Poemas neste tema
Nostalgia
Adailton Medeiros
Cucu
(No maranhão: faz tanto tempo
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
1 164
Jorge Lescano
Verão
Estrelas cadentes?
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
942
Angela Santos
A Sós
Vai!
hoje só preciso de mim
Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória
Vai!
hoje só me quero a mim!
hoje só preciso de mim
Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória
Vai!
hoje só me quero a mim!
1 074
Nuno Júdice
Outono
Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.
As folham juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 30 | Quetzal Editores, 1991
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.
As folham juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 30 | Quetzal Editores, 1991
1 694
Lêdo Ivo
Soneto à Pátria
Sonnet aan mijn land
Nesta noite em Toronto junto ao lago gelado
que o grasnido dos gansos não ousa estremecer
minha pátria ofendida surge na escuridão
e vem ao meu encontro com o seu sol e andrajos.
Ao seu redor estão os goiamuns que moram
no chão mudo dos mangues, o sinal semafórico
que ao lado da guardamoria freme na maresia
e os mendigos que esperam a morte sob os viadutos.
Caminhando na neve nesta noite estrangeira,
entre as sílabas negras dos frígidos pinheiros,
murmuro no vento o teu nome desmatelado.
ó pátria desamada, ó rameira insultada,
quanto mais longe estás, teu espinho distante
mais dói na minha mão inútil e gelada.
Op deze avond in Toronto dicht bij het bevroren meer
dat het gegak der ganzen niet durft te doen beven
verschijnt mij uit het duister mijn verwonde land
en het komt tot mij met zijn zon en met zijn lompen.
Rondom bevinden zich de strandkrabben die wonen
in de stille grond der slikken, het verkeerslicht
dat ter zijde van het tolhuis flikkert in de zeelucht
en de bedelaars die onder bruggen wachten op de dood.
Wandelend door de sneeuw in deze buitenlandse nacht,
tussen de zwarte lettergrepen van de kille sparren,
fluister ik in de wind je verfomfaaide naam.
O gekleineerde hoer, mijn onbeminde land,
hoe verder weg je bent, hoe meer je verre stekel
schrijnt in mijn onnutte en verkilde hand.
Nesta noite em Toronto junto ao lago gelado
que o grasnido dos gansos não ousa estremecer
minha pátria ofendida surge na escuridão
e vem ao meu encontro com o seu sol e andrajos.
Ao seu redor estão os goiamuns que moram
no chão mudo dos mangues, o sinal semafórico
que ao lado da guardamoria freme na maresia
e os mendigos que esperam a morte sob os viadutos.
Caminhando na neve nesta noite estrangeira,
entre as sílabas negras dos frígidos pinheiros,
murmuro no vento o teu nome desmatelado.
ó pátria desamada, ó rameira insultada,
quanto mais longe estás, teu espinho distante
mais dói na minha mão inútil e gelada.
Op deze avond in Toronto dicht bij het bevroren meer
dat het gegak der ganzen niet durft te doen beven
verschijnt mij uit het duister mijn verwonde land
en het komt tot mij met zijn zon en met zijn lompen.
Rondom bevinden zich de strandkrabben die wonen
in de stille grond der slikken, het verkeerslicht
dat ter zijde van het tolhuis flikkert in de zeelucht
en de bedelaars die onder bruggen wachten op de dood.
Wandelend door de sneeuw in deze buitenlandse nacht,
tussen de zwarte lettergrepen van de kille sparren,
fluister ik in de wind je verfomfaaide naam.
O gekleineerde hoer, mijn onbeminde land,
hoe verder weg je bent, hoe meer je verre stekel
schrijnt in mijn onnutte en verkilde hand.
1 725
Nuno Júdice
Soneto 4
Conheço mulheres azuis como a morte.
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
787
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Amigos
Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
4 882
Juscelino Vieira Mendes
Em Busca do Tempo Perdido
"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas
e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais
mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo,
como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais,
e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."
Marcel Proust, in No Caminho de Swann
Busco em reentrância,
minha vida em Conquista,
a infância
à semelhança do personagem
de Proust, que, aturdido,
busca a imagem
do tempo perdido
ao comer um pedaço de madalena.
Tem o seu passado presente,
ao tomar uma xícara de chá de tília na
casa de sua mãe: comovente!
Nessa visão em túnel, ouço um som.
Mesmo efeito embriagante do chá de tília.
É Garfunkel: Mr. Robinson;
Cecília!
E a suave música que passa,
de chofre, faz-me reviver o Beco dos Artistas; o Jurema
e o velho pé de Cajá, que virou praça.
Madalena!
Caleidoscópio de minha viagem que doura,
em busca do que sempre fui ali,
prossigo para o Beco da Tesoura
e ingresso no ‘Bar Aracy’:
"Que foi feito de meu arroz doce com canela?"...
Alegre e satisfeito, saio para o Colégio Anísio Teixeira
na doce irresponsabilidade do ser - e pensando nela -,
sem nenhum tostão na algibeira.
Redivivo, assim, meu cérebro emocional em
amálgama perfeito - hipocampo e amígdala - em doce recordação redolente
de uma vida distante que vem
trazer-me de volta: Clemente!
Campinas, águas de março de 1997.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais
mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo,
como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais,
e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."
Marcel Proust, in No Caminho de Swann
Busco em reentrância,
minha vida em Conquista,
a infância
à semelhança do personagem
de Proust, que, aturdido,
busca a imagem
do tempo perdido
ao comer um pedaço de madalena.
Tem o seu passado presente,
ao tomar uma xícara de chá de tília na
casa de sua mãe: comovente!
Nessa visão em túnel, ouço um som.
Mesmo efeito embriagante do chá de tília.
É Garfunkel: Mr. Robinson;
Cecília!
E a suave música que passa,
de chofre, faz-me reviver o Beco dos Artistas; o Jurema
e o velho pé de Cajá, que virou praça.
Madalena!
Caleidoscópio de minha viagem que doura,
em busca do que sempre fui ali,
prossigo para o Beco da Tesoura
e ingresso no ‘Bar Aracy’:
"Que foi feito de meu arroz doce com canela?"...
Alegre e satisfeito, saio para o Colégio Anísio Teixeira
na doce irresponsabilidade do ser - e pensando nela -,
sem nenhum tostão na algibeira.
Redivivo, assim, meu cérebro emocional em
amálgama perfeito - hipocampo e amígdala - em doce recordação redolente
de uma vida distante que vem
trazer-me de volta: Clemente!
Campinas, águas de março de 1997.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
1 254
Gláucia Lemos
Conta-se um Tempo
Conta-se que houve um tempo
breve tempo
em que para cada emoção se fez um poema.
Como tudo o que é belo é também frágil
conta-se também que esse tempo
foi um breve tempo.
breve tempo
em que para cada emoção se fez um poema.
Como tudo o que é belo é também frágil
conta-se também que esse tempo
foi um breve tempo.
1 078
Florbela Espanca
À Janela de Garcia de Rezende
Janela antiga sobre a rua plana...
Ilumina-a o luar com o seu clarão...
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no poético balcão...
Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez... Quem sabe?... Tonto de ilusão,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcão...
Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado...
Bandeiras! Pagens! O pendão real!
E na tua mão, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!...
Ilumina-a o luar com o seu clarão...
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no poético balcão...
Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez... Quem sabe?... Tonto de ilusão,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcão...
Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado...
Bandeiras! Pagens! O pendão real!
E na tua mão, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!...
1 655
Nuno Júdice
Passado
Passou o vento, passou o dia,
passou a noite e a manhã.
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;
passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;
passou a vida como se nada fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa sem demora,
e passou tudo a quem ficou;
e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.
Nuno Júdice | "Geometria Variável" | Publicações Dom Quixote, 2005
passou a noite e a manhã.
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;
passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;
passou a vida como se nada fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa sem demora,
e passou tudo a quem ficou;
e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.
Nuno Júdice | "Geometria Variável" | Publicações Dom Quixote, 2005
1 445
Pedro Corsino Azevedo
Terra longe
Aqui, perdido, distante
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
mimha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sonho que não vinha.
"Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente"
A doce toada
meu sono caía de manso
da boca de minha mãe:
"Cala, cala, meu menino,
terra-longe tem gente gentio
gente-gentio come gente".
Depois vieram os anos,
e, com eles, tantas saudades!...
Hoje, lá no fundo, gritam: vai!
Mas a voz da minha mãe,
a gemer de mansinho
cantigas da minha infância,
aconselha ao filho amado:
"Terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente".
Terra-longe! terra-longe!...
- Oh mãe que me embalaste
- Oh meu querer bipartido!
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
mimha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sonho que não vinha.
"Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente"
A doce toada
meu sono caía de manso
da boca de minha mãe:
"Cala, cala, meu menino,
terra-longe tem gente gentio
gente-gentio come gente".
Depois vieram os anos,
e, com eles, tantas saudades!...
Hoje, lá no fundo, gritam: vai!
Mas a voz da minha mãe,
a gemer de mansinho
cantigas da minha infância,
aconselha ao filho amado:
"Terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente".
Terra-longe! terra-longe!...
- Oh mãe que me embalaste
- Oh meu querer bipartido!
2 297
Luis Romano
Símbolo
O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.
Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.
Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".
1 282
Carlos Drummond de Andrade
A Decadência do Ocidente
No ano de 18,
plangem veteranos;
“Nosso jornalzinho
não é mais aquele.
Foi-se a Academia
de jovens talentos.
Os restantes árcades
jogam futebol.
Agora, estilistas,
só na arte do pé.
Somem os poetas,
vão-se os prosadores.
Não há mais cultura
e, se depender
dessa geração
de racha-piões,
que irá restar
do nosso idioma
e nossa tradição?
Ah, nos velhos tempos
isso aqui andava
cheio dos Camões,
dos Ruis, dos Bilacs
e dos Castros Lopes...”
plangem veteranos;
“Nosso jornalzinho
não é mais aquele.
Foi-se a Academia
de jovens talentos.
Os restantes árcades
jogam futebol.
Agora, estilistas,
só na arte do pé.
Somem os poetas,
vão-se os prosadores.
Não há mais cultura
e, se depender
dessa geração
de racha-piões,
que irá restar
do nosso idioma
e nossa tradição?
Ah, nos velhos tempos
isso aqui andava
cheio dos Camões,
dos Ruis, dos Bilacs
e dos Castros Lopes...”
1 048
Nóbrega e Sousa
Procuro e não te encontro
Procuro e não te encontro
não paro, nem volto atrás
Eu sei, dizem todos que é loucura
Eu andar à tua procura
Sabendo bem onde tu estás!
Procuro e não te encontro
Procuro nem sei o quê!
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas não te encontro!
Preferes a outra e queres
Que eu nunca, vá ter contigo
Por isso, tenho um caminho marcado
E vou procurar-te ao passado
Para lembrar o amor antigo
Procuro e não te encontro,
Procuro, nem sei o quê
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas... não te encontro!
não paro, nem volto atrás
Eu sei, dizem todos que é loucura
Eu andar à tua procura
Sabendo bem onde tu estás!
Procuro e não te encontro
Procuro nem sei o quê!
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas não te encontro!
Preferes a outra e queres
Que eu nunca, vá ter contigo
Por isso, tenho um caminho marcado
E vou procurar-te ao passado
Para lembrar o amor antigo
Procuro e não te encontro,
Procuro, nem sei o quê
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas... não te encontro!
1 509
António Gancho
Desenham-se no céu
Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o
fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu,
Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa também te vou cantar
Grande nostalgia do teu néon luminoso a sentir-se
dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céu
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o
fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu,
Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa também te vou cantar
Grande nostalgia do teu néon luminoso a sentir-se
dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céu
1 291
Carlos Drummond de Andrade
O Melhor Dos Tempos
Bailes bailes bailes
em nossa belle époque.
Em casa de João Torres
há saraus constantes.
Na de Chico Cândido,
na de Emílio Novais,
na de Zé Carvalho,
a valsa espirala
suas curvas lentas.
Sempre a serenata
prateia o silêncio
dos casarões altivos.
A flauta flautíssima
de Mário Terceiro
faz terremotos líricos.
Vavá, Clínton, Astolfo,
mais Totoque e Lilingue
rogam suavemente
que Stela abra a janela
e abrigue corações
transidos de frio,
desfeitos em música.
Quem ousa, noturno,
furtar jabuticabas
em quintais caninos,
é para deixá-las,
votivas,
no peitoril das deusas
de boa família,
anonimamente.
Já de madrugada
os meigos ladrões
e magos cantores
lá vão degustar
os pastéis de queijo
de João Bicudo,
o licor discutível
de Zé Pereira.
Manhã rósea, passa
o batalhão infantil
(Minervino comanda)
e bate continência
às gentis moçoilas.
Tudo é mimo, graça.
Belle époque é fato
da história mineira.
em nossa belle époque.
Em casa de João Torres
há saraus constantes.
Na de Chico Cândido,
na de Emílio Novais,
na de Zé Carvalho,
a valsa espirala
suas curvas lentas.
Sempre a serenata
prateia o silêncio
dos casarões altivos.
A flauta flautíssima
de Mário Terceiro
faz terremotos líricos.
Vavá, Clínton, Astolfo,
mais Totoque e Lilingue
rogam suavemente
que Stela abra a janela
e abrigue corações
transidos de frio,
desfeitos em música.
Quem ousa, noturno,
furtar jabuticabas
em quintais caninos,
é para deixá-las,
votivas,
no peitoril das deusas
de boa família,
anonimamente.
Já de madrugada
os meigos ladrões
e magos cantores
lá vão degustar
os pastéis de queijo
de João Bicudo,
o licor discutível
de Zé Pereira.
Manhã rósea, passa
o batalhão infantil
(Minervino comanda)
e bate continência
às gentis moçoilas.
Tudo é mimo, graça.
Belle époque é fato
da história mineira.
570
Carlos Drummond de Andrade
Os Charadistas
Passam a vida lenta decifrando
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
578
Albano Dias Martins
Dêem-me
um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
in:Vertical
o Desejo(1985)
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
in:Vertical
o Desejo(1985)
1 175
Carlos Drummond de Andrade
Ordem
Quando a folhinha de Mariana
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.
Hoje quem é que pode?
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.
Hoje quem é que pode?
661
Sophia de Mello Breyner Andresen
Há Muito
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza
2 927
Marta Gonçalves
Meninas de Tamancos
Cirandas jogando tempo
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
1 133
Marta Gonçalves
O Vento no Rosto
Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
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Carlos Drummond de Andrade
Vida Vidinha
A solteirona e seu pé de begônia
a solteirona e seu gato cinzento
a solteirona e seu bolo de amêndoas
a solteirona e sua renda de bilro
a solteirona e seu jornal de modas
a solteirona e seu livro de missa
a solteirona e seu armário fechado
a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos
a solteirona e seu bandolim
a solteirona e seu noivo-retrato
a solteirona e seu tempo infinito
a solteirona e seu travesseiro
ardente, molhado
de soluços.
a solteirona e seu gato cinzento
a solteirona e seu bolo de amêndoas
a solteirona e sua renda de bilro
a solteirona e seu jornal de modas
a solteirona e seu livro de missa
a solteirona e seu armário fechado
a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos
a solteirona e seu bandolim
a solteirona e seu noivo-retrato
a solteirona e seu tempo infinito
a solteirona e seu travesseiro
ardente, molhado
de soluços.
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