Poemas neste tema

Nostalgia

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro

Inter-Sonho

Numa incerta melodia
Toda a minh’alma se esconde
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia…

Manhã d’armas! Manhã d’armas!
Romaria! Romaria!

…………………………………………………………….

Tateio… dobro… resvalo…

…………………………………………………………….

Princesas de fantasia
Desencantam-se das flores…

…………………………………………………………….

Que pesadelo tão bom…

…………………………………………………………….

Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…
595
Friedrich Hölderlin

Friedrich Hölderlin

Metade da vida

Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.

 

Hälfte des lebens
Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.


– Friedrich Hölderlin. “Hälfte des Lebens”/”Metade da vida”, [tradução Manuel Bandeira]. in: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

906
Arthur Fortes

Arthur Fortes

Mágoa Renitente

Há nesta vida instantes dulçurosos
Concedidos às almas desgraçadas,
Que são, bem como as claras madrugadas,
Alvos, meigos, brilhantes, luminosos!

Esquecidos da mágoa, descuidosos,
Vamos então a rir pelas estradas,
Vendo alegres nas flores orvalhadas
A miragem dos dias venturosos!

Foi-me cedido o dúlcido momento
De me não mais ralar esse tormento
Desta ausência cruel, nossa inimiga!

Mas, ai de mim! Depressa te partiste,
E invadiu-me de novo a dor antiga,
Escura e fria, pavorosa e triste.

895
Akiko Yosano

Akiko Yosano

Tanka III

“Kyoto é um lugar
de dolorosas recordações...”
escrevi até aí
quando olhei para baixo
e notei a brancura do rio Kamo
822
Lois Pereiro

Lois Pereiro

Somentes

Somentes

intentaba conseguir

deixar na terra

algo de min que me sobrevivise

sabendo que deberia ter sabido

impedirme a min mesmo

descubrir que só fun un interludio

atroz entre dous muros de silencio

só puiden evitar vivindo á sombra

inocularlle para sempre a quen amaba

doses letais do amor que envelenaba

a súa alma cunha dor eterna

sustituíndo o desexo polo exilio

iniciei a viaxe sen retorno

deixándome levar sen resistencia

ó fondo dunha interna

aniquilación chea de nostalxia.



1 208
Angela Santos

Angela Santos

Longitudinal

Olhamos
os seres da gestação
espaço de chegada e de onde partimos,
viscosos restos de vidas vagas
desprendem-se da memória
lâmina

Nostálgicos retratos
do futuro adiante,
um adeus expresso em nossas vidas
longitudinal e sem remédio

roem interiores
os vermes da ausência
esse tanto que quisemos
esse pouco que logramos
esse nada que soubemos
da inexplicável presença.

688
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Ronchamp

Um pedaço de parede
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando

Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
515
Jean-Baptiste Tati Loutard

Jean-Baptiste Tati Loutard

Notícias de minha mãe

Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
919
Angela Santos

Angela Santos

Eco

Rasgo
a sulcos o corpo

da memória,
vivos permanecem todos os tempos

em mim…
É um nome antigo aquele que oiço,
antigo o sonho que me leva.

1 224
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Saudade

Quero cantar a saudade da pátria apesar do
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço

e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
1 820
da Costa e Silva

da Costa e Silva

Saudade

Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!


Publicado no livro Pandora (1919).

In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.22
2 398
Lila Ripoll

Lila Ripoll

Cantiga de Roda

"Bota terra no meu lenço,
pra plantá manjericão."
— Ai! versos da minha infância,
meus anos não volverão.

"Atirei um limão verde
por cima da sacristia."
— Ai! vozes que me prenderam
a um passado de alegria!

"Menina, minha menina,
cinturinha de retrós."
— Ai! balcão de nossa loja,
onde andarão meus avós?

"O cravo brigou com a rosa
defronte de uma sacada."
— Ai! cantigas esquecidas,
crianças de mãos trançadas.

"Roda, roda cirandinha,
vamos todos cirandar."
— Ai! prendas da minha infância,
deixem meus olhos chorar!

"Lá vem o sol, vem chegando
redondo como um botão."
— Ai! joguem terra em meu corpo
mas deixem meu coração.

Ai! joguem terra em meu corpo
mas poupem meu coração.

Botem terra no meu corpo
mas plantem manjericão!


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.78-7
2 589
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Expressionismo

Ônibus bêbedos tropeçam nas calçadas
Clichy-Odéon
O Sena sujo acaricia as pontes cansadas
Oito horas e ainda não é noite
Os barcos enfileirados
escorregam lesmamente
Atravancamentos
Assovios do pliceman a cavalo
Posso atravessar
A Torre Eiffel tem tanta pena do obelisco!
O boi e o sapo fábula moderna
Sexo conquistador
O mundo abre os joelhos
Meu Pantheon tão negro no meio
das casas debruçadas e curiosas
As janelas são olhos que se acendem um depois do outro
e daqui há duas horas
verei a Cidade-Luz!

Blaise Cendrars - Jean Cocteau - Vildrac - Appollinaire

Quartier Latin tão querido dos vagabundos
Lentamente subo para Montmartre
como alguém que volta para casa
com muito spleen

Pigalle cabarés
Morand não escreveu a noite de Montmartre
Lapin Agile
Casas baixas
Nostalgia do meu sol
Bonés
O coração da manhã falava em crimes bizarros
Mas eu não temo roubos
Debruçado sobre um balcão duvidoso
bebes conhaque
Meus amigos querem crônicas!
Hotel Meublé
Maryland
E um pouco do meu país
alastra-se pela prisão pequena...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.51-52. (Autores brasileiros, 19
1 328
Angela Santos

Angela Santos

Em má companhia

Olho
o meu passado
vejo os sonhos apagando-se
ainda inteiros
e não sei como trazia tais sonhos
em mim

Onde me perdi,
o que perdi no caminho
por onde seguiram meus passos
que os vejo lá marcados no chão
e eu presa aqui?

Ah! Esta solidão que farta…

Nem Deus, nem o Diabo
comigo vão
sobrei eu no meio desta
imensidão
apenas eu comigo,
e da companhia me cansei.

1 109
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Em Minhas Mãos

Em minhas mãos
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.

A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.

Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.

Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.

Estas palavras ardem em minhas mãos.

(São Paulo 1976)


Poema integrante da série II. Sentimental.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
841
Alcides Villaça

Alcides Villaça

Matinê

madalena era tão grave com duas tranças

recusou minha mão no cinema embora o combinado
e seu vestido branco fosse para mim

há quem ache melosas as fotos amarelas.
não são, proustianas madalenas
guerrilham e sangram sob o leve organdi


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
1 466
Umberto Saba

Umberto Saba

Prelúdio

Voltai a mim, ó vozes de outro tempo,
caras vozes discordes!
Quem sabe se em tristíssimos acordes
eu não vos faço ainda ressoar?

O dealbar
de mim está longe e as noites chegam plenas.
Poucas horas serenas
a dor me deixa, a minha e a de quantos
seres tenho em torno.
Oh, sêde retorno,
vozes quase esquecidas!

Talvez última vez que em qualquer seio
- o meu - sereis ouvidas.
Como os meus pais me deram duas vidas,
e de as fundir em uma fui capaz,
em paz
vos comporeis em extremo acorde,
ó vozear em vão discorde.
E luz e sombra e alegria e dor
se amam em vós.
Oh, regressai a nós,
caras vozes de outro tempo!
1 033
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Tarde de Outono

Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
Alfred de Musset

O Poeta:

Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?

A Saudade:

De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.

O Poeta:

Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.

A Saudade:

Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.

O Poeta:

Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?

A Saudade:

A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!

O Poeta:

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.

A Saudade:

Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.

O Poeta:

Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minhalma se esvaía
E eu pensava ali morrer!

A Saudade:

É berço de mistério e dharmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!

O Poeta:

Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
.........................................
.........................................

3 109
Rita Barém de Melo

Rita Barém de Melo

Que pensas?

Que pensas agora, que dor tão profunda
As fibras do peito me vem estalar?
Talvez de saudades tualma se inunda,
Que a vida passada te faz recordar!

Também esta mente saudosa delira,
Que flor da tristeza só vem oscular,
Em pranto dorido minh alma suspira
Sonhando contigo num doce lembrar.

As juras sagradas que em tão meigo enleio
Juraste é o a fala convulsa damor,
Ainda palpitam aqui neste seio,
Qu enluta amargoso, pungente tristor!

E sempre a lembrança da louca ternura
Abrasa a minhalma de longa paixão,
Que desse passado, rosal de ventura,
Eu tenho o perfume no meu coração!

Ai doces momentos em férvido pranto,
Te digo chorando bem trêmulo - adeus...
Ai doces momentos, d enlevo tão santo,
Ai vida d amores tão puros, meu Deus!

(Porto Alegre, 8 de outubro de 1856)



1 265
Raquel Naveira

Raquel Naveira

Cabelo

Estou triste,
Cortei o cabelo.
Näo sou mais adolescente
De tranças
E olhos lânguidos.
Näo sou mais moça,
Balançando a crina,
Como égua musculosa
Na colina.
Näo sou mais princesa,
Usando tiaras,
Arrastando a coma
Como se tivesse na cabeça
A cauda de um cometa.
Adeus, cabelame !
Derrame de seiva sobre meus ombros,
Véu natural
Com que penetrava câmaras ardentes.
Por que cortei o cabelo ?
Por que näo o mantive longo,
Mesmo branco e seco,
Preso na nuca
Por marfim e pentes ?

(1995)

1 187
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Saudade

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...

1 822
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Lembranças

Lembro-me da Riviera Francesa,
das ruas do Boulevar,
dos bares, dos cafés,
das ruas e alamedas
por onde passamos.
Lembro-me de todos os lugares
onde estivemos,
dos momentos que sorrimos,
das palavras que soletramos,
dos teus olhos me fitando,
das tuas mãos me afagando
com cheiro de licor de café.
Lembro-me dos teus cabelos
repousando no meu ombro,
da tua pele que me hidratava,
do teu suor com gosto
de morangos silvestres.
Lembro-me do teu beijo calado
com vontade de quero mais.
Lembro-me de ti
sentado no banco do jardim
despindo-me com teu olhar.

995
Lago Burnett

Lago Burnett

A Última Canção da Ilha

Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial

Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)

A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas

Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo

Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte

Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas

Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo

Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís

Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho

Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias

A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato

Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas

(Os Elementos do Mito / l953)

936
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Acontecimento do Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

1 316