Poemas neste tema

Amor Romântico

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Mia Madre, Pois [A]Tal É Vosso Sem

Mia madre, pois [a]tal é vosso sem
que eu que[i]ra mal a quem mi quer bem
e me vós roguedes muito por en,
dized'ora, por Deus que pod'e val,
pois eu mal quiser a quem mi quer bem,
       se querrei bem a quem mi quiser mal.

Dizedes-mi que, se eu mal quiser
a meu amigo, que mi gram bem quer,
que faredes sempre quant'eu disser,
mais venh'or'a que mi digades al:
pois hei de querer mal a quem mi bem quer
       se querrei bem a quem mi quiser mal.

Muito mi será grave de sofrer
d'haver quem mi quer bem mal a querer,
e vós, madre, mandades-mi-o fazer,
mais faço-vos ũa pregunt'atal:
pois quem mi quer bem hei mal a querer,
       se querrei bem a quem mi quiser mal.

Se assi for, por mi podem dizer
que eu fui a que semeou o sal.
536
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Veleiro

Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 452
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Asas Abertas

As asas da minh'alma estão abertas!
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.

Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.

Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.

Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...


Publicado no livro Últimos sonetos (1905).

In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
2 624
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mimosa Boca Errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
1 528
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Rua do Alecrim

Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.

Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
1 358
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Estação do Trem

Depois de acordarmos
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
1 331
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Boca Para Ler, Para Abrir E Devorar

Boca para ler para abrir e devorar
pernas para lamber fluindo como as colinas do olhar
Boca para o meio-dia solar
pernas para correr sob o arco das montanhas
Boca para lábio a lábio língua a língua ler
Ventre retirado para sentir a fuga viva vir para a frente
Púbis para a espiga alta e pulsante soluçar
Catre rubro e suave para adormecer acordado
aí onde o sim diz a água do sim
terra que bate e bate lenta forte e doce
olho de água olho de terra abrindo e dando
1 151
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Nom Hei Eu Poder do Meu Amigo

Nom hei eu poder do meu amigo
partir, amigas, de mi querer bem,
e, pero m'eu queixo, prol nom mi tem,
e quando lh'eu rogo muit'e digo
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.

Se mi quer falar, digo-lh'eu logo
que mi nom fale, ca mi vem gram mal
de sa fala, mais mui pouco mi val;
e quando lh'eu digo muit'e rogo
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.

Sempre mi pesa com sa companha,
porque hei medo de mi crecer prez
com el, com'outra vegada já fez;
e, pero lhi dig'em mui gram sanha
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.
597
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Bloco Intacto

Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
1 118
José Saramago

José Saramago

Em Violino Fado

Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Ouro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
1 353
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Que Mui de Grad'eu Faria

Que mui de grad'eu faria
prazer ao meu amigo,
amiga, bem vo-lo digo,
mais log[o] em aquel dia
       nom leixará el, amiga,
       nulh'home a que o nom diga.

Faria-lho mui de grado,
porque sei que me deseja,
mais, se guisar u me veja
e lhi fezer seu mandado,
       nom leixará el, amiga,
       nulh'hom'a que o nom diga.

Tam coitado por mi anda
que nom há paz nem mesura;
pero se eu, per ventura,
fezer todo quant'el manda,
       nom leixará el, amiga,
       nulh'hom'a que o nom diga.

Dizedor é de nemiga
e dirá-o log', amiga.
559
Djalma Andrade

Djalma Andrade

Artista

Que graças pões, Maria, e que cuidado
No arranjo e na feitura do teu ninho!
Eu nunca vi um quarto de noivado
Feito com arte tal, com tal carinho...

Nas fronhas lindas e no cortinado,
Na alvura dos lençóis de puro linho,
Transparece o teu gosto requintado.
Benditas sejam tuas mãos de arminho!

No teu leito há talento, eu te asseguro,
E ninguém poderia, amor, supô-lo:
— Em tão pequena coisa, tanto apuro...

E eu penso vendo o teu bom gosto e zelo,
Se tal arte tu mostras em compô-lo
Que perícia terás em revolvê-lo!...

1 105
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Voss'amigo Quer-Vos Sas Dõas Dar

Voss'amigo quer-vos sas dõas dar,
amiga, e quero-vos dizer al:
dizem-mi que lhas queredes filhar;
e dized'ora, por Deus, ũa rem:
se lhi filhardes sas dõas ou al,
       que diredes por lhi nom fazer bem?

Vós nom seredes tam sem conhocer,
se lhi filhardes nulha rem do seu,
que lhi nom hajades bem a fazer;
e venh'ora preguntar-vos por en:
se lhi filhardes nulha rem do seu,
       que diredes por lhi nom fazer bem?

El punhará muit', e fará razom,
de lhas filhardes, quando vo-las der,
e vós ou lhas filharedes ou nom;
e dized'ora qual é vosso sem:
se lhi filhardes quanto vos el der,
       que diredes por lhi nom fazer bem?

Ou bem filhade quanto vos el der
e fazede bem quanto x'el quiser,

ou nom filhedes, com sem, nulha rem
nem lhi façades nunca nẽum bem.
326
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

O Meu Amigo, Forçado D'amor

O meu amigo, forçado d'amor,
pois agora comigo quer viver
ũa sazom, se o puder fazer,
nom dórmia já mentre comigo for,
       ca daquel tempo que migo guarir
       atanto perderá quanto dormir.

E quem bem quer [o] seu tempo passar
u é com sa senhor, nom dorme rem;
e meu amigo, pois pera mi vem,
nom dórmia já mentre migo morar,
       ca daquel tempo que migo guarir
       atanto perderá quanto dormir.

E, se lh'aprouguer de dormir alá
u el é, prazer-mi-á, per bõa fé,
pero dormir tempo perdud[o] é,
mais per meu grad'aqui nom dormirá,
       ca daquel tempo que migo guarir
       atanto perderá quanto dormir.

E, depois que s[e] el de mim partir,
tanto dórmia quanto quiser dormir.
642
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Quer Meu Amigo de Mi Um Preito

Quer meu amigo de mi um preito
que el já muitas vezes quisera:
que lhi faça bem; e já temp'era,
mas, como quer que seja meu feito,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

E digam-lhi por mi que nom tenha
que lho vou eu por mal demorando,
ca el anda-se de mi queixando,
mais, como quer que depois [mi] venha,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

El é por mi atam namorado
e meu amor o traj'assi louco
que se nom pod'atender um pouco,
mais, tanto que eu haja guisado,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

E, como quer que fosse, el querria
haver já bem de mim todavia.

E bem sei del que nom cataria
o que m'end'a mim depois verria.
572
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Vedes, Amigo, Ond'hei Gram Pesar

Vedes, amigo, ond'hei gram pesar:
sei muitas donas que sabem amar
seus amigos e soem-lhis falar
e nom lho sabem, assi lhis avém;
e nós sol que o queiramos provar,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Tal dona sei eu, quando quer veer
seu amigo, a que sabe bem querer,
que lho nom podem per rem entender
o[s] que cuidam que a guarda[m] mui bem;
e nós sol que o queiramos fazer,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Com'eu querria, nom se guis'assi:
falar vosco, que morredes por mi,
com'outras donas falam, e des i
nunca lhis mais podem entender rem;
e nós [sol] ante que cheguemos i,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Coita lhi venha qual ora a nós vem
per quem nos a nós tod'este mal vem.
538
Max Martins

Max Martins

Túmulo de Carmencita, 1985

Este não é o túmulo, é o poema. Aquele
outrora erguido à sombra, ao sono
de teu nome-carmen, Carmencita
Arévolo
de Vilacis, tua árvore
tua raiz, teu ventre ponderoso
pátria

(a que descubro minha
versão de não traído, não
assenhoreado)
canto
chão
jazigo
terra

que ainda aqui agora amo: abro

Tua palavra-caixa atro-vazia, muda
desistidamente muda
Soledad

Belém, fevereiro 85


Publicado no livro 60/35 (1986).

In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. São Paulo: CEJUP, 1992. p.77. (Verso & reverso, 2
1 594
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigas, o Que Mi Quer Bem

Amigas, o que mi quer bem
dizem-mi ora muitos que vem,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

O que eu amo mais ca mim
dizem que cedo será aqui,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

O que se foi daqui muit'há
dizem-mi que cedo verrá,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

E nunca mi o farám creer
se mi o nom fezerem veer.
335
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigo, Queredes-Vos Ir

Amigo, queredes-vos ir,
e bem sei eu que mi averrá:
enmentre morardes alá,
a quantos end'eu vir viir,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Nom vos poderia dizer
quant'hei de vos irdes [pesar],
mais a quantos eu vir chegar
d'u ides com el-rei viver,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Coitada ficarei d'amor
atá que mi vos Deus adusser,
mais a quantos eu já souber
que veerem d'u el-rei for,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

E, se disserem 'Bem', loarei
Deus, e graci-lo-ei a 'l-rei.
684
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Vai Meu Amigo Com El-Rei Morar

Vai meu amigo com el-rei morar
e nom mi o disse nem lh[o] outorguei,
e faz mal sem de mi faz[er] pesar;
mais eu perça bom parecer que hei,
       se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
       quanto lh'eu farei, quando mi quiser.

E [el] quer muito com el-rei viver
e [a] mia sanha non'a tem em rem;
e el-rei pode quanto quer poder,
mas mal mi venha onde vem o bem,
       se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
       quanto lh'eu farei, quando mi quiser.

E el punhou muit[o sempr'] em me servir
e a [e]l-rei nunca serviço fez,
por end'el-rei nom há que lhi gracir;
mais eu perça bom parecer e bom prez,
       se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
       quanto lh'eu farei, quando mi quiser.

Ca mais [lhi] valrá se lh'eu [bem] quiser,
que quanto bem lh'el-rei fazer poder.
555
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Foi-S'o Meu Amigo a Cas D'el-Rei

Foi-s'o meu amigo a cas d'el-rei
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.
520
Max Martins

Max Martins

Isto por Aquilo

Impossível não te ofertar:
O rancor da idade na carga do poema
O ronco do motor numa garrafa

Ou isto

(por aquilo
que vibrava
dentro do peito) o coração na boca
atrás do vidro a cavidade

o cavo amor roendo
o seu motor-rancor
— ruídos

Belém, maio 84


Publicado no livro 60/35 (1986).

In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.74. (Verso & reverso, 2
1 215
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

Voz do Olhar

Quando teus olhos feriram o silêncio,
ouviram os meus...

( in, LUZES DO SILÊNCIO)
Fortaleza - Ce, 1 Fortaleza - Ce, 1988

886
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

o Voss'amigo Que S'a Cas D'el-Rei

- O voss'amigo que s'a cas d'el-rei
foi, amiga, mui cedo vos verrá,
e partide as dõas que vos dará
- Amiga, verdade bem vos direi:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

- Disserom-mi ora, se Deus mi perdom,
que vos trage dõas de Portugal,
e, amiga, non'as partades mal.
- Direi-vos, amiga, meu coraçom:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

- Dizem, amiga, que nom vem o meu
amigo, mailo vosso cedo vem,
e partid'as dõas, que trage, bem.
- Direi-vos, amiga, o que dig'eu:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

E bem sei eu [que], des que el veer,
haverei dõas e quant'al quiser.
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