Poemas neste tema

Amor Romântico

Tanussi Cardoso

Tanussi Cardoso

As time goes by

Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart
Que eu te conto Casablanca.
Me tira esse sobretudo;
Sobretudo, conta tudo
Que eu te dou uma rosa branca.
Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart...
Te dou carona em meu carro
Chevrolet — que sou bacana;
Te levo, meu bem, pra cama
Fumamos nossa bagana;
Te provo que sou sacana...
Te faço toda a denguice:
Te dispo que nem a Ingrid,
Te dou filhos de montão
Só pra te ver sufocar...
Mas me chama de Humphrey Bogart!
Faço chover colorido
Como num bom musical.
Te chamo de Lauren Bacall!
Te danço, te canto, te mostro,
Entre as pernas, meu bom astral...
Te deixo pro enxoval
Meu chapéu preto de gangster,
Mil poemas de ninar...
Só pra te ouvir sussurrar:
Como te amo, meu Humphrey Bogart!

921
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tome lá, minha menina,

Tome lá, minha menina,
O ramalhete que fiz.
Cada flor é pequenina,
Mas tudo junto é feliz.
3 690
Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Coração sexual

Não existe órgão tão sexual como o coração,
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;

tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,

caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo

caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
682
Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Tronco

Poderia dizer-te, vem,
mas como descrever
essa vinda se não há
nenhum verbo que
se ajuste ao teu
nome impronunciável.

Debruço-me, hirta,
na memória do silvo,
num sono circular,
e é a sombra que vejo,
a cruz ou o seu contorno,
as pálpebras das aves
e o sonho fundo
de rosas-de-toucar.

Mas vem, a esta paragem
de névoa, é à força de não
vermos que aprendemos,
crianças ávidas de peixes
de onde o mar se levanta
num halo dourado.

Vem, nítido, mais alto
que o lamento,
mais líquido que o desejo,
num rouco movimento
que dança e renuncia
incapaz de ser ausente.


Vem, onírico, de corpo
fragmentado,
desconstruído no sonho
em forma de abecedário.
Primeiro o tronco, depois
as mãos, os pés e o falo;
os ombros, o rosto,
como o de um filho
erguido do chão,
para sempre amado.


E agora as pálpebras,
de sal   vitral  de  pássaro
fecha-mas,
torna-me informe,
diz o meu nome,
pede-me o que nem sei
imaginar; rouba-me,
o poema, a cinza a neve,
o pulso decepado
ou quem sabe se a cor
a dor de meus olhos
mudos    alvoroçados.

Leva-me
como se só Tu existisses
na intimidade das flores,
nos lábios dos mastros,
leva-me  nua e morta
no dorso de teu laço
leva-me  leva-me
até o coração me rebentar.
801
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Hiato

Ês na minha vida como um luminoso
Poema que se lê comovidamente
Entre sorrisos e lágrimas de gozo...

A cada imagem, outra alma, outro ente
Parece entrar em nós e manso enlaçar
A velha alma arruinada e doente...

— Um poema luminoso como o mar,
Aberto em sorrisos de espuma, onde as velas
Fogem como garças longínquas no ar...
1 171
Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Assunção

Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
693
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Toante

...wie ein stilles Nachtgebet.
Lenau

Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
Molha-as. Assim eu as quero levar à boca,
Em espírito de humildade, como um cálice
De penitência em que a minh'alma se faz boa...
Foi assim que Teresa de Jesus amou...
Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
O espasmo é como um êxtase religioso...
E o teu amor tem o sabor das tuas lágrimas...
1 356
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Rimancete

À dona de seu encanto,
À bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor...
— Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela;
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sem senhor...
— Ái não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mãos sem senhor...
— Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sem senhor...
— Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Minha rosa e minha vida...
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor...
— Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?...
— Deixas-me triste e sombria.
Cismo... Não atino o quê...
Dava-te quanto podia...
Que queres mais que te dê?

Responde o moço destarte:
— Teu pensamento quero eu!
— Isso não... não posso dar-te...
Que há muito tempo ele é teu...
1 441
Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

A J

Minh'alma dorme, indolente
A tudo o que é grande e belo.
Ai! não sei que pesadelo
Assim me pousou na mente!
Debalde agora procuro
Os sonhos do meu futuro
De amor e glória tão cheios,
Na quadra dos devaneios
E das longas ilusões!

Mas se dócil a teus dedos
O teu piano palpita,
Se derramas teus segredos
Nessa harmonia infinita,
Nessa queixa vaga e incerta,
Então minh'alma — desperta
Desse fatal pesadelo —
Sacode o manto de gelo,
Banha-se em novo fulgor,
Ama a luz que o sol exala,
E em cada nota que fala
Soletra um hino de amor!

Mas se também indolente
O teu piano se cala,
Minh'alma é só languidez.
— Como a criança dormente,
Que os olhos súbito abrira,
Queixosa e triste suspira,
E — sem ti — dorme outra vez!

1859


Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 004
Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Alvo

Por uma vez conta como o corpo se ajusta à superfície
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
723
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sonho de Uma Terça-feira Gorda

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!
E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.

Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria...
955
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

43 - THE BRIDGE

Kisses on me like dew
        Pour, and it shall be morn
My waked spirit through.
        My bowed, greyed head adorn
With bays, that I may view
        My shadow crowned and smile even as I rnourn

Although my head is bent,
        Thy feet, sandalled with hope,
Pass and are eloquent
         I' th' way they do not stop.
Somewhere i'th' grass they are blent
        With that of me that does for meanings grope

Let us be lovers aye,
        Out of all flesh agreeing,
Lovers in some new way
        That needs not words nor seeing.
Thus abstract, our love may
        Not ours, be but a vague breath of Pure Being
1 528
Torquato Neto

Torquato Neto

Pra Dizer Adeus

adeus
vou pra não voltar
e onde quer que eu vá
sei que vou sozinho
tão sozinho amor
nem é bom pensar
que eu não volto mais
desse meu caminho

ah,
pena eu não saber
como te contar
que o amor foi tanto
e no entanto eu queria dizer
vem
eu só sei dizer
vem
nem que seja só
pra dizer adeus.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Edu Lob
3 282
Luís Vianna

Luís Vianna

DIA LINDO

Hoje estou feliz,
Por isto escrevo às flores.
Às flores que ofereço
Aos meus amores.

05/12/1995

1 005
Machado de Assis

Machado de Assis

A Elvira

Quando, contigo a sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda, e eu, namorado,
Às volúpias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando às solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
— Tão só eu, — teus terníssimos suspiros;
E de meus lábios solto
Eternas juras de constância eterna;
Ou quando, enfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos trêmulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como às folhas da rosa ávida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empalideço, tremo;
E no seio da glória em que me exalto,
Lágrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e trêmula,
Nos teus braços me cinges, — e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
"Que dor secreta o coração te oprime?"
Dizes tu. "Vem, confia os teus pesares...
"Fala! eu abrandarei as penas tuas!
"Fala! eu consolarei tua alma aflita!"
Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado nos teus níveos braços
A confissão de amor te ouço, e levanto
Lânguidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque nessas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura coo tempo se esvaece,
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma voa às sombras do futuro,
E eu penso então: "Ventura que se acaba
Um sonho vale apenas."


Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.50. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)

NOTA: Tradução do poema "A El***", de Lamartine, do livro NOUVELLES MÉDITATIONS POÉTIQUES (Novas Meditações Poéticas
2 428
Felipe Larson

Felipe Larson

A CILADA

Não diga nada pra mudar a situação
É uma cilada sob a minha condição
O seu defeito, eu mostro a solução
O que tem feito é complicação

Eu dou carrinho
Eu te corrijo
Eu te viro do avesso
Eu te dou abrigo

Não vá pensar
Que isso é compaixão
Não vá errar
Pra jogar tudo fora então

Não vem julgar
O meu coração
E me mostrar
Que meu amor foi em vão

985
Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

respiro-te devagar

respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta

suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.

então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.

não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
1 241
Felipe Larson

Felipe Larson

A NOSSA HISTÓRIA

Hoje minha vida
Passou na tela de TV
Mostrando todo amor
Que eu sinto por você

Não era bem um filme
Mas era a vida real
E tudo que te disse
Foi de um jeito natural

A nossa história não terá final
A nossa história será imortal

A cena que fizemos
Foi de todo coração
Mostrando toda a força
De uma grande paixão

Não quis ser ator
Pra viver no seu dilema
Pra ver a nossa história
Na telinha de cinema

A nossa história não terá final
A nossa história será imortal

832
Felipe Larson

Felipe Larson

A FLOR DO DESEJO

Você liga a toda hora
Pra dizer que me adora
Você percebe ansiedade
Mas no fundo é saudade

Plantas baixas no caminho
Pra mostrar o seu destino
No seu pequeno coração
Existe um pouco de paixão?
Ao menos por mim

Você sabe que te quero
No teu corpo, me perco
No teu beijo, eu derreto
Você quer, eu também quero
No teu colo, me esquento
A flor do desejo

Com seu jeito apaixonante
Me faz sentir distante
Com seus olhos azuis
E nossos corpos nus

744
Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

há em cada pastor

há em cada pastor a influência do deslumbre do pasto . como se o encanto fosse a flor e o rio um afluente a correr ao contrário da sede que é sempre mais seda que o fio que nos estala.

somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me. escolhe.me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata que é o meu sangue..
651
Felipe Larson

Felipe Larson

CORAÇÃO PIRADO

Tenho um coração pirado
Que vive sem razão
Mas sempre foi guiado
Pela força da emoção

Espero estar certo
E pronto para amar
Pra tudo que vier
Pra tudo que passar

Então sonhar com você
Pensar em você
Todos os dias
Então sonhar com você
Pensar em você na esperança de te ter
24 horas do dia

Descrevo meu destino
Seguindo o seu caminho
E aprendendo a amar
Com o brilho no olhar

Sentado do seu lado
De frente para o mar
Depois que fui beijado
Parecia flutuar

893
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Confissão

Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim... tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo.
1 128
Torquato Neto

Torquato Neto

Louvação

Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.

Imagem - 00360001


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
1 551
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

O Descante de Arlequim

A lua ainda não nasceu.
À escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu,
De amores frívolos e curtos,

Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.

Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.

Não se me dá do teu recato.
Antes, polido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,

Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.

E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
1 197