
para as habituais ratoeiras de estante.
A casa aos baldões porque me deixaste
os explosivos mas não a farmácia
os primeiros socorros e o «Ser e Tempo»
que, quando muito, me alinha um átomo.
Nenhum clássico alternativo ao homem
mudou alguma vez o fuso do mundo.
A malha cai, o gajo escapa
é uma rosa, senhor, de plástico.
Que direi eu deste lado da história?
Que tudo há-de ir para o escuro se até esta luz,
nossa única saúde, foi fechada à perna.
Se pudesse chegar à expressão certa
mentir-te com Deus e Rock & Roll,
perdão, uma pequena elipse,
porque não não foi a flor desse romântico inglês
nem o homem de Porlock mais o paraíso coitado,
quem nos baralhou tão perto de um final feliz.
Foi a noite do teu rosto na noite do meu rosto.
Assim.
Sou até capaz de enunciar as razões
ratazanas da mais afiada prosa roendo
até que o resultado seja outro.
Mas não consigo melhor que isto:
duas beatas tuas encolhidas na cinza.
Pertencem-me para sempre esses cadaverzinhos
que fumaste depois de me beijares ao alto
e arrastar a voz a um amo-te
com a força da luz extrema.
362
Raquel Nobre Guerra
Uma vez ofereceste-me bananas
Uma vez ofereceste-me bananas
flores para ti, vinha escrito.
Percebo bem a inutilidade da poesia
como de resto a literatura que finge
a mínima desordem dos mundos
o que importa é fingir uma pose.
Explico.
O mais extremo acto de egoísmo:
ter a dimensão própria da caricatura
e endossá-la aos outros.
O que toca a afinal e a quem, que sejamos sinistros?
E o amor um candeeiro de rua frouxo que à nossa passagem se desliga.
Dou conta dos perecíveis.
De ti sabe-se que tinhas um jeito especial
de dar bailinho aos deuses com as mãos
enquanto eu de nariz espetado nesse cima
preferia o abandono onde nada me faltava.
Entendo agora que as bananas dormem com as tuas mãos debaixo da terra e que o nosso amor flutua ainda na calcite.
O mundo, seja como for, cabe nisto.
E eu corro para casa com um bouquet de flores mas tu não estás.
Nada que não estivesse previsto,
heartbreakers, love comes in spurts.
flores para ti, vinha escrito.
Percebo bem a inutilidade da poesia
como de resto a literatura que finge
a mínima desordem dos mundos
o que importa é fingir uma pose.
Explico.
O mais extremo acto de egoísmo:
ter a dimensão própria da caricatura
e endossá-la aos outros.
O que toca a afinal e a quem, que sejamos sinistros?
E o amor um candeeiro de rua frouxo que à nossa passagem se desliga.
Dou conta dos perecíveis.
De ti sabe-se que tinhas um jeito especial
de dar bailinho aos deuses com as mãos
enquanto eu de nariz espetado nesse cima
preferia o abandono onde nada me faltava.
Entendo agora que as bananas dormem com as tuas mãos debaixo da terra e que o nosso amor flutua ainda na calcite.
O mundo, seja como for, cabe nisto.
E eu corro para casa com um bouquet de flores mas tu não estás.
Nada que não estivesse previsto,
heartbreakers, love comes in spurts.
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António Ramos Rosa
Quase Se Disse Quase
Quase se disse quase
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
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António Ramos Rosa
Amamos Num Vislumbre Terra Suspensa
Amamos num vislumbre terra suspensa
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
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