Poemas neste tema
Amor Romântico
Caio Valério Catulo
Gozemos a vida, Lésbia
V
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
1 853
Tomás Castro
Concierto a puertas cerradas
Con estas manos hechas para ti
quiero
uno a uno tocar
los instrumentos de tu cuerpo
al palparte
me salen tonos
partituras
música en fin
de todas partes
se precisa un golpe
de batuta
para tocarte sin desafinar
estás llena de violines
en ti los pájaros ensayan
sus últimas canciones
en ti debuta una alta fidelidad
que termina
entre mis dedos
haciéndote fraterna
amo tus instrumentos
cuando me inundas de sonidos
cuando tu cuerpo me nombra
el músico más grande
que nadie se sienta herido
– ni bach ni beethoven
ni los trompetistas del juicio final –
eres un concierto
que sólo yo puedo tocar.
quiero
uno a uno tocar
los instrumentos de tu cuerpo
al palparte
me salen tonos
partituras
música en fin
de todas partes
se precisa un golpe
de batuta
para tocarte sin desafinar
estás llena de violines
en ti los pájaros ensayan
sus últimas canciones
en ti debuta una alta fidelidad
que termina
entre mis dedos
haciéndote fraterna
amo tus instrumentos
cuando me inundas de sonidos
cuando tu cuerpo me nombra
el músico más grande
que nadie se sienta herido
– ni bach ni beethoven
ni los trompetistas del juicio final –
eres un concierto
que sólo yo puedo tocar.
1 373
Fernando Mendes Vianna
Oratório do corpo (trechos)
Segue os ditames do teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
...
O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
...
Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz
– a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
...
O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
...
Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz
– a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.
1 437
Tomás Castro
Temperatura baja
Esta noche el frío
le pondrá
música a nuestros huesos
hará falta fuego
leña de tus dedos
frotados a los míos
pondré
mi aliento sobre tu aliento
mis manos sobre tus manos
mis silencios sobre tus gritos
mis pálpame sobre tus abrázame
el sueño será capaz
de apagarnos
el rítmico temblor
nos quedaremos dormidos
apretados
sintiendo
saltar el frío
llorando
de calor entre las sábanas.
le pondrá
música a nuestros huesos
hará falta fuego
leña de tus dedos
frotados a los míos
pondré
mi aliento sobre tu aliento
mis manos sobre tus manos
mis silencios sobre tus gritos
mis pálpame sobre tus abrázame
el sueño será capaz
de apagarnos
el rítmico temblor
nos quedaremos dormidos
apretados
sintiendo
saltar el frío
llorando
de calor entre las sábanas.
949
Cláudio Aguiar
Improviso a Iracema-Alencar
A Audifax Rios
Iracemar - viver bem deslumbrado,
rindo na praia que Deus nos criou
além da inocência e do bom pecado,
com fogo, sal e sol devorador,
e todos votos do carnal amor.
Mercadoria fazes tuas mágoas,
América! Alencar te recriou,
além-mar, mar-além daquelas águas,
luzes banhadas pelo sol dos dias,
egressas de contados movimentos,
nascentes das canções de nossa gente,
cantadas em desoras maresias:
areal-pó, levado pelos ventos,
romance-aurora, madrigal silente.
Iracemar - viver bem deslumbrado,
rindo na praia que Deus nos criou
além da inocência e do bom pecado,
com fogo, sal e sol devorador,
e todos votos do carnal amor.
Mercadoria fazes tuas mágoas,
América! Alencar te recriou,
além-mar, mar-além daquelas águas,
luzes banhadas pelo sol dos dias,
egressas de contados movimentos,
nascentes das canções de nossa gente,
cantadas em desoras maresias:
areal-pó, levado pelos ventos,
romance-aurora, madrigal silente.
715
Carlos Drummond de Andrade
Os Namorados do Brasil
Dai-me, Senhor, assistência técnica
para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam, eles que transformam
a sabedoria universal em divino esquecimento?
Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só veem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?
Cegos, surdos, mudos — felizes! — são os namorados
enquanto namorados. Antes, depois
são gente como a gente, no pedestre dia a dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez
voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.
Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, Pasep, INPS.
Os códigos, desarmados, retrocedem
de sua porta, as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele. O tempo,
afiando sem pausa a sua foice,
espera que o namorado desnamore
para sempre.
Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde esta batalha.
Pois namorar é destino dos homens,
destino que regula
nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.
E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, ou nem estar.
O problema, Senhor, é como aprender, como exercer
a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.
A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural,
ciência infusa, inconsciente, infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.
Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.
Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender. São para aspirar
como essência, ou nem assim. Elas aspiram
o segredo do mundo.
Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia, não merece namorar.
Pois namorar não é só juntar duas atrações
no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins de semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia dos namorados,
foto colorida, filme adoidado,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de ninguém.
Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.
Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra,
o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.
São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.
A limitação terrestre, que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:
“Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada
na sola dos sapatos…”
Ou senão:
“Desiste! Foge! Esquece! Esquece!”
E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado.
para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam, eles que transformam
a sabedoria universal em divino esquecimento?
Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só veem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?
Cegos, surdos, mudos — felizes! — são os namorados
enquanto namorados. Antes, depois
são gente como a gente, no pedestre dia a dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez
voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.
Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, Pasep, INPS.
Os códigos, desarmados, retrocedem
de sua porta, as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele. O tempo,
afiando sem pausa a sua foice,
espera que o namorado desnamore
para sempre.
Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde esta batalha.
Pois namorar é destino dos homens,
destino que regula
nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.
E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, ou nem estar.
O problema, Senhor, é como aprender, como exercer
a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.
A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural,
ciência infusa, inconsciente, infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.
Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.
Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender. São para aspirar
como essência, ou nem assim. Elas aspiram
o segredo do mundo.
Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia, não merece namorar.
Pois namorar não é só juntar duas atrações
no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins de semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia dos namorados,
foto colorida, filme adoidado,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de ninguém.
Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.
Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra,
o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.
São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.
A limitação terrestre, que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:
“Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada
na sola dos sapatos…”
Ou senão:
“Desiste! Foge! Esquece! Esquece!”
E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado.
1 350
António Botto
Andava a lua nos céus
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.
3 307
Carlos Drummond de Andrade
A Grande Dor Das Cousas Que Passaram
A grande dor das cousas que passaram*
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.
Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.
Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo a minha voz
para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!
* Verso de Camões. (N. A.)
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.
Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.
Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo a minha voz
para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!
* Verso de Camões. (N. A.)
1 066
Herberto Helder
Tríptico - I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
1 747
Silva Dutra
Soneto do Mistério Ontológico
Simone, a amada que não sai da mente,
e cuja ausência o próprio amor deplora,
lembra ser o que eu era antigamente
e não o que eu podia ter agora.
Não é mais o problema, em mim tão triste
um mistério de forma disfarçada;
mesmo porque alguma coisa existe,
alguma coisa no lugar do nada.
Qualquer coisa de essência põe Simone
diante de mim, assim como um mistério.
Mas o problema, o que me deixa insone,
é ter que refletir num "eu" tão sério.
Nada há oculto do que me seduz,
que a sombra só existe pela luz.
e cuja ausência o próprio amor deplora,
lembra ser o que eu era antigamente
e não o que eu podia ter agora.
Não é mais o problema, em mim tão triste
um mistério de forma disfarçada;
mesmo porque alguma coisa existe,
alguma coisa no lugar do nada.
Qualquer coisa de essência põe Simone
diante de mim, assim como um mistério.
Mas o problema, o que me deixa insone,
é ter que refletir num "eu" tão sério.
Nada há oculto do que me seduz,
que a sombra só existe pela luz.
899
Paulo Leminski
Carta pluma
a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que a bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos se
se faz essa história
que se chama eu e você
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que a bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos se
se faz essa história
que se chama eu e você
2 002
Joél Gallinati Heim
Olhos cor de mel
(Para os olhos de Ana Beatriz)
Teus olhos cor de mel
Brilhando de luz delicada
Senti teu desejo por mim
Provei dos teus lábios
Sabor de pecado e prazer
Devagar fui te descobrindo
Na maciez de tua pele
Passeei por seus belos seios
Senti tuas coxas e pernas
De encontro às minhas
Com carícias tensas
Aos poucos fui te descobrindo
Teu sexo úmido procurado
Por meu sexo duro de desejo
E no abismo entre tuas coxas
Quente a deslizar enfiei
Minha lança dura de prazer
Gemias sob os beijos gemias
E a me espremer ias mexendo
Quadris e sexo em ritmo lento
Minha lança agora prisioneira
O gozo pleno, veio em ondas
Senti teu grito no meu sexo
Explodi em jorros de prazer
Inundando tuas entranhas
Eu esvaído em gozo lá no fundo
Meu doce leite inundava
Tua fenda rósea, escorrendo-te
Entre as coxas, branco sêmen.
Teus olhos cor de mel
Brilhando de luz delicada
Senti teu desejo por mim
Provei dos teus lábios
Sabor de pecado e prazer
Devagar fui te descobrindo
Na maciez de tua pele
Passeei por seus belos seios
Senti tuas coxas e pernas
De encontro às minhas
Com carícias tensas
Aos poucos fui te descobrindo
Teu sexo úmido procurado
Por meu sexo duro de desejo
E no abismo entre tuas coxas
Quente a deslizar enfiei
Minha lança dura de prazer
Gemias sob os beijos gemias
E a me espremer ias mexendo
Quadris e sexo em ritmo lento
Minha lança agora prisioneira
O gozo pleno, veio em ondas
Senti teu grito no meu sexo
Explodi em jorros de prazer
Inundando tuas entranhas
Eu esvaído em gozo lá no fundo
Meu doce leite inundava
Tua fenda rósea, escorrendo-te
Entre as coxas, branco sêmen.
1 478
Claudius Portugal
Exscritos
erro não de errado
erro sim de errante
verdadeiro eu meu
inteiro me sobrevivo
eu em mim mesmo
1
sim siso de tarântulas
a um céu de nós mesmos
despes infinitas gulas
encerrando meio termos
segundo crença popular
singular sintoma vário
vadio em febre delírio
corpos a dançar cantar
sem paisagens meias
a tecer peles teias
bem tenazes tão nús
que marcados pelo dia
és sabor de água fria
entre ritmos de azuis
2
o mar espalha num espelho o ar
peixes, caranguejos, leões marinhos
e eu navegador solto um beija flor
devagarinho linha do horizonte luar
e tu, anjo torto, deitas por cima
pedras do ciúme num jardim das delícias
e pronto porre de lança perfume
exaustos de preguiça visamos dardos
onde rastro línguas nossas carícias
3
a tua presença é bonita. bebo
ainda mais bonita a vida mesmo
quando o desejo é só um abraço
um beijo um riso ou nada mais
que uma mão em outra mão
a tua presença é bonita. sugo
eu só quero o que preciso
da cana faço mel, trigo pão
a tua presença é bonita. hauro
mesmo quando, às vezes, sou amargo
uma lágrima, lua nova, temporais
a tua presença é bonita. consumo
bonita a tua presença bonita
4
tua nudez afirma: não
sala quarto varanda
cozinha e dependências
tua nudez afirma: não
quatro paredes telhado
porta janelas chaves
tua nudez diz: sol
assim como quem diz sim
feito casa que se habita
e ao se deixar habitar caminha-se
certos caminhos de cambiar corredores
tua nudez diz: mar
algo assim horas negro
outras verde branco azul
a tua nudez:
deixemos atravessar o silêncio
silêncio musical a despir carnes nuas
5
que tipo de beleza você: esfinge
pedra dágua, mármore, que tipo
de beleza você: enigma, âncora,
árvore, que tipo de beleza você:
esperma, poltrona, cadafalso, que
tipo de beleza você: esquife,
túnel, pássaro, que: a beleza bela
acende número, peso, medida,
girafa, nuvem, vidro, e a beleza bale
6
vezes estranho olha com olhos
castanhos senta no chão bebe
comigo chá de jasmin. vezes sin
cero toma um porre de gin.
vezes inverno diz: feliz, eterno
e se perde dentro de mim, vezes
exato, lábio de leite e capim.
assim, vezes pés de gato, assim,
vezes boca de tamarindo, vou
te seguindo, horas só rindo
horas em que me mato
os fragmentos são então pedras
à volta da circunferência:
desdobro-me em círculo;
todo meu pequeno universo
em migalhas,
no centro, o quê?
(Roland Barthes)
7
medo: goleiro diante do pênalti
medo: também: a trave
ou a bola na mão
medo: a lâmina acorda crime
também:
corte sublime do pão
medo:
lâmina
lâmina lua nova
também: lua
lua veja
lua lâmina nova
lua lamina aceso
sol
8
segredo não tão segredo
segredo ao teu ouvido
a prisão de teus cabelos
depressa vejo soltá-los
Para um tempo onde digo
assim gosto de tê-los
segredo não mais silêncio
sim desejo todo desejo
que em ti já me vejo
bahia minha fortaleza
não bastar na tua beleza
e bela mais que bela
não a quero nome romance
carta, telefone, enquanto
a vida me diz em canto
bela bem bela bela ela
que me compuz carnívoro
nesta mulher que me devoro
erro sim de errante
verdadeiro eu meu
inteiro me sobrevivo
eu em mim mesmo
1
sim siso de tarântulas
a um céu de nós mesmos
despes infinitas gulas
encerrando meio termos
segundo crença popular
singular sintoma vário
vadio em febre delírio
corpos a dançar cantar
sem paisagens meias
a tecer peles teias
bem tenazes tão nús
que marcados pelo dia
és sabor de água fria
entre ritmos de azuis
2
o mar espalha num espelho o ar
peixes, caranguejos, leões marinhos
e eu navegador solto um beija flor
devagarinho linha do horizonte luar
e tu, anjo torto, deitas por cima
pedras do ciúme num jardim das delícias
e pronto porre de lança perfume
exaustos de preguiça visamos dardos
onde rastro línguas nossas carícias
3
a tua presença é bonita. bebo
ainda mais bonita a vida mesmo
quando o desejo é só um abraço
um beijo um riso ou nada mais
que uma mão em outra mão
a tua presença é bonita. sugo
eu só quero o que preciso
da cana faço mel, trigo pão
a tua presença é bonita. hauro
mesmo quando, às vezes, sou amargo
uma lágrima, lua nova, temporais
a tua presença é bonita. consumo
bonita a tua presença bonita
4
tua nudez afirma: não
sala quarto varanda
cozinha e dependências
tua nudez afirma: não
quatro paredes telhado
porta janelas chaves
tua nudez diz: sol
assim como quem diz sim
feito casa que se habita
e ao se deixar habitar caminha-se
certos caminhos de cambiar corredores
tua nudez diz: mar
algo assim horas negro
outras verde branco azul
a tua nudez:
deixemos atravessar o silêncio
silêncio musical a despir carnes nuas
5
que tipo de beleza você: esfinge
pedra dágua, mármore, que tipo
de beleza você: enigma, âncora,
árvore, que tipo de beleza você:
esperma, poltrona, cadafalso, que
tipo de beleza você: esquife,
túnel, pássaro, que: a beleza bela
acende número, peso, medida,
girafa, nuvem, vidro, e a beleza bale
6
vezes estranho olha com olhos
castanhos senta no chão bebe
comigo chá de jasmin. vezes sin
cero toma um porre de gin.
vezes inverno diz: feliz, eterno
e se perde dentro de mim, vezes
exato, lábio de leite e capim.
assim, vezes pés de gato, assim,
vezes boca de tamarindo, vou
te seguindo, horas só rindo
horas em que me mato
os fragmentos são então pedras
à volta da circunferência:
desdobro-me em círculo;
todo meu pequeno universo
em migalhas,
no centro, o quê?
(Roland Barthes)
7
medo: goleiro diante do pênalti
medo: também: a trave
ou a bola na mão
medo: a lâmina acorda crime
também:
corte sublime do pão
medo:
lâmina
lâmina lua nova
também: lua
lua veja
lua lâmina nova
lua lamina aceso
sol
8
segredo não tão segredo
segredo ao teu ouvido
a prisão de teus cabelos
depressa vejo soltá-los
Para um tempo onde digo
assim gosto de tê-los
segredo não mais silêncio
sim desejo todo desejo
que em ti já me vejo
bahia minha fortaleza
não bastar na tua beleza
e bela mais que bela
não a quero nome romance
carta, telefone, enquanto
a vida me diz em canto
bela bem bela bela ela
que me compuz carnívoro
nesta mulher que me devoro
1 078
Levi Bucalem Ferrari
Erótica
Viajo pelas galáxias
Num col(chão) voador
Sonho com grutas úmidas
Repletas de tesouros
Orvalho sobre musgo sobre pedra
Calma e cheiro de mato
Obeliscos!
Menino
(Re)nasce
De homem
Dentro
De mulher
Tudo é
(M)eu, abrangido
Pelo teu abrangente
Infinito
Num col(chão) voador
Sonho com grutas úmidas
Repletas de tesouros
Orvalho sobre musgo sobre pedra
Calma e cheiro de mato
Obeliscos!
Menino
(Re)nasce
De homem
Dentro
De mulher
Tudo é
(M)eu, abrangido
Pelo teu abrangente
Infinito
932
Claudius Portugal
Pelo Amor
pelo amor
palavra
que diga
sim
palavra
que diga
não
pelo amor
palavra
:
o amor
em si
jamais
cilada
nenhuma
pergunta
palavra
que diga
sim
palavra
que diga
não
pelo amor
palavra
:
o amor
em si
jamais
cilada
nenhuma
pergunta
1 277
Carlos Drummond de Andrade
Aparição Amorosa
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
1 158
Zhang Kejiu
PRAZER NOCTURNO NO LAGO
Ébrio até mais não poder
intermináveis canções
ao luar rebentam vagas glaucas
na margem verdejante o relincho dum cavalo
conchas de azul nocturno onde pesam flores da montanha
as falenas prateadas agitam-se na brancura do salgueiro:
sob a lâmpada, ela olha-me
intermináveis canções
ao luar rebentam vagas glaucas
na margem verdejante o relincho dum cavalo
conchas de azul nocturno onde pesam flores da montanha
as falenas prateadas agitam-se na brancura do salgueiro:
sob a lâmpada, ela olha-me
997
Rodrigo Carvalho
Ausência II
É o mesmo céu;
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.
Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .
Salvador, 22 de setembro de 1996
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.
Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .
Salvador, 22 de setembro de 1996
730
Rodrigo Carvalho
Distante Perfeição
Há tempos,
sinto um desejo
que impulsiona-me a cada dia,
como agora.
Gostaria de ter tua presença,
mesmo que fosse somente para contemplar
toda esta tua beleza doce.
Não estabeleceria regras,
nem mediria as palavras.
Apenas expressaria-me para você
com todo o meu desejo.
Gostaria de por em prática
toda a perfeição do meu sentir.
Gostaria de deixar-me envolver por você
muito mais do que já estou.
E aí você já estaria envolvida.
Gostaria de ser capaz.
Apenas capaz.
Capaz de fazer com que você também sentisse o mesmo.
O mesmo sentimento que habita em mim.
Só assim você entenderia os meus desejos.
Desejos tais que não excerço domínio algum,
pois o poder deste domínio,
é só você quem possui.
Salvador, 16 maio de 1996
sinto um desejo
que impulsiona-me a cada dia,
como agora.
Gostaria de ter tua presença,
mesmo que fosse somente para contemplar
toda esta tua beleza doce.
Não estabeleceria regras,
nem mediria as palavras.
Apenas expressaria-me para você
com todo o meu desejo.
Gostaria de por em prática
toda a perfeição do meu sentir.
Gostaria de deixar-me envolver por você
muito mais do que já estou.
E aí você já estaria envolvida.
Gostaria de ser capaz.
Apenas capaz.
Capaz de fazer com que você também sentisse o mesmo.
O mesmo sentimento que habita em mim.
Só assim você entenderia os meus desejos.
Desejos tais que não excerço domínio algum,
pois o poder deste domínio,
é só você quem possui.
Salvador, 16 maio de 1996
884
Amália de Alarcão Ribeiro Martins
Amanhecer
Hoje o dia amanheceu mais florido,
porque mais amor tenho por você.
Hoje amanheci mais feliz,
porque sei que estarás
constantemente ao meu lado.
Hoje amanheci te querendo
mais do que a própria vida.
Amo e farei tudo
o que tu quiseres
para estar
sempre e eternamente
ao teu lado.
porque mais amor tenho por você.
Hoje amanheci mais feliz,
porque sei que estarás
constantemente ao meu lado.
Hoje amanheci te querendo
mais do que a própria vida.
Amo e farei tudo
o que tu quiseres
para estar
sempre e eternamente
ao teu lado.
496
Juó Bananére
Sunetto Crassico
Sette anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da Raffaela, serrana bella,
Ma non servia o pai, che illo non era trouxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá c'oella.
I os dia, na speranza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o páio, fugino da gombinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quano o Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaido na sparella,
Ficô c'um brutto d'um garó di arara,
I incominciô di servi otros sette anno
Dizeno: Si o Labó non fossi o pai d'ella
Io pigava elli i li quibrava a gara.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Publicado em O Pirralho, São Paulo, n.201, 4 set. 1915. Paródia do soneto "Sete Anos de Pastor Jacó Servia", de Luís de Camõe
Padre da Raffaela, serrana bella,
Ma non servia o pai, che illo non era trouxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá c'oella.
I os dia, na speranza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o páio, fugino da gombinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quano o Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaido na sparella,
Ficô c'um brutto d'um garó di arara,
I incominciô di servi otros sette anno
Dizeno: Si o Labó non fossi o pai d'ella
Io pigava elli i li quibrava a gara.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Publicado em O Pirralho, São Paulo, n.201, 4 set. 1915. Paródia do soneto "Sete Anos de Pastor Jacó Servia", de Luís de Camõe
2 344
Carlos Drummond de Andrade
Canção Flautim
Se gostasses de mim,
ai, se gostasses,
se gostasses de mim
— serenim —
era tudo alecrim.
Se gostasses de mim
— mirandolim —
eu morria. Morria?
de gozo no sem-fim.
E gostaste. Gostavas?
de mim.
Era tão sem aviso,
era tão sem propósito
— trancelim —
e eu saltava, delfim.
E dançava, tchim,
sem notar, ai de mim:
não era tanto assim.
Gonçalim.
Já não gostas de mim.
É fácil percebê-lo.
Vagueio pepolim
a caminho de nada.
Saponim.
Restaria o gerânio,
a senha no jardim?
O lenço ou a colcheia
no róseo bandolim
do ventre da joaninha?
Candorim?
Xerafim?
Mal gostasses de mim,
outra vez carmesim
eu morria, eu vivia
de gozo por três vezes,
mirá, mirandolim.
Pelo gozo passado
em faro de jasmim
— palanquim —
pelo gozo presente
no metal do clarim
— trampolim —
pelo gozo futuro
em verso folhetim
— farolim —
que farei deste sim?
Se gostares de novo
seremos o festim
no parque, na piscina
ou no estrapotim,
em relva entrelaçados
um tintim noutro tim
seremos o marfim
de lavor impecável
na infinda perspectiva
do fim.
Se não
gostares mais de mim
de mim de mim de mim,
sumirei na voragem
no báratro, no pélago
— votorantim —
no vórtice abissal
da tristeza total
do cálculo de rim.
Ah, se gostasses de mim!
ai, se gostasses,
se gostasses de mim
— serenim —
era tudo alecrim.
Se gostasses de mim
— mirandolim —
eu morria. Morria?
de gozo no sem-fim.
E gostaste. Gostavas?
de mim.
Era tão sem aviso,
era tão sem propósito
— trancelim —
e eu saltava, delfim.
E dançava, tchim,
sem notar, ai de mim:
não era tanto assim.
Gonçalim.
Já não gostas de mim.
É fácil percebê-lo.
Vagueio pepolim
a caminho de nada.
Saponim.
Restaria o gerânio,
a senha no jardim?
O lenço ou a colcheia
no róseo bandolim
do ventre da joaninha?
Candorim?
Xerafim?
Mal gostasses de mim,
outra vez carmesim
eu morria, eu vivia
de gozo por três vezes,
mirá, mirandolim.
Pelo gozo passado
em faro de jasmim
— palanquim —
pelo gozo presente
no metal do clarim
— trampolim —
pelo gozo futuro
em verso folhetim
— farolim —
que farei deste sim?
Se gostares de novo
seremos o festim
no parque, na piscina
ou no estrapotim,
em relva entrelaçados
um tintim noutro tim
seremos o marfim
de lavor impecável
na infinda perspectiva
do fim.
Se não
gostares mais de mim
de mim de mim de mim,
sumirei na voragem
no báratro, no pélago
— votorantim —
no vórtice abissal
da tristeza total
do cálculo de rim.
Ah, se gostasses de mim!
1 157
Herberto Helder
Tríptico - Iii
Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
783
Carlos Drummond de Andrade
Duração
Fortuna, ó Glória, se evapora,
e a glória se esvanece, Glória.
Não assim o cisco da hora
— nossa —, que desdenhou a História.
Há de restar, Glória — ossatura
desfeita embora em linha espúria —
de modo, Glória, que a criatura,
morta, de amor ostente a fúria.
e a glória se esvanece, Glória.
Não assim o cisco da hora
— nossa —, que desdenhou a História.
Há de restar, Glória — ossatura
desfeita embora em linha espúria —
de modo, Glória, que a criatura,
morta, de amor ostente a fúria.
1 107