Poemas neste tema

Amor Romântico

Nuno Júdice

Nuno Júdice

Lilith

O que a faz viver? Pensa?
Ou sonha? Os olhos demoram-se
numa indecisão entre acordar
e adormecer; e sem os fechar,
é como se não visse nada,
para além dela. Mas
uma sombra enrola-se à volta
do seu pescoço, num abraço
de serpente; e os lábios
abrem-se num sorriso
leve, que nos prende,
com o veneno invisível
do amor.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 106 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 277
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Uma imagem

Um rosto é feito de acordo com uma ciência,
que não é exacta nem dura como a que se estuda
nas escolas. A sua forma é feita de tempo,
e nos seus traços se moldam os gestos
de que uma vida é feita. Por vezes, há palavras
que nascem da cor que o acompanha, de manhã,
quando o sol o envolve; de outras vezes,
podemos ver o silêncio que se imprime
em volta dos olhos, quando a noite deixa
marcada a sua sombra. E no rosto em que leio
a matéria da primavera, soletrando cada sílaba
com a sua música de aves despertas,
descubro a imagem que me deixaste, uma tarde,
quando as aparências se desfizeram
sobre a mesa, e as tuas mãos se tornaram
a única realidade do mundo.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 105 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 330
Nuno Júdice

Nuno Júdice

O banho

Diz-me: essa nuvem que se atravessa
no teu rosto, que vento a empurra? De
onde vem a tristeza que passa por ti,
e faz murchar as rosas que os teus
dedos ainda prendem? Mas deixa que
eu te fale; e acordar-te-ei, para
que o desejo te vista com o fogo
solto de uma constelação de antigos
crepúsculos. Então, olhar-me-ás
como se nunca nos tivéssemos visto;
e pedir-te-ei que desfolhes a tarde,
como um livro, para me ensinares
a ler pelas páginas do teu amor.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 100 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 548
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Guia

Irei bater-lhe à porta; e se não me abrir,
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.

Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.

Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
671
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Estudo de mulher

Esta mulher simplesmente deitada, e colhida com
a colher da tarde, é o fruto que ficou na árvore onde
os pássaros o procuram, e passam de lado, como se
o não sentissem. É o fruto que me resta olhar, com
a sua pele tecida pelos ventos do verão, e a polpa
a sair, como se a terra estivesse pronta para a
receber. Estendo-a com a sua frescura de nuvem,
que pinto com a cor tensa do amanhecer, ouvindo
a música dos seus lábios descer-me para o fundo
da alma, onde lhe dou a guarida dos amantes. É
ela o centro da cedilha que ponho no intervalo
de cada frase, para que um sopro de silêncio se
instale no coração da primavera. E se um
murmúrio o rompe, levem-no os ouvidos em que
pousou, para que alguém o repita, e noutros
lábios se faça o que aqui se vê, e já passou.

Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 73 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 292
Chico Noronha

Chico Noronha

Jacumã

antes que o orvalho lave teu rosto
colherei
flores do campo
e com elas prenderei
a rebeldia
de teus cabelos

914
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho de Ti, Em Ti

Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.

A alta fenda do ar que se me abre.

A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.

Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.

Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
1 063
Jaime Gil de Biedma

Jaime Gil de Biedma

Valsa do Aniversário

Não há nada tão doce como um quarto
para dois, quando já não nos queremos demasiado,
nos arredores da cidade, num hotel calmo,
e casais duvidosos e uma criança com gânglios,
se não é esta leve sensação
de irrealidade. Algo como o estio
em casa de meus pais, há algum tempo,
como viagens nocturnas de comboio. Chamo-te
para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Saíste da varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos, contrafeitos
por não sentirmos o peso de três anos.
Tudo é igual, parece
que não foi ontem. E este sabor nostálgico,
que os silêncios nos põem na boca,
possivelmente leva-nos ao equívoco
de nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, pois sob isto
algo mais forte vence e é (para dizê-lo
talvez de um modo menos impreciso)
difícil recordar que nos queremos,
se não for com certa imprecisão, e o sábado,
que é hoje, fica tão próximo
de ontem ao fim do dia e de depois
de amanhã
pela manhã...
(de Companheiros de Viagem)
871
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice (4)

Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.

Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?

Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?

Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.

Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018









1 263
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice (5)

Como se o sol não trouxesse com ele a hostilidade
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.

Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.

Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 631
Cludia Nobre de Oliveira

Cludia Nobre de Oliveira

Amor

Meu corpo incendiado por um mal que penso ser
adentrando pela minha cabeça e ressurgindo nas
veias fortalecendo meu peito para suportar essa força
máxima, forte
me parece insuportável, reago a esse mal, mais uma vez
não?!
Deixo-o viver, sobreviver renascer dentro de mim pois
esse mal não é tão mal assim é bem para o meu corpo
minha alma meu coração, é o mal bem querer que é mais
uma vez o mal de amar e ser amado e plenamente feliz
de, sede de vida.

868
Jaime Gil de Biedma

Jaime Gil de Biedma

Peeping Tom

Olhos de solitário, rapazinho atônito
que surpreendi a olhar-nos
naquele pinhalzinho, junto à Faculdade de Letras,
há mais de onze anos,

quando ia a separar-me,
ainda aturdido de saliva e areia,
depois de nos rebolarmos os dois meio vestidos,
felizes como bichos.

Tua lembrança, é curioso
com que dissimulada intensidade de símbolo,
está unida àquela história,
minha primeira experiência de amor correspondido.

Pergunto-me por vezes que é feito de ti.
E se agora em tuas noites junto a um corpo
regressa a velha cena
e ainda espreitas nossos beijos.

Assim do passado volta a mim,
como um grito desconexo,
a imagem de teus olhos. Expressão
do meu próprio desejo.

(de Moralidades)

997
Otacílio Colares

Otacílio Colares

Unicamente

Amor, desperta... Há um luar, lá fora,
por tal forma tranqüilo e derramado
que é crime adormecer assim, agora,
podendo estar-se, a dois, inda acordado.

Pensando bem, o sono me apavora
pelo que tem da morte assemelhado.
Vamos fluir da vida a cada hora
— olhar no olhar, silentes, lado a lado.

A lua é irmã, a lua é casta e pura.
Façamos dela a doce confidente
deste amor que é doença e não tem cura.

Quando o sol sobreviver, inconseqüente,
fechemos a janela e a alcova escura
será só de nós dois, unicamente...

940
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Beijo na boca

Uma vez a atriz e cineasta Carla Camuratti declarou, numa entrevista, que um bom beijo é melhor do que uma transa insossa. Quando a escutei dizendo isso, pensei: "então não sou só eu". Estou com Carla: o beijo é a parte mais importante da relação física entre duas pessoas, e se ele não funcionar, pode desistir do resto.

A Editora Mandarim acaba de lançar um livro que reúne ensaios de diversos intelectuais a respeito do assunto. O nome do livro é O Beijo - Primeiras Lições de Amor, História, Arte e Erotismo. Os autores discutem o beijo materno, o beijo nos contos-de-fadas, o beijo traiçoeiro de Judas, os primeiros beijos impressos em cartazes, o beijo na propaganda, o mais longo beijo do cinema e todas as suas simbologias. Às vezes o livro fica prolixo demais, mas ainda assim é um assunto tentador. Procure-o nas melhores casas do ramo. O livro, porque beijo não está à venda.

Todo mundo sonha com aquele beijo made in Hollywood, que tira o fôlego e dá início a um romance incandescente. Pena que nem sempre isso aconteça na vida real. O primeiro beijo entre um casal costuma ser suave, investigativo, decente. Aos pouquinhos, no entanto, acende-se a labareda e as bocas dizem a que vieram. Existe um prazo para isso acontecer: entre cinco minutos depois do primeiro roçar de lábios até, no máximo, cinco dias. Neste espaço de tempo, ainda compreende-se que os beijos sejam vacilantes: tratam-se de duas pessoas criando um vínculo e testando suas reações. Mas se a decência persistir, não espere ver estrelinhas na etapa seguinte. A química não aconteceu.

Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.
1 224
Jaime Gil de Biedma

Jaime Gil de Biedma

Pelo Visto

Pelo visto é possível manifestar-se homem.
Pelo visto é possível dizer não.
De uma vez e na rua, de uma vez, por todos
e por todas as vezes em que não podemos.

Importa pelo visto o facto de estar vivo.
Importa pelo visto que até a injusta força
precise, admita nossas vidas, esses mínimos actos
cada dia na rua realizados por todos.

E será preciso não esquecer a lição:
saber, a cada instante, que no gesto que fazemos
há uma arma escondida, saber que estamos vivos
ainda. E que a vida
é possível ainda, pelo visto.

(de Companheiros de Viagem)

*

Pandémica e Celeste

quam magnus numerus Libyssae harenae
aut quam sidera multa, cum tacet nox,
furtivos hominum vident amores
Catulo, VII

Imagina agora que tu e eu
muito tarde na noite
vamos falar de homem para homem, finalmente.
Imagina-o,
numa dessas noites memoráveis
de rara comunhão, com a garrafa
meio vazia, os cinzeiros sujos,
e depois de esgotado o tema da vida.
Que te vou mostrar um coração,
um coração infiel,
nu da cintura para baixo,
leitor hipócrita – mon semblable, – mon frère!

Porque não é a impaciência do buscador de orgasmos
que me atira do corpo para outros corpos
jovens, se for possível:
procuro também o doce amor,
o terno amor que adormeça a meu lado
e alegre a minha cama ao acordar,
próximo como um pássaro.
Se jamais posso despir-me,
se nunca pude penetrar nuns braços
sem sentir – ainda que só por um momento –
igual deslumbramento que aos vinte anos!

Para saber de amor, para aprendê-lo,
ter estado sozinho é necessário.
E é necessário em quatrocentas noites
– com quatrocentos corpos diferentes –
ter feito amor. Que seus mistérios,
como disse o poeta, são da alma,
mas um corpo é o livro onde se lêem.

E por isso me alegro de me ter rebolado
sobre a areia espessa, os dois meio vestidos,
enquanto buscava esse tendão do ombro.
Comove-me a lembrança de tantas ocasiões...
Aquela estrada de montanha
e os bem empregados abraços furtivos
e o instante indefeso, de pé, após a travagem,
colados contra o muro, ofuscados pelas luzes.
Ou aquele entardecer perto do rio,
nus e a rir-nos, coroados de hera.
Ou aquele portal em Roma – em via del Babuino.
E lembranças de caras e cidades
quase desconhecidas, de corpos entrevistos,
de escadas sem luz, de camarotes,
de bares, de passagens desertas, de prostíbulos,
e de infinitas barracas de praia,
de fossos de um castelo.
Lembranças vossas, sobretudo,
oh noites em hotéis de uma só noite,
definitivas noites em sórdidas pensões,
em quartos recém-frios,
noites que devolveis a vossos hóspedes
um esquecido sabor a si próprios!
A história em corpo e alma, como uma imagem destruída,
de la langueur goutée à ce mal d’être deux.
Sem desprezar
– alegres como um feriado a meio da semana –
as experiências da promiscuidade.

Embora saiba que nada me valeriam
trabalhos de amor disperso
se não houvesse o verdadeiro amor.
Meu amor,
imagem total da minha vida,
sol das próprias noites que lhe roubo.

Sua juventude, a minha,
– música de meu fundo –
sorri ainda na imprecisa graça
de cada corpo jovem,
em cada encontro anônimo,
iluminando-o. Dando-lhe uma alma.
E não há coxas formosas
que não me façam pensar em suas formosas coxas
quando nos conhecemos, antes de irmos para a cama.

Nem paixão de uma noite de dormida
que possa comparar-se
com a paixão que dá o conhecimento,
os anos de experiência
do nosso amor.
Porque em amor também
é importante o tempo,
e doce, de algum modo,
verificar com mão melancólica
sua perceptível passagem por um corpo
– enquanto basta uma expressão familiar
nos lábios,
ou a ligeira palpitação de um membro,
para me fazer sentir a maravilha
daquela graça antiga,
fugaz como um reflexo.

Sobre sua pele esvaída,
quando passem mais anos e estejamos no fim,
quero esmagar os lábios invocando
a imagem do seu corpo
e de todos os corpos que alguma vez amei
ainda que um só instante, desfeitos pelo tempo.
Para pedir a força de poder viver
sem beleza, sem força e sem desejo,
enquanto continuamos juntos
até morrer em paz, os dois,
como dizem que morrem os que amaram muito.

(de Moralidades)

935
Corrêa de Araújo

Corrêa de Araújo

Na arena

Sou cavalheiro e menestrel, chorosas,
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.

Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.

Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,

Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.

958
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Strip-Tease

Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender. 

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente. 

Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes. 

Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto". 

Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história." 

Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou". 

Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei". 

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui". 

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.
1 780
Renier Dias Pereira

Renier Dias Pereira

Impulso

Impulso

A paixão, semente que nasce
em meu coração clama por
receber uma luz que ebúrnea
do meu sonho

Sentimentos ilhados na
escuridão do infinito
gemem de paixão em
busca da perfeição

Muitissimamente calado
corrói a flor que
brota de uma tristeza
risonha

Finalmente a escuridão
se vai, deixando as
marcas de sua infinita
dor

Resta agora uma caminhada
longa e cruel em busca
de uma nova vida guiada
pelo amor

Chega-se ao final, nada
nos espera, olhamos pela
janela a nossa vida
que passou.

1 006
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

Case Comigo, Mariá

Case comigo, Mariá,
que ou te dou, Mariá,
que ou te dou, Meriá,
meu coração.

(Cantiga de roda)

O mar também é casado,
o mar também tem mulher.
É casado com a areia.
Dá-lhe beijos quando quer.

(Quadra popular]

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?
Se até o peixlnho é casado...
Não sabes que o mar é casado
com uma filha do rei?
Mariá, o mar é casado
com a filha loura do rei.
Mariá, por que não te casas
se o próprio mar é casado?

Ouem é a mulher do mar?
É a sereia?
É a areia, Mariá.
É a princesa dos seios de concha.

Mandei ao mar uma rosa, Mariá,
porque ele vai se casar.
O mar pediu que a sereia, Mariá,
viesse me visitar
e agradecer o presente.
Ouando foi isto? No passado, Mariá.

Sabes que fez a sereia, Mariá?
Deu-me um punhado de areia;
esta cidade de areia,
nossa terra, Mariá.

Aquela moça da praia, Mariá,
é namorada do mar.
Só vive olhando pra as ondas
e o mar vive a suspirar.

Aquela areia da praia
veio do Engenho de Areia, Mariá.
Que bela é a mulher do mar,
em cima daquela coroa!

Areia da Pedra Branca
desceste o rio correndo.
Tu viste a Ilha das Pombas,
ah! tu viste Mariá.

Adeus, Coroa da Palha,
que eu vou aos tombos da sorte,
rolando aos tombos da vida,
caindo e me levantando.
Só me salvo se cair
nos braços de Mariá.

Donde viria esta areia?
Da serra da Pedra Redonda.
Veio de Minas, Mariá,
rolando no Rio das Pedras
e só entrou na Bahia
quando passou dando um pulo
na cachoeira do Salto.

Deu um pulo no Salto Grande
a areia, a mulher do mar.
Em cima do Salto, está Minas.
Embaixo do Salto a Bahia.
Lá em cima a água é mineira,
caindo embaixo é baiana, Mariá.

Ah! como é linda esta roda
às sete horas da noite,
à hora em que a lua cheia
acabou de sair do mar,
iluminando Belmonte
com todas as suas ruas de areia.

A lua nasce chorando
lágrimas de prata na areia.
Apanhem numa redoma este pranto,
guardem bem guardada esta jóia
que um dia será adorada.
É a lágrima azul da saudade.
Que foi? O que teve? Nada.
Apenas uma lágrima salgada
caiu dos meus olhos na areia.

Marlá, por que não te casas?
Me diga; por que não te casas
comigo, se eu quero te dar,
se eu quero te dar, Mariá,
num beijo o meu coração?

Crianças cantando roda
nas ruas brancas da areia,
naquelas ruas tão longas
como as estradas de areia.

Cantando desde a Atalaia
até a Ponta de areia.
Cantando lá na Biela,
na rua do Camba e nas Baixas
e em todas as ruas de areia.

Ah! lá no Pontal da Barra
é que brilha a lua na areia,
nas areias da Barrinha
e na estrada da Barra Velha.
Mariá, por que não te casas?
Se tu casares comigo,
sabes o que te darei, Mariá?
Sabes o que te darei, Mariá?
Quantos beijos tu quiseres,
cem beijos se tu quiseres,
Mariá, meu coração.
Deitado dontigo na areia,
dar-te-ei meu coração.

Não é só o mar que é casado, Mariá.
O peixinho também é casado.
E o passarinho é casado.
Também quero ser casado
mas contigo, Mariá.

Mariá. case comigo,
já que o mar casou com a areia.

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?

1 449
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o amor é tudo

Temos a mania de achar que o amor é algo que se busca. Buscamos o amor nos bares, buscamos o amor na internet, buscamos o amor na parada de ônibus.
Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas platéias dos teatros. 
Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois só o amor constrói,só o amor salva, só o amor traz felicidade. 
Há quem acredite que amor é medicamento. Pelo contrário. Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor não se aproxima, e, caso o faça, vai frustrar sua expectativa, porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza, ele não suporta a idéia de ser ingerido de quatro em quatro horas, como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e da falta de auto-estima. 
Você já ouviu muitas vezes alguém dizer: 
"Quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu". Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas. 
O amor, ao contrário do que se pensa, não tem de vir antes de tudo. 
Antes de estabilizar a carreira profissional, antes de fazer amigos, de viajar pelo mundo, de curtir a vida. Ele não é uma garantia de que, a partir de seu surgimento, tudo o mais dará certo. Queremos o amor como pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz para só então surgir, sem máscara e sem fantasia. 
É esta a condição. É pegar ou largar. Para quem acha que isso é chantagem, arrisco-me a sair em defesa do amor: 
Ser feliz é uma exigência razoável, e não é tarefa tão complicada. Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se autoflagelam por causa dos erros que cometem. Felicidade é serenidade. 
Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipe encantados. 
O amor é o prêmio para quem relaxa. 
Para completar, cito um famoso jornalista e escritor americano, Norman Mailer: "As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas."
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Corrêa de Araújo

Corrêa de Araújo

Dentro do Abismo

Morria... O abismo embaixo, esboroadas
Fauces horríveis para o espaço abria,
E eu suspenso no vácuo, as mãos pousadas
Nas margens negras, já sem fé morria.

Sei que caí mas que, ao cair, sagradas
Mãos me ampararam na voragem fria;
E, ao despertar, Alguém dasas doiradas,
Alguém que eu amo, junto a mim sorria.

Eras tu! Amparaste-me a fugiste:
E eis-me de novo cheio de desditas!
E eis-me de novo desvairado e triste!

E clamo e gemo... que cruel contraste!
És tu agora que me precipitas
No meu abismo donde me tiraste!

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Martha Medeiros

Martha Medeiros

O contrário do Amor

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.
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Corrêa da Silva

Corrêa da Silva

Saudade

De xale posto nos ombros,
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...

E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora

Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...

Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)

Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...

A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção

Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...

Uma flor... Uma carta... Um retrato...

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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Promessas matrimoniais

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?" Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões: 

- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

- Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?

- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

- Promete se deixar conhecer?

- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?

- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros
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