Poemas neste tema

Amor Romântico

Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Ir-Vos Queredes, Mia Senhor

Ir-vos queredes, mia senhor,
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
       senhor fremosa, que farei?

E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
       senhor fremosa, que farei?

E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
       senhor fremosa, que farei?

Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
       senhor fremosa, que farei?
738
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Que Prol Vos Há 'Vós, Mia Senhor

Que prol vos há 'vós, mia senhor,
de me tam muito mal fazer,
pois eu nom sei al bem querer
no mundo, nem hei d'al sabor?
       Dizede-me, que prol vos há?

E que prol vos há de fazer
tam muito mal a quem voss'é?
Nom vos há prol, per bõa fé!
E mia senhor, se eu morrer,
       dizede-me, que prol vos há?

[E] que prol vos há d'eu estar
sempre por vós em grand'afã?
(e éste mui grande, de pram).
E pois mi o voss'amor matar,
       dizede-me, que prol vos há?

E vós, lume dos olhos meus,
oir-vos-edes maldizer
por mim, se eu por vós morrer.
E senhor, por amor de Deus,
       dizede-me, que prol vos há?
664
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Quer'eu a Deus Rogar de Coraçom

Quer'eu a Deus rogar de coraçom,
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
       que me nom leixe no mundo viver!

E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
       que me nom leixe no mundo viver!

E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
       que me nom leixe no mundo viver!

E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
       que me nom leixe no mundo viver!
637
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Quando Mi Agora For E Mi Alongar

Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
       senhor fremosa, que farei entom?
       Dized', ai coita do meu coraçom!

E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
       senhor fremosa, que farei entom?
       Dized', ai coita do meu coraçom!

E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
       senhor fremosa, que farei entom?
       Dized', ai coita do meu coraçom!
853
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Estrelas

Desfaço nas mãos os figos, os fios
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 155
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

O CAMINHO DA FACA

parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga

cruza a dor, o sonho
escuta

zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes

parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança

desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade

pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
678
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Definição amor amar

Amor ternura, amor exaltação
Envolve, domina, entusiasma
Fogueira acesa que se não apaga
E pode terminar numa paixão

Mas para definir o que é amar
Direi que é dar do coração
Dar tudo sem reserva ou opção
Como só com amor se pode dar.

1 218
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

CÉU DE CONFEITEIRO

uma fatia de céu
é dada
nesta noite de maio

quinhão que cabe ao homem
que da janela espera

a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício

uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda

quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
643
Susana Thénon

Susana Thénon

Hoje

Falo, corneta, rosa
do anjo-barro: o amor
selou
seus vasos comunicantes.
Guardemos o incenso
para os verões públicos.
Deus não funciona.
792
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fiquei doido, fiquei tonto…

Fiquei doido, fiquei tonto...
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Aconcheguei-a em meus braços,
Embriaguei-me de abraços...
Fiquei tonto e foi assim...

Sua boca sabe a flores,
Bonequinha, meus amores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me,
E tantos beijos p'ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.

Ah que tontura e que fogo!
Se estou perto dela, é logo
Uma pressa em meu olhar,
Uma música em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a querer achar.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que, enleado nos teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria vida,
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Não descanso, não projecto
Nada certo, sempre inquieto
Quando te não beijo, amor,
Por te beijar, e se beijo
Por não me encher o desejo
Nem o meu beijo melhor.
1 631
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Lente

De tarde tudo começava
e lá fora a elipse do vento
desenhava a casa e circulava
um perímetro maior de desalento

Era como se a poesia me ofuscasse
e o corpo em suspensão se mantivesse
à espera da morte ou regressasse à vida
depois do amor que se fizesse

Era a lente de aumentar essa paisagem
quase familiar mas indiferente
de rostos junto ao teu
Mas a imagem diminui
agora o mundo lentamente
628
Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele Iv

[1]
Sou mais infeliz que os pobres
Que têm fome na rua.
Também eu ando faminta
De beijos da boca tua.

[2]
A saudade é tão cruel,
É uma tão profunda dor,
Que em troca eu quisera o fel
Que bebeu Nosso Senhor!

[3]
A tristeza mais amarga,
A mais negra, a mais tristonha,
Dantes, morava em teus olhos
De luz bendita e risonha.

Dava-se mal a tristeza
Com essa luz d’alegria,
Mudou-se então pros meus olhos
Que choram de noite e dia.

[4]
Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu;
Não é amor, nem esperança.
Nem sequer o nome teu.

Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!

[5]
Amor, é comunhão d’almas
No mesmo sagrado altar;
Contigo, amor da minh’alma,
Quem me dera comungar!

[6]
Não julgues tu que m’importo
Quando passas sem me olhar;
Lembra-me logo o ditado:
“Quem desdenha, quer comprar”!

[7]
Parte a minh’alma em pedaços
E atira-os pelo mundo fora;
Pequenas almas que sentem
Como a grande sente agora!

Chega para encher o mundo
O céu, a terra, os espaços,
Estas almas pequeninas,
Estes pequenos pedaços!

Mesmo assim sendo tão grande
Esta alma, ó sonhos meus!
É pequena pra conter
O fulgor dos olhos teus!

[8]
Abaixo sempre os meus olhos
Quando encontro o teu olhar;
De ver o sol de frente
Ninguém se pode gabar!
1 781
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No lugar dos palácios desertos e em ruínas

No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.

Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o voo.

Por certo eles foram mais reais e felizes.


01/03/1917
2 516
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

DIFERENÇA

meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.

eu gosto de tango.

minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
750
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Assi Me Traj'ora Coitad'amor

Assi me traj'ora coitad'Amor
que nunca lh'home vi trager tam mal;
e vivo com el ũa vida tal
que já mia morte seria melhor.
       Nostro Senhor, nom me leixe viver,
       se estas coitas nom hei a perder!

E pera qual terra lh'eu fugirei
log'el saberá mandado de mi,
ali u for; e pois me tever i
em sa prisom, sempr'eu esto direi:
       Nostro Senhor, nom me leixe viver,
       se estas coitas nom hei a perder!

E a mim faz hoj'el maior pesar
de quantos outros seus vassalos som
e a [e]ste mal nom lh'hei defensom:
u me tem em poder, quer-me matar.
       Nostro Senhor, nom me leixe viver,
       se estas coitas nom hei a perder!
484
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não creio ainda no que sinto -

Não creio ainda no que sinto -
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...

Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.

Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
1 363
Elíude Viana

Elíude Viana

Imigrante

Dos teus pés
a areia e o sal
misturam-se à água doce
em que me banho.
Chegas,
pedes paragem:
- Entra,
minha casa
não tem portas.
Atravessas-me as fronteiras...
Somes
por dentro de mim
rompendo-me a calma
e a disciplina.

1 044
Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele I

[1]
Andam sonhos cor do mar
Nas minhas quadras, imersos,
Se queres comigo sonhar,
Canta baixinho os meus versos.

[2]
Saudades e amarguras
Tenho eu todos os dias,
Não podem pois adejar
Em meus versos, alegrias.

Saudades e amarguras
Tenho eu todas as horas,
Quem noites só conheceu,
Não pode cantar auroras.

[3]
Se é um pecado sonhar
Tenho um pecado na vida,
Peço a Deus por tal pecado
A penitência merecida.

Quando o meu sonho morrer
(Que penitência tão dura!)
Vá encontrar em teu peito
Carinhosa sepultura.

[4]
Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?

Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.

[5]
Tens um coração de pedra
Dentro dum peito de lama
Pois nem sabes distinguir
Quem te odeia ou quem te ama.

Por uma que te despreza,
Teu coração endoidece,
E a pobre que te quer bem
Só teus desprezos merece!

[6]
Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspectos de lousas!

Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mistério!...
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemitério...

[7]
Teus olhos têm uma cor
Duma expressão tão divina,
Tão misteriosa, tão triste,
Como foi a minha sina.

É uma expressão de saudade
Vogando num mar incerto.
Parecem negros de longe,
Parecem azuis de perto.

Mas nem negros nem azuis
São teus olhos, meu amor,
Seriam da cor da mágoa
Se a mágoa tivesse cor!

[8]
Nem o perfume dos cravos,
Nem a cor das violetas,
Nem o brilho das estrelas,
Nem o sonhar dos poetas,

Pode igualar a beleza
Da primorosa flor,
Que abre na tua boca
O teu riso encantador.

[9]
Levanta os olhos do chão,
Olha de frente pra mim
Fingindo tanto desprezo,
Que podes ganhar assim?

Não andes tão distraído,
Contando as pedras da rua,
Não sei pra que finges tanto...
Tu és meu e eu sou tua...

Levanta os olhos do chão.
Que podes ganhar assim?
Se Deus nos fez um pro outro,
Para que foges de mim?!

[10]
Coveiros, sombrios, desgrenhados,
Fazei-me depressa a cova,
Quero enterrar minha dor
Quero enterrar-me assim nova.

Coveiros, só o corpo é novo,
Que há poucos anos nasceu;
Fazei-me depressa a cova
Que a minha alma morreu.

[11]
Amar a quem nos despreza
É sina que a gente tem;
Eu desprezo quem m’odeia
E adoro quem me quer bem.

[12]
Ai, tirem-me o coração
Que o tenho todo desfeito!
Cada pedaço um punhal
Que trago dentro do peito.

[13]
Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.

[14]
Meu coração é ruína
Caindo todo a pedaços,
Oh, dai-lhe a hera piedosa
Bendita desses teus braços!

[15]
Quando fito o teu olhar
Tão frio e tão indiferente,
Fico a chorar um amor
Que o teu coração não sente.

[16]
O fado não é da terra,
O fado criou-o Deus,
O fado é andar doidinha
Perdida p’los olhos teus.

[17]
Esmaguei meu coração
Para o triste te esquecer,
Mas ao sentir os teus passos,
Põe-se a bater... a bater...

[18]
Andam pombas assustadas
No teu olhar, adejando,
Mal sentem os meus olhos,
Batem as asas, voando.

[19]
Há sonhos que ao enterrar-se,
Levam dentro do caixão,
Bocados da nossa alma,
Pedaços de coração!
3 053
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Desafio

Ela
“Ó luar que lindo és,
Luar branco de janeiro!
Não há luar como tu,
Nem amor como o primeiro.”

Ele
Deixa-me rir, ó Maria!
Qual é para ti o primeiro?!
Chamas o mesmo ao segundo,
Chamas o mesmo ao terceiro!

Ela
O que Deus disse uma vez
Na minh’alma já é velho;
Vai pedir ao Senhor Cura
Que o leia no Evangelho!
...........................................
Uma voz ouve-se ao longe
Que sobe alto, desgarrada:
“Por muito amar, Madalena,
No céu serás perdoada!”
3 413
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Ai Madr', o Meu Amigo Que Nom Vi

Ai madr', o meu amigo que nom vi
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
       madre, per bõa fé, leda m'and'eu.

E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
       madre, per bõa fé, leda m'and'eu.

Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
       madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
605
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Levad', Amigo, Que Dormides As Manhanas Frias

Levad', amigo, que dormides as manhanas frias
tôdalas aves do mundo d'amor dizia[m]:
       leda m'and'eu.

Levad', amigo que dormide'las frias manhanas
tôdalas aves do mundo d'amor cantavam:
       leda m'and'eu.

Tôdalas aves do mundo d'amor diziam,
do meu amor e do voss[o] em ment'haviam:
       leda m'and'eu.

Tôdalas aves do mundo d'amor cantavam,
do meu amor e do voss[o] i enmentavam:
       leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss[o] em ment'haviam
vós lhi tolhestes os ramos em que siíam:
       leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss[o] i enmentavam
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam:
       leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos em que siíam
e lhis secastes as fontes em que beviam;
       leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam;
       leda m'and'eu.
1 499
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Aqui Vej'eu, Filha, o Voss'amigo

Aqui vej'eu, filha, o voss'amigo,
o por que vós baralhades migo,
       delgada.

Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
       delgada.

[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
       delgada.

O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
       delgada
721
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Trist'anda, Mia Madr[E], o Meu Amigo

Trist'anda, mia madr[e], o meu amigo,
e eu triste por el, bem vo-lo digo,
       e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.

E morrerá por mi, tant'é coitado,
e vós perderedes meu gasalhado,
       e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
686
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice - 3

A brevidade: por vezes, a mais longa das linhas
do tempo, cruzando-se com o desejo de permanência
que sustenta a sua ilusão. Logo, porém, a realidade nos
impõe a sua regra. O que é transforma-se no que foi,
com a melancolia que arrasta o sentimento da
passagem, como se o rio pudesse parar para sempre
no instante em que a felicidade parece suspender
o seu curso. Avançamos, então, contra essas sensações
que nos trazem um esplendor de rosa, aberta ao sol
do meio-dia, antes que a sombra da tarde a atinja
com a sua seta obscura. Uma ferida sangra entre pétalas
emurchecidas; e o ramo sugere a queda nocturna, onde
uma perseguição de prazer se confunde com a inquietação
da morte.

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Conto
cada uma das olheiras construídas no trabalho
do amor, sabendo que um vórtice de esquecimento
as restituirá à insónia da madrugada. Nessa hora, quantas
palavras trocaram esses amantes que o passado
vestiu com o seu manto de memória... Como se a manhã
não chegasse, trazendo a separação que corrói
a pele da alma, e prende toda a esperança a uma ilusão
de saudade. Por que lhe resistes?, pergunto. Em que
vazio afogarás este amor que insiste em respirar, como
se não soubesses que nada o substitui? Não
te enganes, como não se engana esse des cego às concessões
do presente, voando para os espaços mais inacessíveis,
e levando no bater das asas o mais fundo
dos abraços.

Segue esse voo com o impulso antigo; e
não percas o sabor desse filtro que os nossos lábios
trocaram, no mais solitário dos instantes.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 51 e 52 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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