Poemas neste tema
Nostalgia
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 214
Fernando Pessoa
THE BELLS
Ring, bells, ring - ring out clear!
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
1 427
Manuel Bandeira
Cartas de meu Avô
A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.
E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
Às cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.
Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.
Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.
Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...
A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também
A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.
Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.
E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu — fruto sem cuidado
Que inda verde apodreceu.
O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças...
E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.
E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que, meu avô
Escrevia a minha avó.
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.
E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
Às cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.
Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.
Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.
Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...
A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também
A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.
Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.
E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu — fruto sem cuidado
Que inda verde apodreceu.
O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças...
E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.
E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que, meu avô
Escrevia a minha avó.
1 893
1
Jose Luis Appleyard
O tempo
Já é ontem porém então era sempre
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
853
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [b]
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 540
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 752
Homero Exposito
Laranjeira em flor
Era mais branda que a água
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
1 052
Manuel Bandeira
Enquanto Morrem as Rosas
Morre a tarde. Erra no ar a divina fragrância.
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
1 527
Mercedez Vasconcellos
Para o Poeta José Luís Conti
Recolhendo tristezas sem lágrimas, o poeta
percorre distâncias imaginárias e silenciosas
de caminhos que ainda brilham.
Encontra vida nos jardins da existência e se
deixa encantar no encanto das melhores e
saudosas lembranças.
No cheiro do café e do pão quentinhos, existe
parte de uma criança sedenta e feliz, sem
tristezas e grandes saudades, mesmo porque, as
marcas do tempo não chegaram.
percorre distâncias imaginárias e silenciosas
de caminhos que ainda brilham.
Encontra vida nos jardins da existência e se
deixa encantar no encanto das melhores e
saudosas lembranças.
No cheiro do café e do pão quentinhos, existe
parte de uma criança sedenta e feliz, sem
tristezas e grandes saudades, mesmo porque, as
marcas do tempo não chegaram.
880
Fernando Pessoa
OS EMIGRADOS
OS EMIGRADOS
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
969
Manuel Bandeira
Peregrinação
O córrego é o mesmo.
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.
Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
— Mim daqueles tempos!
Petrópolis, 12.3.1943
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.
Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
— Mim daqueles tempos!
Petrópolis, 12.3.1943
1 267
Myriam Fraga
Salomé
Tantos anos depois
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...
— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.
— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.
Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.
A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.
Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.
O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.
Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.
O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.
Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.
Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,
Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.
E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.
Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...
— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.
— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.
Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.
A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.
Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.
O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.
Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.
O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.
Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.
Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,
Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.
E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.
Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
1 400
Mario Benedetti
Rosto de ti
Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
2 826
Manuel Sobrinho
São Francisco
Ó triste e pobretã cidade maranhense!
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
720
Eduardo Guimaraens
Dentro da noite, misteriosamente
Dentro da noite, misteriosamente,
que estranha voz pelos jardins perpassa,
como um murmúrio, um segredo dolente?
E ao coração da noite se entrelaça?
Que estranha voz pelos jardins perpassa,
como a sombra de alguém que, além, fugisse?
E ao coração da noite se entrelaça,
a recordar o adeus que eu te não disse?
Como a sombra de alguém que, além fugisse,
ouço essa estranha voz que me adolora,
a recordar o adeus que eu te não disse,
sob o esplendor da derradeira aurora.
Ouço essa estranha voz que me adolora,
como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
sob o esplendor da derradeira aurora,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo.
Como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
nostálgico, o teu nome segredando,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo,
pela noite sonâmbulo, sonhando!
Nostálgico, o teu olhar segredando,
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
pela noite sonâmbulo, sonhando...
Sinto o travor da lágrima secreto.
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
como o verso de um canto inesquecido.
Sinto o travor da lágrima secreto.
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Como o verso de um canto inesquecido,
por que tornaste a minha boca ansiosa?
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Oh, sensitiva angústia dolorosa!
Por que tornaste a minha boca ansiosa,
sombra de outrora que o passado acorda?
Oh, sensitiva angústia dolorosa
por todo o mal que esta paixão recorda!
Sombra de outrora que o passado acorda
e ao coração da noite se entrelaça,
por todo o mal que esta paixão recorda,
que estranha voz pelos jardins perpassa
e ao coração da noite se entrelaça?
Como um murmúrio, um segredar dolente,
que estranha voz pelos jardins perpassa,
dentro da noite, misteriosamente?
Imagem - 00350001
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
que estranha voz pelos jardins perpassa,
como um murmúrio, um segredo dolente?
E ao coração da noite se entrelaça?
Que estranha voz pelos jardins perpassa,
como a sombra de alguém que, além, fugisse?
E ao coração da noite se entrelaça,
a recordar o adeus que eu te não disse?
Como a sombra de alguém que, além fugisse,
ouço essa estranha voz que me adolora,
a recordar o adeus que eu te não disse,
sob o esplendor da derradeira aurora.
Ouço essa estranha voz que me adolora,
como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
sob o esplendor da derradeira aurora,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo.
Como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
nostálgico, o teu nome segredando,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo,
pela noite sonâmbulo, sonhando!
Nostálgico, o teu olhar segredando,
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
pela noite sonâmbulo, sonhando...
Sinto o travor da lágrima secreto.
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
como o verso de um canto inesquecido.
Sinto o travor da lágrima secreto.
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Como o verso de um canto inesquecido,
por que tornaste a minha boca ansiosa?
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Oh, sensitiva angústia dolorosa!
Por que tornaste a minha boca ansiosa,
sombra de outrora que o passado acorda?
Oh, sensitiva angústia dolorosa
por todo o mal que esta paixão recorda!
Sombra de outrora que o passado acorda
e ao coração da noite se entrelaça,
por todo o mal que esta paixão recorda,
que estranha voz pelos jardins perpassa
e ao coração da noite se entrelaça?
Como um murmúrio, um segredar dolente,
que estranha voz pelos jardins perpassa,
dentro da noite, misteriosamente?
Imagem - 00350001
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
1 124
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 180
Marina Colasanti
ACQUA MARCIA
Em todo lugar sou estrangeira
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
1 608
Marcelo Penido Silva
A fonte luminosa
A fonte luminosa da praça
não brilha mais.
Suas luzes secas esgotaram-se
na noite de anos atrás;
suas águas tão lúcidas
apagaram-se ruivas
no rosto verde
azul dos casais.
E o poço de outrora
agora repousa
apenas auroras
e um canto roxo e repleto
do luar vazio
da lua nova.
E a última gota
os casais perguntam
- seria rosa? -
A última boca,
suspensa num beijo :
nossa.
não brilha mais.
Suas luzes secas esgotaram-se
na noite de anos atrás;
suas águas tão lúcidas
apagaram-se ruivas
no rosto verde
azul dos casais.
E o poço de outrora
agora repousa
apenas auroras
e um canto roxo e repleto
do luar vazio
da lua nova.
E a última gota
os casais perguntam
- seria rosa? -
A última boca,
suspensa num beijo :
nossa.
852
António Carlos Cortez
É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho
Hoje sou eu quem como o rio transluz
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
692
António Carlos Cortez
Poética
Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
587
Micheliny Verunschk
Grindley
Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
1 079
Maria de Lourdes Hortas
Página de Diário
Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
1 004
Manuel António Pina
Neste preciso tempo, neste preciso lugar
No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?
Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?
Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.
2 057
Maria Lúcia Dal Farra
Vida cava
Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
635