Poemas neste tema
Amor Romântico
D. Dinis
Ua Pastor Bem Talhada
Ũa pastor bem talhada
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant'eu vi, mui coitada;
e diss': "Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi o meu há errado".
Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores?
Pois m'errastes tam em vão!"
E caeu antr'ũas flores.
Ũa gram peça do dia
jouv'ali, que nom falava,
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss': "Ai Santa Maria!
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, per quant'eu sei, senhora."
"Se me queres dar guarida",
diss'a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m'é esta vida".
Diss[e] el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida,
erged'olho e vee-lo-edes".
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant'eu vi, mui coitada;
e diss': "Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi o meu há errado".
Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores?
Pois m'errastes tam em vão!"
E caeu antr'ũas flores.
Ũa gram peça do dia
jouv'ali, que nom falava,
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss': "Ai Santa Maria!
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, per quant'eu sei, senhora."
"Se me queres dar guarida",
diss'a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m'é esta vida".
Diss[e] el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida,
erged'olho e vee-lo-edes".
435
D. Dinis
O Gram Viç'e o Gram Sabor
O gram viç'e o gram sabor
e o gram conforto que hei
é porque bem entender sei
que o gram bem da mia senhor
nom querrá Deus que err'em mi,
que a sempr'amei e servi
e lhi quero ca mim melhor.
Esto me faz alegr'andar
e mi dá confort'e prazer,
cuidand'em como poss'haver
bem daquela que nom há par;
e Deus, que lhi fez tanto bem,
nom querrá que o seu bom sem
err'em mim, quant'é meu cuidar.
E por end'hei no coraçom
mui gram prazer; ca tal a fez
Deus, que lhi deu sem, com bom prez,
sobre quantas no mundo som,
que nom querrá que o bom sem
err'em mim, mais dar-mi-á, cuid'en,
dela bem e bom galardom.
e o gram conforto que hei
é porque bem entender sei
que o gram bem da mia senhor
nom querrá Deus que err'em mi,
que a sempr'amei e servi
e lhi quero ca mim melhor.
Esto me faz alegr'andar
e mi dá confort'e prazer,
cuidand'em como poss'haver
bem daquela que nom há par;
e Deus, que lhi fez tanto bem,
nom querrá que o seu bom sem
err'em mim, quant'é meu cuidar.
E por end'hei no coraçom
mui gram prazer; ca tal a fez
Deus, que lhi deu sem, com bom prez,
sobre quantas no mundo som,
que nom querrá que o bom sem
err'em mim, mais dar-mi-á, cuid'en,
dela bem e bom galardom.
654
Renato Rezende
Sobre a Terra
Esquecidos de nossas asas, nos amamos
perdidos no fundo do céu.
Fechamos os olhos e nos beijamos.
(O sol longe, longe, perdido
na cúpula do azul infinito)
Somos os anjos caídos
e se faz noite sobre a Terra.
Nova Iorque, maio 1994
perdidos no fundo do céu.
Fechamos os olhos e nos beijamos.
(O sol longe, longe, perdido
na cúpula do azul infinito)
Somos os anjos caídos
e se faz noite sobre a Terra.
Nova Iorque, maio 1994
786
D. Dinis
De Mi Vós Fazerdes, Senhor
De mi vós fazerdes, senhor,
bem ou mal, tod'est'em vós é,
e sofrer m'é, per bõa fé,
o mal; ca o bem, sabedor
sõo que o nom hei d'haver;
mais que gram coit'há de sofrer
quem é coitado pecador!
Ca no mal, senhor, viv'hoj'eu,
que de vós hei; mais nulha rem
nom atendo de vosso bem
e cuido sempre no mal meu,
que pass'e que hei de passar,
com haver sempr'[a] desejar
o mui gram bem que vos Deus deu.
E pois que eu, senhor, sofri
e sofro por vós tanto mal
e que de vós nom atend'al,
em que grave dia naci!
Que eu de vós por galardom
nom hei d'haver se coita nom,
que sempr'houvi des que vos vi.
bem ou mal, tod'est'em vós é,
e sofrer m'é, per bõa fé,
o mal; ca o bem, sabedor
sõo que o nom hei d'haver;
mais que gram coit'há de sofrer
quem é coitado pecador!
Ca no mal, senhor, viv'hoj'eu,
que de vós hei; mais nulha rem
nom atendo de vosso bem
e cuido sempre no mal meu,
que pass'e que hei de passar,
com haver sempr'[a] desejar
o mui gram bem que vos Deus deu.
E pois que eu, senhor, sofri
e sofro por vós tanto mal
e que de vós nom atend'al,
em que grave dia naci!
Que eu de vós por galardom
nom hei d'haver se coita nom,
que sempr'houvi des que vos vi.
862
D. Dinis
Pois Ante Vós Estou Aqui
Pois ante vós estou aqui,
senhor deste meu coraçom,
por Deus, teede por razom,
por quanto mal por vós sofri,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois do mal que eu levei
muit'há vós sodes sabedor,
teede já por bem, senhor,
por Deus, pois tanto mal passei,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois que viv'em coita tal
per que o dormir e o sem
perdi, teede já por bem,
senhor, pois tant'é o meu mal,
de vos querer de mi doer
ou de me deixardes morrer
ou de me quererdes valer.
ou de me quererdes valer.
senhor deste meu coraçom,
por Deus, teede por razom,
por quanto mal por vós sofri,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois do mal que eu levei
muit'há vós sodes sabedor,
teede já por bem, senhor,
por Deus, pois tanto mal passei,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois que viv'em coita tal
per que o dormir e o sem
perdi, teede já por bem,
senhor, pois tant'é o meu mal,
de vos querer de mi doer
ou de me deixardes morrer
ou de me quererdes valer.
ou de me quererdes valer.
647
Félix Aires
Trovas
Longe, a gaivota voando,
é um til perdido nos ares...
E eu viajo, me recordando
da bênção dos teus olhares!
Por tua beleza tanta
se enflora meu pensamento,
e a boca da noite canta
as melodias do vento.
Da mais pura filigrana,
com esse encanto de lenda,
tu és uma trova humana
vestida de seda e renda.
Quando ela chega, seu riso
é um lírio abrindo a corola
e então nascem de improviso
flores ao pé da viola.
Que lindo o mar! Nestas rotas
vejo as velas nos folguedo!
Alva toalha de gaivotas
sobre a mesa dos rochedos!
Da caboclinha bonita
armam-se os seios seguros,
que são dois frutos maduros
dentro de um ramo de chita!
é um til perdido nos ares...
E eu viajo, me recordando
da bênção dos teus olhares!
Por tua beleza tanta
se enflora meu pensamento,
e a boca da noite canta
as melodias do vento.
Da mais pura filigrana,
com esse encanto de lenda,
tu és uma trova humana
vestida de seda e renda.
Quando ela chega, seu riso
é um lírio abrindo a corola
e então nascem de improviso
flores ao pé da viola.
Que lindo o mar! Nestas rotas
vejo as velas nos folguedo!
Alva toalha de gaivotas
sobre a mesa dos rochedos!
Da caboclinha bonita
armam-se os seios seguros,
que são dois frutos maduros
dentro de um ramo de chita!
937
Raimundo Correia
Nuvem Branca
Dizei-me: é ela a noiva casta e pura,
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;
Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...
Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?
É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?
É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...
Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p. 79-80
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;
Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...
Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?
É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?
É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...
Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p. 79-80
2 462
D. Dinis
Senhor Fremosa, Vejo-Vos Queixar
Senhor fremosa, vejo-vos queixar
porque vos am', e no meu coraçom
hei mui gram pesar, se Deus mi perdom,
porque vej'end'a vós haver pesar;
e queria-m'en de grado quitar,
mais nom posso forçar o coraçom,
que mi forçou meu saber e meu sem,
des i meteu-me no vosso poder;
e do pesar que vos eu vej'haver,
par Deus, senhor, a mim pesa muit'en;
e partir-m'-ia de vos querer bem,
mais tolhe-m'end'o coraçom poder,
que me forçou de tal guisa, senhor,
que sem nem força nom hei já de mi;
e do pesar que vós tomades i,
tom'eu pesar, que nom posso maior;
e queria nom vos haver amor,
mais o coraçom pode mais ca mi.
porque vos am', e no meu coraçom
hei mui gram pesar, se Deus mi perdom,
porque vej'end'a vós haver pesar;
e queria-m'en de grado quitar,
mais nom posso forçar o coraçom,
que mi forçou meu saber e meu sem,
des i meteu-me no vosso poder;
e do pesar que vos eu vej'haver,
par Deus, senhor, a mim pesa muit'en;
e partir-m'-ia de vos querer bem,
mais tolhe-m'end'o coraçom poder,
que me forçou de tal guisa, senhor,
que sem nem força nom hei já de mi;
e do pesar que vós tomades i,
tom'eu pesar, que nom posso maior;
e queria nom vos haver amor,
mais o coraçom pode mais ca mi.
525
Renato Rezende
As Horas de Amor
O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.
Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.
Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?
Nova York, 28 de junho 1995
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.
Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.
Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?
Nova York, 28 de junho 1995
991
D. Dinis
Vi Hoj'eu Cantar D'amor
Vi hoj'eu cantar d'amor
em um fremoso virgeu,
ũa fremosa pastor
que, ao parecer seu,
jamais nunca lhi par vi;
e por en dixi-lh'assi:
"Senhor, por vosso vou eu".
Tornou sanhuda entom,
quando m'est'oiu dizer,
e diss': "Ide-vos, varom!
Quem vos foi aqui trajer
para m'irdes destorvar
d'u dig'aqueste cantar
que fez quem sei bem querer?"
"Pois que me mandades ir,"
dixi-lh'eu, "senhor, ir-m'-ei;
mais já vos hei de servir
sempr'e por voss'andarei;
ca voss'amor me forçou,
assi que por vosso vou,
cujo sempr'eu já serei."
Dix'ela: "Nom vos tem prol
esso que dizedes, nem
mi praz de o oir sol,
ant'hei noj'e pesar en;
ca meu coraçom nom é,
nem será, per bõa fé,
senom do que quero bem."
"Nem o meu", dixi-lh'eu "já,
senhor, nom se partirá
de vós, por cujo s'el tem."
"O meu", diss'ela, "será
u foi sempr'e u está,
e de vós nom curo rem."
em um fremoso virgeu,
ũa fremosa pastor
que, ao parecer seu,
jamais nunca lhi par vi;
e por en dixi-lh'assi:
"Senhor, por vosso vou eu".
Tornou sanhuda entom,
quando m'est'oiu dizer,
e diss': "Ide-vos, varom!
Quem vos foi aqui trajer
para m'irdes destorvar
d'u dig'aqueste cantar
que fez quem sei bem querer?"
"Pois que me mandades ir,"
dixi-lh'eu, "senhor, ir-m'-ei;
mais já vos hei de servir
sempr'e por voss'andarei;
ca voss'amor me forçou,
assi que por vosso vou,
cujo sempr'eu já serei."
Dix'ela: "Nom vos tem prol
esso que dizedes, nem
mi praz de o oir sol,
ant'hei noj'e pesar en;
ca meu coraçom nom é,
nem será, per bõa fé,
senom do que quero bem."
"Nem o meu", dixi-lh'eu "já,
senhor, nom se partirá
de vós, por cujo s'el tem."
"O meu", diss'ela, "será
u foi sempr'e u está,
e de vós nom curo rem."
473
Fontoura Xavier
Brinde
Eu bebo à manhã de amores,
Manhã em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos,
Pisando na mesma grama.
E bebo à noite de amores,
À noite, em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos
Debaixo da mesma cama...
Na segunda edição de Opalas (1905), este poema aparece duas vezes, em livros diferentes: aparece pela primeira vez em Musa Livre e, pela segunda vez, em Ruínas, com o título Um brinde. Em Um brinde, os versos 4, 5 e 6, de ambas as estrofes, aparecem entre parênteses.
XAVIER, Fontoura. Opalas. 5. ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, PUCRS, 1984. p. 31
Manhã em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos,
Pisando na mesma grama.
E bebo à noite de amores,
À noite, em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos
Debaixo da mesma cama...
Na segunda edição de Opalas (1905), este poema aparece duas vezes, em livros diferentes: aparece pela primeira vez em Musa Livre e, pela segunda vez, em Ruínas, com o título Um brinde. Em Um brinde, os versos 4, 5 e 6, de ambas as estrofes, aparecem entre parênteses.
XAVIER, Fontoura. Opalas. 5. ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, PUCRS, 1984. p. 31
1 808
D. Dinis
Quand'eu Bem Meto Femença
Quand'eu bem meto femença
em qual vos vej'e vos vi,
des que vos eu conhoci,
Deus, que nom mente, mi mença,
senhor, se hoj'eu sei bem
que semelh'o voss'em rem.
Quand'eu a beldade vossa
vejo, que vi por meu mal,
Deus, que a coitados val,
a mim nunca valer possa,
senhor, se hoj'eu sei bem,
que semelh'o voss'em rem.
E quem o assi nom tem,
nom vos viu ou nom há sem.
em qual vos vej'e vos vi,
des que vos eu conhoci,
Deus, que nom mente, mi mença,
senhor, se hoj'eu sei bem
que semelh'o voss'em rem.
Quand'eu a beldade vossa
vejo, que vi por meu mal,
Deus, que a coitados val,
a mim nunca valer possa,
senhor, se hoj'eu sei bem,
que semelh'o voss'em rem.
E quem o assi nom tem,
nom vos viu ou nom há sem.
870
D. Dinis
Por Deus, Senhor, Pois Per Vós Nom Ficou
Por Deus, senhor, pois per vós nom ficou
de mi fazer bem e ficou per mi,
teede por bem, pois assi passou,
em galardom de quanto vos servi,
de mi teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Nom ficou per vós de mi fazer bem,
e de Deus hajades bom galardom,
mais a mi a míngua foi grand'; e por en
por mercee teede por razom
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Sempre vos desto bom grado darei,
mais eu minguei em loor e em prez,
como Deus quis; mais [pois] assi passou,
praza-vos, senhor, por qual vos El fez,
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Ca nom tiro eu nem vós prez nem loor
daqueste preito, se sabudo for.
de mi fazer bem e ficou per mi,
teede por bem, pois assi passou,
em galardom de quanto vos servi,
de mi teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Nom ficou per vós de mi fazer bem,
e de Deus hajades bom galardom,
mais a mi a míngua foi grand'; e por en
por mercee teede por razom
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Sempre vos desto bom grado darei,
mais eu minguei em loor e em prez,
como Deus quis; mais [pois] assi passou,
praza-vos, senhor, por qual vos El fez,
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Ca nom tiro eu nem vós prez nem loor
daqueste preito, se sabudo for.
816
Charles Bukowski
Um Poema Para o Engraxate
o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 171
D. Dinis
Que Trist'hoj'é Meu Amigo
Que trist'hoj'é meu amigo,
amiga, no seu coraçom,
ca nom pode falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Trist'anda, se Deus mi valha,
ca me nom viu, e dereit'é,
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi
nem ar oíu meu mandado,
e por en faz gram dereit'i
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Mais, Deus, como pode durar
que já nom morreu com pesar?
amiga, no seu coraçom,
ca nom pode falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Trist'anda, se Deus mi valha,
ca me nom viu, e dereit'é,
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi
nem ar oíu meu mandado,
e por en faz gram dereit'i
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Mais, Deus, como pode durar
que já nom morreu com pesar?
736
D. Dinis
Senhor, Em Tam Grave Dia
Senhor, em tam grave dia
vos vi que nom poderia
mais; e, por Santa Maria,
que vos fez tam mesurada,
doede-vos algum dia
de mi, senhor bem talhada.
Pois sempr'há em vós mesura
e todo bem e cordura,
que Deus fez em vós feitura
qual nom fez em molher nada,
doede-vos por mesura
de mim, senhor bem talhada.
E por Deus, senhor, tomade
mesura por gram bondade
que vos El deu, e catade
qual vida vivo coitada
e algum doo tomade
de mi, senhor bem talhada.
vos vi que nom poderia
mais; e, por Santa Maria,
que vos fez tam mesurada,
doede-vos algum dia
de mi, senhor bem talhada.
Pois sempr'há em vós mesura
e todo bem e cordura,
que Deus fez em vós feitura
qual nom fez em molher nada,
doede-vos por mesura
de mim, senhor bem talhada.
E por Deus, senhor, tomade
mesura por gram bondade
que vos El deu, e catade
qual vida vivo coitada
e algum doo tomade
de mi, senhor bem talhada.
394
D. Dinis
Chegou-M'or'aqui Recado,
Chegou-m'or'aqui recado,
amiga, do voss'amigo,
e aquel que falou migo
diz-mi que é tam coitado
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Diz que hoje tercer dia
bem lhi partírades morte,
mais houv'el coita tam forte
e tam coitad'er jazia
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Com mal que lhi vós fezestes
jurou-mi, amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes del quanto quisestes,
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
E gram perda per fazedes
u tal amigo perdedes.
amiga, do voss'amigo,
e aquel que falou migo
diz-mi que é tam coitado
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Diz que hoje tercer dia
bem lhi partírades morte,
mais houv'el coita tam forte
e tam coitad'er jazia
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Com mal que lhi vós fezestes
jurou-mi, amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes del quanto quisestes,
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
E gram perda per fazedes
u tal amigo perdedes.
765
D. Dinis
Roga-M'hoje, Filha, o Voss'amigo
Roga-m'hoje, filha, o voss'amigo
muit'aficado que vos rogasse
que de vos amar nom vos pesasse,
e por en vos rog'e vos castigo
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
E, u m'estava em vós falando
e m'esto que vos digo rogava,
doí-me del, tam muito chorava,
e por en, filha, [vos] rog'e mando
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
Ca de vos el amar de coraçom
nom vej'eu rem que vós i perçades,
sem i mais haver, mais gaanhades,
e por esto, pola mia beençom,
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
muit'aficado que vos rogasse
que de vos amar nom vos pesasse,
e por en vos rog'e vos castigo
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
E, u m'estava em vós falando
e m'esto que vos digo rogava,
doí-me del, tam muito chorava,
e por en, filha, [vos] rog'e mando
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
Ca de vos el amar de coraçom
nom vej'eu rem que vós i perçades,
sem i mais haver, mais gaanhades,
e por esto, pola mia beençom,
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
592
D. Dinis
O Meu Amig', Amiga, Nom Quer'eu
O meu amig', amiga, nom quer'eu
que haja gram pesar nem gram prazer,
e quer'eu este preit'assi trager,
ca m'atrevo tanto no feito seu:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
Ca, se lh'eu amor mostrasse, bem sei
que lhi seria end'atam gram bem
que lh'haveriam d'entender por en
qual bem mi quer; por end'esto farei:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E, se lhi mostrass'algum desamor,
nom se podia guardar de morte,
tant'haveria en coita forte,
mais, por eu nom errar end'o melhor,
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E assi se pode seu tempo passar,
quando com prazer, quando com pesar.
que haja gram pesar nem gram prazer,
e quer'eu este preit'assi trager,
ca m'atrevo tanto no feito seu:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
Ca, se lh'eu amor mostrasse, bem sei
que lhi seria end'atam gram bem
que lh'haveriam d'entender por en
qual bem mi quer; por end'esto farei:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E, se lhi mostrass'algum desamor,
nom se podia guardar de morte,
tant'haveria en coita forte,
mais, por eu nom errar end'o melhor,
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E assi se pode seu tempo passar,
quando com prazer, quando com pesar.
598
D. Dinis
Amiga, Bom Grad'haja Deus
Amiga, bom grad'haja Deus
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
790
Fahed Daher
Acróstico
Bandos passaram, de ilusões variadas,
A se esbater e a procurar abrigo,
Ri-me de todas, nãos lhes fui amigo
Bondoso e terno, foram-se estioladas.
Algumas trago ,ainda, mal guardadas,
Rotas e tristes a seguir comigo,
Astros sem luz no vasto, infindo e antigo
Firmamento brutal das madrugadas.
Emerge, agora, em minha solidão,
Límpida, bela e pura ,outra ilusão
Indicando-me a vida desejada;
Passam-se os dias e ela não decresce,
Projeta-se, se eleva e me enternece,
Obrigando-me a ver que és minha amada.
Apucarana, 1.956 4221589
A se esbater e a procurar abrigo,
Ri-me de todas, nãos lhes fui amigo
Bondoso e terno, foram-se estioladas.
Algumas trago ,ainda, mal guardadas,
Rotas e tristes a seguir comigo,
Astros sem luz no vasto, infindo e antigo
Firmamento brutal das madrugadas.
Emerge, agora, em minha solidão,
Límpida, bela e pura ,outra ilusão
Indicando-me a vida desejada;
Passam-se os dias e ela não decresce,
Projeta-se, se eleva e me enternece,
Obrigando-me a ver que és minha amada.
Apucarana, 1.956 4221589
866
Adriano Espínola
Táxi
ou poema de amor passageiro
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
2 886
D. Dinis
Bom Dia Vi Amigo,
Bom dia vi amigo,
pois seu mandad'hei migo,
louçana.
Bom dia vi amado,
pois mig'hei seu mandado,
louçana.
Pois seu mandad'hei migo,
rog'eu a Deus e digo
louçana.
Pois migo hei seu mandado,
rog'eu a Deus de grado,
louçana.
Rog'eu a Deus e digo
por aquel meu amigo,
louçana.
[Rog'eu a Deus de grado
por aquel namorado,
louçana.]
Por aquel meu amigo,
que o veja comigo,
louçana.
Por aquel namorado,
que fosse já chegado,
louçana.
pois seu mandad'hei migo,
louçana.
Bom dia vi amado,
pois mig'hei seu mandado,
louçana.
Pois seu mandad'hei migo,
rog'eu a Deus e digo
louçana.
Pois migo hei seu mandado,
rog'eu a Deus de grado,
louçana.
Rog'eu a Deus e digo
por aquel meu amigo,
louçana.
[Rog'eu a Deus de grado
por aquel namorado,
louçana.]
Por aquel meu amigo,
que o veja comigo,
louçana.
Por aquel namorado,
que fosse já chegado,
louçana.
1 016
Bruno de Menezes
Os Esponsais das Icamiabas - Lenda Amazônica, 1952
Vai ser a Grande Noite...
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
3 308