Poemas neste tema
Amor Romântico
Jorge de Sena
Conheço o sal
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
1 900
Cid Saboia de Carvalho
Cantiga
Eu sou o olhar que contempla
o amor que rebenta em ti;
sou o pássaro cativo
que canta enternecido
na paisagem tão terna
que há em ti e por mim.
Depois de nossos caminhos
sou o descanso maduro,
a sombra, o fruto morno,
o vento nos teus cabelos.
Sou o canto que desperta,
a voz que canta e chora;
sou percussão dos sentidos
e cordas do meu amor;
nunca vou morrer depois,
embora sigamos juntos
pela vida para a morte.
Falo a língua esquecida,
verbo que o mundo esqueceu,
mas canto minha cantiga
do amor que nunca morreu...
o amor que rebenta em ti;
sou o pássaro cativo
que canta enternecido
na paisagem tão terna
que há em ti e por mim.
Depois de nossos caminhos
sou o descanso maduro,
a sombra, o fruto morno,
o vento nos teus cabelos.
Sou o canto que desperta,
a voz que canta e chora;
sou percussão dos sentidos
e cordas do meu amor;
nunca vou morrer depois,
embora sigamos juntos
pela vida para a morte.
Falo a língua esquecida,
verbo que o mundo esqueceu,
mas canto minha cantiga
do amor que nunca morreu...
921
Martim Soares
Pero Que Punh'em Me Guardar
Pero que punh'em me guardar
eu, mia senhor, de vos veer,
per rem nom mi o querem sofrer
estes que nom poss'eu forçar:
meus olhos e meu coraçom
e Amor; todos estes som
os que m'e[n] nom leixam quitar.
Ca os meus olhos vam catar
esse vosso bom parecer
e non'os poss'end'eu tolher
nen'o coraçom de cuidar
em vós; e a toda sazom
tem com eles Amor e nom
poss'eu com tantos guerr[ei]ar.
Ca lhi nom poderei guarir
nelhur, se o provar quiser;
e por esto nom mi há mester
de trabalhar em vos fogir;
ca eu como vos fugirei,
pois estes, de que tal med'hei,
me nom leixam de vós partir?
E pois m'alhur nom leixam ir,
estar-lhis-ei, mentr'eu poder,
u vos vejam, se vos prouguer;
e haver-lhis-ei a comprir
esto que lhis praz, eu o sei;
e outro prazer lhis farei:
morrer-lhis-ei, pois vos nom vir.
eu, mia senhor, de vos veer,
per rem nom mi o querem sofrer
estes que nom poss'eu forçar:
meus olhos e meu coraçom
e Amor; todos estes som
os que m'e[n] nom leixam quitar.
Ca os meus olhos vam catar
esse vosso bom parecer
e non'os poss'end'eu tolher
nen'o coraçom de cuidar
em vós; e a toda sazom
tem com eles Amor e nom
poss'eu com tantos guerr[ei]ar.
Ca lhi nom poderei guarir
nelhur, se o provar quiser;
e por esto nom mi há mester
de trabalhar em vos fogir;
ca eu como vos fugirei,
pois estes, de que tal med'hei,
me nom leixam de vós partir?
E pois m'alhur nom leixam ir,
estar-lhis-ei, mentr'eu poder,
u vos vejam, se vos prouguer;
e haver-lhis-ei a comprir
esto que lhis praz, eu o sei;
e outro prazer lhis farei:
morrer-lhis-ei, pois vos nom vir.
602
Chico Buarque
Futuros Amantes
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
3 244
Lúcio Cardoso
o existir contínuo e líquido
“Que é o pra sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentidos e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo – não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos, de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata, totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo, onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.”
(de Crônica da Casa Assassinada)
(de Crônica da Casa Assassinada)
1 105
Chico Buarque
Choro bandido
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
1 595
Garcia de Resende
salgum senhor vos quiser bem
Trovas que Garcia de Resende fez à morte de D. Inês de Castro, que el-rei D. Afonso, o Quarto, de Portugal, matou em Coimbra por o príncipe D. Pedro, seu filho, a ter como mulher, e, polo bem que lhe queria, nam queria casar. Enderençadas às damas.
Senhoras, s'algum senhor
vos quiser bem ou servir,
quem tomar tal servidor,
eu lhe quero descobrir
o galardam do amor.
Por Sua Mercê saber
o que deve de fazer
vej'o que fez esta dama,
que de si vos dará fama,
s'estas trovas quereis ler.
Fala D. Inês
Qual será o coraçam
tam cru e sem piadade,
que lhe nam cause paixam
úa tam gram crueldade
e morte tam sem rezam?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ó príncepe, meu senhor,
me mataram cruamente!
A minha desaventura
nam contente d'acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant'altura,
para d'alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas nam ardera,
pai, filhos nam conhecera,
nem me chorara ninguém.
Eu era moça, menina,
per nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ó revés.
Vivia sem me lembrar
que paixam podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m'o príncepe olhar,
por seu nojo e minha fim.
Começou-m'a desejar,
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a úa vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.
Dei-lhe minha liberdade,
nam senti perda de fama;
pus nele minha verdade
quis fazer sua vontade,
sendo mui fremosa dama.
Por m'estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
polo qual aconselhado
foi el-rei qu'era forçado,
polo seu, de me matar.
Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d'assessego,
polos campos de Mondego
cavaleiros vi somar.
Como as cousas qu'ham de ser
logo dam no coraçam,
comecei entrestecer
e comigo só dizer:
"Estes homens donde iram?
E tanto que que preguntei,
soube logo qu'era el-rei.
Quando o vi tam apressado
meu coraçam trespassado
foi, que nunca mais falei.
E quando vi que decia,
saí à porta da sala,
devinhando o que queria;
com gram choro e cortesia
lhe fiz úa triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com gram homildade;
mui cortada de temor
lhe disse: -"Havei, senhor,
desta triste piadade!"
Nam possa mais a paixam
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mam,
qu'é de fraco coraçam
sem porquê matar molher;
quanto mais a mim, que dam
culpa nam sendo rezam,
por ser mãi dos inocentes
qu'ante vós estam presentes,
os quais vossos netos sam.
E que tem tam pouca idade
que, se não forem criados
de mim só, com saudade
e sua gram orfindade
morrerám desemparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss'Alteza:
e também, senhor, olhai,
pois do príncepe sois pai,
nam lhe deis tanta tristeza.
Lembre-vos o grand'amor
que me vosso filho tem,
e que sentirá gram dor
morrer-lhe tal servidor,
por lhe querer grande bem.
Que, s'algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu'este filhos ficaram
órfãos tristes e buscaram
quem deles paixam houvera;
Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
nam quebrantar vossa lei,
que, se moiro, quebrantais.
Usai mais de piadade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim
nam me deis tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade!
El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixam
e viu o que nam oulhava:
qu'eu a ele nam errava
nem fizera traiçam.
E vendo quam de verdade
tive amor e lealdade
ó príncepe, cuja sam,
pôde mais a piadade
que a determinaçam;
Que, se m'ele defendera
ca seu filho não amasse,
e lh'eu nam obedecera,
entam com rezam podera
dar m'a morte qu'ordenasse;
mas vendo que nenhú'hora,
dês que naci até'gora,
nunca nisso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pola porta fora,
Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piadoso,
mui cristam e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de trás dele, mui irado,
estas palavras dezia:
-Senhor, vossa piadade
é dina de reprender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas dúa molher.
E quereis qu'abarregado,
com filhos, como casado,
estê, senhor, vosso filho?
de vós mais me maravilho
que dele, qu'é namorado.
Se a logo nam matais,
nam sereis nunca temido
nem farám o que mandais,
pois tam cedo vos mudais,
do conselho qu'era havido.
Olhai quam justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.
Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncepe casará,
filhos de bençam terá,
será fora de pecado;
qu'agora seja anojado,
amenhã lh'esquecerá.
E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por se em tais estremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe nam ter merecida
a morte nem nenhum mal;
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.
E vendo que se lhe dava
a ele tod'esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
-"Minha tençam me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu'eu nisso nam mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer."
Fim
Dous cavaleiros irosos,
que tais palavras lh'ouviram,
mui crus e nam piadosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;
com as espadas na mam
m'atravessam o coraçam,
a confissam me tolheram:
este é o galardam
que meus amores me deram
Senhoras, s'algum senhor
vos quiser bem ou servir,
quem tomar tal servidor,
eu lhe quero descobrir
o galardam do amor.
Por Sua Mercê saber
o que deve de fazer
vej'o que fez esta dama,
que de si vos dará fama,
s'estas trovas quereis ler.
Fala D. Inês
Qual será o coraçam
tam cru e sem piadade,
que lhe nam cause paixam
úa tam gram crueldade
e morte tam sem rezam?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ó príncepe, meu senhor,
me mataram cruamente!
A minha desaventura
nam contente d'acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant'altura,
para d'alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas nam ardera,
pai, filhos nam conhecera,
nem me chorara ninguém.
Eu era moça, menina,
per nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ó revés.
Vivia sem me lembrar
que paixam podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m'o príncepe olhar,
por seu nojo e minha fim.
Começou-m'a desejar,
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a úa vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.
Dei-lhe minha liberdade,
nam senti perda de fama;
pus nele minha verdade
quis fazer sua vontade,
sendo mui fremosa dama.
Por m'estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
polo qual aconselhado
foi el-rei qu'era forçado,
polo seu, de me matar.
Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d'assessego,
polos campos de Mondego
cavaleiros vi somar.
Como as cousas qu'ham de ser
logo dam no coraçam,
comecei entrestecer
e comigo só dizer:
"Estes homens donde iram?
E tanto que que preguntei,
soube logo qu'era el-rei.
Quando o vi tam apressado
meu coraçam trespassado
foi, que nunca mais falei.
E quando vi que decia,
saí à porta da sala,
devinhando o que queria;
com gram choro e cortesia
lhe fiz úa triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com gram homildade;
mui cortada de temor
lhe disse: -"Havei, senhor,
desta triste piadade!"
Nam possa mais a paixam
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mam,
qu'é de fraco coraçam
sem porquê matar molher;
quanto mais a mim, que dam
culpa nam sendo rezam,
por ser mãi dos inocentes
qu'ante vós estam presentes,
os quais vossos netos sam.
E que tem tam pouca idade
que, se não forem criados
de mim só, com saudade
e sua gram orfindade
morrerám desemparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss'Alteza:
e também, senhor, olhai,
pois do príncepe sois pai,
nam lhe deis tanta tristeza.
Lembre-vos o grand'amor
que me vosso filho tem,
e que sentirá gram dor
morrer-lhe tal servidor,
por lhe querer grande bem.
Que, s'algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu'este filhos ficaram
órfãos tristes e buscaram
quem deles paixam houvera;
Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
nam quebrantar vossa lei,
que, se moiro, quebrantais.
Usai mais de piadade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim
nam me deis tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade!
El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixam
e viu o que nam oulhava:
qu'eu a ele nam errava
nem fizera traiçam.
E vendo quam de verdade
tive amor e lealdade
ó príncepe, cuja sam,
pôde mais a piadade
que a determinaçam;
Que, se m'ele defendera
ca seu filho não amasse,
e lh'eu nam obedecera,
entam com rezam podera
dar m'a morte qu'ordenasse;
mas vendo que nenhú'hora,
dês que naci até'gora,
nunca nisso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pola porta fora,
Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piadoso,
mui cristam e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de trás dele, mui irado,
estas palavras dezia:
-Senhor, vossa piadade
é dina de reprender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas dúa molher.
E quereis qu'abarregado,
com filhos, como casado,
estê, senhor, vosso filho?
de vós mais me maravilho
que dele, qu'é namorado.
Se a logo nam matais,
nam sereis nunca temido
nem farám o que mandais,
pois tam cedo vos mudais,
do conselho qu'era havido.
Olhai quam justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.
Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncepe casará,
filhos de bençam terá,
será fora de pecado;
qu'agora seja anojado,
amenhã lh'esquecerá.
E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por se em tais estremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe nam ter merecida
a morte nem nenhum mal;
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.
E vendo que se lhe dava
a ele tod'esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
-"Minha tençam me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu'eu nisso nam mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer."
Fim
Dous cavaleiros irosos,
que tais palavras lh'ouviram,
mui crus e nam piadosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;
com as espadas na mam
m'atravessam o coraçam,
a confissam me tolheram:
este é o galardam
que meus amores me deram
969
Rui Queimado
Sempr'ando Cuidando Em Meu Coraçom
Sempr'ando cuidando em meu coraçom
com'eu iria mia senhor veer
e em como lh'ousaria dizer
o gram bem que lh'eu quer'; e sei que nom
lh'ousarei end'eu dizer nulha rem;
mais vee-la-ei pouco e irei en
com mui gram coita no meu coraçom.
Tal que, se a vir, quantas cousas som
eno mundo nom mi ham de guarecer
de morte, pois lhe nom ousar dizer
o bem que lh'eu quero. E por en nom
me sei conselho, nem sei ora bem
se prol m'é d'ir i, se nom; e meu sem
e meus conselhos todos aqui som.
E assi guaresc'há mui gram sazom,
cuidando muit'e nom sei que fazer;
mais pero, pois lhe nom hei a dizer
o bem que lh'eu quero, tenho que nom
é mia prol d'ir i; mais sei al por en:
que morrerei, se a nom vir. E quem
sofreu tantas coitas tam gram sazom?
Eu e nom outrem, porque me nom tem
por seu! E moir', assi Deus me perdom!
com'eu iria mia senhor veer
e em como lh'ousaria dizer
o gram bem que lh'eu quer'; e sei que nom
lh'ousarei end'eu dizer nulha rem;
mais vee-la-ei pouco e irei en
com mui gram coita no meu coraçom.
Tal que, se a vir, quantas cousas som
eno mundo nom mi ham de guarecer
de morte, pois lhe nom ousar dizer
o bem que lh'eu quero. E por en nom
me sei conselho, nem sei ora bem
se prol m'é d'ir i, se nom; e meu sem
e meus conselhos todos aqui som.
E assi guaresc'há mui gram sazom,
cuidando muit'e nom sei que fazer;
mais pero, pois lhe nom hei a dizer
o bem que lh'eu quero, tenho que nom
é mia prol d'ir i; mais sei al por en:
que morrerei, se a nom vir. E quem
sofreu tantas coitas tam gram sazom?
Eu e nom outrem, porque me nom tem
por seu! E moir', assi Deus me perdom!
641
Lúcio Cardoso
Receita de homem
Depois deve ser alto,
sem lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso para que se encontre
tons de sol de agosto em seus cabelos.
E nem louro demais para que, de repente
no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes, também, por que não,
para que os regressos sejam breves
e haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem, falem sempre, falem
de amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso relembre um pouco da infância,
para que se tenha, no fervor do beijo,
uma memória de pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante, sem cantar
por toda a sua humana contextura,
para que também em torno dele as coisas cantem,
quando, como o primeiro homem,
nu ele se erguer defronte ao mar.
sem lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso para que se encontre
tons de sol de agosto em seus cabelos.
E nem louro demais para que, de repente
no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes, também, por que não,
para que os regressos sejam breves
e haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem, falem sempre, falem
de amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso relembre um pouco da infância,
para que se tenha, no fervor do beijo,
uma memória de pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante, sem cantar
por toda a sua humana contextura,
para que também em torno dele as coisas cantem,
quando, como o primeiro homem,
nu ele se erguer defronte ao mar.
2 639
António Carlos Cortez
NA LÍNGUA
É na língua a pátria recordada
o tempo de dizer palavras duras
Na língua o sal do mar e a procura
de um modo de dizer menos ocluso
Poesia se faz corpo já fonético
e amor e sexo se fazem nela, língua.
Não tem de ser portuguesa a pátria
(nem tudo quanto é dito é luso...)
Língua se escreve como se vive um corpo:
pátria total onde talvez o uso
da língua em seu fazer de facto
comprova o fogo do amor em seu palato.
o tempo de dizer palavras duras
Na língua o sal do mar e a procura
de um modo de dizer menos ocluso
Poesia se faz corpo já fonético
e amor e sexo se fazem nela, língua.
Não tem de ser portuguesa a pátria
(nem tudo quanto é dito é luso...)
Língua se escreve como se vive um corpo:
pátria total onde talvez o uso
da língua em seu fazer de facto
comprova o fogo do amor em seu palato.
727
Cid Saboia de Carvalho
Êxtase
Esperei por ti neste último poema:
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
895
Rui Queimado
Nunca Fiz Cousa de Que Me Tam Bem
Nunca fiz cousa de que me tam bem
achasse come de quanto servi
sempr'ũa dona, des quando a vi,
que amei sempre mais ca outra rem;
ca, de pram, quanto no mundo durei,
os dias que a servi, gaanhei
- e tantos houv'end', a prazer de mi.
E tenho que me fez Deus mui gram bem
em me fazer tam bõa don'amar
e de a servir e nom m'enfadar,
nem tee-lh'o mal, que me faz, em rem;
e de me dar coraçom de teer
por bem quanto m'ela quiser fazer
e atender temp'e nom me queixar.
E de pram, sempre des que lh'eu quis bem,
maior ca mi e com maior razom,
sempre eu coidei que verria sazom
que lh'ousaria eu algũa rem
dizer do bem que lh'eu quer'! E estou
atendend'aquel temp'! E nom chegou!
Pero estou led'em meu coraçom,
porque quero tam bõa dona bem,
de que sei ca nunca me mal verrá;
ca se morrer por ela, prazer-mi-á!
Se mi ar quiser fazer algũa rem
como nom moira, fará mui melhor;
e ben'o pode fazer mia senhor,
ca tod'aqueste poder ben'o há;
e em fazer em mim quanto quiser
e em valer mui mais doutra molher
em parecer e em tod'outro bem.
achasse come de quanto servi
sempr'ũa dona, des quando a vi,
que amei sempre mais ca outra rem;
ca, de pram, quanto no mundo durei,
os dias que a servi, gaanhei
- e tantos houv'end', a prazer de mi.
E tenho que me fez Deus mui gram bem
em me fazer tam bõa don'amar
e de a servir e nom m'enfadar,
nem tee-lh'o mal, que me faz, em rem;
e de me dar coraçom de teer
por bem quanto m'ela quiser fazer
e atender temp'e nom me queixar.
E de pram, sempre des que lh'eu quis bem,
maior ca mi e com maior razom,
sempre eu coidei que verria sazom
que lh'ousaria eu algũa rem
dizer do bem que lh'eu quer'! E estou
atendend'aquel temp'! E nom chegou!
Pero estou led'em meu coraçom,
porque quero tam bõa dona bem,
de que sei ca nunca me mal verrá;
ca se morrer por ela, prazer-mi-á!
Se mi ar quiser fazer algũa rem
como nom moira, fará mui melhor;
e ben'o pode fazer mia senhor,
ca tod'aqueste poder ben'o há;
e em fazer em mim quanto quiser
e em valer mui mais doutra molher
em parecer e em tod'outro bem.
573
Felipe d’Oliveira
História Leal dos Meus Amores
Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.
Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...
A vida, então, logo me deu meu fado,
— meus maus desígnios e meus bons misteres —
e, no decurso desse tempo andado,
os homens quase todos tenho odiado
e tenho amado todas as mulheres.
Foste a primeira que amei, perdida...
E desse amor de insânias e segredos,
conservo ainda na boca ressequida
a saciedade farta e umedecida
dos teus beijos acídulos e azedos.
Depois, glorifiquei, como um profano,
a luxúria pagã do meu instinto,
ritmando, num delírio parnasiano,
os meus beijos lascivos de Romano
numa boca de Vênus de Corinto.
...Meu alabastro engrinaldado de ouro,
não peço mais que tu não me abandones...
Foste, no meu destino, um mau-agouro:
endoudeceu-me o teu cabelo louro,
nessa linda cabeça à Burne Jones...
E ao fim de tanto anseio, ao fim de tanto
intenso desvairar, de intensa febre,
tu me mandaste esse teu vulto santo,
que eu não celebro em versos neste canto,
por não haver um ritmo que o celebre.
A curva não modela, a linha, esquiva,
não esboça, e não canta o plectro raro
teu nervoso perfil de sensitiva,
como apanhar não pode uma objetiva
o infinito de um céu lúcido e claro...
Publicado no livro Vida extinta (1911).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.39-4
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.
Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...
A vida, então, logo me deu meu fado,
— meus maus desígnios e meus bons misteres —
e, no decurso desse tempo andado,
os homens quase todos tenho odiado
e tenho amado todas as mulheres.
Foste a primeira que amei, perdida...
E desse amor de insânias e segredos,
conservo ainda na boca ressequida
a saciedade farta e umedecida
dos teus beijos acídulos e azedos.
Depois, glorifiquei, como um profano,
a luxúria pagã do meu instinto,
ritmando, num delírio parnasiano,
os meus beijos lascivos de Romano
numa boca de Vênus de Corinto.
...Meu alabastro engrinaldado de ouro,
não peço mais que tu não me abandones...
Foste, no meu destino, um mau-agouro:
endoudeceu-me o teu cabelo louro,
nessa linda cabeça à Burne Jones...
E ao fim de tanto anseio, ao fim de tanto
intenso desvairar, de intensa febre,
tu me mandaste esse teu vulto santo,
que eu não celebro em versos neste canto,
por não haver um ritmo que o celebre.
A curva não modela, a linha, esquiva,
não esboça, e não canta o plectro raro
teu nervoso perfil de sensitiva,
como apanhar não pode uma objetiva
o infinito de um céu lúcido e claro...
Publicado no livro Vida extinta (1911).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.39-4
1 206
Rui Queimado
Nostro Senhor! E Ora Que Será
Nostro Senhor! e ora que será
de mim? Que moiro, porque me parti
de mia senhor mui fremosa, que vi
polo meu mal! E de mi que será,
Nostro Senhor? Ou ora que farei?
Ca, de pram, nẽum conselho nom hei,
nem sei que faça, nem que xe será
de mim, que moiro e nom me sei já
nẽum conselh'outro senom morrer!
E tam bom conselho nom poss'haver,
pois que nom cuido nunca veer já
esta senhor, que por meu mal amei,
des que a vi, e am'e amarei
mentr'eu viver; mais nom viverei já
mais des aqui, de pram, per nulha rem,
cuidando sempre no meu coraçom
no mui gram bem que lh'hoj'eu quer', e non'
a veer, nen'a cuidar já per rem
a veer. E com aqueste cuidar
cuid'a morrer; ca nom poss'hoj'osmar
com'eu possa viver per nulha rem,
poila nom vej'; e cuid'em quanto bem
lhe Vós fezestes em tod', ar cuid'al,
em com'a mim fezestes muito mal:
pois já quisestes que lh'eu tam gram bem
quisesse, nom mi fazer alongar
de a veer, e tam a meu pesar!
Nostro Senhor, u me faredes bem?
A la fé, nenlhur, aquesto sei já!
Ca, se a nom vir, nunc'haverei rem.
de mim? Que moiro, porque me parti
de mia senhor mui fremosa, que vi
polo meu mal! E de mi que será,
Nostro Senhor? Ou ora que farei?
Ca, de pram, nẽum conselho nom hei,
nem sei que faça, nem que xe será
de mim, que moiro e nom me sei já
nẽum conselh'outro senom morrer!
E tam bom conselho nom poss'haver,
pois que nom cuido nunca veer já
esta senhor, que por meu mal amei,
des que a vi, e am'e amarei
mentr'eu viver; mais nom viverei já
mais des aqui, de pram, per nulha rem,
cuidando sempre no meu coraçom
no mui gram bem que lh'hoj'eu quer', e non'
a veer, nen'a cuidar já per rem
a veer. E com aqueste cuidar
cuid'a morrer; ca nom poss'hoj'osmar
com'eu possa viver per nulha rem,
poila nom vej'; e cuid'em quanto bem
lhe Vós fezestes em tod', ar cuid'al,
em com'a mim fezestes muito mal:
pois já quisestes que lh'eu tam gram bem
quisesse, nom mi fazer alongar
de a veer, e tam a meu pesar!
Nostro Senhor, u me faredes bem?
A la fé, nenlhur, aquesto sei já!
Ca, se a nom vir, nunc'haverei rem.
623
Geir Campos
Soneto Fabril
Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 263
Rui Queimado
Por Mia Senhor Fremosa Quer'eu Bem
Por mia senhor fremosa quer'eu bem
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
651
Carlos Soulié do Amaral
Tragédia da monja
Incendiou-se a virilha da monja
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
652
Odysséas Elýtis
Marinha das Rochas
Tens um gosto de tormenta nos lábios - Mas por onde andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste
Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.
Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.
Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste
De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste
Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.
Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.
Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste
De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
783
Rui Queimado
Senhor Fremosa, Vejo-Vos Queixar
Senhor fremosa, vejo-vos queixar
porque vos am'e amei, pois vos vi;
e pois vos desto queixades de mi,
se en dereito queredes filhar,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Pois vos de mim nom queixades por al,
senom porque vos quero mui gram bem
– e vejo que vos queixades por en –
senhor de mim e meu bem e meu mal,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Senhor, se vós teedes por razom
d'eu por aquesto já morte prender,
nom hei eu que me de vós defender;
e por en, coita do meu coraçom,
aque-m'aqui eno vosso poder,
em que fui sempr'e hei já de seer.
porque vos am'e amei, pois vos vi;
e pois vos desto queixades de mi,
se en dereito queredes filhar,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Pois vos de mim nom queixades por al,
senom porque vos quero mui gram bem
– e vejo que vos queixades por en –
senhor de mim e meu bem e meu mal,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Senhor, se vós teedes por razom
d'eu por aquesto já morte prender,
nom hei eu que me de vós defender;
e por en, coita do meu coraçom,
aque-m'aqui eno vosso poder,
em que fui sempr'e hei já de seer.
415
Mafalda Veiga
Por Tu Amor
Hoy ha entregado más que cuerpo y alma
todo lo aposte
mi cansacio com un trago de silencio
my fuerza y mi fe
Hoy ha habido una luna casi negra
en un cielo gris
y uno es guerrero
es compañeiro aunque no vuelva
yo a saber de ti
mas que más da
Si por tu amor hay que a aprender
a hacer revoluciones en la calle
si hay que luchar hasta ya no poder
yo lucharé
cantando en noches de silencio
ganando sobre piedras mi destino
si hay que ser fuerte
yo aprenderé
Hoy he buscado hasta el final de la oscuridad
la risa o la muerte
he arrancado muy muy dentro de mi alma
raíces de flor o dolor
mas que más da
Si por tu amor hay que a aprender
a hacer revoluciones en la calle
si hay que luchar hasta ya no poder
yo lucharé
cantando en noches de silencio
ganando sobre piedras mi destino
si hay que ser fuerte
yo aprenderé
todo lo aposte
mi cansacio com un trago de silencio
my fuerza y mi fe
Hoy ha habido una luna casi negra
en un cielo gris
y uno es guerrero
es compañeiro aunque no vuelva
yo a saber de ti
mas que más da
Si por tu amor hay que a aprender
a hacer revoluciones en la calle
si hay que luchar hasta ya no poder
yo lucharé
cantando en noches de silencio
ganando sobre piedras mi destino
si hay que ser fuerte
yo aprenderé
Hoy he buscado hasta el final de la oscuridad
la risa o la muerte
he arrancado muy muy dentro de mi alma
raíces de flor o dolor
mas que más da
Si por tu amor hay que a aprender
a hacer revoluciones en la calle
si hay que luchar hasta ya no poder
yo lucharé
cantando en noches de silencio
ganando sobre piedras mi destino
si hay que ser fuerte
yo aprenderé
1 190
Rui Queimado
Cuidades Vós, Mia Senhor, Que Mui Mal
Cuidades vós, mia senhor, que mui mal
estou de vós e cuid'eu que mui bem
estou de vós, senhor, por ũa rem
que vos ora direi, ca nom por al:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Tam mansa vos quis Deus, senhor, fazer
e tam fremosa e tam bem falar
que nom poderia eu mal estar
de vós, por quanto vos quero dizer:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Amo-vos tant'e com tam gram razom,
pero que nunca de vós bem prendi,
que coid'eu est', e vós que nom é 'si;
mais tant'esforç'hei no meu coraçom:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
estou de vós e cuid'eu que mui bem
estou de vós, senhor, por ũa rem
que vos ora direi, ca nom por al:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Tam mansa vos quis Deus, senhor, fazer
e tam fremosa e tam bem falar
que nom poderia eu mal estar
de vós, por quanto vos quero dizer:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Amo-vos tant'e com tam gram razom,
pero que nunca de vós bem prendi,
que coid'eu est', e vós que nom é 'si;
mais tant'esforç'hei no meu coraçom:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
542
Olga Savary
Hai-Kai
Se fosses um buda
eu seria a pedra
de tua fronte.
Belém, 12 de julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
eu seria a pedra
de tua fronte.
Belém, 12 de julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 893
Olga Savary
Gazel
De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 969
Sully Prudhomme
O vaso partido
O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
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