Poemas neste tema

Nostalgia

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ó Tu, Sublime Puta Encanecida

Ó tu, sublime puta encanecida,
que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,

agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.

E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro.

Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.
1 216
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Não Mudamos

pena

não mudamos

o tempo

escorreu
água entre
os dedos

pena

pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos

Raízes.


In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
899
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Pequeno Museu Sentimental

No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.

Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.

Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que me falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.

Vou beijando a memória desses beijos.
1 114
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Chamado

Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
1 171
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - a Passageira de Capri

De onde, planta ou raio,
de onde, raio negro ou planta dura,
vinhas e vieste
até o rincão marinho?

Sombra do continente mais longínquo
há nos teus olhos, lua aberta
em tua boca selvagem,
e teu rosto é a pálpebra de uma fruta adormecida.
O pé acetinado de uma estrela é tua forma,
sangue e fogo de antigas lanças há em teus lábios.

De onde recolheste
pétalas transparentes
de manancial, de onde
trouxeste a semente
que reconheço? E depois
o mar de Capri em ti, mar estrangeiro,
por trás de ti as rochas, o azeite,
a reta claridade bem construída,
mas tu, eu conheço,
conheço essa rosa,
conheço o sangue dessa rosa,
sei que a conheço,
sei de onde vem,
e piso o ar livre de rios e cavalos
que tua presença traz à minha memória.

Tua cabeleira é uma carta vermelha
cheia de bruscos beijos e notícias,
tua afirmação, tua investidura clara
falam-me no meio-dia,
na meia-noite chamam à minha porta
como se adivinhassem
aonde querem regressar meus passos.

Talvez, desconhecida,
o sal de Maracaibo
ressoa em tua voz enchendo-a de sonho,
ou o frio vento de Valparaiso
sacudiu tua razão quando crescias.
O certo é que hoje, olhando-te ao passar
entre as aves de peito rosado
dos farelhões de Capri,
a labareda de teus olhos, algo
que vi voar lá de teu peito, o ar
que rodeia tua pele, a luz noturna
que de teu coração sem dúvida sai,
algo chegou à minha boca
com um sabor de flor que conhecia,
algo tingiu meus lábios com o licor escuro
das plantas silvestres de minha infância,
e eu pensei: esta dama,
ainda que o clássico azul derrame todos
os cachos do céu em sua garganta,
ainda que por trás dela os templos
nimbem com sua brancura coroada
tanta formosura,
ela não é, ela é outra,
algo crepita nela que me chama:
toda á terra que me deu a vida
está neste olhar, e estas mãos
sutis
recolheram a água na vertente
e estes mínimos pés foram medindo
as vulcânicas ilhas de minha pátria.
Oh tu, desconhecida, doce e dura,
quando já teu passo
desceu até perder-se,
e só as colunas
do templo roído e a safira verde
do mar que canta em meu desterro
ficaram sós, sós
comigo e com tua sombra,
meu coração deu um grande latejo,
como se uma enorme pedra sustentada
na invisível altura
caísse de repente
sobre a água e saltassem as espumas.

E despertei de tua presença então
com o rosto regado
pelo teu borrifo,
água e aroma e sonho,
distância e terra e onda!
1 224
Ibn Ammar

Ibn Ammar

Saudade

como falar de ti, Silves,
sem que uma lágrima me caía
como a do enamorado enternecido,
ou de ti, Sevilha,
sem um suspiro de ansiedade?

sois terras vestidas, pela chuva fina,
com a túnica da mocidade,
a mocidade que se desvaneceu
quando me furtou meus amuletos

assaltou-me a memória dos amores ardentes
como se me consumisse um lume violento
no mais profundo deste meu coração.

oh noites minhas de antigamente!
Que me importavam censuras dos críticos!
Nada me desviava do amor mais louco.

A insónia vem-me de uns olhos lânguidos
E sofro por uma silhueta de esbelto talhe.

761
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - Ah o crepúsculo

II

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades

E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do «Sentimento de um Ocidental»!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas.
Que nem são países, nem momentos, nem vidas.
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e longínquo!

Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar...

Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
— Tu que me conheces — quem eu sou...
1 267
José Honório

José Honório

Foi-se a ilusão dessa vidaa minha pica morreu

Glosa:

Eu na minha mocidade
as madrugadas varava
e toda noite eu transava
nos cabarés da cidade
hoje só resta a saudade
do garanhão que fui eu
minha força se perdeu
na pica mole, encolhida
FOI-SE A ILUSÃO DESSA VIDA
A MINHA PICA MORREU.

1 332
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ás vezes, quando cismo, e incerto vou

Às vezes, quando cismo, e incerto vou
Através do meu ser em confusão
Procuro ver, sentir, sem olhos ler
Na minha consciência a alvorecer
De que anterior Presença humana sou
A reincarnação.

Então, aos olhos com que sonho olhando,
Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei
Que fui, num grande ocaso de (...) gentes
Entre sonhos nas almas confluentes
Alguém com gesto e mando,
Imperador ou rei.

Triste, profundamente triste, calmo
Sim, calmo como a morte, eu quis fazer
Com que em não sei que terra revivesse
Um belo culto morto, a incerta messe (…)
1 476
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - SAUDADE DADA

II

SAUDADE DADA

Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!

E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.

E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
1 928
João Filho

João Filho

Quase Gregas - Oitava

Sigo a senhora mestiça,
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
620
Frédéric Mistral

Frédéric Mistral

ANDA QUE TE ANDARÁS A TU PAÍS VOLVERÁS

Puedes rodar por países lejanos
Y de Alemania hasta Italia correr;
Puedes rodar por países lejanos,
Lo que no has visto, por ansia de ver.
Pero país más alegre que el tuyo
No lo has de ver, labrador provenzal,
Porque país más alegre que el tuyo
Ni en montes ni en valles se ha visto jamás.


Puedes vagar más allá de tus landas
Y monumentos grandiosos buscar;
Puedes vagar más allá de tus landas:
Otros como éstos no habrás de encontrar.
Teatro, circo, murallas de imperio,
Palacios de papa, castillo real,
Arcos triunfales, soberbio acueducto...
En ningún sitio verás fausto tal.


Puedes correr a la tierra de Grecia,
En donde el Pindo se yergue en la luz;
Puedes correr a la tierra de Grecia,
En donde el cénit está siempre azul.
Pero sus costas cubiertas de rocas
Que el sol matiza de vivo color,
Pero sus costas radiantes y azules
Contemplar puedes aquí a tu sabor.


Puedes viajar por los pueblos modernos
Y los exóticos platos probar;
Puedes viajar por los pueblos modernos:
Recordarás con nostalgia tu hogar.
Recordarás las legumbres humildes.
La buena sopa que humea en el llar;
Recordarás las legumbres humildes
Y el vino aquel de la vid paternal.


Puedes mirar la gentil parisina
Y de Castilla y de Italia la prez
De la belleza, que en esos países
Espléndidamente se ve florecer.
Pero la noble hermosura arlesiana,
Las perlas finas del nido de Arles,
La donosura sin par de tu patria
Ya no verás en ninguna mujer.
664
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Passada

Norman e eu, ambos aos 19, passeando pelas ruas da
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens

Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”

1939
depois de ter ouvido
Stravinsky

não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.

agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã

bêbado

ainda grande
não
tão jovem.

Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.

não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
1 082
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Glenn Miller

muito tempo atrás
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade

Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
1 203
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

VIDALVAZ

Talvez viver seja isso,
isto precisamente.

Um ovo estrelado com pão,
uma taberna sob impiedosa trovoada
quando a cidade anoitece e se ouve
qualquer relato decerto importante
em que o herói se chama Sporting.

Estas tabernas, lugares sombrios
onde sob o pouco aprumo dos tonéis
morreu ou foi morrendo um poeta
que os abutres da nação fazem questão
de aclamar. Tinto ou branco, vai sempre
dar ao mesmo, modo apenas de vomitar
uma ausência fulgurante.

Entretanto dizem-se aqui os “até amanhãs”,
celebra-se a calma metafísica de uma sopa
amornada e doente. São os mesmos que amanhã
cá estarão, vacilantes e anónimos, dizendo
de novo “até amanhã” para que a eternidade
se finja repetir. São os mesmos até mais ver,
a sopa, o ovo estrelado, o futebol, a
recusada tristeza de envelhecer.

E talvez viver seja isto, a cruel poesia
dos tonéis, o mármore de balcões engordurados,
este morrer
de um modo gentil, quase despercebido.

Não importa quem lembra as tabernas
que lentamente se apagam,
os versos tristes que as cantam
997
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CAVE BAR

para a Susana


Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.

A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.

Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.

Subterrânea foi a nossa despedida.
1 129
Everardo Norões

Everardo Norões

Café

Desencarno arábias
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.

(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).

Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.

De onde vem o grão
dessa saudade?

Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.

Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
633
Moacyr Felix

Moacyr Felix

Auto-Retrato

Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.

[C.T., 1959.1

1 590
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vagabundeando Com Jane

não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 119
José Paulo Paes

José Paulo Paes

CANÇÃO DO EXÍLIO FACILITADA

lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!
2 913
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Resíduo

parado no meio do voo,
maldosamente retalhado,
sonhando com
dactilozoides.
recusado,
preparado para parar
no Zero,
apagado,
retalhado,
desmobilizado
onde está o riso
comum?
a simples alegria?
aonde
foram?
que truque
enganador,
esse.
até os céus
rosnam.
que rancor,
que
amargor...
o grito
abafado
do coração,
agora
lembrando
tempos
melhores
selvagens e
maravilhosos.
agora o triste
soturno
presente
se abre.
618
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Especial De 1990

gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 118
Francisco Karam

Francisco Karam

Coração Viajante

Chegam e vão entrando em mim
Como por um caminho aberto.

Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.

Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.

O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.

O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.

1 125
Francisco José Rodrigues

Francisco José Rodrigues

Pagos da Infância

À Aprígio Rodrigues
Enquanto, sob o sol de primavera,
Nossos campos esplendem de verdura;
Enquanto nós olhamos com ternura
Os passarinhos a esvoaçar nas moitas,

O ar puro nosso sangue retempera
E faz nossas andanças mais afoitas
Pelos pagos da infância que perdemos.

Pagos que visitamos e revemos
Com saudade tamanha, desmedida
Que nos penetra fundo e dilacera.

Contingência fatal de nossa vida:
Perder o que era nosso e, após, rever
O que nunca pensamos de perder
Quando tudo era sonho e primavera!

911