Poemas neste tema

Amor Romântico

Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Poema Quase Erótico

Começo agora a sentir.
A sentir-te,
num toque de lábios.
Sinto-te perto de mim,
com teus pequenos passos,
escorregadios,
a acariciar-me a face.
Os teus toques,
apesar de gélidos,
esquentam-me o corpo inteiro,
fazendo-me queimar,
de ternura.
E num simples tocar,
derreto-me, perco-me, distraio-me.
E tu continuas a tocar-me,
escorrendo-me pelo corpo,
fazendo-me cócegas,
excitantes.
Até que tu vais,
sem nem deixar-me saber
quem tu és.
Mas, agora,
percebendo e sentindo,
o mais íntimo dos teus toques,
começo a saber.
É como se fosse,
e é...
orvalho!

Salvador, 28 de outubro de 1996

894
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - I

Como se poderia desfazer em mim tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? E pela cabeça
que os mortos maravilhosamente pesam
no nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.

Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza — receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as rosas bebem o jeito aéreo e a boca
a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campanulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. Abeira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos corram, deslumbradas
da sua grande luz
nas águas. Existe um nome suspenso
sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos — a tua cabeça antiga como o verde
nas pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa rodeada de estreitas
víboras —
sobe do meu coração até que a minha cabeça
seja a possessiva, doce cabeça
dos mortos.
646
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Animal Olhar

Meus olhos não fabricam
a realidade ou tu:
limpos barcos,
novidade acesa como a terra viva,
movimento de braços, amálgama
exacta duna.

Meus olhos não fabricam mas encontram.

A terra que se enche já vem cheia,
o hálito começa na claridade do céu.
Os homens dançam por vezes.
Este momento é teu.
*
Ó calmo olhar animal
da terra ao mar, popa
de espuma.
O mundo é natural, ridente, quando o verde rompe,
animal olhar.
Não estou só: porque te acendo entre as pedras,
abarco tua altura larga e teu ombro,
essência da fome visual e braço e nome.
*
Do teu calor me nutro e fortifico,
no silêncio da tua espera.
Brilha o teu tecido circular,
a terra é um átrio: o mar é perto.
Há passos de mulher descalça.
O mundo é novo.
A terra clara.
*
Eu sou o homem que te ama e escuta
concentradamente no calor dum muro.
Cerrado, oiço a tua unidade plural,
vejo teus dedos grossos,
tuas marcas fêmeas, tua elegância dolorosa.
Teus seios me nutrem, olhando-te.
*
Mastigo-te, raiz, e quase te oiço.
Construo um músculo verbal em teu ouvido,
alimento-me do teu mar visual e lento:
renasço pouco a pouco no teu horizonte dado.
Revejo-me num corpo ao pé do mar.
*
Silêncio no teu olhar, na tua boca.
Em tua língua primitiva o mar se olha.
É o deserto e falas, boca brusca
de ignorado alento.
Não te construo, constróis-me, construo-te
construo-te, mar,
parede pura,
criada.
*
Aqui onde o sol se acende em carne,
onde a casa é um nome de mar,
e os frutos e os espelhos
amadurecem o corpo solidário:
É Verão.

Aqui tu és
lenta verdade no sossego do sangue:
circulação de nomes e de peixes.
*
Aqui, à fome dos nomes e dos seres,
respondes, corpo do mar, coluna real
e teus acidentes se cumprem como ondas.
Aqui te palpo, vela, aqui te vejo, pomo,
formas meus braços, se te enleio,
desato simplesmente os teus anéis,
bebo-te sem te extinguir e sem me esperares.
Amanhã serás tu, sendo já hoje.
*
Recebendo-te como outra, outra nasces
e a ti mesma te igualas, porque és mar.
Teu corpo denso se aproxima, ora se afasta.
Há um perfume de uma noite inextinguível
nas tuas coxas claras.
*
Oiço-te ampla sob os ruídos.
Vária e verde, tapete derramado
sobre os ombros: acordas.
Não te peço qualquer nome, tu és banho
de calor fecundo, ondulação de frutos
sobre a mesa de pedra em que te aceito.
*
Em tua boca respiram as janelas.
Tua música de muros e varandas
abre-se ao céu e às ténues páginas.
*
Vejo-te abundante e a minha sede cresce,
obscura ainda, renascente já.
Quero claramente reconhecer-me em ti.
Entrego-me sem espelhos, amálgama,
no teu silêncio me envolvo e te circundo.
És mais exacta, mais dura, mais viva.
A tua recusa cresce como um céu
por sobre o muro.
*
Aconteceram hoje palavras como folhas
na tua nuca de silêncio.
Como pássaros que ainda mais dizem o céu,
como pedras que ainda mais dizem a terra,
aconteceram hoje palavras que disseram
o nosso encontro em fuga.
*
O que sei de ti: ignorância
conquistada, lábios que se movem,
forma de vertigem declinada,
aridez, aridez: cabeça rente
às perspectivas fechadas.
O que sei: ocupação de ti, nunca ocupada,
aberta, ignorada, sempre viva,
ó encontrada!
*
O que sei de ti é olhar e não te ver,
é fuga abrupta, mar que se fecha sob pálpebras,
pupila violenta, larga lâmina,
facilidade pura
sem rede, sem degraus: só verde, extensa,
ramificada parede de sol,
perpétuo lar do instante amadurecido,
virgem, verde, real,
alento que respiro,
brilho, beijo na pedra.
*
Teus nomes, tua mesa
onde disponho os copos:
à luz demasiado crua e logo ténue
as palavras serão simples, vagarosas.

Entre nós, quantas paredes repercutem
esta dureza aguda.
Um corpo desenhado nos seus ossos.

Um olhar entre o gume da faca
e a simplicidade do pão.
Uma fala justa.
*
Às vezes sinto-te entre o sol e o papel,
às vezes oiço-te quase respirar
nas tranquilas coisas repousadas,
mas sempre estou a procurar-te.

Não te detenho nem fiel te sou,
às vezes, simplesmente, sem que o queira
e de tanto te querer, já o sou,
roda rodando no meu pulso,
ao lento baile em que a visão começa.
*
Sou pobre antes de ti. Pobre, regresso
a esta mão póstuma, a este olhar difuso.
Pobre te quero, te saúdo ainda.
A ti voltarei, nudez com veias,
mais do que pobre, aceso e nu à mesa.
*
É sobre o silêncio e sobre a noite,
sobre a miséria, sobre o ventre, sobre o amor,
mas ainda mais sobre o corpo inominado:
sobre a fome, sobre a luz do corpo exacto,
o corpo brando e duro: o corpo intacto,
o corpo pleno e vivo à luz das ruas:
pão descoberto, aberto, sem fissuras.
*
É pão e onda e tem sabor a terra
e tem sabor a mar.
Até aos ombros coluna e fogo alto,
forma palpável do sol desenrolada,
ao olhar, às mãos, à língua,
a luz que se fez corpo
e baila nas calçadas.
*
Respiração e fome conjugadas
no abraço sem nuvens,
pão de sol comido língua a língua,
ó novo alento, ó nova criatura,
sempre a que nasce doutra e é mais pura.
*
Defronte os ombros nus,
o espaço aberto: uns braços longos.
Defronte: um corpo. Serenidade.
Eu tudo sei do corpo ao dia,
da terra ao espaço, de mim a ti.

Eu tudo sei e assim descubro
a luz, a água, o pão, o corpo:
habito a terra, habito mais,
contra mim mesmo descanso e nasço.
*
Esta ciência de inocência e água
se toco, delicado, ou pão ou página,
ou corpo, ou fruto, ou verde folha,
este pisar que é duro e leve,
a frescura e a sombra, o ar, a luz
— tudo me dás, tudo te dou, tudo nos damos.
*
E a terra mais próxima e as ervas
e os bichos translúcidos entre pedras,
a serena eclosão dos nomes, cabeleira
sobre o corpo fresco, intenso e nu.
Verdade ainda mais próxima dos tranquilos campos,
paz que se alonga às searas por um corpo amado,
renhidamente amado entre a verdura
na noite de estrelas claras e estáticas.
*
Sóbrio o teu corpo me pede
penetração: nomes puros:
os de boca, braços, mãos
sobre a terra e sobre os muros.

Sóbrio o teu corpo me pede
nomes justos, nomes duros:
os de terra, fogo e punhos,
claros, acres, escuros.
1 225
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Fronteira da Sede

Onde chegam na fronteira da sede,
onde perdem ou ganham lábios felizes, instantâneos,
onde chegam e se perdem, à altura
do chão que se ouve e vê,
espuma do meio-dia,
uma espádua desce longa pela mão,
à altura inteira chegam,
onde se erguem e caem em plena sede.

Queda branca
através de anéis rubros,
na saliva e no suor a estrela viva forma-se,
se desfaz e refaz,
matéria modelada corpo a corpo,
fugacíssima estrela presente,
peso de dança extrema,
a terra se coloca em seu centro de chão,
a estrela ganha lábios de barro em rodopio,
que da raiz dos braços e das virilhas nasce.

Onde chegam, onde chegam, e se consomem, no sumo,
lento, extremo círculo, ténue, pleno círculo
da luz em que se entregaram e beberam,
e soltos pousam livres membros que pesam doces,
cientes dessa água última que se estende e perdura,
doce água última em que se alongam
extensos, perdurando.
1 064
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Poesia de Agosto

Foi em Agosto que descobri
O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo úmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol
Todo o êxtase viril que de ti vinha

Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu
O colorido do poente brincando em mim
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos

Sonho porque te quero sonhar
E deixa-me dizer-te
Porque senão eu choro
Eu sou o espaço...
Uma dádiva...

Vem porque é Agosto
E quero cantar-te...

1 525
Aldir Blanc

Aldir Blanc

Clima-X

Quando, agonizantes, gozamos,

transcendemos

essa históriade ser mulher
ou ser marido:

É como se você fosse terra
e eu tivesse chovido.

1 250
Aldir Blanc

Aldir Blanc

Baile de Formatura

Para Mari Lúcia

Eu não sonhei
que você estava linda.
Eu realmente fui ao baile
e vi você de relance, linda,
de uniforme de normalista,
e seus olhos eram olhos
de uma mulher enamorada,
parecida com a Malu Mader.
Sentindo frio em minhalma,
procurei o bar
pra tomar cuba-libre e coragem.
Quando voltei pro salão
você não estava.
Tinha casado e mudado.
Ainda havia flamingos,
viagens sentimentais,
encantamentos, convites,
damas apaixonadas,
sofisticadas e vagabundas,
a quem amei, mesmo sabendo
que isso não pode ser amor.
Não adianta me chamar
de irresponsável.
Eu estava me sentindo um tolo
por querer você.

Ainda assim, tive luas azuis,
luas pálidas,
luas brilhando sobre
cidades desconhecidas
e um caso para relembrar
e esquecer,
e novo tempo de partir
e o que será, será,
as luzes da cidade
refletindo
um sorriso na lembrança,
um certo sorriso de verão,
cerca de meia-noite,
um sorriso de velhos amigos
embora estranhos no paraíso,
e esse sorriso reacendeu
minha velha chama:
eu dançaria a noite inteira
de rosto colado,
dançando no escuro
canções de setembro,
dançando na chuva,
nas areias da maré baixa,
mas você ainda não estava
dançando a melodia imortal,
você era uma estrela
piscando acima do arco-íris,
e de repente havia fumaça
em seus olhos,
amores clandestinos,
minha garota melancólica,
até nosso reencontro,
mas depois daquela última dança,
corpo e alma,
nunca mais seremos os mesmos.

Hoje a canção é você
e eu estou feliz
por ser infeliz nessa fascinação
entre folhas mortas,
gardênias azuis,
serenatas ao luar,
canções da Índia,
cartas de amor...
With a song in my heart
eu te esperei vinte anos,
acordado e triste,
no salão silencioso e apagado.
Você mudou, noite e dia,
mudou suave e adoravelmente,
e ainda tem os mesmos olhos,
olhos de mulher apaixonada,
olhos de Malu Mader,
e agora, por causa de você,
por tudo que você é,
eu posso finalmente sonhar
que durante todo esse tempo
você não flertou com ninguém,
e que olha só para mim,
meu amor,
meu par.

1 849
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Nariz do Morto

— Olha. O nariz do morto! — que nariz
e que morto? Que piada mais sem graça
é esta? — Não, senhor. É o Vilaça
(Antônio Carlos) com seu livro duro
e triste, machucante — almofariz
em que mói a si próprio e se destrói,
para ressuscitar ainda à procura
de seu rumo, indefesa criatura
solta ao vento da vida. Quer a paz?
Quer a guerra interior, ou foge dela?
Entre cacos de vida, Sigismundo,
numa doçura mista de amargor,
de letras e leituras faz seu mundo.
Há de salvá-lo não a fé; talvez
o raio impressentido de um amor.
1 196
Herberto Helder

Herberto Helder

Narração de Um Homem Em Maio

Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.

Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.

Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.

São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.

Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.

Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.

Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.


1953-60
1 128
Silva Avarenga

Silva Avarenga

Madrigal XXXIV

Ditoso e brando vento, por piedade
Entrega à linda Glaura os meus suspiros;
E voltado os teus giros,
Vem depois consolar minha saudade.
Não queiras imitar a crueldade
Do injusto amor, da triste desventura,
Que empenhada procura o meu tormento.
Ditoso e brando vento,
Voa destes retiros,
E entrega à linda Glaura os meus suspiros.

989
Herberto Helder

Herberto Helder

6

pratica-te como contínua abertura,
o mais atento que custe,
com uma volta sobre ti mesma até eu aparecer no outro lado do rosto
quando te olhas,
espera que desapareça o ruído em cada palavra,
e agora só a ela se ouça,
e então aumenta tanto quanto possas se escutas
que me aproximo,
a género de abrasadura mulheril,
a cálculo lírico infundido nas lides de ar e fogo,
edoi lelia doura,
que o mênstruo coza e a seda escume,
à luz que nasce da roupa,
e os substantivos perfeitos respirem uns dos outros na têmpera
e frescor da língua indestrutível,
e então estendo por ti acima o melhor do meu braço,
se é que posso fulgurar,
e enquanto crio, cria-me, e cria-te como começo de mim mesmo,
isto: que unas o avulso,
se te puderes mover como o ar que respiro, ó
irrepetível, inenarrável, inerente
557
Silva Avarenga

Silva Avarenga

Madrigal XXIX

Não desprezes, ó Glaura, entre estas flores,
Com que os prados matiza a bela Flora,
O jambo, que os Amores
Colheram ao surgir a branca Aurora.
A Dríade suspira, geme e chora
Aflita e desgraçada.
Ela foi despojada... os ais lhe escuto...
Verás neste tributo,
Que por sorte feliz nasceu primeiro,
Ou fruto, que roubou da rosa o cheiro,
Ou rosa transformada em doce fruto.

954
Silva Avarenga

Silva Avarenga

O Jasmineiro

Rondó XI

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Ache Glaura na frescura
Destas penhas encurvadas
Moles heras abraçaras
Com ternura a vegetar.

Ache mil e mil Napéias,
E inda mais e mais Amores,
Do que mostra o campo flores,
Do que areias tem o mar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Branda Ninfa que me escutas
Desse monte cavernoso,
Nem o raio luminoso
Nestas grutas possa entrar.

Hás de ver com dor, e espanto,
Como pálida a Tristeza
Dos seixinhos na aspereza
Faz meu pranto congelar,

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Glaura bela, que resiste
Aos rigores da saudade,
Veja em muda soledade
Sono triste bocejar.

Sobre o musgo em rocha fria
Adormeça ao som das águas,
E sonhando injustas mágoas,
Chegue um dia a suspirar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Com seus olhos Glaura inflame
Os desejos namorados,
Que em abelhas transformados,
Novo enxame cubra o ar.

Vinde, abelhas amorosas,
Sem temer o meu desgosto,
Doce néctar no seu rosto
Entre rosas procurar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

984
Abdias Sá

Abdias Sá

Os Sonhos

De repente acordo e vejo bem perto
De mim, colado quase ao meu, desnudo,
Também, cansado, inerte no veludo,
O corpo dela, sem censura, aberto

O coração, de sentimento incerto,
Às vezes, mesmo, indiferente a tudo.
De tanto vê-la assim me desiludo
E me entristeço sempre que desperto.

Sem esperança de acordar com ela,
Eu fico preso ao meu amor constante
E paro, e penso e sinto, num instante,

Quando ela dorme, assim, imóvel, bela:
...Eu dos seus sonhos estou tão distante,
Que nem parece que estou junto dela.

João Pessoa, 1981

986
Herberto Helder

Herberto Helder

12

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
1 073
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Mesmo E Outro Chão

Outra mão será
a mesma magra e húmida
que apertas sobre o chão.

Outro corpo será
que treme e se sustém
até ao chão de lâmina.

Outros olhos verás,
estes mesmos vorazes,
magros sobre o chão.

Outras mãos me darás,
tão duras, resistentes,
de um chão a que não chegas.

Estas mãos, outras mãos,
minhas mãos, tuas mãos,
tão duras e tão quentes.

Percorrem outro chão,
sobre o chão do teu corpo,
percorrem outro chão,
no mesmo chão dos corpos.

Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam
do chão dos nossos corpos
e que ao chão já não voltam.

Outro chão acharás
do chão em que caíste
por outro subirás
até onde caíste.

Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam,
por este chão agora
os teus olhos se voltam.

Oh, nenhum chão se ganha
que não seja o das mãos
que se desprendem, prendem
às mãos do chão que fogem.
983
Herberto Helder

Herberto Helder

7

e tu viras vibrantemente a cabeça
e entre a tua cabeça e a minha cabeça a luz é tratada
segundo a maravilha
1 170
Adriana Sampaio

Adriana Sampaio

Ponto de Mutação

Ponto de Mutação

Hoje choveu, e o dia estava lindo
Na estrada verde lhe vi
E você estava ali
Meu menino grande...

Os dois entregues
Igualmente humanos
E a nossa humanidade nos fez sublimes
A sua doçura lhe fez príncipe
O meu amor lhe enterneceu
E pude ver que a beleza
Que encontro nos seus olhos
Vem da expressividade imensa
Que de você transborda

Você foi o mar, onde mergulhei
E as suas águas calmas e quentes
Me inundaram de paixão

Assim, depois desse dia chuvoso e lindo
Alguma mágica se derramou sobre nós
E nas palavras que me restaram
Não coube a imensidão
De tanto mar.
928
Adriana Sampaio

Adriana Sampaio

Separação

Separação

Isso é uma declaração de amor:
Declaro que te quero
E isso é claro como meu desejo.
Declaro que te admiro
Todo ato teu me é visível, claro.
Declaro que cresço a cada passo
Que nossas mãos, dadas, acompanham.
Declaro que sou tua
Livremente e espontaneamente tua,
Como só meu sentimento puro
Pode lindamente me levar a ser.
Declaro que sou uma, única
E que és igualmente único para mim
Como derivados da mais pura diversidade.
Declaro toda inspiração a que me inspiras
Levando-me através da mais completa fantasia.
Declaro minha loucura
Que assim retorna mansamente
E torna essa declaração
Declaração de independência.
1 032
Herberto Helder

Herberto Helder

8

estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
779
Herberto Helder

Herberto Helder

13

que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
1 089
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Parêntesis

(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)

Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
573
Herberto Helder

Herberto Helder

18

porque estremeço à maravilha da volta com que tiras o vestido por
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
1 113
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

Soneto em Recife

Tão leve qual capulho de algodão
Que a brisa da tarde transportasse
Sinto o doce luar de tua face
Sobre o azul dos gestos em canção.

Mesmo distante, vem-me tua mão
Trazendo a flor que agora despertasse
Na manhã de teu sonho, de que nasce
A paz das verdes relvas pelo chão.

Que fazes por aí? Aqui, eu teço
Uma saudade enorme. Não te esqueço.
Se te, esquecesse, já estaria morto.

Muito tempo custou-me a travessia
Até te achar, nas ilhas da Poesia,
Iluminando as noites do meu porto.

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