Poemas neste tema

Amor Romântico

Janete Rodrigues Ribeiro

Janete Rodrigues Ribeiro

Estranha saudade

Então, tu apareceste no meu caminho
a ti entreguei meu coração
te contei meus segredos
te dei meu corpo e meus carinhos...

Todo meu mistério desvendei
tudo que tinha guardado
tanto tempo na minha solidão,
te ofereci tudo, cada pedaço, cada emoção...

Agora faço parte do teu todo
sou fração do teu total
somando essa imensa ternura
juntando um carinho sem igual!

Os minutos em hora se transformaram
longe de ti, teus abraços, teu olhar,
as marcas que em mim ficaram
de nossos momentos sob a luz do luar...

É assim, uma estranha saudade,
um sabor de ti, que dentro ficou,
encravado em minha alma,
lembranças do que se passou...

Acordo, olho o céu, vejo o sol
tudo iluminado à minha volta
recordo nossos corpos no lençol,
nosso abraço apertado, o último olhar...

E tu, voltando, rolando estrada
e eu, parada, perdida, presa ao chão,
olhando de longe, tu sumindo e
entrando cada vez mais fundo no meu coração!

877
Anna Maria Feitosa

Anna Maria Feitosa

Retrato de corpo inteiro

No azul do teu peito
ensolarado
há espelhos de cristal
multiplicando imagens.

Emergem risos
lágrimas
promessas
olhares infantis
perdidamente
infinitamente
apaixonados
adolescentes.

A vida renasce
das tuas mãos
tremulas
entrelaçadas
— há muito tempo entrelaçadas —
Reencontradas.

No espaço secreto
da memória,
nosso retrato
- De corpo inteiro -
É o quadro mais bonito
que se pode iluminar.

820
Virgínia Schall

Virgínia Schall

Secretamente

Seus olhos estão perigosamente dentro
de mim
aqui fizeram morada
e estão como Deus
em toda parte
se interpondo
entre a paisagem mais próxima
entre a fresta de luz e a imagem
tangenciando meu olhar
que não sabe olhar puro
que se trai a cada segundo.

Seus olhos estão perigosamente pousados
sobre mim
como borboleta em flor
cobrindo minha pele em ternura
suaves como seda
a farfalhar sobre os poros
e os pelos.
Luzes que incendeiam
em sublime música
meu corpo aceso em sede
Sombras sobre minha noite
embalam meu sono
devassando meus sonhos
onde secretamente me assombram
estando fora e sendo dentro
espelhos de amor intenso
e imenso.

Nossos olhos estão perigosamente
em comunhão
a despeito da separação
que a vida nos impõe.
E nossas vidas
sob risco
entre sermos felizes
ou tristes
e nossos destinos
por um triz
entre sucessos
e desatinos.
Secretamente
espreitamos-nos
como caminhos
à beira
de atraentes abismos.

1 011
Nálu Nogueira

Nálu Nogueira

Fazer estrelas

Fazer amor como
quem faz estrelas
pari-las
vê-las
surgir em explosões
orgásticas
fantásticas
beleza plástica
de pernas entrelaçadas
peles entremeadas
ungidas
pêlos, sêmen,
suores bênçãos
soluços cálidos
sussurros tímidos
urgentes.

Passear a língua no
corpo
como alpinista
montes, depressões
escalas, o pico
o ápice
o pênis pulsa
tórrido
mármore
a língua feito artista
a desenhar sóis
nos mamilos
pernas abertas
frondosas árvores
sulcos
suculentos frutos
saliva
filetes
falsetes das vozes
roucas.

830
Rita Barém de Melo

Rita Barém de Melo

Vem!

Vem! Que t importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.

Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.

Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!

Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.

Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.

Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.

Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -

Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...

"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!

Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!

"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"

(Rio Grande, julho de 1867)



1 272
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Fragmentos

Muros castos e tristes
Cativos de si mesmos

Como criaturas que envelhecem
Sem conhecer a boca
De homens e mulheres.

Muros Escuros, tímidos:
Escorpiões de seda
No acanhado da pedra.

Há alturas soberbas
Danosas, se tocadas.
Como a tua própria boca, amor,
Quando me toca...

1 669
Angela Santos

Angela Santos

Estrela

Se
a noite vier vestida de branco
e lenta me fizer
desfiar as horas do meu sono,
eu vou lembrar uma estrela
a que minhas mãos tocaram,
a que de luz meus olhos encheu.

Se a noite de branco vier,
eu vou chamar a minha estrela
a que luz na minha vida
a que mora nos meus dias,
minha estrela d`Alva
minha estrela-guia.
Amo-te

1 171
Angela Santos

Angela Santos

Declaração

Amo!
Decidi escrever em todos os cantos
e muros por onde passasse
e até riscar teu nome a grafitti,
quem sabe desenhar uma tatuagem
ao jeito dos marinheiros,
escrever um artigo de jornal sobre o amor
e nele desenhar o teu nome e o meu
e um coração a envolvê-los

Mas pensei
que amar-te é um facto
coisa que mexe por dentro
e por assim ser, por fora se vê
o que dentro do coração vive

Pensei, repensei , concluí
todos sabiam, todos notavam
que um nome e um sentir
bordavam meus dias
de azul e luz

Decidi sem pudores confessar-me a ti,
soltar em voz alta
o que vezes calei
para deixar que os olhos, a alma e o desejo
em suas explosões imprimissem marcas,
as que eu quis deixar gravadas por aí
Mas foi em sussurro que à boca aflorou
a palavra mel …

uma só palavra que em si contém
o sentido todo,
mesmo que a tragam por aí prostituída
e imprimam nela o cunho das palavras gastas,
"Meu Amor" é uma expressão
que guarda o brilho de pedras raras.

1 031
Maria Teresa M. Carrilho

Maria Teresa M. Carrilho

Não, hoje não saio

Não, hoje não saio
eu quero ficar
no espaço
dum cantinho
que é só meu

Não, hoje não falo
eu quero escutar
as palavras floridas
dum canto
que me entonteceu

Não, hoje não vou respirar
eu quero confundir
a minha vertigem
com a tua vertigem
e ser só um todo
ou um nada
num mundo que emudeceu...

1 102
Cida Villela

Cida Villela

Decepção

Suave, serenamente,
Eu hoje acordei poesia.
Passei o meu dia versando você,
Olhava em seus olhos,
Distantes dos meus,
E a cada olhar,
Por demais atento,
Brotavam, em pensamento,
Versos que seriam seus.

Então desejei amar você.
Juntar palavras a te definir.
Mas antes que eu conseguisse
Definir-te em versos,
Com um simples gesto,
Mero falar,
Conseguiste de súbito
Meus versos quebrar



1 135
Cristina Lacerda

Cristina Lacerda

Tem uma outra cabeça

Tem uma outra cabeça
na minha cama
faz barulho de motor
às vezes ronrona

às vezes tem pesadelos
às vezes me estende a mão

tem uma outra cabeça
na minha cama

e me é às vezes desconhecida

tem barulho de gente
na minha cama
não é metade de mim
mas me acompanha

- e eu estou aqui

tem corpo conhecido
na minha cama

há séculos eu o escuto dormir

e isso
me emociona

909
Maria Teresa M. Carrilho

Maria Teresa M. Carrilho

Como uma flor vermelha, a abrir

Na noite pálida
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor

O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor

Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor

Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...

790
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Que este amor não me cegue nem me siga

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

1 593
Vera Maya

Vera Maya

Desejo

essa brasa
essa chama
esse lume

esse fogo
esse forno
essa caldeira

ah, esse amor
que arde
incendeia

esse corpo
essa fornalha
essa fogueira

essa alma
essa queimada
que se alastra

em labareda
me envolvo
a noite inteira

ah, essa paixão
me acende
me inflama

me consome e me transforma
em tocha huma.



769
Angela Santos

Angela Santos

Verpertina

Vem
ver-me
à hora em que me refaço
vem
e traz nos lábios uma rosa

Vem
àquela hora em que a noite
de manso cai
à hora da inocência

vem e traz teus olhos
tuas mãos, teus corpo inteiro
despidos de culpa e pecado ...

Vem
e dá-te assim!

759
Manuela Amaral

Manuela Amaral

De nós em limite

Na luta da posse
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura

No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite



1 630
Dolores Duran

Dolores Duran

A noite do meu bem

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a paz de criança dormindo
E o abandono das flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Eu quero o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a ternura que eu quero lhe dar.

1 362
Natália Correia

Natália Correia

O espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

2 342
Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

Habitas meu coração



Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias a tempo e medidas.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser onde jamais
me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-me em silêncio e às vezes como uma
criança me apertas em teu peito: acaricio
então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando no
enlace das colunas em seteiras escadas. Se
grito teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.

1 488
Angela Santos

Angela Santos

Vaga-lume

Se
um vaga-lume
no seu bater de asas de seda
chegasse junto da tua janela
e nesse som imperceptível que notasses
te dissesse:

Amor aqui me tens, Vaga-lume feita
adornando a tua noite cortando o silencio
com meu leve bater de asas
olhando a clara luz que me vem de ti
me atrai, cega e extenua
quando perdida na luz do meu rodopiar constante
sou vaga-lume na noite
vaga-lume, feita amante.

1 141
Angela Santos

Angela Santos

Flor de Lótus

Vejo-te
ao raiar do dia
como espiga que seguro e desfolho

Vejo-te acordar, espreguiçar
como a flor de lótus
sacudindo finíssimas gostas de orvalho
que sobraram da noite de amor.

Vejo-te abrir um sorriso manso
traçado na tua boca sensual…

beijo-te, sorris
e ao beijar-te sinto
que me atravessa a claridade
que em teus olhos brilha
e encho-me de luz.

696
Angela Santos

Angela Santos

Pêndulo

Se
o coração ensaia o movimento pendular
como o deter?

Se um coração se abre como se abre
Por que abre?

Como porta que se escancara
depois de fechada estar
ou flor desabrochando
à luz de um claro raiar..
assim é o amor
quando ao coração ordena
que viva seu compasso pendular

Coração pendular.. alma leve
olhos atentos às esquinas do tempo
onde imprevisível uma razão
vive a espreitar

E é de repente que desenhado surge
o sinuoso caminho,
o imprevisível gesto do desocultar,
trazendo à luz a razão maior
da pendular cadencia estancar.

1 402
Angela Santos

Angela Santos

Dança

E
se um dia eu chegasse
ao jeito dos bandidos,
e sem notícia,
acordasse os teu sentidos?

Há um corpo que vibra em segredo
o teu,
e o meu que o pressente
sem ousar arrancar-te ao sono
e trazer-te para a praça
onde Afrodite nos convida
a entrar na dança…

Vem que se adivinha
no teu olhar negro, fugidio
a indiferença simulada
do desejo.

Vem!
é tempo de acontecer
amor!

1 072
Angela Santos

Angela Santos

Oiro sobre Azul

Um
dia azul onde o teu nome
a oiro nele surgisse gravado

um dia todo de azul e oiro
e no ar inscritas, cinco letras
que em grito dissessem
o que eu não quero calar

Um dia azul..azul.. azul…
onde em sussurro eu pudesse
dizer-te as cinco letrinhas
que eu quis gritar.

1 149