Poemas neste tema

Amor Romântico

Renato Russo

Renato Russo

Quando Você Voltar

Vai, se você precisa ir
Não quero mais brigar esta noite
Nossas acusações infantis
E palavras mordazes que machucam tanto
Não vão levar a nada, como sempre
Vai, clareia um pouco a cabeça
Já que você não quer conversar.
Já brigamos tanto mas não vale a pena
Vou ficar aqui, com um bom livro ou com a TV
Sei que existe alguma coisa incomodando você
Meu amor, cuidado na estrada
E quando você voltar
Tranque o portão
Feche as janelas
Apague a luz
E saiba que te amo

1 635
D. Dinis

D. Dinis

Bom Dia Vi Amigo,

Bom dia vi amigo,
pois seu mandad'hei migo,
       louçana.

Bom dia vi amado,
pois mig'hei seu mandado,
       louçana.

Pois seu mandad'hei migo,
rog'eu a Deus e digo
       louçana.

Pois migo hei seu mandado,
rog'eu a Deus de grado,
       louçana.

Rog'eu a Deus e digo
por aquel meu amigo,
       louçana.

[Rog'eu a Deus de grado
por aquel namorado,
       louçana.]

Por aquel meu amigo,
que o veja comigo,
       louçana.

Por aquel namorado,
que fosse já chegado,
       louçana.
1 015
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

No bicentenário de Kant

Sim —
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.

Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.

Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.

Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
604
Herberto Helder

Herberto Helder

63

resposta a uma carta
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
1 231
D. Dinis

D. Dinis

Nom Poss'eu, Meu Amigo

- Nom poss'eu, meu amigo,
com vossa soidade
viver, bem vo-lo digo,
e por esto morade,
       amigo, u mi possades
       falar e me vejades.

Nom poss', u vos nom vejo,
viver, ben'o creede,
tam muito vos desejo,
e por esto vivede,
       amigo, u mi possades
       falar e me vejades.

Naci em forte ponto
e, amigo, partide
o meu gram mal sem conto,
e por esto guaride,
       amigo, u mi possades
       falar e me vejades.

- Guarrei, ben'o creades,
senhor, u me mandardes.
756
D. Dinis

D. Dinis

Em Grave Dia, Senhor, Que Vos Oí

– Em grave dia, senhor, que vos oí
falar, e vos virom estes olhos meus!
– Dized', amigo, que poss'eu fazer i
em aqueste feito, se vos valha Deus?
       – Faredes mesura contra mi, senhor?
        - Farei, amigo, fazend'eu o melhor.

– U vos em tal ponto eu oí falar,
senhor, que nom pudi depois bem haver!
– Amigo, quero-vos ora preguntar
que mi digades o que poss'i fazer.
       – Faredes mesura contra mi, senhor?
       – Farei, amigo, fazend'eu o melhor.

– Des que vos vi e vos oí falar, [nom]
vi prazer, senhor, nem dormi, nem folguei.
– Amigo, dizede, se Deus vos perdom,
o que eu i faça, ca eu non'o sei.
       – Faredes mesura contra mi, senhor?
       – Farei, amigo, fazend'eu o melhor.
753
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Madrigal Muito Fácil

Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.

Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.

Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.

Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,

Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
1 388
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Senhor Fremosa, Vejo-Me Morrer

Senhor fremosa, vejo-me morrer;
e a mi praz, e mui de coraçom,
co'a mia mort', assi Deus mi perdom,
por aquesto que vos quero dizer:
       moiro por vós, a que praz, e muit'en,
       de que moir'eu, e praz a mim por en!

Per bõa fé, de mia mort'hei sabor,
e bem vos juro que há gram sazom
que rog'a Deus por mort', e por al nom,
por aquesto que vos digo, senhor:
       moiro por vós, a que praz, e muit'en,
       de que moir'eu, e praz a mim por en!

E, per bõa fé, gram sabor per hei
com mia morte, per quant'eu entendi
que vos prazia; e pois est assi,
muito mi praz polo que vos direi:
       moiro por vós, a que praz, e muit'en,
       de que moir'eu, e praz a mim por en.

Ca de viver mais nom m'era mester;
e praz-mi muit'em morrer des aqui
por vós. E tenho que mi Deus [faz] i
bem, mia senhor, polo que vos disser:
       moiro por vós, a que praz, e muit'en,
       de que moir'eu, e praz a mim por en!

E bem vos juro, senhor, que m'é bem
co'[a] mia morte, pois a vós praz en.
707
D. Dinis

D. Dinis

Dizede Por Deus, Amigo

- Dizede por Deus, amigo:
tamanho bem me queredes
como vós a mi dizedes?
- Si, senhor, e mais vos digo:
       nom cuido que hoj'home quer
       tam gram bem no mund'a molher.

- Nom creo que tamanho bem
mi vós podéssedes querer
camanh'a mi ides dizer
- Si, senhor, e mais direi en:
       nom cuido que hoj'home quer
       tam gram bem no mund'a molher.

- Amig', eu nom vos creerei,
fé que dev'a Nostro Senhor,
que m'havedes tam grand'amor!
- Si, senhor, e mais vos direi:
       nom cuido que hoj'home quer
       tam gram bem no mund'a molher.
838
D. Dinis

D. Dinis

Amigo, Queredes-Vos Ir?

- Amigo, queredes-vos ir?
- Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convém daqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
mi será, pois me sem vós vir!

- Amig', e de mim que será?
- Bem, senhor bõa e de prez;
e, pois m'eu for daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar,
mais pass'o voss'ũa vez já.

- Amig', eu sem vós morrerei.
- Nom querrá Deus esso, senhor;
mais, pois u vós fordes nom for,
o que morrerá eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar;
ca eu sem vós de morrer hei!

- Queredes-mi, amigo, matar?
- Nom, mia senhor; mais, por guardar
vós, mato-mi, que mi o busquei.
936
Renato Russo

Renato Russo

Se fiquei esperando meu amor passar

Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
- Espero
Acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu prá mim
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Dai-nos a paz"

1 270
D. Dinis

D. Dinis

Meu Amigo Vem Hoj'aqui

Meu amigo vem hoj'aqui
e diz que quer migo falar,
e sab'el que mi faz pesar,
madre, pois que lh'eu defendi
       que nom fosse, per nulha rem,
       per u eu foss', e ora vem

aqui; e foi pecado seu
de sol põer no coraçom,
madre, passar mia defensom;
ca sab'el que lhi mandei eu
       que nom fosse per nulha rem
       per u eu foss', e ora vem

aqui, u eu com el falei
per ante vós, madr'e senhor;
e oimais perde meu amor,
pois lh'eu defendi e mandei
       que nom fosse per nulha rem
       per u eu foss', e ora vem

aqui, madr', e pois fez mal sem,
dereit'é que perça meu bem.
263
D. Dinis

D. Dinis

Meu Amigo, Nom Poss'eu Guarecer

Meu amigo, nom poss'eu guarecer
sem vós nem vós sem mi; e que será
de vós? Mais Deus, que end'o poder há,
Lhi rog'eu que El queira escolher
       por vós, amigo, e des i por mi,
       que nom moirades vós nem eu assi

como morremos, ca nom há mester
de tal vida havermos de passar,
ca mais nos valria de nos matar;
mais Deus escolha, se a El prouguer,
       por vós, amigo, e des i por mi
       que nom moirades vós nem eu assi

como morremos, ca ena maior
coita do mundo, nen'a mais mortal,
vivemos, amigo, e no maior mal;
mais Deus escolha, come bom senhor,
       por vós, amigo, e des i por mi
       que nom moirades vós nem eu assi

como morremos, ca, per bõa fé,
mui gram temp'há que este mal passou
per nós, e passa, e muito durou;
mais Deus escolha, come quem Ele é,
       por vós, amigo, e des i por mi
       que nom moirades vós nem eu assi

como morremos, e Deus ponha i
conselh', amigo, a vós e a mim.
496
D. Dinis

D. Dinis

Que Coita Houvestes, Madr'e Senhor

Que coita houvestes, madr'e senhor,
de me guardar que nom possa veer
meu amig'e meu bem e meu prazer!
Mais, se eu posso, par Nostro Senhor,
       que o veja e lhi possa falar,
       guisar-lho-ei, e pês a quem pesar.

Vós fezestes todo vosso poder,
madr'e senhor, de me guardar que nom
visse meu amig'e meu coraçom!
Mais, se eu posso, a todo meu poder,
       que o veja e lhi possa falar,
       guisar-lho-ei, e pês a quem pesar.

Mia morte quisestes, madr', e nom al,
quand'aguisastes que per nulha rem
eu nom viss'o meu amig'e meu bem!
Mais, se eu posso, u nom pod'haver al,
       que o veja e lhi possa falar,
       guisar-lho-ei, e pês a quem pesar.

E se eu, madr', esto poss'acabar,
o al passe como poder passar.
863
Renato Russo

Renato Russo

Sete Cidades

Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade
Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu
Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo
Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu
Vem depressa prá mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz:
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui,
Meu espírito se perde, voa longe

995
Renato Russo

Renato Russo

Daniel na cova dos leões

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo:
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão:
Teu corpo é o meu espelho e te navego
E sei que a tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz, quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.

1 361
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Fals'amigo, Per Bõa Fé

Fals'amigo, per bõa fé,
m'eu sei que queredes gram bem
outra molher, e por mi rem
nom dades, mais, pois assi é,
       oimais fazede des aqui
       capa doutra, ca nom de mim.

Ca noutro dia vos achei
falar no voss'e nom em al
com outra, e foi m'ende mal,
mais, pois que a verdade sei,
       oimais fazede des aqui
       capa doutra, ca nom de mim.

E quando vos eu vi falar
com outra, log'i bem vi eu
que seu érades, ca nom meu,
mais quero-vos eu desenganar:
       oimais fazede des aqui
       capa doutra, ca nom de mim.
672
Renato Russo

Renato Russo

Faroeste Caboclo

- Não tinha medo, o tal João de Santo Cristo,
Era o que todos diziam quando se perdeu.
Deixou prá trás todo o marasmo da fazenda
Só para sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
Quando criança só pensava em ser bandido,
Ainda mais quando com tiro de um soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu.

Ia prá igreja só prá roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
Sentia mesmo que era diferente
E sentia que aquilo ali não era o seu lugar.
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão

Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado para o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

Não entendia como a vida funcionava -
Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e eia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: - Estou indo prá Brasília,
Neste país lugar melhor não há.
Estou precisando visitar a minha filha
Então fico aqui e você vai no meu lugar.

E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de natal
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No ano-novo eu começo a trabalhar.
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga

Na sexta-feira ia prá zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo de seu bisavô:
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ia começar

E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava prá ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
Como Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar

Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
- Tem bagulho bom aí !
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
E ia prá festa de rock, prá se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.

Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal.
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general.
Foi quando conehceu uma menina
E de todos seus pecados ele se arrependeu.
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele
Prá ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
- Maria Lúcia prá sempre vou te amar
E um filho seu eu quero ter.

O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe
com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
Uma resposta de João:
- Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
Com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião.
Mas antes de sair, com um ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu sua vida, meu irmão.

Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão.
Essas palavras vão entrar no coração
E eu vou sofrer as consequências como um cão.
Não é que o Santo Cristo estava certo
E seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina.

Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
Apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que o Jeremias começasse a brigar.

(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha,
organizou a Rockonha
E fez todo mundo dançar.)
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar

E Santo Cristo há muito não ia prá casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já está em tempo da gente se casar.

Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia, Jeremias se casou
E um filho nela ele fez

Santo Cristo era só ódio por dentro
e então o Jeremias prá um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia,
em frente ao lote 14, é prá lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você,
seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa prá quem jurei o meu amor

Santo Cristo não sabia o que fazer

Quando viu o repórter na televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão

No sábado então, às duas horas, todo o povo
Sem demora foi lá só prá assistir
Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
João olhou prás bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e prás câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.

E se lembrou de quando era uma criança e de tudo que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui

E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu.
Ela trazia a Winchester-22
A arma que Pablo lhe deu.

- Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é.
E não atiro pelas costas não
Olha prá cá filha-da-puta sem-vergonha,
dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o seu perdão

E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor.

E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria quando veio prá Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente,
Prá ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.

2 390
D. Dinis

D. Dinis

Gram Temp'há, Meu Amigo, Que Nom Quis Deus

Gram temp'há, meu amigo, que nom quis Deus
que vos veer podesse dos olhos meus,
e nom pom, com tod'esto, em mi os seus
olhos mia madr', amig', e pois est assi,
       guisade de nos irmos, por Deus, daqui,
       e faça mia madr'o que poder des i.

Nom vos vi há gram tempo, nem se guisou,
ca o partiu mia madr[e], a que pesou
daqueste preit', e pesa, e mi guardou
que vos nom viss', amig', e, pois est assi,
       guisade de nos irmos, por Deus, daqui,
       e faça mia madr'o que poder des i.

Que vos nom vi há muito, e nulha rem
nom vi des aquel tempo de nẽum bem,
ca o partiu mia madr[e], e fez por en
que vos nom viss', amig', e, pois est assi,
       guisade de nos irmos, por Deus, daqui,
       e faça mia madr'o que poder des i.

E se [o] nom guisardes mui ced'assi,
matades-vos, amig', e matades-mi.
579
D. Dinis

D. Dinis

De Morrerdes Por Mi Gram Dereit'é

De morrerdes por mi gram dereit'é,
amigo, ca tanto paresc'eu bem
que desto mal grad'hajades vós en
e Deus bom grado, ca, per bõa fé,
       nom é sem guisa de por mi morrer
       quem mui bem vir este meu parecer.

De morrerdes por mi nom vos dev'eu
bom grado poer, ca esto fará quem quer
que bem cousir parecer de molher;
e, pois mi Deus este parecer deu,
       nom é sem guisa de por mi morrer
       quem mui bem vir este meu parecer.

De vos por mi Amor assi matar,
nunca vos desto bom grado darei
e, meu amigo, mais vos en direi:
pois me Deus quis este parecer dar,
       nom é sem guisa de por mi morrer
       quem mui bem vir este meu parecer.

que mi Deus deu, e podedes creer
que nom hei rem que vos i gradecer.
787
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Mia Madre, Venho-Vos Rogar

Mia madre, venho-vos rogar
como roga filh'a senhor:
o que morre por mi d'amor,
leixade-m'ir co el falar;
       quanta coita el sigo tem
       sei que toda lhi por mi vem.

E sodes desmesurada
que vos nom queredes doer
do meu amigo, que morrer
vejo, e and'eu coitada;
       quanta coita el sigo tem
       sei que toda lhi por mi vem.

Vee-lo-ei eu, per bõa fé,
e direi-lhi tam gram prazer
per que [m']el dev'a gradecer,
poilo seu mal cedo meu é;
       quanta coita el sigo tem
       sei que toda lhi por mi vem.
707
José Saramago

José Saramago

Em Violino Fado

Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Ouro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
1 352
D. Dinis

D. Dinis

Valer-Vos-Ia, Amig'e

Valer-vos-ia, amig'e [meu bem],
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe daquest'e nom al:
mia madre, que vos há mortal
desamor; e, com este mal,
de morrer nom mi pesa[ria].

Valer-vos-ia, par Deus, meu bem,
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe de vos nom valer:
mia madre, que end'há poder
e vos sabe gram mal querer;
e por en mia morte queria.
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D. Dinis

D. Dinis

Pera Veer Meu Amigo,

Pera veer meu amigo,
que talhou preito comigo,
       alá vou, madre.

Pera veer meu amado,
que mig'há preito talhado,
       alá vou, madre.

Que talhou preito comigo;
é por esto que vos digo:
       alá vou, madre.

Que mig'há preito talhado;
é por esto que vos falo:
       alá vou, madre.
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