Amor Romântico
Nuno Júdice
Tudo recomeça
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:
assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.
Nuno Júdice
Poema II
vidrada dos oblíquos idiomas do amor: as cinzas
de um pássaro refractam-te os cristais da
respiração, prendendo-me os olhos no sulco das cores
amargas da voz. Um eco de mar na concha dos lábios
anuncia o crepúsculo dos hemisférios, que uma
súbita dissolução de versos canta - rumor
que se perde no canto dos mapas, onde o rumo do corpo
se sobrepõe ao traçado de um continente sinuoso.
Colho as flores coaguladas dos sexos
abolidos. Misturo-as no fogo dos tampos arredondados
da manhã, quando o avermelhado silêncio das cigarras
se afoga num encrespar de charco. Bebo as
essências de um sonho cartulário, húmidas sombras
cuja mancha se inscreve na obscura alma. - Que
forma reproduzem? Traços da análoga caverna, peitos
marcados pelo chicote das viagens, im-
precações do rum na voz rouca dos faróis...
Só o que ouço subsiste ( - Mas que luzes
vacilam ainda na névoa da eternidade?)
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 297 | Quetzal Editores, 1999
Garcia Rosa
Esquiva
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.
Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...
Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,
Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.
Nuno Júdice
Écloga
das palavras que escrevo, e tenho medo.
Talvez nos campos imensos onde o lírio floresce,
na margem de rio que abriga, de manhã cedo,
os teus pés de ninfa, num engano de idade,
me tenhas visto à sombra de um rochedo,
e se os teus lábios, entreabertos num torpor
de romã, me tocaram num sonho bêbedo,
deles só lembro, imprecisos, fluxos
de incêndio numa hipótese de amor.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 46 | Na Regra do Jogo, 1982
Nuno Júdice
Deixei contigo o meu amor
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
Nuno Júdice
A tua mão
e ela resiste à mão que a desvia; mas
procuro acertar no seu ângulo, e entre-
ver a fresta por onde o amor corria.
Beijo essa mão e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco,
bebendo desse cálice o puro vinho
que me liberta sem sair do cerco.
Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que o meu desejo se rende;
e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.
Herberto Sales
Im Afraid of
e de, perdendo-te,
não mais te ver cavalgar sobre a relva úmida
em galope elástico e branco,
num ondular de ancas
brancas
de lua com maciez de jacintas.
Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
perder-me também
(irremediavelmente)
numa infecunda solidão floral:
sem o mel da polpa que o fruto oculta,
sem o pólen da rosa escarlate.
José Miguel Silva
Não é tarde
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
José Miguel Silva
Não sei se são os trinta anos
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte e cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites para jantar:
O lamento era o meu hobby preferido.
Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
A queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.
José Miguel Silva
A caminho do fogão
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.
Charles Bukowski
Um Dia Vou Escrever Uma Cartilha Para Santos Aleijados Mas Enquanto Isso...
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.
não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?
de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
José Lannes
Griet
chegaste... E tão absorto me sentia
que, ao ver-te, apenas te sorri contente
e quedei, duvidando
se eras tu que chegavas realmente
ouse era em pensamento que te via...
José Lannes
Canção do Juramento
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.
Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.
O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?
José Miguel Silva
Brief encounter - David Lean (1945)
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
João Luiz Pacheco Mendes
Reversão de Expectativa
E um filme pro Brian De Palma.
Bato na cama,
rolam em flash-back
cenas daquela transa
em que estávamos de pileque.
Ou risco isto da lembrança,
ou me arrisco numa vingança.
Esboço um plano seqüência noir:
eu vestida para matar,
dedo no gatilho,
fecho os olhos e disparo.
Mas antes de ouvir o tiro
me dá um estalo.
Entrego então meu único vintém
para alguém
fazer um haver outro final
(de repente, um musical...):
você voltando pra mim
sorrindo beijos. FADE IN.
Paio Gomes Charinho
Oí Eu Sempre, Mia Senhor, Dizer
que peor é de sofrer o gram bem
ca o gram mal; e maravilho-m'en,
e non'o pude nem posso creer:
ca sofr'eu mal por vós qual mal, senhor,
me quer matar, e guarria melhor
se me vós bem quiséssedes fazer.
E se eu bem de vós podess'haver,
ficass'o mal que por vós hei a quem
aquesto diz; e o que assi tem
o mal em pouco, faça-o viver
Deus com mal sempr'e com coita d'amor;
e pod'assi veer qual é peor,
do gram bem ou do gram mal, de sofrer.
E o que esto diz nom sab'amar
nẽũa cousa tam de coraçom
com'eu, senhor, amo vós; demais nom
creo que sabe que x'é desejar
tal bem qual eu desejei des que vi
o vosso bom parecer, que des i
me faz por vós muitas coitas levar.
E de qual eu, senhor, ouço contar
que o bem éste, faz gram traiçom
o que bem há, se o seu coraçom
em al pom nunca senom em guardar
sempr'aquel bem. Mais eu, que mal sofri
sempre por vós e nom bem, des aqui
terríades por bem de vos nembrar.
Se o fezerdes, faredes bem i,
se nom, sem bem viverei sempr'assi,
ca nom hei eu outro bem de buscar.
José Miguel Silva
Too big to fail
garantir este rendimento crescente, numa
diária distribuição de beijos e outras mais-
valias, ainda por cima livres de impostos?
Embora confiasse na tua competência
para criar valor, confesso que não esperava
tanto quando decidi aplicar nos teus títulos
sensíveis os meus parcos activos emocionais.
O mais estranho no mundo actual, é ser este
um negócio sem perdedores, aparentemente
imune ao nervosismo das tuas acções
ou às flutuações do meu comércio libidinal.
O meu único receio é que despertemos
a inveja dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,
e que Mercado, o monstruoso titã, decida
baixar para lixo o "rating" da nossa relação,
deixando-nos sem crédito na praça romanesca
e em "default" o coração. Mas não sejamos
pessimistas. Aliás, ambos sabemos que Cupido
nos ampara com sua mão invisível. E mesmo
que entrássemos ambos em depressão, tenho
a certeza de que o Estado português nos daria
todo o apoio, concordando que um amor como
este é simplesmente demasiado grande para falir.
António Tomé
Nunca é tarde
A indiferença e já não resta nada
Senão as ilusões a que te agarras.
Ouve a voz inefável das guitarras
Tingindo de paixão a madrugada
No fim duma viagem povoada
Do canto indecifrável das cigarras.
Saberás então que há sempre um começo
No profano rio em que a vida arde,
E é nessa maré viva que estremeço.
Mas, ainda que saibas que nunca é tarde,
Não tardes, que sem ti eu anoiteço,
E não peças jamais ao rio que aguarde.
Paio Gomes Charinho
Pois Mia Ventura Tal É, Pecador
que eu hei por molher mort'a prender,
muito per devo a Deus a gradecer
e a servir, enquant'eu vivo for;
porque moiro, u mentira nom há,
por tal molher, que quen'a vir dirá
que moir'eu bem morrer por tal senhor.
Ca, pois eu hei tam gram coita d'amor
de que já muito nom posso viver,
muit'é bem saberem, pois eu morrer,
que moiro com dereit' - e gram sabor
hei eu desto; mais mal baratará,
pois eu morrer, quem mia senhor verá,
ca morrerá como eu moir'ou peor.
Ca nom há no mundo tam sofredor
que a veja que se possa sofrer
que lhe nom haja gram bem de querer.
E por esto baratará melhor:
non'a veer; ca rem nom lhe valrá
e per força bem assi morrerá
com'eu moiro, de bem desejador.
Mais eu, que me faço conselhador
doutros, devera pera mim prender
tal conselho! Mais forom-mi-o tolher
meus pecados, porque vi a melhor
molher que nunca naceu nem será.
E moiro por ela! Pero que há?
Moiro mui bem, se end'é sabedor
ela, pero sei que lhe plazerá
de mia morte – ca nom quis, nem querrá,
nem quer que eu seja seu servidor.
Orlando Mendes
Noiva
para uma grinalda na carapinha desfrisada.
Eu te daria um colar de missangas coloridas
para uma cruz de outra carne a fogo marcada
sobre o seio esquerdo ao rasgar da virgindade.
Eu te daria um trevo de quatro folhas verdes
para que te nascesse o primeiro filho varão.
Eu te daria se não fosses a noiva de todos
fazendo bandeira com uma capulana garrida
às nove da noite naquela rua de areia
suburbana. Uma rosa encarnada se desfolha
na fonte do teu corpo em cada lua nova como
se fosses a virgem noiva a quem eu daria
flores de laranjeira, um colar e um trevo
que te darei talvez para usares quando não
puderes ser noiva de todos fazendo bandeira
às nove horas da noite naquela rua de areia.
Paio Gomes Charinho
A Mia Senhor, Que Por Mal Destes Meus
olhos eu vi, fui-lhe gram bem querer;
e o melhor que dela pud'haver,
des que a vi, direi-vo-lo, par Deus:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E por esto que me disso cuidou
mim a guarir, que já moiro; mais nom
perdi por en coita do coraçom,
pero bem foi mais do que me matou:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E por aquesto cuida que seu prez
tod'há perdudo - e vedes qual senhor
me faz amar muito Deus e Amor.
E o melhor que m'ela nunca fez:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E entend'eu ca me quer atal bem
em que nom perde, nem gaanh'eu, rem.
Nuno Júdice
Leio o amor
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
Paio Gomes Charinho
Muitos Dizem Com Gram Coita D'amor
que querriam morrer e que assi
perderiam coitas; mais eu de mi
quero dizer verdad'a mia senhor:
queria-me lh'eu mui gram bem querer,
mais nom queria por ela morrer
com'outros morrerom. E que prol tem?
Ca, des que morrer, non'a veerei,
nem bõo serviço nunca lhi farei.
Por end'a senhor que eu quero bem
queria-me lh'eu mui gram bem querer
mais nom queria por ela morrer
com'outros morrerom no mundo já,
que depois nunca poderom servir
as por que morrerom, nem lhis pedir
rem. Por end'a que m'estas coitas dá
queria-me lh'eu mui gram bem querer
mais nom queria por ela morrer;
ca nunca lhi tam bem posso fazer
serviço morto como se viver.
Paio Gomes Charinho
Ua Dona Que Eu Quero Gram Bem
por mal de mi, par Deus, que nom por al,
pero que sempre mi fez e faz mal
e fará, direi-vo-lo que m'avém:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar
do coraçom. E que será de mim?
Morto sõ[o], se cedo nom morrer:
ela já nunca bem mi há de fazer,
mais sempre mal; e pero est assi:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar
do coraçom. Ora mi vai peior,
ca mi vem dela, por vos nom mentir,
mal se a vej', e mal se a nom vir,
que de coitas mais cuid[o] a maior:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar.