Poemas neste tema
Amor Romântico
Herberto Helder
Poemacto - V
As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
dos lemes das palavras.
É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
E nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. E forte
o cheiro do rio tejo.
Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.
Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
E ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.
As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Uma estranha imagem universal.
O amor acompanha o amor.
É preciso uma existência de uma dureza lenta.
As barcas gritam.
A água é geral sobre a cara que respira.
Posso falar às mãos.
Posso extremamente falar às palavras.
E nas palavras que as barcas gemem.
Nelas se estabelece o rio.
Falo da minha vida quente.
Palavras — digo — é tão quente a noite
que atravessamos.
Barcas quentes.
Geral calor no meio da carne.
E agora o rio tejo acende-se no meio
de muitas palavras.
Amor da vida do tejo com a minha
grande vida pura.
Com meu amor completo como um rio.
1961.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
dos lemes das palavras.
É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
E nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. E forte
o cheiro do rio tejo.
Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.
Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
E ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.
As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Uma estranha imagem universal.
O amor acompanha o amor.
É preciso uma existência de uma dureza lenta.
As barcas gritam.
A água é geral sobre a cara que respira.
Posso falar às mãos.
Posso extremamente falar às palavras.
E nas palavras que as barcas gemem.
Nelas se estabelece o rio.
Falo da minha vida quente.
Palavras — digo — é tão quente a noite
que atravessamos.
Barcas quentes.
Geral calor no meio da carne.
E agora o rio tejo acende-se no meio
de muitas palavras.
Amor da vida do tejo com a minha
grande vida pura.
Com meu amor completo como um rio.
1961.
796
Manuel Bandeira
Madrigal Tão Engraçadinho
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.
1 689
Juana de Ibarbourou
A hora
Toma-me agora que ainda é cedo
e que levo dálias novas na mão.
Toma-me agora que ainda é sombria
esta taciturna cabeleira minha.
agora que tenho a carne cheirosa
e os olhos limpos e a pele de rosa.
Agora que calça minha planta ligeira
a sandália viva da primavera.
Agora que em meus lábios repica o sorriso
como um sino sacudido às pressas.
Depois..., iah, eu sei
que já nada disto mais tarde terei!
Que então inútil será teu desejo,
como oferenda posta sobre um mausoléu.
Toma-me agora que ainda é cedo
e que tenho rica de nardos a mão!
Hoje, e não mais tarde. Antes que anoiteça
e se volte murcha a corola fresca.
Hoje, e não amanhã. Oh amante! Não vês
que a trepadeira crescerá cipreste?
e que levo dálias novas na mão.
Toma-me agora que ainda é sombria
esta taciturna cabeleira minha.
agora que tenho a carne cheirosa
e os olhos limpos e a pele de rosa.
Agora que calça minha planta ligeira
a sandália viva da primavera.
Agora que em meus lábios repica o sorriso
como um sino sacudido às pressas.
Depois..., iah, eu sei
que já nada disto mais tarde terei!
Que então inútil será teu desejo,
como oferenda posta sobre um mausoléu.
Toma-me agora que ainda é cedo
e que tenho rica de nardos a mão!
Hoje, e não mais tarde. Antes que anoiteça
e se volte murcha a corola fresca.
Hoje, e não amanhã. Oh amante! Não vês
que a trepadeira crescerá cipreste?
1 488
Joan Manuel Serrat
Sinceramente teu
Não escolhas só uma parte
Toma-me como me dou,
inteiro e tal como sou,
não vás a equivocar-te.
Sou sinceramente teu
porém não quero, meu amor,
ir de visita por tua vida,
vestido para a ocasião.
Preferiria com o tempo
Reconhecer-me sem rubor.
Conta ao teu coração
que existe sempre uma razão
escondida em cada gesto.
Do direito e do avesso,
um somente é o que é
e anda sempre com o posto.
Nunca é triste a verdade,
o que não tem é remédio.
E não é prudente ir camuflado
eternamente por aí
nem por estar junto a ti
nem para ir a nenhum lado.
Não me peças que não pense
em voz alta por meu bem
nem que suba em um banco
se queres, provarei a crescer.
É insuportável ver que choras
e eu não tenho nada que fazer.
Conta ao teu coração
que existe sempre uma razão
escondida em cada gesto.
Do direito e do avesso,
um somente é o que é
e anda sempre com o posto.
Nunca é triste a verdade,
o que não tem é remédio.
Toma-me como me dou,
inteiro e tal como sou,
não vás a equivocar-te.
Sou sinceramente teu
porém não quero, meu amor,
ir de visita por tua vida,
vestido para a ocasião.
Preferiria com o tempo
Reconhecer-me sem rubor.
Conta ao teu coração
que existe sempre uma razão
escondida em cada gesto.
Do direito e do avesso,
um somente é o que é
e anda sempre com o posto.
Nunca é triste a verdade,
o que não tem é remédio.
E não é prudente ir camuflado
eternamente por aí
nem por estar junto a ti
nem para ir a nenhum lado.
Não me peças que não pense
em voz alta por meu bem
nem que suba em um banco
se queres, provarei a crescer.
É insuportável ver que choras
e eu não tenho nada que fazer.
Conta ao teu coração
que existe sempre uma razão
escondida em cada gesto.
Do direito e do avesso,
um somente é o que é
e anda sempre com o posto.
Nunca é triste a verdade,
o que não tem é remédio.
985
Mario Ribeiro Martins
Sonhador
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
1 116
Isaac Felipe Azofeifa
Poema IV
Tu me deixas aqui ou partes comigo?
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?
A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?
É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?
De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.
Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?
A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?
É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?
De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.
Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.
996
Manuel Bandeira
Haicai Tirado de Uma Falsa Lira de Gonzaga
Quis gravar "Amor"
No tronco de um velho freixo:
"Marília" escrevi.
No tronco de um velho freixo:
"Marília" escrevi.
1 512
Mario Ribeiro Martins
O Triste
Ei-la, tristonha, como nunca esteve:
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
864
Vinicius de Moraes
Uma Mulher No Meio do Mar
(Sobre um desenho original de Almir Castro)
Na praia batida de vento a voz entrecortada chama
Dentro da noite amarga a grande lua está contigo e está com ela — pousa o
teu rosto sobre a areia!
A tua lágrima de homem ficará correndo sobre o teu corpo dormindo e te
levará boiando
E talvez a tua mão inerme encontre a sua mão cheia de frio
Tudo está sozinho e o supremo abandono pousou sobre o corpo nu da que
deixaste ir
A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas
invisíveis
Passa o teu braço sobre o que foi o triste destroço de um outro mar bem
mais revolto
E sentirás que nunca o pobre corpo foi mais flexuoso ao teu afago nem o
olhar mais aberto ao teu desejo.
Afaga os seios que os teus beijos poluíram e que a água amante fez altos e
serenos
Mergulha os dedos pela última vez na úmida cabeleira espessa que se vai
abrir como as medusas
Porque também a lua vive a vez derradeira a visão escrava
Porque nunca mais também os olhos que estão parados te mostrarão o céu
E as linhas que vês desfeitas já pesam como que para o descanso do fundo
que não atingirás.
Não sentes que é preciso que ela vá, vá dar morada às algas que lhe
cobrirão amorosamente o corpo
Para fugir de ti que o cobrias apenas com a ardência imutável do teu
desejo?
Oh, o amor que abre os braços à piedade!...
Na praia batida de vento a voz entrecortada chama
Dentro da noite amarga a grande lua está contigo e está com ela — pousa o
teu rosto sobre a areia!
A tua lágrima de homem ficará correndo sobre o teu corpo dormindo e te
levará boiando
E talvez a tua mão inerme encontre a sua mão cheia de frio
Tudo está sozinho e o supremo abandono pousou sobre o corpo nu da que
deixaste ir
A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas
invisíveis
Passa o teu braço sobre o que foi o triste destroço de um outro mar bem
mais revolto
E sentirás que nunca o pobre corpo foi mais flexuoso ao teu afago nem o
olhar mais aberto ao teu desejo.
Afaga os seios que os teus beijos poluíram e que a água amante fez altos e
serenos
Mergulha os dedos pela última vez na úmida cabeleira espessa que se vai
abrir como as medusas
Porque também a lua vive a vez derradeira a visão escrava
Porque nunca mais também os olhos que estão parados te mostrarão o céu
E as linhas que vês desfeitas já pesam como que para o descanso do fundo
que não atingirás.
Não sentes que é preciso que ela vá, vá dar morada às algas que lhe
cobrirão amorosamente o corpo
Para fugir de ti que o cobrias apenas com a ardência imutável do teu
desejo?
Oh, o amor que abre os braços à piedade!...
1 130
Mário Simões
Lucy
Minha primavera de novo se enroupou,
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
973
Mário Simões
Amor: Luz e Trevas
Que coisas que ao coração vêm!
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
861
Maria do Socorro Ribeiro
Quando eu tinha você
Quando a vida era nós dois,
O nosso mundo era festa...
Cantavam as coisas naturais,
Nossos canteiros eram floridos,
Nossa mansão - um gorgeio,
Tínhamos o nosso Irapuru...
Quando a vida era nós dois,
Multiplicavam-se os afetos,
Cresciam as afeições...
O nosso endereço era convite,
Chama de cartões dourados...
Quando a vida era nós dois,
As manifestações sociais
Enchiam nossa sombra
e cantavam "parabéns prá você"..
O nosso balão subia
Como uma afirmação de fé
Para as bençãos de Deus...
O nosso mundo era festa...
Cantavam as coisas naturais,
Nossos canteiros eram floridos,
Nossa mansão - um gorgeio,
Tínhamos o nosso Irapuru...
Quando a vida era nós dois,
Multiplicavam-se os afetos,
Cresciam as afeições...
O nosso endereço era convite,
Chama de cartões dourados...
Quando a vida era nós dois,
As manifestações sociais
Enchiam nossa sombra
e cantavam "parabéns prá você"..
O nosso balão subia
Como uma afirmação de fé
Para as bençãos de Deus...
838
Raimundo Correia
Beijos do Céu
Sonhei-te assim, ó minha amante, um dia:
— Vi-te no céu; e, anamoradamente,
De beijos, a falange resplendente
Dos serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via
Beijavam todos o teu lábio ardente;
E, beijando-te, o próprio Onipotente,
O próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o ciúme — fera que eu não domo —
Despertou-me do sonho, repentino
Vi-te a dormir tão plácida a meu lado...
E beijei-te também, beijei-te... e, ai! como
Achei doce o teu lábio purpurino.
Tantas vezes assim no céu beijado!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.6
— Vi-te no céu; e, anamoradamente,
De beijos, a falange resplendente
Dos serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via
Beijavam todos o teu lábio ardente;
E, beijando-te, o próprio Onipotente,
O próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o ciúme — fera que eu não domo —
Despertou-me do sonho, repentino
Vi-te a dormir tão plácida a meu lado...
E beijei-te também, beijei-te... e, ai! como
Achei doce o teu lábio purpurino.
Tantas vezes assim no céu beijado!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.6
2 566
Fernando Pessoa
IV - Não consentem os deuses mais que a vida.
Não consentem os deuses mais que a vida.
Tudo pois refusemos, que nos alce
A irrespiráveis píncaros,
Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,
Nem se engelha connosco
O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
17/07/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)
Tudo pois refusemos, que nos alce
A irrespiráveis píncaros,
Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,
Nem se engelha connosco
O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
17/07/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)
2 639
Manuel Botelho de Oliveira
Anarda Vendo-se a um Espelho
Décima 1
De Anarda o rosto luzia
No vidro que o retratava,
E tão belo se ostentava,
Que animado parecia:
Mas se em asseios do dia
No rosto o quarto farol
Vê seu lustroso arrebol;
Ali pondera meu gosto
O vidro, espelho do rosto,
O rosto, espelho do Sol.
2
É da piedade grandeza
Nesse espelho ver-se Anarda,
Pois ufano o espelho guarda
Duplicada a gentileza:
Considera-se fineza,
Dobrando as belezas suas,
Pois contra as tristezas cruas
Dos amorosos enleios
Me repete dous recreios,
Me oferece Anardas duas.
3
De sorte que sendo amante
Da beleza singular,
Posso outra beleza amar
Sem tropeços de inconstante;
E sendo outra vez triunfante
Amor do peito que adora
Ua Anarda brilhadora,
Em dous rostos satisfeitos,
Se em um fogo ardia o peito,
Em dous fogos arde agora.
4
Porém depois, rigorosas,
Deixando o espelho lustroso,
Oh como fica queixoso,
Perdendo a cópia fermosa!
Creio pois que na amorosa
Lei o cego frechador,
Que decreta único ardor,
Não quis a imagem que inflama,
Por extinguir outra chama,
Por estorvar outro amor.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
De Anarda o rosto luzia
No vidro que o retratava,
E tão belo se ostentava,
Que animado parecia:
Mas se em asseios do dia
No rosto o quarto farol
Vê seu lustroso arrebol;
Ali pondera meu gosto
O vidro, espelho do rosto,
O rosto, espelho do Sol.
2
É da piedade grandeza
Nesse espelho ver-se Anarda,
Pois ufano o espelho guarda
Duplicada a gentileza:
Considera-se fineza,
Dobrando as belezas suas,
Pois contra as tristezas cruas
Dos amorosos enleios
Me repete dous recreios,
Me oferece Anardas duas.
3
De sorte que sendo amante
Da beleza singular,
Posso outra beleza amar
Sem tropeços de inconstante;
E sendo outra vez triunfante
Amor do peito que adora
Ua Anarda brilhadora,
Em dous rostos satisfeitos,
Se em um fogo ardia o peito,
Em dous fogos arde agora.
4
Porém depois, rigorosas,
Deixando o espelho lustroso,
Oh como fica queixoso,
Perdendo a cópia fermosa!
Creio pois que na amorosa
Lei o cego frechador,
Que decreta único ardor,
Não quis a imagem que inflama,
Por extinguir outra chama,
Por estorvar outro amor.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
2 990
Marly de Oliveira
Eu tão prepositiva, desfaleço
Eu, tão prepositiva, desfaleço,
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
1 168
Vinicius de Moraes
Amor Nos Três Pavimentos
Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.
V ocê querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.
V ocê quer fazer verso? É tão simples!... você assina
Ninguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.
Se você quisesse!... até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhas
Pra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você...
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.
V ocê querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.
V ocê quer fazer verso? É tão simples!... você assina
Ninguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.
Se você quisesse!... até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhas
Pra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você...
1 279
Sonia Mori
Inverno
Esposa idosa
recebe rosas vermelhas:
dia dos namorados.
recebe rosas vermelhas:
dia dos namorados.
829
Fernando Pessoa
XII - A flor que és, não a que dás, eu quero.
A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perene
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.
21/10/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perene
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.
21/10/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
2 537
Gerardo Mello Mourão
Vamos, Marivalda, à madrugada
Vamos, Marivalda, à madrugada
aprender a areia, a espuma
ensinar-te a ninfa e os exercícios:
todas têm sua vez e agora é a vez
de Marivalda e cada uma
ensaia a sua pauta: esta
ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva,
Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris,
je t’apprendrai une caresse nouvelle
le bout des doigts tout doucement, Dolly,
essa a boca, essa a orelha e sempre
Maria Helena a ordenação
o ensaio da mestria
a ordenação da posse o coração desordenado
de suas mãos amorosas o amor
ó
o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno
à tua boca, à tua embriaguez.
aprender a areia, a espuma
ensinar-te a ninfa e os exercícios:
todas têm sua vez e agora é a vez
de Marivalda e cada uma
ensaia a sua pauta: esta
ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva,
Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris,
je t’apprendrai une caresse nouvelle
le bout des doigts tout doucement, Dolly,
essa a boca, essa a orelha e sempre
Maria Helena a ordenação
o ensaio da mestria
a ordenação da posse o coração desordenado
de suas mãos amorosas o amor
ó
o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno
à tua boca, à tua embriaguez.
895
Vinicius de Moraes
Viagem À Sombra
Tua casa sozinha — lassidão infinita dos devaneios, dos segredos. Frocos
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
1 161
Carlito Azevedo
NOVA PASSANTE
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
710
Gerardo Mello Mourão
Vem, formosa mulher, camélia pálida
Vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
tu que ousaste com teus olhos verdes conhecer
a margem do caminho
quem sabe tu de torna-volta
Maria Helena do pais de Eleusis
do anjo da morte houveras aprendido
o mapa do sepulcro
o equador guardado e a latitude
onde a sibila dorme e a palavra
do sortilégio e da ressurreição:
os deuses a conhecem
e Lázaro acordou à sua sílaba
vinho da uva, água da fonte, luz da estrela
emanação do amor ela se diz
ao ouvido dos mortos
e eles estremecem
desatados da morte e do silêncio.
Não a ouviste talvez em tua morte tu
maestra del amor y de la muerte?
Sábio de lembrar-me de seus olhos
dela — sábia do amor, sábia da morte
sobre as areias do coração
não desmanchou a lágrima
a planta de seu pé:
e nesse rastro vamos
e uma noite qualquer é sua voz
o pomo do mistério partido em nossas mãos
o oráculo.
Madame Sosostris, Eliot, T. S. Eliot, o Major seu Né das Águas Belas
eram de profissão adivinhões:
ela era de profissão a minha amante
aprendiz na oficina de seus olhos
o oráculo da morta nos espanta
e quem se nós clamássemos nos ouviria mais que ela?
e atrás de seu caminho de mãos dadas
vai nosso amor mais forte do que a morte.
No solo las estrellas tienen el pulso del zenith
Léa
nas mãos dadas apertamos a estrela
e a minha profissão é o teu amor
e a tua profissão é o meu afago
pousa o dedo no lábios da cigana
e surge
musa única musa vera
única mais bela — morena e magnífica —
sobre o dorso dos ventos que deitam o canavial
sobre o lombo das novghas matinais em que te ensaias
para a doce viagem nos meus ombros
à ilha de cravo e mel
daquela estrela.
que banharam de luz as alvoradas
tu que ousaste com teus olhos verdes conhecer
a margem do caminho
quem sabe tu de torna-volta
Maria Helena do pais de Eleusis
do anjo da morte houveras aprendido
o mapa do sepulcro
o equador guardado e a latitude
onde a sibila dorme e a palavra
do sortilégio e da ressurreição:
os deuses a conhecem
e Lázaro acordou à sua sílaba
vinho da uva, água da fonte, luz da estrela
emanação do amor ela se diz
ao ouvido dos mortos
e eles estremecem
desatados da morte e do silêncio.
Não a ouviste talvez em tua morte tu
maestra del amor y de la muerte?
Sábio de lembrar-me de seus olhos
dela — sábia do amor, sábia da morte
sobre as areias do coração
não desmanchou a lágrima
a planta de seu pé:
e nesse rastro vamos
e uma noite qualquer é sua voz
o pomo do mistério partido em nossas mãos
o oráculo.
Madame Sosostris, Eliot, T. S. Eliot, o Major seu Né das Águas Belas
eram de profissão adivinhões:
ela era de profissão a minha amante
aprendiz na oficina de seus olhos
o oráculo da morta nos espanta
e quem se nós clamássemos nos ouviria mais que ela?
e atrás de seu caminho de mãos dadas
vai nosso amor mais forte do que a morte.
No solo las estrellas tienen el pulso del zenith
Léa
nas mãos dadas apertamos a estrela
e a minha profissão é o teu amor
e a tua profissão é o meu afago
pousa o dedo no lábios da cigana
e surge
musa única musa vera
única mais bela — morena e magnífica —
sobre o dorso dos ventos que deitam o canavial
sobre o lombo das novghas matinais em que te ensaias
para a doce viagem nos meus ombros
à ilha de cravo e mel
daquela estrela.
1 453
Gerardo Mello Mourão
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico as
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.
Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas
temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.
A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.
A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.
"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.
De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.
Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.
Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.
Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.
Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu
a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.
Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas
temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.
A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.
A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.
"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.
De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.
Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.
Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.
Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.
Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu
a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.
1 120