Poemas neste tema
Amor Romântico
Afonso Lopes de Baião
Madre, Des Que Se Foi Daqui
Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
722
D. Dinis
Por Deus, Senhor, Pois Per Vós Nom Ficou
Por Deus, senhor, pois per vós nom ficou
de mi fazer bem e ficou per mi,
teede por bem, pois assi passou,
em galardom de quanto vos servi,
de mi teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Nom ficou per vós de mi fazer bem,
e de Deus hajades bom galardom,
mais a mi a míngua foi grand'; e por en
por mercee teede por razom
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Sempre vos desto bom grado darei,
mais eu minguei em loor e em prez,
como Deus quis; mais [pois] assi passou,
praza-vos, senhor, por qual vos El fez,
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Ca nom tiro eu nem vós prez nem loor
daqueste preito, se sabudo for.
de mi fazer bem e ficou per mi,
teede por bem, pois assi passou,
em galardom de quanto vos servi,
de mi teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Nom ficou per vós de mi fazer bem,
e de Deus hajades bom galardom,
mais a mi a míngua foi grand'; e por en
por mercee teede por razom
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Sempre vos desto bom grado darei,
mais eu minguei em loor e em prez,
como Deus quis; mais [pois] assi passou,
praza-vos, senhor, por qual vos El fez,
de me teer puridade, senhor,
e eu a vós, ca éste o melhor.
Ca nom tiro eu nem vós prez nem loor
daqueste preito, se sabudo for.
816
Silva Avarenga
Madrigal XXXIV
Ditoso e brando vento, por piedade
Entrega à linda Glaura os meus suspiros;
E voltado os teus giros,
Vem depois consolar minha saudade.
Não queiras imitar a crueldade
Do injusto amor, da triste desventura,
Que empenhada procura o meu tormento.
Ditoso e brando vento,
Voa destes retiros,
E entrega à linda Glaura os meus suspiros.
Entrega à linda Glaura os meus suspiros;
E voltado os teus giros,
Vem depois consolar minha saudade.
Não queiras imitar a crueldade
Do injusto amor, da triste desventura,
Que empenhada procura o meu tormento.
Ditoso e brando vento,
Voa destes retiros,
E entrega à linda Glaura os meus suspiros.
987
António Ramos Rosa
Seis Poemas da Terra
Ó verde caminho de ouro,
pequeno na memória
de duas lágrimas.
Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.
Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.
Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.
Enlaço troncos
e o mundo é meu.
Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.
Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
pequeno na memória
de duas lágrimas.
Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.
Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.
Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.
Enlaço troncos
e o mundo é meu.
Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.
Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
1 144
Silva Avarenga
Madrigal XXIX
Não desprezes, ó Glaura, entre estas flores,
Com que os prados matiza a bela Flora,
O jambo, que os Amores
Colheram ao surgir a branca Aurora.
A Dríade suspira, geme e chora
Aflita e desgraçada.
Ela foi despojada... os ais lhe escuto...
Verás neste tributo,
Que por sorte feliz nasceu primeiro,
Ou fruto, que roubou da rosa o cheiro,
Ou rosa transformada em doce fruto.
Com que os prados matiza a bela Flora,
O jambo, que os Amores
Colheram ao surgir a branca Aurora.
A Dríade suspira, geme e chora
Aflita e desgraçada.
Ela foi despojada... os ais lhe escuto...
Verás neste tributo,
Que por sorte feliz nasceu primeiro,
Ou fruto, que roubou da rosa o cheiro,
Ou rosa transformada em doce fruto.
953
Silva Avarenga
O Jasmineiro
Rondó XI
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Ache Glaura na frescura
Destas penhas encurvadas
Moles heras abraçaras
Com ternura a vegetar.
Ache mil e mil Napéias,
E inda mais e mais Amores,
Do que mostra o campo flores,
Do que areias tem o mar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Branda Ninfa que me escutas
Desse monte cavernoso,
Nem o raio luminoso
Nestas grutas possa entrar.
Hás de ver com dor, e espanto,
Como pálida a Tristeza
Dos seixinhos na aspereza
Faz meu pranto congelar,
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Glaura bela, que resiste
Aos rigores da saudade,
Veja em muda soledade
Sono triste bocejar.
Sobre o musgo em rocha fria
Adormeça ao som das águas,
E sonhando injustas mágoas,
Chegue um dia a suspirar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Com seus olhos Glaura inflame
Os desejos namorados,
Que em abelhas transformados,
Novo enxame cubra o ar.
Vinde, abelhas amorosas,
Sem temer o meu desgosto,
Doce néctar no seu rosto
Entre rosas procurar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Ache Glaura na frescura
Destas penhas encurvadas
Moles heras abraçaras
Com ternura a vegetar.
Ache mil e mil Napéias,
E inda mais e mais Amores,
Do que mostra o campo flores,
Do que areias tem o mar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Branda Ninfa que me escutas
Desse monte cavernoso,
Nem o raio luminoso
Nestas grutas possa entrar.
Hás de ver com dor, e espanto,
Como pálida a Tristeza
Dos seixinhos na aspereza
Faz meu pranto congelar,
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Glaura bela, que resiste
Aos rigores da saudade,
Veja em muda soledade
Sono triste bocejar.
Sobre o musgo em rocha fria
Adormeça ao som das águas,
E sonhando injustas mágoas,
Chegue um dia a suspirar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Com seus olhos Glaura inflame
Os desejos namorados,
Que em abelhas transformados,
Novo enxame cubra o ar.
Vinde, abelhas amorosas,
Sem temer o meu desgosto,
Doce néctar no seu rosto
Entre rosas procurar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
983
D. Dinis
Chegou-M'or'aqui Recado,
Chegou-m'or'aqui recado,
amiga, do voss'amigo,
e aquel que falou migo
diz-mi que é tam coitado
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Diz que hoje tercer dia
bem lhi partírades morte,
mais houv'el coita tam forte
e tam coitad'er jazia
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Com mal que lhi vós fezestes
jurou-mi, amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes del quanto quisestes,
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
E gram perda per fazedes
u tal amigo perdedes.
amiga, do voss'amigo,
e aquel que falou migo
diz-mi que é tam coitado
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Diz que hoje tercer dia
bem lhi partírades morte,
mais houv'el coita tam forte
e tam coitad'er jazia
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Com mal que lhi vós fezestes
jurou-mi, amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes del quanto quisestes,
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
E gram perda per fazedes
u tal amigo perdedes.
765
Fernando Fitas
Havia um barco
Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
634
Afonso Lopes de Baião
Disserom-Mi Uas Novas de Que M'é Mui Gram Bem
Disserom-mi ũas novas de que m'é mui gram bem:
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
635
D. Dinis
Roga-M'hoje, Filha, o Voss'amigo
Roga-m'hoje, filha, o voss'amigo
muit'aficado que vos rogasse
que de vos amar nom vos pesasse,
e por en vos rog'e vos castigo
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
E, u m'estava em vós falando
e m'esto que vos digo rogava,
doí-me del, tam muito chorava,
e por en, filha, [vos] rog'e mando
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
Ca de vos el amar de coraçom
nom vej'eu rem que vós i perçades,
sem i mais haver, mais gaanhades,
e por esto, pola mia beençom,
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
muit'aficado que vos rogasse
que de vos amar nom vos pesasse,
e por en vos rog'e vos castigo
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
E, u m'estava em vós falando
e m'esto que vos digo rogava,
doí-me del, tam muito chorava,
e por en, filha, [vos] rog'e mando
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
Ca de vos el amar de coraçom
nom vej'eu rem que vós i perçades,
sem i mais haver, mais gaanhades,
e por esto, pola mia beençom,
que vos nom pês de vos el bem querer,
mais nom vos mand'i, filha, mais fazer.
591
D. Dinis
Amiga, Bom Grad'haja Deus
Amiga, bom grad'haja Deus
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
790
António Ramos Rosa
No Vagar da Terra
Serão nossos os nomes nesta pausa,
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
995
D. Dinis
O Meu Amig', Amiga, Nom Quer'eu
O meu amig', amiga, nom quer'eu
que haja gram pesar nem gram prazer,
e quer'eu este preit'assi trager,
ca m'atrevo tanto no feito seu:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
Ca, se lh'eu amor mostrasse, bem sei
que lhi seria end'atam gram bem
que lh'haveriam d'entender por en
qual bem mi quer; por end'esto farei:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E, se lhi mostrass'algum desamor,
nom se podia guardar de morte,
tant'haveria en coita forte,
mais, por eu nom errar end'o melhor,
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E assi se pode seu tempo passar,
quando com prazer, quando com pesar.
que haja gram pesar nem gram prazer,
e quer'eu este preit'assi trager,
ca m'atrevo tanto no feito seu:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
Ca, se lh'eu amor mostrasse, bem sei
que lhi seria end'atam gram bem
que lh'haveriam d'entender por en
qual bem mi quer; por end'esto farei:
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E, se lhi mostrass'algum desamor,
nom se podia guardar de morte,
tant'haveria en coita forte,
mais, por eu nom errar end'o melhor,
non'o quero guarir nen'o matar,
nen'o quero de mi desasperar.
E assi se pode seu tempo passar,
quando com prazer, quando com pesar.
597
D. Dinis
Pesar Mi Fez Meu Amigo
Pesar mi fez meu amigo,
amiga, mais sei eu que nom
cuidou el no seu coraçom
de mi pesar, ca vos digo
que ant'el querria morrer
ca mi sol um pesar fazer.
Nom cuidou que mi pesasse
do que fez, ca sei eu mui bem
que do que foi nom fora rem;
por en sei, se en cuidasse,
que ant'el querria morrer
ca mi sol um pesar fazer.
Feze-o por encoberta,
ca sei que se fora matar
ante ca mi fazer pesar,
e por esto sõo certa
que ant'el querria morrer
ca mi sol um pesar fazer.
Ca, de morrer ou de viver,
sab'el ca x'é no meu poder.
amiga, mais sei eu que nom
cuidou el no seu coraçom
de mi pesar, ca vos digo
que ant'el querria morrer
ca mi sol um pesar fazer.
Nom cuidou que mi pesasse
do que fez, ca sei eu mui bem
que do que foi nom fora rem;
por en sei, se en cuidasse,
que ant'el querria morrer
ca mi sol um pesar fazer.
Feze-o por encoberta,
ca sei que se fora matar
ante ca mi fazer pesar,
e por esto sõo certa
que ant'el querria morrer
ca mi sol um pesar fazer.
Ca, de morrer ou de viver,
sab'el ca x'é no meu poder.
612
Elíude Viana
Imigrante
Dos teus pés
a areia e o sal
misturam-se à água doce
em que me banho.
Chegas,
pedes paragem:
- Entra,
minha casa
não tem portas.
Atravessas-me as fronteiras...
Somes
por dentro de mim
rompendo-me a calma
e a disciplina.
a areia e o sal
misturam-se à água doce
em que me banho.
Chegas,
pedes paragem:
- Entra,
minha casa
não tem portas.
Atravessas-me as fronteiras...
Somes
por dentro de mim
rompendo-me a calma
e a disciplina.
1 043
Bernardo Pinto de Almeida
As mãos
Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.
Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.
Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.
E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.
Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.
Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.
Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.
E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.
Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.
850
António Ramos Rosa
Ex-Voto
Pelo muito que oiço
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
1 141
António Ramos Rosa
Sementes Livres
a Pedro Tamen
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
543
D. Dinis
Com'ousará Parecer Ante Mi
Com'ousará parecer ante mi
o meu amig', ai amiga, por Deus,
e com'ousará catar estes meus
olhos, se o Deus trouxer per aqui,
pois tam muit'há que nom vẽo veer-
-mi e meus olhos e meu parecer?
Amiga, ou como s'atreverá
de m'ousar sol dos seus olhos catar,
se os meus olhos vir um pouc'alçar,
ou no coraçom como o porrá?
Pois tam muit'há que nom vẽo veer-
-mi e meus olhos e meu parecer.
Ca sei que nom terrá el por razom,
como quer que m'haja mui grand'amor,
de m'ousar veer, nem chamar senhor,
nem sol non'o porrá no coraçom;
pois tam muit'há que nom vẽo veer-
-mi e meus olhos e meu parecer.
o meu amig', ai amiga, por Deus,
e com'ousará catar estes meus
olhos, se o Deus trouxer per aqui,
pois tam muit'há que nom vẽo veer-
-mi e meus olhos e meu parecer?
Amiga, ou como s'atreverá
de m'ousar sol dos seus olhos catar,
se os meus olhos vir um pouc'alçar,
ou no coraçom como o porrá?
Pois tam muit'há que nom vẽo veer-
-mi e meus olhos e meu parecer.
Ca sei que nom terrá el por razom,
como quer que m'haja mui grand'amor,
de m'ousar veer, nem chamar senhor,
nem sol non'o porrá no coraçom;
pois tam muit'há que nom vẽo veer-
-mi e meus olhos e meu parecer.
744
D. Dinis
Nom Chegou, Madre, o Meu Amigo
Nom chegou, madre, o meu amigo,
e hoj'est o prazo saido;
ai madre, moiro d'amor!
Nom chegou, madr', o meu amado,
e hoj'est o prazo passado;
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo saido;
por que mentiu o desmentido?
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo passado;
por que mentiu o perjurado?
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido;
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
ai madre, moiro d'amor!
e hoj'est o prazo saido;
ai madre, moiro d'amor!
Nom chegou, madr', o meu amado,
e hoj'est o prazo passado;
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo saido;
por que mentiu o desmentido?
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo passado;
por que mentiu o perjurado?
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido;
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
ai madre, moiro d'amor!
2 121
D. Dinis
de Que Morredes, Filha, a do Corpo Velido?
- De que morredes, filha, a do corpo velido?
- Madre, moiro d'amores que mi deu meu amigo.
Alva é, vai liero.
- De que morredes, filha, a do corpo louçano?
- Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado.
Alva é, vai liero.
Madre, moiro d'amores que mi deu meu amigo,
quando vej'esta cinta que por seu amor cingo.
Alva é, vai liero.
Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado,
quando vej'esta cinta que por seu amor trago.
Alva é, vai liero.
Quando vej'esta cinta que por seu amor cingo
e me nembra, fremosa, como falou conmigo.
Alva é, vai liero.
Quando vej'esta cinta que por seu amor trago
e me nembra, fremosa, como falámos ambos.
Alva é, vai liero.
- Madre, moiro d'amores que mi deu meu amigo.
Alva é, vai liero.
- De que morredes, filha, a do corpo louçano?
- Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado.
Alva é, vai liero.
Madre, moiro d'amores que mi deu meu amigo,
quando vej'esta cinta que por seu amor cingo.
Alva é, vai liero.
Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado,
quando vej'esta cinta que por seu amor trago.
Alva é, vai liero.
Quando vej'esta cinta que por seu amor cingo
e me nembra, fremosa, como falou conmigo.
Alva é, vai liero.
Quando vej'esta cinta que por seu amor trago
e me nembra, fremosa, como falámos ambos.
Alva é, vai liero.
894
Afonso Mendes de Besteiros
Coitado Vivo, Há Mui Gram Sazom
Coitado vivo, há mui gram sazom,
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
679
D. Dinis
Amad'e Meu Amigo
Amad'e meu amigo,
valha Deus!
vede'la frol do pinho
e guisade d'andar.
Amig'e meu amado,
valha Deus!
vede'la frol do ramo
e guisade d'andar.
Vede la frol do pinho,
valha Deus!
selad'o baiozinho
e guisade d'andar.
Vede la frol do ramo,
valha Deus!
selad'o bel cavalo
e guisade d'andar.
Selad'o baiozinho,
valha Deus!
treide-vos, ai amigo,
e guisade d'andar.
[Selad'o bel cavalo,
valha Deus!
treide-vos, ai amado,
e guisade d'andar.]
valha Deus!
vede'la frol do pinho
e guisade d'andar.
Amig'e meu amado,
valha Deus!
vede'la frol do ramo
e guisade d'andar.
Vede la frol do pinho,
valha Deus!
selad'o baiozinho
e guisade d'andar.
Vede la frol do ramo,
valha Deus!
selad'o bel cavalo
e guisade d'andar.
Selad'o baiozinho,
valha Deus!
treide-vos, ai amigo,
e guisade d'andar.
[Selad'o bel cavalo,
valha Deus!
treide-vos, ai amado,
e guisade d'andar.]
878
D. Dinis
O Voss'amigo Tam de Coraçom
O voss'amigo tam de coraçom
pom ele em vós seus olhos e tam bem,
par Deus, amiga, que nom sei eu quem
o veja que nom entenda que nom
pod'el poder haver d'haver prazer
de nulha rem senom de vos veer.
E quem bem vir com'el seus olhos pom
em vós, amiga, quand'ante vós vem,
se xi nom for mui minguado de sem,
entender pode del mui bem que nom
pod'el poder haver d'haver prazer
de nulha rem senom de vos veer.
E quand'el vem u vós sodes, razom
quer el catar que s'encobra; e tem
que s'encobre, pero nom lhi val rem,
ca nos seus olhos entendem que nom
pod'el poder haver d'haver prazer
de nulha rem senom de vos veer.
pom ele em vós seus olhos e tam bem,
par Deus, amiga, que nom sei eu quem
o veja que nom entenda que nom
pod'el poder haver d'haver prazer
de nulha rem senom de vos veer.
E quem bem vir com'el seus olhos pom
em vós, amiga, quand'ante vós vem,
se xi nom for mui minguado de sem,
entender pode del mui bem que nom
pod'el poder haver d'haver prazer
de nulha rem senom de vos veer.
E quand'el vem u vós sodes, razom
quer el catar que s'encobra; e tem
que s'encobre, pero nom lhi val rem,
ca nos seus olhos entendem que nom
pod'el poder haver d'haver prazer
de nulha rem senom de vos veer.
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