Poemas neste tema

Amor Romântico

Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Dom Estêvam, Oí Por Vós Dizer

Dom Estêvam, oí por vós dizer,
d'ũa molher que queredes gram bem,
que é guardada, que, por nulha rem,
non'a podedes, amigo, veer;
e al oí, de que hei gram pesar:
que quant'houvestes, todo no logar
u ela é, fostes i despender.

E pois ficastes probe, sem haver,
nom veedes ca fezestes mal sem?
Siquer a gente a gram mal vo-lo tem,
por irdes tal molher gram bem querer,
que nunca vistes riir nem falar;
e, por molher tam guardada, ficar
vos vej'eu pobr'e sem conhocer.

E nom veedes, home pecador,
qual est o mundo e estes que i som?
Nem conhocedes, mesquinho, que nom
se pagam já de quem faz o peior?
E gram sandice d'hom'é, por oir
bem da molher guardada, que nom vir,
d'ir despender quant'há por seu amor.

E bem vos faç', amigo, sabedor
que andaredes, por esta razom,
per portas alheas mui gram sazom:
por que fostes querer bem tal senhor,
per que sodes tornad'em pam pedir?
E as guardas nom se querem partir
de vós, e guardam-na por en melhor.
681
E. E. Cummings

E. E. Cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond

any experience,your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully ,suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility:whose texture

compels me with the color of its countries,

rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes

and opens;only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody,not even the rain,has such small hands

1 219
Martim Soares

Martim Soares

Muitos Me Vêm Preguntar

Muitos me vêm preguntar,
mia senhor, a quem quero bem;
e nom lhes quer'end'eu falar,
com medo de vos pesar en,
nem quer'a verdade dizer,
mais jur'e faço-lhes creer
mentira, por vo-lhes negar.

E por que me vêm coitar
do que lhes nom direi per rem
- ca m'atrev'eu em vos amar?
E mentr'eu nom perder o sem,
nom vos en devedes temer,
ca o nom pod'home saber
per mim, se nom adevinhar.

Nem será tam preguntador
nulh'home que sábia de mim
rem, per que seja sabedor
[d]o bem que vos quis, pois vos vi.
E pois vos praz, negá-lo-ei
mentr'o sem nom perder; mais sei
que mi o tolherá voss'amor.

E se per ventura assi for,
que m'ar preguntem des aqui
se sodes vós a mia senhor
que amei sempre e servi,
vedes como lhes mentirei:
doutra senhor me lhes farei,
ond'haja mais pouco pavor.
698
Martim Soares

Martim Soares

Em Tal Poder, Fremosa Mia Senhor

Em tal poder, fremosa mia senhor,
sõo de vós qual vos ora direi:
que bem ou mal, enquant'eu vivo for,
qual vos prouguer, de vós atendê-l'-ei;
ca se me vós, senhor, fezerdes bem,
bem me verrá de Deus e doutra rem;
e se me vós quiserdes fazer al,
Amor e Deus logo me farám mal.

E entend'eu, fremosa mia senhor,
mentr'eu vos vir, que nunca perderei
gram bem de Deus, nem de vós, nem d'Amor,
ca, pois vos vejo, de tod'eu bem hei;
e direi-vos, mia senhor, que mi avém:
amor de Deus prend'[e] esforç'e sem,
mentre vos vejo; mais pois vos nom vir,
esforç'e sem e Deus ham-mi a falir.

E des entom, fremosa mia senhor,
nunca de Deus nem de mim prenderei
prazer, nem bem de que haja sabor;
ca, mia senhor, de qual guisa haverei
bem deste mundo, pois me for daquém?
Ca perderei quanto prazer me vem,
pois vos nom vir, e perderei des i
Deus, mia senhor, e o seu bem e mi.

E direi-vos, fremosa mia senhor,
pois vos nom vir, quam perdudo serei:
perderei sem e esforç'e pavor
e des i bem nem mal nom sentirei;
e, mia senhor, al vos ar direi en:
nom mi terrá, conselho que me dem,
dano, nem prol, nem pesar, nem prazer
e per qual guisa m'hei mais a perder.

Ca perdud'é, senhor, a meu cuidar,
quem perde sem e prazer e pesar.
698
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Pero D'ambroa, Tal Senhor Havedes

Pero d'Ambroa, tal senhor havedes,
que nom sei quem se dela nom pagasse
[...............................]
e ajudei-vos eu, como sabedes,
escontra ela mui de bõa mente;
e diss'ela: - Fazede-me-lh'enmente,
ainda hoje vós migo jaredes,

por seu amor; ca x'anda tam coitado
que, se vós hoje migo nom jouverdes,
será sandeu; e, se o nom fezerdes,
nom se terrá de vós por ajudado;
mais enmentade-me-lhi ũa vegada,
e marrei eu vosc'em vossa pousada,
e o cativo perderá cuidado.

E já que lhi vós amor demonstrades,
semelh'ora que lhi sodes amigo:
jazede logo aquesta noite migo,
e des i pois crás, u quer que o vejades,
dizede-lhi que comigo albergastes,
por seu amor, e que me lh'enmentastes,
e nom tenha que o pouc'ajudades.
487
Martim Soares

Martim Soares

O Que Conselh'a Mim de M'eu Quitar

O que conselh'a mim de m'eu quitar
de mia senhor, porque me nom faz bem,
e me por tam poderos'ora tem
de m'en partir, nunca el houv'amor
qual hoj'eu hei, nem viu esta senhor
com que Amor fez a mim començar.

Mais non'a viu e vai-mi agora dar
tal conselho, em que perde seu sem;
ca, se a vir ou lha mostrar alguém,
bem me faç'eu d'atanto sabedor:
que me terrá mia morte por melhor
ca me partir do seu bem desejar.

Ca, se el vir o seu bom semelhar,
desta dona por que mi a mi mal vem,
nom m'ar terrá que m'eu possa per rem
dela partir, enquant'eu vivo for,
nem que m'end'eu tenha por devedor,
nem outr'home que tal senhor amar.

E pois la vir, se poder-s'i guardar
de lh'aviir com'end'a mim avém,
bem terrei eu que escapará en;

mais d'ũa rem hei ora gram pavor:
des que a vir, este conselhador
de nom poder mim nem si conselhar.
351
E. E. Cummings

E. E. Cummings

Since feeling is first,

Since feeling is first,

who pays any attention

to the syntax of things

will never wholly kiss you;

wholly to be a fool

while spring is in the world

my blood approves,

and kisses are a better fate

than wisdom

lady i swear by all flowers. Dont cry

-the best gesture of my brain is less than

your eyelids flutter which says

we are for each other: then

laugh, leaning back in my arms

for lifes not a paragraph

and death i think is no parenthesis
1 409
Adélia Prado

Adélia Prado

No Meio da Noite

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de
[ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
‘A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos’.
Doía como um prazer.
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
— O que que foi? — ele disse.
— As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.
2 612
Juan Gelman

Juan Gelman

Chega

chega
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra

meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome

teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração

(Tradução de Ricardo Domeneck)



Basta

basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra

mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre

tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.

.
.
.
1 403
Adélia Prado

Adélia Prado

A Catecúmena

Se o que está prometido é a carne incorruptível,
é isso mesmo que eu quero, disse e acrescentou:
mais o sol numa tarde com tanajuras,
o vestido amarelo com desenhos semelhando urubus,
um par de asas em maio e imprescindível,
multiplicado ao infinito, o momento em que
palavra alguma serviu à perturbação do amor.
Assim quero “venha a nós o vosso reino”.
Os doutores da Lei, estranhados de fé tão ávida,
disseram delicadamente:
vamos olhar a possibilidade de uma nova exegese
deste texto. Assim fizeram.
Ela foi admitida; com reservas.
1 263
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema de Amor de António E de Cleópatra

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.
3 475
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Quer'eu Gram Bem a Mia Senhor

Quer'eu gram bem a mia senhor
polo seu mui bom parecer;
e, porque me nom quer veer
pobre, lhi quer'eu já melhor:
ca diz que, mentr'eu alg'houver,
que nunca já será molher
que mi queira por en peior.

Conselha-me mia senhor,
como se houvess'a levar
de mim algo, pois mi o achar;
e diz-mi-o ela, com sabor
que houvess'eu algo de meu,
ca diz que tant'é come seu,
pois que mi há por entendedor.
397
Martim Soares

Martim Soares

Senhor, Pois Deus Nom Quer Que Mi Queirades

Senhor, pois Deus nom quer que mi queirades
creer a coita que me por vós vem,
por Deus, creede ca vos quero bem
e jamais nunca m'outro bem façades;
e se mi aquesto queredes creer,
poderei eu mui gram coita perder;
e vós, senhor, nom sei que i perçades

em guarirdes voss'homem, que matades,
e que vos ama mais que outra rem;
por mim vos digo, que nom acho quem
me dê conselho, nem vós nom mi o dades.
Pero Deus sabe quam de coraçom
hoj'eu vos amo e, se El me perdom,
desamo mi porque me desamades,

per bõa fé, mia senhor; e sabiades
ca por aquest'hei perdudo meu sem;
mais se Deus quiser que vos dig'alguém
quam bem vos quero e que o vós creades,
poderei eu meu sem cobrar des i;
e se a vós prouguer que seja assi,
sempre por en bõa ventura hajades.
559
Paulo Leminski

Paulo Leminski

amar é um elo

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

8 503
Adélia Prado

Adélia Prado

Sensorial

Obturação, é da amarela que eu ponho.
Pimenta e cravo,
mastigo à boca nua e me regalo.
Amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons pra uma palavra só.
Espírito, se for de Deus, eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
Fico gostando ou perdoo.
Procuro sol, porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.
2 063
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a noite - enorme

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

2 446
Ghérasim Luca

Ghérasim Luca

Seu corpo leve

Seu corpo leve
será o fim do mundo?
é um erro
é uma delícia deslizando
entre os meus lábios
perto do espelho
mas o outro pensava:
é apenas uma pomba que respira
seja o que for
onde estou
algo acontece
numa posição delimitada pelo temporal
Perto do espelho é um erro
onde estou é apenas uma pomba
mas o outro pensava:
algo acontece
numa posição delimitada
deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
é uma delícia seja o que for
seu corpo leve respira pelo temporal
Numa posição delimitada
perto do gelo que respira
seu corpo leve deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
mas o outro pensava: é uma delícia
algo acontece seja o que for
pelo temporal é apenas uma pomba
onde estou é um erro
Será o fim do mundo que respira
seu corpo leve? Mas o outro pensava:
onde estou perto do espelho
é uma delícia numa posição delimitada
seja o que for é um erro
algo acontece pelo temporal
é apenas uma pomba
deslizando entre os meus lábios
É apenas uma pomba
numa posição delimitada
onde estou pelo temporal
mas o outro pensava:
quem respira perto do espelho
será o fim do mundo?
seja o que for é uma delícia
algo acontece
deslizando entre os meus lábios
seu corpo leve
(tradução de Laura Erber)
:
Son corps léger
est-il la fin du monde?
c’est une erreur
c’est une délice glissant
entre mes lèvres
près de la glace
mais l’autre pensait:
ce n’est qu’une colombe qui respire
quoi qu’il en soit
là où je suis
il se passe quelque chose
dans une position délimitée par l’orage
Près de la glace c’est une erreur
là où je suis ce n’est qu’une colombe
mais l’autre pensait:
il se passe quelque chose
dans une position délimitée
glissant entre mes lèvres
est-ce la fin du monde?
c’est une délice quoi qu’il en soit
sons corps léger respire par l’orage
Dans une position délimitée
près de la glace qui respire
sons corps léger glissant entre mes lèvres
est-ce la fin du monde?
mais l’autre pensait: c’est une délice
il se passe quelque chose quoi qu’il en soit
par l’orage ce n’est qu’une colombe
là où je suis c’est une erreur
Est-ce la fin du monde qui respire
son corps léger? mais l’autre pensait:
là où je suis près de la glace
c’est une délice dans une position délimitée
quoi qu’il en soit c’est une erreur
il se passe quelque chose par l’orage
ce n’est qu’une colombe
glissant entre mes lèvres
Ce n’est qu’une colombe
dans une position délimitée
là où je suis par l’orage
mais l’autre pensait:
qui respire près de la glace
est-ce la fin du monde?
Quoi qu’il en soit c’est une délice
Il se passe quelque chose
c’est une erreur
glissant entre mes lèvres
son corps léger
Os editores da Modo de Usar & Co. agradecem à poeta carioca Laura Erber por ter gentilmente permitido a publicação destas traduções.
.
.
.
1 320
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Nossos Dedos Abriram Mãos Fechadas

Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.

Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.

E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
2 069
Martim Soares

Martim Soares

Meu Senhor Deus, Se Vos Prouguer

Meu senhor Deus, se vos prouguer,
tolhed'Amor de sobre mi
e nom me leixedes assi
em tamanha coita viver;
ca vós devedes a valer
a tod'home que coita houver.

Ca me seria mais mester;
ca me tem hoj'el na maior
coita 'm que home tem Amor.
E Deus, se vos for em prazer,
sacade-me de seu poder,
e pois fazede-mi al que quer.

E des que mi Amor nom fezer
a coita que levo levar,
Deus! nunca por outro pesar
haverei sabor de morrer
– o que eu nom cuido perder,
mentr'Amor sobre mim poder.
550
Martim Soares

Martim Soares

Quantos Entendem, Mia Senhor

Quantos entendem, mia senhor,
a coita que me por vós vem
e quam pouco dades por en,
todos maravilhados som
de nom poder meu coraçom
per algũa guisa quitar,
por tod'esto, de vos amar.

Maravilham-se, mia senhor,
e eu deles, por nẽum bem
desejarem de nulha rem
eno mundo, se de vós nom,
se lhes Deus algũa sazom
aguisou de vo-lhes mostrar,
ou d'oírem de vós falar.

Ca se vos virom, mia senhor,
ou vos souberom conhocer,
Deus! com'ar poderom viver
eno mundo jamais des i
senom coitados, come mim,
de tal coita qual hoj'eu hei
por vós, qual nunca perderei?

Nen'a perderá, mia senhor,
quem vir vosso bom parecer,
mais converrá-lh'ena sofrer,
com'eu fiz, des quando vos vi;
e o que nom fezer assi,
se disser ca vos viu, bem sei
de mim ca lho nom creerei.

Mais creer-lh'-ei a quem leixar
tod'outro bem, por desejar
vós, que sempre desejarei.
681
Martim Soares

Martim Soares

Por Deus, Senhor, Nom Me Desamparedes

Por Deus, senhor, nom me desamparedes
a voss'amor, que m'assi quer matar;
e valha-mi bom sem que vós havedes
e Deus, por que vo-l'eu venho rogar;
e valha-mi, fremosa mia senhor,
coita que levo por vós e pavor;
e valha-mi quam muito vós valedes.

E valha[m]-mi porque [bem] saberedes
que vos eu nunca mereci pesar
de que me vos com dereito queixedes,
ergo se vos pesa de vos amar;
e nom tenh'eu que é torto nem mal
d'amar home sa senhor natural,
ant'é dereito e vós vo-l'entendedes.

E, mia senhor, por Deus, nom me leixedes,
se vos prouguer, a voss'amor forçar;
ca nom posso'eu com el, mais poder-m'-edes
vós, se quiserdes, de força guardar,
de tal guisa como vos eu disser:
senhor fremosa, se vos aprouguer,
pois m'el por vós força, que o forcedes.

E pois nós ambos em poder teedes,
nom me leixedes del forçad'andar:
ca somos ambos vossos e devedes
a creer quem vos melhor conselhar;
e, mia senhor, cuido que eu serei,
ca sempre vos por conselho darei
que o voss'home de morte guardedes.

E fiqu'Amor como dev'a ficar,
quando vos nom quiser avergonhar
de vos matar um home que havedes.
602
Rui Queimado

Rui Queimado

Deste Mund'outro Bem Nom Querria

Deste mund'outro bem nom querria,
por quantas coitas me Deus faz sofrer,
que mia senhor do mui bom parecer
que soubess'eu bem que entendia
como hoj'eu moir'e nom lho dizer eu,
nem outre por mim, mais ela de seu
o entender; mais como seria?

E se eu est'houvess', haveria
o mais de bem que eu querri'haver:
sabê-lo ela bem, sem lho dizer
eu! E nom atender aquel dia
que eu atend', ond'hei mui gram pavor,
de lhe dizer: "por vós moiro, senhor"
- ca sei que por meu mal lho diria.

Ca senhor hei que m'estranharia
tanto que nunc'haveria poder
de lh'ar falar, nem sol de a veer.
E mal me vai, mais peor m'iria.
E por esto querria eu assi
que o soubess'ela, mais nom per mi,
e soubess'eu bem que o sabia.

E rog'a Deus e Santa Maria,
que lhe souberom tanto bem fazer,
que bem assi lho façam entender.
E com tod'est'ainda seria
em gram pavor de m'estranhar por en.
E, par Deus, ar jurar-lh'-ia mui bem
que nulha culpa i nom havia

de m'entender, assi Deus me perdom,
nen'o gram bem que lh'eu quer'; e entom
com dereito nom se queixaria.
635
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Epifania Num Bar de Aix

Sempre pensei, seria assim a maturidade:
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
1 077
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Adolescência

Bom teria sido
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
1 136