Poemas neste tema
Amor Romântico
Juião Bolseiro
Aquestas Noites Tam Longas Que Deus Fez Em Grave Dia
Aquestas noites tam longas que Deus fez em grave dia
por mim, por que as nom dórmio, e por que as nom fazia
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?
Porque as fez Deus tam grandes, nom posso eu dormir, coitada,
e, de como som sobejas, quisera-m'outra vegada
no tempo que meu amigo
soía falar comigo.
Porque as Deus fez tam grandes, sem mesura, desiguaes,
e as eu dormir nom posso, por que as nom fez ataes
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?
por mim, por que as nom dórmio, e por que as nom fazia
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?
Porque as fez Deus tam grandes, nom posso eu dormir, coitada,
e, de como som sobejas, quisera-m'outra vegada
no tempo que meu amigo
soía falar comigo.
Porque as Deus fez tam grandes, sem mesura, desiguaes,
e as eu dormir nom posso, por que as nom fez ataes
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?
1 190
Adélia Prado
Enredo Para Um Tema
Ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e uma beleza
de príncipe de histórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que... disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.
só os cabelos pretíssimos e uma beleza
de príncipe de histórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que... disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.
1 512
Juião Bolseiro
Ai Meu Amigo, Havedes Vós Per Mi
Ai meu amigo, havedes vós per mi
afã e coit'e desej'e nom al,
e o meu bem é todo vosso mal;
mais, pois vos eu nom posso valer i,
pesa-mi a mi porque paresco bem,
pois end'a vós, meu amigo, mal vem.
E sei, amigo, destes olhos meus
e sei do meu fremoso parecer
que vos fazem em gram coita viver;
mais, meu amigo, se mi valha Deus,
pesa-mi a mi porque paresco bem,
pois end'a vós, meu amigo, mal vem.
afã e coit'e desej'e nom al,
e o meu bem é todo vosso mal;
mais, pois vos eu nom posso valer i,
pesa-mi a mi porque paresco bem,
pois end'a vós, meu amigo, mal vem.
E sei, amigo, destes olhos meus
e sei do meu fremoso parecer
que vos fazem em gram coita viver;
mais, meu amigo, se mi valha Deus,
pesa-mi a mi porque paresco bem,
pois end'a vós, meu amigo, mal vem.
539
Adélia Prado
Psicórdica
Vamos dormir juntos, meu bem,
sem sérias patologias.
Meu amor é este ar tristonho
que eu faço pra te afligir,
um par de fronhas antigas
onde eu bordei nossos nomes
com ponto cheio de suspiros.
sem sérias patologias.
Meu amor é este ar tristonho
que eu faço pra te afligir,
um par de fronhas antigas
onde eu bordei nossos nomes
com ponto cheio de suspiros.
1 427
Edgar Allan Poe
Impromptu To Kate Carol
When from your gems of thought I turn
To those pure orbs, your heart to learn,
I scarce know which to prize most high —
The bright i-dea, or the bright dear-eye.
1845
To those pure orbs, your heart to learn,
I scarce know which to prize most high —
The bright i-dea, or the bright dear-eye.
1845
1 123
Adélia Prado
Para Cantar Com o Saltério
Te espero desde o acre mel de marimbondos da minha
[juventude.
Desde quando falei, vou ser cruzado, acompanhar
[bandeiras,
ser Maria Bonita no bando de Lampião, Anita ou Joana,
desde as brutalidades da minha fé sem dúvidas.
Te espero e não me canso, desde, até agora e para sempre,
amado que virá para pôr sua mão na minha testa
e inventar com sua boca de verdade
o meu nome para mim.
[juventude.
Desde quando falei, vou ser cruzado, acompanhar
[bandeiras,
ser Maria Bonita no bando de Lampião, Anita ou Joana,
desde as brutalidades da minha fé sem dúvidas.
Te espero e não me canso, desde, até agora e para sempre,
amado que virá para pôr sua mão na minha testa
e inventar com sua boca de verdade
o meu nome para mim.
1 128
Juião Bolseiro
Partir Quer Migo Mia Madr'hoj'aqui
Partir quer migo mia madr'hoj'aqui
quant'há no mund', u outra rem nom jaz:
de vós, amig', ũa parte mi faz,
e faz-m'outra de quant'há e de si;
e, pois faz esto, manda-m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
Partir quer migo como vos direi:
de vós mi faz [i] ũa parte já
e faz-m'outra de si e de quant'há
e de quantos outros parentes hei;
e, pois faz esto, manda-m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
E de qual guisa migo partir quer
a partiçom, ai meu amig', é tal:
ũa me faz, senhor, de vós, sem al,
outra de si e de quant'al houver;
e, pois faz esto, manda-m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
De vós me faz ũa parte, ai senhor
e meu amig'e meu lum'e meu bem,
e faz-m'outra de grand'algo que tem
e pom-me demais i o seu amor;
e, pois faz esto, manda m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
E, poilo ela part', a meu prazer,
em vós quer'eu, meu amig', escolher.
quant'há no mund', u outra rem nom jaz:
de vós, amig', ũa parte mi faz,
e faz-m'outra de quant'há e de si;
e, pois faz esto, manda-m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
Partir quer migo como vos direi:
de vós mi faz [i] ũa parte já
e faz-m'outra de si e de quant'há
e de quantos outros parentes hei;
e, pois faz esto, manda-m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
E de qual guisa migo partir quer
a partiçom, ai meu amig', é tal:
ũa me faz, senhor, de vós, sem al,
outra de si e de quant'al houver;
e, pois faz esto, manda-m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
De vós me faz ũa parte, ai senhor
e meu amig'e meu lum'e meu bem,
e faz-m'outra de grand'algo que tem
e pom-me demais i o seu amor;
e, pois faz esto, manda m'escolher;
que mi mandades, amigo, fazer?
E, poilo ela part', a meu prazer,
em vós quer'eu, meu amig', escolher.
764
Adélia Prado
Um Jeito
Meu amor é assim, sem nenhum pudor.
Quando aperta eu grito da janela
— ouve quem estiver passando —
ô fulano, vem depressa.
Tem urgência, medo de encanto quebrado,
é duro como osso duro.
Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:
quero é dormir com você, alisar seu cabelo,
espremer de suas costas as montanhas pequenininhas
de matéria branca. Por hora dou é grito e susto.
Pouca gente gosta.
Quando aperta eu grito da janela
— ouve quem estiver passando —
ô fulano, vem depressa.
Tem urgência, medo de encanto quebrado,
é duro como osso duro.
Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:
quero é dormir com você, alisar seu cabelo,
espremer de suas costas as montanhas pequenininhas
de matéria branca. Por hora dou é grito e susto.
Pouca gente gosta.
1 588
Edgar Allan Poe
Eulalie
I dwelt alone
In a world of moan,
And my soul was a stagnant tide,
Till the fair and gentle Eulalie became my blushing bride—
Till the yellow-haired young Eulalie became my smiling bride.
Ah, less— less bright
The stars of the night
Than the eyes of the radiant girl!
That the vapor can make
With the moon-tints of purple and pearl,
Can vie with the modest Eulalie's most unregarded curl—
Can compare with the bright-eyed Eulalie's most humble and careless curl.
Now Doubt- now Pain
Come never again,
For her soul gives me sigh for sigh,
And all day long
Shines, bright and strong,
Astarte within the sky,
While ever to her dear Eulalie upturns her matron eye—
While ever to her young Eulalie upturns her violet eye.
1850
In a world of moan,
And my soul was a stagnant tide,
Till the fair and gentle Eulalie became my blushing bride—
Till the yellow-haired young Eulalie became my smiling bride.
Ah, less— less bright
The stars of the night
Than the eyes of the radiant girl!
That the vapor can make
With the moon-tints of purple and pearl,
Can vie with the modest Eulalie's most unregarded curl—
Can compare with the bright-eyed Eulalie's most humble and careless curl.
Now Doubt- now Pain
Come never again,
For her soul gives me sigh for sigh,
And all day long
Shines, bright and strong,
Astarte within the sky,
While ever to her dear Eulalie upturns her matron eye—
While ever to her young Eulalie upturns her violet eye.
1850
2 191
Adélia Prado
Amor Feinho
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
1 352
Adélia Prado
Medievo
Senhor meu amo, escutai-me,
a donzela espera por vós, no balcão.
Cuidai que não acorde os fâmulos
a paixão que estremece o vosso peito.
Os galgos estão inquietos, a alimária pateia.
Rogo-vos que vos apresseis.
a donzela espera por vós, no balcão.
Cuidai que não acorde os fâmulos
a paixão que estremece o vosso peito.
Os galgos estão inquietos, a alimária pateia.
Rogo-vos que vos apresseis.
1 361
Edgar Allan Poe
To Elizabeth
Would'st thou be loved? — then let thy heart
From its present pathway part not —
Be every thing which now thou art
And nothing which thou art not:
So with the world thy gentle ways,
And unassuming beauty
Shall be a constant theme of praise,
And love — a duty.
From its present pathway part not —
Be every thing which now thou art
And nothing which thou art not:
So with the world thy gentle ways,
And unassuming beauty
Shall be a constant theme of praise,
And love — a duty.
1 204
Lourenço
Senhor Fremosa, Oí Eu Dizer
Senhor fremosa, oí eu dizer
que vos levarom d'u vos eu leixei;
e d'u os meus olhos de vós quitei,
aquel dia fora bem de morrer
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
Porque vos forom, mia senhor, casar
e nom ousastes vós dizer ca nom;
por en, senhor, assi Deus mi perdom,
mais mi valera já de me matar
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
que vos levarom d'u vos eu leixei;
e d'u os meus olhos de vós quitei,
aquel dia fora bem de morrer
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
Porque vos forom, mia senhor, casar
e nom ousastes vós dizer ca nom;
por en, senhor, assi Deus mi perdom,
mais mi valera já de me matar
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
423
Adélia Prado
Janela
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em
[você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em
[você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
1 497
Ângelo de Lima
Epitáfio
Aqui Dorme e Descansa um Coração!
Palpito outrora...
- qual Dorme Agora...
- Vivo na História...
- Vibrou d"Amor e comovente Glória
Mas - Algum Dia...
- Veio afinal...
- Fatal!...
- Aquela Fata Místera e Sombria...
- Que os Homens chamam Morte e Despiedade...
- E é invencível...Místera e Sagrada!...
- Talvez Piedosa...
- ou Al Descoroada...!
- E o Palpitar do Coração Parou!
- E assim - Pois...ora
- Palpito outrora...
- Qual Dorme agora!
- Transe Emmorte de Efémera Ilusão...
- Aqui dorme e Descansa um Coração!
Palpito outrora...
- qual Dorme Agora...
- Vivo na História...
- Vibrou d"Amor e comovente Glória
Mas - Algum Dia...
- Veio afinal...
- Fatal!...
- Aquela Fata Místera e Sombria...
- Que os Homens chamam Morte e Despiedade...
- E é invencível...Místera e Sagrada!...
- Talvez Piedosa...
- ou Al Descoroada...!
- E o Palpitar do Coração Parou!
- E assim - Pois...ora
- Palpito outrora...
- Qual Dorme agora!
- Transe Emmorte de Efémera Ilusão...
- Aqui dorme e Descansa um Coração!
1 568
Lourenço
Ir-Vos Queredes, Amigo
- Ir-vos queredes, amigo,
mais viinde-vos mui cedo.
- Ai mia senhor, hei gram medo
de tardar, bem vo-lo digo:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, rogo-vos aqui
que mui cedo vos venhades.
- Senhor, por que me rogades?
Ca sei bem que será assi:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, vossa prol será,
pois vos ides, de nom tardar.
- Senhor, que prol mi há de jurar?
Ca sei bem quanto mi averrá:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
E, senhor, sempre cuidarei
que tardo muito; e que farei?
- Meu amigo, eu vo-lo direi:
se assi for, gracir-vo-lo-ei.
mais viinde-vos mui cedo.
- Ai mia senhor, hei gram medo
de tardar, bem vo-lo digo:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, rogo-vos aqui
que mui cedo vos venhades.
- Senhor, por que me rogades?
Ca sei bem que será assi:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, vossa prol será,
pois vos ides, de nom tardar.
- Senhor, que prol mi há de jurar?
Ca sei bem quanto mi averrá:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
E, senhor, sempre cuidarei
que tardo muito; e que farei?
- Meu amigo, eu vo-lo direi:
se assi for, gracir-vo-lo-ei.
670
Edgar Allan Poe
To F—s S O—d
Thou wouldst be loved?— then let thy heart
From its present pathway part not!
Being everything which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy grace, thy more than beauty,
Shall be an endless theme of praise,
And love- a simple duty.
1835
From its present pathway part not!
Being everything which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy grace, thy more than beauty,
Shall be an endless theme of praise,
And love- a simple duty.
1835
1 038
Adélia Prado
Para o Zé
Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu
[gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me
[guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai
[desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu
[gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me
[guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai
[desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.
2 122
Lourenço
Estes Com Que Eu Venho Preguntei
Estes com que eu venho preguntei
quant'há que veemos, per boa fé,
dessa terra u [a] mia senhor é;
mais dizem-mi o que lhis nom creerei:
dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mais de pram nom lhe-lo poss'eu creer
aos que dizem que tam pouc'há i
que m'eu, d'u est a mia senhor, parti;
mais que mi querem creente fazer?
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mentr'eu morar u nom vir mia senhor,
se m'oito dias tant'ham a durar,
mais me valria log'em me matar,
se m'oito dias tam gram sazom for.
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
E se mais d[e] oito dias nom som
que de mia senhor foi alongado,
forte preito tenho começado,
pois m'oito dias foi tam gram sazom!
quant'há que veemos, per boa fé,
dessa terra u [a] mia senhor é;
mais dizem-mi o que lhis nom creerei:
dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mais de pram nom lhe-lo poss'eu creer
aos que dizem que tam pouc'há i
que m'eu, d'u est a mia senhor, parti;
mais que mi querem creente fazer?
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mentr'eu morar u nom vir mia senhor,
se m'oito dias tant'ham a durar,
mais me valria log'em me matar,
se m'oito dias tam gram sazom for.
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
E se mais d[e] oito dias nom som
que de mia senhor foi alongado,
forte preito tenho começado,
pois m'oito dias foi tam gram sazom!
484
Lourenço
Assaz É Meu Amigo Trobador
Assaz é meu amigo trobador:
ca nunca s'home defendeu melhor,
quanto se torna em trobar,
do que s'el defende por meu amor
dos que vam com el entençar.
Pero o muitos vẽem cometer,
tam bem se sab'a todos defender
em seu trobar, per bõa fé,
que nunca o trobadores vencer
poderom, tam trobador é.
Muitos cantares há feitos por mi;
mais o que lh'eu sempre mais gradeci:
de como se bem defendeu
nas entenções que eu del oí
- sempre por meu amor venceu.
E aquesto non'[o] sei eu per mi,
senom porque o diz quem quer assi
que o em trobar cometeu.
ca nunca s'home defendeu melhor,
quanto se torna em trobar,
do que s'el defende por meu amor
dos que vam com el entençar.
Pero o muitos vẽem cometer,
tam bem se sab'a todos defender
em seu trobar, per bõa fé,
que nunca o trobadores vencer
poderom, tam trobador é.
Muitos cantares há feitos por mi;
mais o que lh'eu sempre mais gradeci:
de como se bem defendeu
nas entenções que eu del oí
- sempre por meu amor venceu.
E aquesto non'[o] sei eu per mi,
senom porque o diz quem quer assi
que o em trobar cometeu.
571
Lourenço
Ua Moça Namorada
Ũa moça namorada
dizia um cantar d'amor,
e diss'ela: "Nostro Senhor,
hoj'eu foss'aventurada
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
A moça bem parecia
e em sa voz manselĩa
cantou e diss'a menĩa:
"Prouguess'a Santa Maria
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
Cantava mui de coraçom
e mui fremosa estava,
e disse, quando cantava:
"Peç'eu a Deus por pediçom
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
dizia um cantar d'amor,
e diss'ela: "Nostro Senhor,
hoj'eu foss'aventurada
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
A moça bem parecia
e em sa voz manselĩa
cantou e diss'a menĩa:
"Prouguess'a Santa Maria
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
Cantava mui de coraçom
e mui fremosa estava,
e disse, quando cantava:
"Peç'eu a Deus por pediçom
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
664
Edgar Allan Poe
To Helen
Helen, thy beauty is to me
Like those Nicean barks of yore,
That gently, o'er a perfum'd sea,
The weary way-worn wanderer bore
To his own native shore.
On desperate seas long wont to roam,
Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have brought me home
To the beauty of fair Greece,
And the grandeur of old Rome.
Lo ! in that little window-niche
How statue-like I see thee stand!
The folded scroll within thy hand —
A Psyche from the regions which
Are Holy land !
1831
Like those Nicean barks of yore,
That gently, o'er a perfum'd sea,
The weary way-worn wanderer bore
To his own native shore.
On desperate seas long wont to roam,
Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have brought me home
To the beauty of fair Greece,
And the grandeur of old Rome.
Lo ! in that little window-niche
How statue-like I see thee stand!
The folded scroll within thy hand —
A Psyche from the regions which
Are Holy land !
1831
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Susana Thénon
Poema
"Eu creio nas noites".
R. M. Rilke
Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica
o amor que se afoga desaforadamente em minha boca
e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo,
nenhuma tarde com mais sol que de costume
é o bastante para formar a sílaba,
o sussurro esperado como um bálsamo,
noite e noite.
Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe
quando o não, o adeus,
o minuto morto agora, irreparável,
se levantam inesperadamente e cega,
até morrermos em todo o corpo, infinitos.
Como uma fome, como um sorriso, penso,
deve ser a solidão
assim nos engana bem e entra
e assim a surpreendemos uma tarde
reclinada sobre nós.
Como uma mão, como um canto simples
e sombrio
deveria ser o amor
para tê-lo perto e não renegá-lo
cada vez que nos invade o sangue.
Não há silêncio nem canção que justifiquem
esta morte tão lenta,
este assassinato que nada condena.
Não há liturgia nem fogo nem exorcismo
para deter o fracassar ridículo
dos idiomas que conhecemos.
A verdade é que não me afogo sem lamentar,
pelo menos tenho resistido ao engano:
não participei da festa mansa, nem do ar cúmplice,
nem da metade da noite.
Mordo entretanto e ainda que pouco o bastante
meu sorriso guarda um amor que assustaria a deus.
R. M. Rilke
Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica
o amor que se afoga desaforadamente em minha boca
e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo,
nenhuma tarde com mais sol que de costume
é o bastante para formar a sílaba,
o sussurro esperado como um bálsamo,
noite e noite.
Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe
quando o não, o adeus,
o minuto morto agora, irreparável,
se levantam inesperadamente e cega,
até morrermos em todo o corpo, infinitos.
Como uma fome, como um sorriso, penso,
deve ser a solidão
assim nos engana bem e entra
e assim a surpreendemos uma tarde
reclinada sobre nós.
Como uma mão, como um canto simples
e sombrio
deveria ser o amor
para tê-lo perto e não renegá-lo
cada vez que nos invade o sangue.
Não há silêncio nem canção que justifiquem
esta morte tão lenta,
este assassinato que nada condena.
Não há liturgia nem fogo nem exorcismo
para deter o fracassar ridículo
dos idiomas que conhecemos.
A verdade é que não me afogo sem lamentar,
pelo menos tenho resistido ao engano:
não participei da festa mansa, nem do ar cúmplice,
nem da metade da noite.
Mordo entretanto e ainda que pouco o bastante
meu sorriso guarda um amor que assustaria a deus.
1 103
Alfred de Musset
Venise
Venise
Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans leau,
Pas un falot.
Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur lhorizon serein,
Son pied dairain.
Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,
Dorment sur leau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.
La lune qui sefface
Couvre son front qui passe
Dun nuage étoilé
Demi-voilé.
Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.
Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,
Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,
Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.
- Ah ! maintenant plus dune
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
Loreille au guet.
Pour le bal quon prépare,
Plus dune qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.
Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En sendormant;
Et Narcisa, la folle,
Au fond de sa gondole,
Soublie en un festin
Jusquau matin.
Et qui, dans lItalie,
Na son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?
Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.
Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés...
Ou pardonnés.
Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Quà nos yeux a coûté
La volupté !
Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans leau,
Pas un falot.
Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur lhorizon serein,
Son pied dairain.
Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,
Dorment sur leau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.
La lune qui sefface
Couvre son front qui passe
Dun nuage étoilé
Demi-voilé.
Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.
Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,
Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,
Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.
- Ah ! maintenant plus dune
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
Loreille au guet.
Pour le bal quon prépare,
Plus dune qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.
Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En sendormant;
Et Narcisa, la folle,
Au fond de sa gondole,
Soublie en un festin
Jusquau matin.
Et qui, dans lItalie,
Na son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?
Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.
Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés...
Ou pardonnés.
Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Quà nos yeux a coûté
La volupté !
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