Poemas neste tema
Amor Romântico
Fernanda Benevides
Voz do Olhar
Quando teus olhos feriram o silêncio,
ouviram os meus...
( in, LUZES DO SILÊNCIO)
Fortaleza - Ce, 1 Fortaleza - Ce, 1988
ouviram os meus...
( in, LUZES DO SILÊNCIO)
Fortaleza - Ce, 1 Fortaleza - Ce, 1988
886
Fernanda Benevides
A Flor das Ruínas
Eis que uma flor despontou nas ruínas
de um templo desmoronado
e te enterneceu.
Era uma rosa pálida
que não queria fenecer
e tímida
gritava para sobreviver...
Transportaste-a ao solo fértil
do teu coração
e ela renasceu rubra
em tuas mãos...
de um templo desmoronado
e te enterneceu.
Era uma rosa pálida
que não queria fenecer
e tímida
gritava para sobreviver...
Transportaste-a ao solo fértil
do teu coração
e ela renasceu rubra
em tuas mãos...
858
Carlos Drummond de Andrade
O Nariz do Morto
— Olha. O nariz do morto! — que nariz
e que morto? Que piada mais sem graça
é esta? — Não, senhor. É o Vilaça
(Antônio Carlos) com seu livro duro
e triste, machucante — almofariz
em que mói a si próprio e se destrói,
para ressuscitar ainda à procura
de seu rumo, indefesa criatura
solta ao vento da vida. Quer a paz?
Quer a guerra interior, ou foge dela?
Entre cacos de vida, Sigismundo,
numa doçura mista de amargor,
de letras e leituras faz seu mundo.
Há de salvá-lo não a fé; talvez
o raio impressentido de um amor.
e que morto? Que piada mais sem graça
é esta? — Não, senhor. É o Vilaça
(Antônio Carlos) com seu livro duro
e triste, machucante — almofariz
em que mói a si próprio e se destrói,
para ressuscitar ainda à procura
de seu rumo, indefesa criatura
solta ao vento da vida. Quer a paz?
Quer a guerra interior, ou foge dela?
Entre cacos de vida, Sigismundo,
numa doçura mista de amargor,
de letras e leituras faz seu mundo.
Há de salvá-lo não a fé; talvez
o raio impressentido de um amor.
1 194
D. Dinis
Senhor, Que de Grad'hoj'eu Querria,
Senhor, que de grad'hoj'eu querria,
se a Deus e a vós aprouguesse,
que, u vós estades, estevesse
convosc'e por esto me terria
por tam bem andante
que por rei nem ifante
des ali adeante
nom me cambiaria.
E sabendo que vos prazeria
que, u vós morássedes, morasse
e que vos eu viss'e vos falasse,
terria-me, senhor, todavia
por tam bem andante
que por rei nem ifante
des ali adeante
nom me cambiaria.
Ca, senhor, em gram bem viveria,
se u vós vivêssedes, vivesse
e sol que de vós est'entendesse,
terria-me, e razom faria,
por tam bem andante
que per rei nem ifante
des ali adeante
nom me cambiaria.
se a Deus e a vós aprouguesse,
que, u vós estades, estevesse
convosc'e por esto me terria
por tam bem andante
que por rei nem ifante
des ali adeante
nom me cambiaria.
E sabendo que vos prazeria
que, u vós morássedes, morasse
e que vos eu viss'e vos falasse,
terria-me, senhor, todavia
por tam bem andante
que por rei nem ifante
des ali adeante
nom me cambiaria.
Ca, senhor, em gram bem viveria,
se u vós vivêssedes, vivesse
e sol que de vós est'entendesse,
terria-me, e razom faria,
por tam bem andante
que per rei nem ifante
des ali adeante
nom me cambiaria.
932
Sully Prudhomme
O vaso partido
O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
1 703
D. Dinis
Ua Pastor Bem Talhada
Ũa pastor bem talhada
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant'eu vi, mui coitada;
e diss': "Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi o meu há errado".
Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores?
Pois m'errastes tam em vão!"
E caeu antr'ũas flores.
Ũa gram peça do dia
jouv'ali, que nom falava,
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss': "Ai Santa Maria!
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, per quant'eu sei, senhora."
"Se me queres dar guarida",
diss'a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m'é esta vida".
Diss[e] el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida,
erged'olho e vee-lo-edes".
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant'eu vi, mui coitada;
e diss': "Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi o meu há errado".
Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores?
Pois m'errastes tam em vão!"
E caeu antr'ũas flores.
Ũa gram peça do dia
jouv'ali, que nom falava,
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss': "Ai Santa Maria!
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, per quant'eu sei, senhora."
"Se me queres dar guarida",
diss'a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m'é esta vida".
Diss[e] el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida,
erged'olho e vee-lo-edes".
434
Adélia Prado
Porfia
Inventou-se o ferro de brasa
por causa da Vida Eterna.
Senão, pra que vincar o terno,
se todo fim é madeira carcomida,
ossos tão limpos que dispensam nojo?
Pela mesma razão,
os metafísicos armam seus solilóquios,
os governantes bons governam com justiça,
o meu decote é fundo.
O moço formoso,
meu desejo dele não morre,
está inscrito nas unhas,
cresce com sua raiz.
A mulher pode vinte orgasmos?
De tão tolo esmero não cuido.
Quero amor, o fino amor.
Só suporto sete dores.
Mais uma fico distraída, tocando meu violão.
Cemitério é campo-santo, por isso tanto me atrai,
depois de repugnar.
Nem que insistam, olha onde esteve seu pai:
uma lasca de tábua podre,
tiras de pano e poeira.
Transpôs, eu digo,
este silêncio é engano, é pura expectação,
é o que mesmo sem guizos é esperança.
Eu sei do enterro, do lapso, da autópsia,
conheço o afogado, o cepo, a assinatura falsa.
Mas por que achais que os pêndulos oscilam?
Depois do féretro, o relógio bate,
alguém faz café, todos bebem.
Quisera lamuriar-me, erguer meus braços tentada
a pecar contra o Santo Espírito.
Mas a vida não deixa. E o discurso
acaba cheio de alegria.
por causa da Vida Eterna.
Senão, pra que vincar o terno,
se todo fim é madeira carcomida,
ossos tão limpos que dispensam nojo?
Pela mesma razão,
os metafísicos armam seus solilóquios,
os governantes bons governam com justiça,
o meu decote é fundo.
O moço formoso,
meu desejo dele não morre,
está inscrito nas unhas,
cresce com sua raiz.
A mulher pode vinte orgasmos?
De tão tolo esmero não cuido.
Quero amor, o fino amor.
Só suporto sete dores.
Mais uma fico distraída, tocando meu violão.
Cemitério é campo-santo, por isso tanto me atrai,
depois de repugnar.
Nem que insistam, olha onde esteve seu pai:
uma lasca de tábua podre,
tiras de pano e poeira.
Transpôs, eu digo,
este silêncio é engano, é pura expectação,
é o que mesmo sem guizos é esperança.
Eu sei do enterro, do lapso, da autópsia,
conheço o afogado, o cepo, a assinatura falsa.
Mas por que achais que os pêndulos oscilam?
Depois do féretro, o relógio bate,
alguém faz café, todos bebem.
Quisera lamuriar-me, erguer meus braços tentada
a pecar contra o Santo Espírito.
Mas a vida não deixa. E o discurso
acaba cheio de alegria.
1 127
D. Dinis
Pois Ante Vós Estou Aqui
Pois ante vós estou aqui,
senhor deste meu coraçom,
por Deus, teede por razom,
por quanto mal por vós sofri,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois do mal que eu levei
muit'há vós sodes sabedor,
teede já por bem, senhor,
por Deus, pois tanto mal passei,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois que viv'em coita tal
per que o dormir e o sem
perdi, teede já por bem,
senhor, pois tant'é o meu mal,
de vos querer de mi doer
ou de me deixardes morrer
ou de me quererdes valer.
ou de me quererdes valer.
senhor deste meu coraçom,
por Deus, teede por razom,
por quanto mal por vós sofri,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois do mal que eu levei
muit'há vós sodes sabedor,
teede já por bem, senhor,
por Deus, pois tanto mal passei,
de vos querer de mi doer
ou de me leixardes morrer.
E pois que viv'em coita tal
per que o dormir e o sem
perdi, teede já por bem,
senhor, pois tant'é o meu mal,
de vos querer de mi doer
ou de me deixardes morrer
ou de me quererdes valer.
ou de me quererdes valer.
647
D. Dinis
O Gram Viç'e o Gram Sabor
O gram viç'e o gram sabor
e o gram conforto que hei
é porque bem entender sei
que o gram bem da mia senhor
nom querrá Deus que err'em mi,
que a sempr'amei e servi
e lhi quero ca mim melhor.
Esto me faz alegr'andar
e mi dá confort'e prazer,
cuidand'em como poss'haver
bem daquela que nom há par;
e Deus, que lhi fez tanto bem,
nom querrá que o seu bom sem
err'em mim, quant'é meu cuidar.
E por end'hei no coraçom
mui gram prazer; ca tal a fez
Deus, que lhi deu sem, com bom prez,
sobre quantas no mundo som,
que nom querrá que o bom sem
err'em mim, mais dar-mi-á, cuid'en,
dela bem e bom galardom.
e o gram conforto que hei
é porque bem entender sei
que o gram bem da mia senhor
nom querrá Deus que err'em mi,
que a sempr'amei e servi
e lhi quero ca mim melhor.
Esto me faz alegr'andar
e mi dá confort'e prazer,
cuidand'em como poss'haver
bem daquela que nom há par;
e Deus, que lhi fez tanto bem,
nom querrá que o seu bom sem
err'em mim, quant'é meu cuidar.
E por end'hei no coraçom
mui gram prazer; ca tal a fez
Deus, que lhi deu sem, com bom prez,
sobre quantas no mundo som,
que nom querrá que o bom sem
err'em mim, mais dar-mi-á, cuid'en,
dela bem e bom galardom.
654
D. Dinis
Senhor Fremosa, Vejo-Vos Queixar
Senhor fremosa, vejo-vos queixar
porque vos am', e no meu coraçom
hei mui gram pesar, se Deus mi perdom,
porque vej'end'a vós haver pesar;
e queria-m'en de grado quitar,
mais nom posso forçar o coraçom,
que mi forçou meu saber e meu sem,
des i meteu-me no vosso poder;
e do pesar que vos eu vej'haver,
par Deus, senhor, a mim pesa muit'en;
e partir-m'-ia de vos querer bem,
mais tolhe-m'end'o coraçom poder,
que me forçou de tal guisa, senhor,
que sem nem força nom hei já de mi;
e do pesar que vós tomades i,
tom'eu pesar, que nom posso maior;
e queria nom vos haver amor,
mais o coraçom pode mais ca mi.
porque vos am', e no meu coraçom
hei mui gram pesar, se Deus mi perdom,
porque vej'end'a vós haver pesar;
e queria-m'en de grado quitar,
mais nom posso forçar o coraçom,
que mi forçou meu saber e meu sem,
des i meteu-me no vosso poder;
e do pesar que vos eu vej'haver,
par Deus, senhor, a mim pesa muit'en;
e partir-m'-ia de vos querer bem,
mais tolhe-m'end'o coraçom poder,
que me forçou de tal guisa, senhor,
que sem nem força nom hei já de mi;
e do pesar que vós tomades i,
tom'eu pesar, que nom posso maior;
e queria nom vos haver amor,
mais o coraçom pode mais ca mi.
524
Fernanda Benevides
Luzes do Silêncio
Tateava na escuridão do silêncio,
quando esbarrei em alguém.
Ah, és tu?!
As luzes ascenderam...
quando esbarrei em alguém.
Ah, és tu?!
As luzes ascenderam...
737
Manuel Bandeira
A Moussy
De John o agrado mais terno,
De Tontje o olhar mais risonho
Tomo e com eles componho
Alguma coisa de eterno,
De fino, de leve — um sonho,
Um pensamento, um perfume,
À carícia mais querida,
— Um beijo, em que se resume
Toda a afeição de uma vida.
De Tontje o olhar mais risonho
Tomo e com eles componho
Alguma coisa de eterno,
De fino, de leve — um sonho,
Um pensamento, um perfume,
À carícia mais querida,
— Um beijo, em que se resume
Toda a afeição de uma vida.
1 039
Manuel Bandeira
Dois Anúncios
I- RONDÓ DE EFEITO
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
1 076
António Ramos Rosa
Vertentes
As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra
*
A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores
*
Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga
*
A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar
*
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge
*
A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra
*
A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores
*
Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga
*
A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar
*
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge
*
A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo
1 079
Afonso Lopes de Baião
Senhor, Que Grav'hoj'a Mi É
Senhor, que grav'hoj'a mi é
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
855
D. Dinis
Quand'eu Bem Meto Femença
Quand'eu bem meto femença
em qual vos vej'e vos vi,
des que vos eu conhoci,
Deus, que nom mente, mi mença,
senhor, se hoj'eu sei bem
que semelh'o voss'em rem.
Quand'eu a beldade vossa
vejo, que vi por meu mal,
Deus, que a coitados val,
a mim nunca valer possa,
senhor, se hoj'eu sei bem,
que semelh'o voss'em rem.
E quem o assi nom tem,
nom vos viu ou nom há sem.
em qual vos vej'e vos vi,
des que vos eu conhoci,
Deus, que nom mente, mi mença,
senhor, se hoj'eu sei bem
que semelh'o voss'em rem.
Quand'eu a beldade vossa
vejo, que vi por meu mal,
Deus, que a coitados val,
a mim nunca valer possa,
senhor, se hoj'eu sei bem,
que semelh'o voss'em rem.
E quem o assi nom tem,
nom vos viu ou nom há sem.
869
D. Dinis
Vi Hoj'eu Cantar D'amor
Vi hoj'eu cantar d'amor
em um fremoso virgeu,
ũa fremosa pastor
que, ao parecer seu,
jamais nunca lhi par vi;
e por en dixi-lh'assi:
"Senhor, por vosso vou eu".
Tornou sanhuda entom,
quando m'est'oiu dizer,
e diss': "Ide-vos, varom!
Quem vos foi aqui trajer
para m'irdes destorvar
d'u dig'aqueste cantar
que fez quem sei bem querer?"
"Pois que me mandades ir,"
dixi-lh'eu, "senhor, ir-m'-ei;
mais já vos hei de servir
sempr'e por voss'andarei;
ca voss'amor me forçou,
assi que por vosso vou,
cujo sempr'eu já serei."
Dix'ela: "Nom vos tem prol
esso que dizedes, nem
mi praz de o oir sol,
ant'hei noj'e pesar en;
ca meu coraçom nom é,
nem será, per bõa fé,
senom do que quero bem."
"Nem o meu", dixi-lh'eu "já,
senhor, nom se partirá
de vós, por cujo s'el tem."
"O meu", diss'ela, "será
u foi sempr'e u está,
e de vós nom curo rem."
em um fremoso virgeu,
ũa fremosa pastor
que, ao parecer seu,
jamais nunca lhi par vi;
e por en dixi-lh'assi:
"Senhor, por vosso vou eu".
Tornou sanhuda entom,
quando m'est'oiu dizer,
e diss': "Ide-vos, varom!
Quem vos foi aqui trajer
para m'irdes destorvar
d'u dig'aqueste cantar
que fez quem sei bem querer?"
"Pois que me mandades ir,"
dixi-lh'eu, "senhor, ir-m'-ei;
mais já vos hei de servir
sempr'e por voss'andarei;
ca voss'amor me forçou,
assi que por vosso vou,
cujo sempr'eu já serei."
Dix'ela: "Nom vos tem prol
esso que dizedes, nem
mi praz de o oir sol,
ant'hei noj'e pesar en;
ca meu coraçom nom é,
nem será, per bõa fé,
senom do que quero bem."
"Nem o meu", dixi-lh'eu "já,
senhor, nom se partirá
de vós, por cujo s'el tem."
"O meu", diss'ela, "será
u foi sempr'e u está,
e de vós nom curo rem."
473
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
Poesia de Agosto
Foi em Agosto que descobri
O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo úmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol
Todo o êxtase viril que de ti vinha
Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu
O colorido do poente brincando em mim
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos
Sonho porque te quero sonhar
E deixa-me dizer-te
Porque senão eu choro
Eu sou o espaço...
Uma dádiva...
Vem porque é Agosto
E quero cantar-te...
O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo úmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol
Todo o êxtase viril que de ti vinha
Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu
O colorido do poente brincando em mim
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos
Sonho porque te quero sonhar
E deixa-me dizer-te
Porque senão eu choro
Eu sou o espaço...
Uma dádiva...
Vem porque é Agosto
E quero cantar-te...
1 525
D. Dinis
Senhor, Em Tam Grave Dia
Senhor, em tam grave dia
vos vi que nom poderia
mais; e, por Santa Maria,
que vos fez tam mesurada,
doede-vos algum dia
de mi, senhor bem talhada.
Pois sempr'há em vós mesura
e todo bem e cordura,
que Deus fez em vós feitura
qual nom fez em molher nada,
doede-vos por mesura
de mim, senhor bem talhada.
E por Deus, senhor, tomade
mesura por gram bondade
que vos El deu, e catade
qual vida vivo coitada
e algum doo tomade
de mi, senhor bem talhada.
vos vi que nom poderia
mais; e, por Santa Maria,
que vos fez tam mesurada,
doede-vos algum dia
de mi, senhor bem talhada.
Pois sempr'há em vós mesura
e todo bem e cordura,
que Deus fez em vós feitura
qual nom fez em molher nada,
doede-vos por mesura
de mim, senhor bem talhada.
E por Deus, senhor, tomade
mesura por gram bondade
que vos El deu, e catade
qual vida vivo coitada
e algum doo tomade
de mi, senhor bem talhada.
394
Fernando Fitas
Deitado foi teu corpo
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
697
D. Dinis
Que Trist'hoj'é Meu Amigo
Que trist'hoj'é meu amigo,
amiga, no seu coraçom,
ca nom pode falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Trist'anda, se Deus mi valha,
ca me nom viu, e dereit'é,
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi
nem ar oíu meu mandado,
e por en faz gram dereit'i
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Mais, Deus, como pode durar
que já nom morreu com pesar?
amiga, no seu coraçom,
ca nom pode falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Trist'anda, se Deus mi valha,
ca me nom viu, e dereit'é,
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi
nem ar oíu meu mandado,
e por en faz gram dereit'i
meu amigo de trist'andar,
pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.
Mais, Deus, como pode durar
que já nom morreu com pesar?
735
Adélia Prado
Amor
A formosura do teu rosto obriga-me
e não ouso em tua presença
ou à tua simples lembrança
recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.
Quisera olhar fixamente a tua cara,
como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.
Mas não tenho coragem,
olho só tua mão,
a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta
pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável
que tudo rói e banha e torna apetecível:
caieiras, desembocaduras de esgotos,
ideia de morte, gripe, vestido, sapatos,
aquela tarde de sábado,
esta que morre agora antes da mesa pacífica:
ovos cozidos, tomates,
fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.
Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas,
rispidez de teu lábio que suporto com dor
e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,
lâmina encostada em teu peito. Fala.
Fala sem orgulho ou medo
que à força de pensar em mim sonhou comigo
e passou um dia esquisito,
o coração em sobressaltos à campainha da porta,
disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura. Fala.
Nem é preciso que amor seja a palavra.
‘Penso em você’ — me diz e estancarei os féretros,
tão grande é minha paixão.
e não ouso em tua presença
ou à tua simples lembrança
recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.
Quisera olhar fixamente a tua cara,
como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.
Mas não tenho coragem,
olho só tua mão,
a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta
pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável
que tudo rói e banha e torna apetecível:
caieiras, desembocaduras de esgotos,
ideia de morte, gripe, vestido, sapatos,
aquela tarde de sábado,
esta que morre agora antes da mesa pacífica:
ovos cozidos, tomates,
fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.
Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas,
rispidez de teu lábio que suporto com dor
e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,
lâmina encostada em teu peito. Fala.
Fala sem orgulho ou medo
que à força de pensar em mim sonhou comigo
e passou um dia esquisito,
o coração em sobressaltos à campainha da porta,
disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura. Fala.
Nem é preciso que amor seja a palavra.
‘Penso em você’ — me diz e estancarei os féretros,
tão grande é minha paixão.
1 456
Francisco Luís Amaro
Retrato
Um silêncio, um olhar, uma palavra:
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
829
Afonso Lopes de Baião
Ir Quer'hoj'eu, Fremosa, de Coraçom
Ir quer'hoj'eu, fremosa, de coraçom,
por fazer romaria e oraçom
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Des que s[e ele] foi, nunca vi prazer,
e quer'hoj'ir, fremosa, polo veer,
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Nunca serei [eu] leda, se o nom vir,
e por esto, fremosa, quer'ora ir
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
por fazer romaria e oraçom
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Des que s[e ele] foi, nunca vi prazer,
e quer'hoj'ir, fremosa, polo veer,
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Nunca serei [eu] leda, se o nom vir,
e por esto, fremosa, quer'ora ir
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
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