Poemas neste tema

Amor Romântico

Notívaga Noturna

Notívaga Noturna

Carinho da igual

Eu quero mais é um carinho da igual.
Beber dessa doçura ímpar feminina-letal.
Trocar tocando seios que se bicam, magnéticos.
Saborear teus cheiros de menina, elétricos.

Eu quero mais é essa doçura sem igual.
Derreter nesses carinhos não homem-sexuais.
Beijar trocando línguas que se roçam, nirvanescas.
Acariciar tua púbis de menina – e sonhar, quixotesca.

Eu quero mais é esse prazer indizível que é teu prazer também.
Esse trocar de iguais tão diferentes de tudo – e tão bom.
Essa magia incandescente que só nasce de pólos-poros-peles iguais,
Que se tocam-retocam-retrocam criando amor.

Eu quero mais é beber dessa magia de nós duas,
Nuas e eternas,
Ternamente nuas,
Virando uma.
Criando mel-de-vida.
Fabricando amor.

990 1
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Luar Na Toscana

A mim me tocou uma lua cheia em San Geminiano.
O que mais pode querer a alma de um homem
amado por uns, por outros detestado,
que segue os pássaros com os olhos
que deixa fluir com os rios o seu desejo
e tem no bolso uns quatro ou cinco segredos?
A mim me tocou, de novo, a lua cheia
e foi em Certaldo Alto.
Recebi-a calado.
E como era por demais extasiante
depositei-a
– nos olhos de minha amante.
1 287 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Outra Porta do Prazer

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.
1 542 1
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

Até Quando te Amarei

Até quando se ouvir a voz do vento
E a vontade de ser e de existir
Nem de leve me turve o sobrevir
De teu nome na paz do pensamento.

Até quando, feliz, puder seguir
Em busca de teu vulto — e o juramento
Ardente de te amar for o momento
Mais doce a renovar e a repetir.

Cá me encontro, Senhora, a te louvar.
Assim, com muito agrado, seguirei
A beleza, que tens, a celebrar.

Porque se ao fim da tarde já cheguei,
Sentindo que meus dias vão findar,
Jovem — só por te amar — ainda serei.

1 580 1
Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik

Poema

Poema

Tú eliges el lugar de la herida

en donde hablamos nuestro silencio

Tú haces de mi vida

esta ceremonia demasiado pura.

1 809 1
Liz Christine

Liz Christine

Paixão

O que é a paixão?
Você consegue definir
O imenso
Tesão
Você é capaz de sentir?
O choque intenso
A me confundir
Mergulhar
Ou fugir?
Aproveitar
Ou amargar?
Prazer ou decepção?
Amada
Ou usada?
Paixão...
Te amo, te uso
Escrevo, abuso
Porque você me fudeu
E foi o melhor que me aconteceu
Em toda a minha vida...
Te amo, fudida...
Você me corrompeu
Me conduziu à fidelidade
E te amo de verdade

915 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Unhas; Narinas; Cadarços

a tubulação de gasolina está vazando, o pássaro fugiu da
gaiola, a linha do horizonte está salpicada de urubus;
Benny finalmente largou a droga e Betty agora tem um emprego
de garçonete; e
o limpa-chaminés foi tão delicado enquanto
dava risadinhas no meio da
fuligem.
caminhei milhas pela cidade e não reconheci
nada enquanto uma garra gigante comia meu
estômago e o interior da minha cabeça estava
aéreo como se eu estivesse a ponto de ficar
louco.
nem é tanto por nada fazer sentido
algum, porém mais por continuar não fazendo sentido
nenhum.
não há alívio, só gurus e deuses auto-
nomeados e camelôs.
quanto mais as pessoas dizem, tanto menos há
para dizer.
até mesmo os melhores livros são serragem seca.
eu assisto às lutas de boxe e tomo notas
copiosas sobre futilidade.
então as portas se abrem novamente
e há esses lindos e poderosos cavalos
sedosos galopando
contra o céu.
tamanha tristeza: tudo tentando
abrir-se em
flor.
todo dia deveria ser um milagre em vez de
uma maquinação.
na minha mão jaz o último pássaro azul.
as cortinas rugem como leões e as paredes
chocalham, dançam em volta da minha
cabeça.
então seus olhos me olham, o amor parte meus
Ossos e eu
dou risada.
872 1
Daniel Faria

Daniel Faria

Se fores pela direita

Se fores pela direita
Olharei em redor
Se fores pela esquerda e descansares
Olharei em redor
O meu olhar há-de acompanhar-te
Como a poeira à volta dos teus pés
Se desceres à planície
E fizeres a tenda com o véu da mulher
Não desviarei o olhar
Não dividirei a túnica
Se fores pelo centro de ti mesmo
Tactearei
Abrirei a mão e estarás próximo
Basta respirares
E olharei em redor

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
2 075 1
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal
Tudo é quente lá dentro... e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões...

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão, palpita e ruge em mim doida e fremente!
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Era Manhã de Setembro

Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro

Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto

Ela me beijava o membro

Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte

Morte e primavera em rama
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me beijando o membro

Tudo que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido

Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me beijar o membro

Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas

Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como beijara uma santa
no mais divino transporte
e num solene arrepio

beijava beijava o membro

Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo

Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta

Ela me beijava o membro

O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar

eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia

radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa

para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa

e me tornava disperso
todo em círculos concêntricos
na fumaça do universo

Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro
1 852 1
Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

Haicais

teu corpo deitado
acorda desejos
não confessados

meus dedos-olhos
desvendam sem pressa
doces mistérios

palmo a palmo
dedo a dedo
inicio teu percurso

1 499 1
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Se flores jamais me deres

Se flores jamais me deres,
Se eu rir e tu não rires,
Se quando eu chegar fugires
Ninguém dirá que me queres!

Se tu ocultar puderes
O que há nesses olhos teus
E que é tão igual nos meus
Ninguém dirá que me queres!

Se alguma vez tu puseres
A minha mão tua mão
Sem que estremeças, então
Ninguém dirá que me queres!

E se o que te dei me deres
A minha trança e três flores
Não pode haver mais rumores
Ninguém dirá que me queres!

2 006 1
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Musicalidades

E eu que pensava, fosse o amor
um calmo oboé de Mozart.
Sim, também o é.
Mas súbito, pancadas do destino
arrebentando as portas se ouvem.
É o amor, e é Beethoven.
1 184 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O amor que eu tenho não me deixa estar

O amor que eu tenho não me deixa estar
Pronto, quieto, firme num lugar
Há sempre um pensamento que me enleva
E um desejo comigo que me leva
Longe de mim, a quem eu amo e quero.
Inda de noite, quando durmo, espero
A manhã em que torne a vê-la e amá-la.
……
3 534 1
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Ignoro o que seja a flor da água

mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,
entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca
um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,
até ao fim do mundo,
até amanhecer.

de Branco No Branco
6 541 1
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Quem?...

Não sei quem és. Já te não vejo bem...
E oiço-me dizer (ai, tanta vez!...)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?...
— Não sei se tu, Amor, assim me vês!...
Nossos olhos não são-nossos, talvez...
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!...

És tudo e não és nada... És a desgraça...
És quem nem sequer vejo; és um que passa...
És sorriso de Deus que não-mereço...

És Aquele que vive e que morreu...
És Aquele que é quase um outro Eu...
És Aquele que nem sequer conheço...

1 742 1
Mario Benedetti

Mario Benedetti

No te salves

No te quedes inmóvil

al borde del camino

no congeles el júbilo

no quieras con desgana

no te salves ahora

ni nunca

no te salves

no te llenes de calma

no reserves del mundo

sólo un rincón tranquilo

no dejes caer los párpados

pesados como juicios

no te quedes sin labios

no te duermas sin sueño

no te pienses sin sangre

no te juzgues sin tiempo

pero si

pese a todo

no puedes evitarlo

y congelas el júbilo

y quieres con desgana

y te salvas ahora

y te llenas de calma

y reservas del mundo

sólo un rincón tranquilo

y dejas caer los párpados

pesados como juicios

y te secas sin labios

y te duermes sin sueño

y te piensas sin sangre

y te juzgas sin tiempo

y te quedas inmóvil

al borde del camino

y te salvas

entonces

no te quedes conmigo

5 329 1
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Mãezinha

Andam em mim fantasmas, sombras, ais...
Coisas que eu sinto em mim, que eu sinto agora;
Névoas de dantes, dum longínquo outrora;
Castelos d’oiro em mundos irreais...

Gotas d’água tombando... Roseirais
A desfolhar-se em mim como quem chora...
— E um ano vale um dia ou uma hora,
Se tu me vais fugindo mais e mais!...

0 meu Amor, meu seio é como um berço!
Ondula brandamente... brandamente...
Num ritmo escultural d’onda ou de verso!

No mundo-quem te vê?! Ele é enorme!...
Amor, sou tua mãe! Vá... docemente
Poisa a cabeça... fecha os olhos... dorme...

2 846 1
Rômulo do Amaral Filho

Rômulo do Amaral Filho

Sibilo

Sibilo me lembra serpente
Serpente me lembra bote
Bote me lembra picada
Picada me lembra veneno
Veneno me lembra teu beijo
Teu beijo me lembra desejo
Desejo me lembra amor
Amor me lembra prazer
Prazer me lembra teu corpo
Teu corpo me lembra sonhar
Sonhar me lembra te amar
Te amar lembra
Morrer de paixão

1 042 1
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aliança

Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos

Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade

Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro

Ó longa meia-noite em que oscilo nó fluido
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
1 139 1
Mario Benedetti

Mario Benedetti

Táctica y estrategia

Táctica y estrategia

Mi táctica es

mirarte

aprender como sos

quererte como sos

mi táctica es

hablarte

y escucharte

construir con palabras

un puente indestructible

mi táctica es

quedarme en tu recuerdo

no sé cómo ni sé

con qué pretexto

pero quedarme en vos

mi táctica es

ser franco

y saber que sos franca

y que no nos vendamos

simulacros

para que entre los dos

no haya telón

ni abismos

mi estrategia es

en cambio

más profunda y más

simple

mi estrategia es

que un día cualquiera

no sé cómo ni sé

con qué pretexto

por fin me necesites

4 411 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Beijando-me e Levando-me Para Longe

ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
1 311 1
Adélia Prado

Adélia Prado

Gritos E Sussurros

Este ano é bissexto, Jonathan.
No céu ou no inferno,
um dia inteiro pra nós.
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Que de nós dois

Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.

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