Poemas neste tema
Nostalgia
Fernando Pessoa
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
1 337
Carlos Drummond de Andrade
Aqui Havia Uma Praça
A Praça da Estação em Belo Horizonte,
duas vezes a conheci: antes e depois das rosas.
Era a mesma praça, com a mesma dignidade,
o mesmo recado para os forasteiros:
“Esta cidade é uma promessa de conhecimento,
talvez de amor”.
A segunda Estação da Central, inaugurada por Epitácio,
o Monumento do Starace, encomendado por Antônio Carlos,
são feios? São belos?
São linhas de um rosto, marcas de vida.
A praça de entrada de Belo Horizonte,
mesmo esquecida, mesmo abandonada pelos Poderes Públicos,
conta pra gente uma história pioneira
de homens antigos criando realidades novas.
É uma praça — forma de permanência no tempo —
e merece respeito.
Agora querem levar para lá o metrô de superfície.
Querem massacrar a memória urbana, alma da cidade,
num de seus últimos pontos sensíveis e visíveis.
Esvoaça crocitante sobre a Praça da Estação
o Metrobel decibel a granel sem quartel.
Planejadores oficiais insistem em fazer de Belo Horizonte
linda linda linda de embalar saudade
mais uma triste anticidade.
25/08/1981
duas vezes a conheci: antes e depois das rosas.
Era a mesma praça, com a mesma dignidade,
o mesmo recado para os forasteiros:
“Esta cidade é uma promessa de conhecimento,
talvez de amor”.
A segunda Estação da Central, inaugurada por Epitácio,
o Monumento do Starace, encomendado por Antônio Carlos,
são feios? São belos?
São linhas de um rosto, marcas de vida.
A praça de entrada de Belo Horizonte,
mesmo esquecida, mesmo abandonada pelos Poderes Públicos,
conta pra gente uma história pioneira
de homens antigos criando realidades novas.
É uma praça — forma de permanência no tempo —
e merece respeito.
Agora querem levar para lá o metrô de superfície.
Querem massacrar a memória urbana, alma da cidade,
num de seus últimos pontos sensíveis e visíveis.
Esvoaça crocitante sobre a Praça da Estação
o Metrobel decibel a granel sem quartel.
Planejadores oficiais insistem em fazer de Belo Horizonte
linda linda linda de embalar saudade
mais uma triste anticidade.
25/08/1981
1 741
Fernando Pessoa
Breve o inverno virá com sua branca
Breve o inverno virá com sua branca
Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
Dizíamos ao sol
O ave atque vale triste e alegre,
Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
Como um rio passemos.
Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
Dizíamos ao sol
O ave atque vale triste e alegre,
Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
Como um rio passemos.
1 298
Fernando Pessoa
Passando a vida em ver passar a de outros,
Passando a vida em ver passar a de outros,
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
1 356
Manuel Bandeira
Soneto em Louvor de Augusto Frederico Schmidt
Nos teus poemas de cadências bíblicas
Recolheste o som das coisas mais efêmeras:
O vento que enternece as praias desertas,
O desfolhar das rosas cansadas de viver,
As vozes mais longínquas da infância,
Os risos emudecidos das amadas mortas:
Matilde, Esmeralda, a misteriosa Luciana,
E Josefina, complicado ser que é mulher e é também o Brasil.
A tudo que é transitório soubeste
Dar, com a tua grave melancolia,
A densidade do eterno.
Mais de uma vez fizeste aos homens advertências terríveis.
Mas tua glória maior é ser aquele
Que soube falar a Deus nos ritmos de sua palavra.
10 de setembro de 1940
SONETO PLAGIADO
DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
E de súbito n'alma incompreendida
Esta mágoa, esta pena, esta agonia;
Nos olhos ressequidos a sombria
Fonte de pranto, quente e irreprimida.
No espírito deserto a impressentida
Misteriosa presença que não via;
A consciência do mal que não sabia,
Aparecida, desaparecida...
Até bem pouco, era uma imagem baça.
Agora, neste instante de certeza,
Surgindo claro, como nunca o vi!
E nesse olhar tocado pela graça
Do céu, não sei que angélica pureza,
— Pureza que não tenho, que perdi.
Recolheste o som das coisas mais efêmeras:
O vento que enternece as praias desertas,
O desfolhar das rosas cansadas de viver,
As vozes mais longínquas da infância,
Os risos emudecidos das amadas mortas:
Matilde, Esmeralda, a misteriosa Luciana,
E Josefina, complicado ser que é mulher e é também o Brasil.
A tudo que é transitório soubeste
Dar, com a tua grave melancolia,
A densidade do eterno.
Mais de uma vez fizeste aos homens advertências terríveis.
Mas tua glória maior é ser aquele
Que soube falar a Deus nos ritmos de sua palavra.
10 de setembro de 1940
SONETO PLAGIADO
DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
E de súbito n'alma incompreendida
Esta mágoa, esta pena, esta agonia;
Nos olhos ressequidos a sombria
Fonte de pranto, quente e irreprimida.
No espírito deserto a impressentida
Misteriosa presença que não via;
A consciência do mal que não sabia,
Aparecida, desaparecida...
Até bem pouco, era uma imagem baça.
Agora, neste instante de certeza,
Surgindo claro, como nunca o vi!
E nesse olhar tocado pela graça
Do céu, não sei que angélica pureza,
— Pureza que não tenho, que perdi.
1 193
Ruy Belo
Homeoptoto
Soubesse eu que me aceitas
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)
Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem
Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)
Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem
Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 217
Vinicius de Moraes
Epitalâmio
Esta manhã a casa madruguei.
Havia elfos alados nos gelados
Raios de sol da sala quando entrei.
Sentada na cadeira de balanço
Resplendente, uma fada balançava-se
Numa poça de luz. Minha chegada
Gigantesca assustou os gnomos mínimos
Que vertiginosamente se escoaram
Pelas frinchas dos rodapés. A estranha
Presença matinal do ser noturno
Desencadeou no cerne da matéria
O entusiasmo dos átomos. Coraram
Os móveis decapês, tremeram os vidros
Estalaram os armários de alegria.
Eram os claros cristais de luz tão frágeis
Que ao tocar um, desfez-se nos meus dedos
Em poeira translúcida, vibrando
Tremulinas e harpejos inefáveis.
Era o inverno, ainda púbere. Bebi
Sofregamente um grande copo de ar
E recitei o meu epitalâmio.
Nomes como uma flor, uma explosão
De flor, vieram da infância envolta em trevas
Penetrados de vozes. Num segundo
Pensei ver o meu próprio nascimento
Mas fugi, tive medo. Não devera
A poesia...
Tão extremo era o transe matutino
Que pareceu-me haver perdido o peso
E esquecido dos meus trinta e quatro anos
Da clássica ruptura do menisco
E das demais responsabilidades
Pus-me a correr à volta do sofá
Atrás de prima Alice, a que morreu
De consumpção e me deixava triste.
Infelizmente acrescentei em quilos
E logo me cansei; mas as asinhas
Nos calcanhares eram bimotores
A querer arrancar. Pé ante pé
Fui esconder-me atrás da geladeira
O corpo em bote, os olhos em alegria
Para esperar a entrada de Maria
A empregada da Ilha, também morta
Mas de doença de homem — que era aquela
Confusão de querer-se e malquerer-se
Aquela multiplicação de seios
Aquele desperdício de saliva
E mãos, transfixiantes, nomes feios
E massas pouco a pouco se encaixando
Em decúbito, até a grande inércia
Cheia de mar (Maria era mulata!).
Depois foi Nina, a plácida menina
Dos pulcros atos sem concupiscência
Que me surgiu. Mandava-me missivas
Cifradas que eu, terrível flibusteiro
Escondia no muro de uma casa
(Esqueci de que casa...) Mas surpresa
Foi quando vi Alba surgir da aurora
Alba, a que me deixou examiná-la
Grande obstetra, com a lente de aumento
Dos textos em latim de meu avô
Alba, a que amava as largatixas secas
Alba, a ridícula, morta de crupe.
Milagre da manhã recuperada!
A infância! Sombra, és tu? Até tu, Sombra...
Sombra, contralto, entre os paralelepípedos
Do coradouro do quintal. Oh, tu
Que me violaste, negra, sobre o linho
Muito obrigado, tenebroso Arcanjo
De ti me lembrarei! Bom dia, Linda
Como estás bela assim descalça, Linda
Vem comigo nadar! O mar é agora
A piscina de Onã, de lodo e alga...
Quantos cajus tu me roubaste, feia
Quanto silêncio em teus carinhos, Linda
Longe, nas águas...Sim! é a minha casa
É a minha casa, sim, a um grito apenas
Da praia! Alguém me chama, é a gaivota
Branca, é Marina! (A doida já chegava
Desabotoando o corpete de menina...)
Marina, como vais, jovem Marina
Deslembrada Marina... Vejo Vândala
A rústica, a operária, a compulsória
Que nos levava aos dez para os baldios
Da Fábrica, e como aos bilros, hábil
Aos dez de uma só vez manipulava
Em francas gargalhadas, e dizia
De mim: Ai, que este é o mais levado!
(Pela mulher, sim, Vândala, obrigado...)
E tu, Santa, casada, que me deste
O Coração, posto que de De Amicis
Tu que calçavas longamente as meias
Pretas que me tiraram o medo à treva
E às aranhas... some, jetatura
Masturbação, desassossego, insônia!
Mas tu, pequena Maja, sê bem-vinda:
Lembra-me tuas tranças; recitavas
Fazias ponto-à-jour, tocavas piano
Pequena Maja... Foi preciso um ano
De namoro fechado, irmão presente
Para me dares, louco, de repente
Tua mão, como um pássaro assustado.
No entanto te esqueci ao ver Altiva
Princesa absurda, cega, surda e muda
Ao meu amor, embora me adorando
De adoração tão pura. Tua cítara
Me ensinou um ódio estúpido à Elegia
De Massenet. Confesso, dispensava a cítara
Ia beber desesperado. Mas
Foi contigo, Suave, que o poeta
Apreendeu o sentido da humildade.
Estavas sempre à mão. Telefonava:
Vamos? Vinhas. Inda virias. Tinhas
Um riso triste. Foi o nada quereres
Que tão pouco te deu, tristonha ave...
Quanta melancolia! No cenário
Púrpura, surges, Pútrida, luética
Deusa amarela, circunscrita imagem...
Obrigado no entanto pelos êxtases
Aparentes; lembro-me que brilhava
Na treva antropofágica teu dente
De ouro, como um fogo em terra firme
Para o homem a nadar-te, extenuado.
Mas que não fuja ainda a enunciada
Visão... Clélia, adeus minha Clélia, adeus!
Vou partir, pobre Clélia, navegar
No verde mar... vou me ausentar de ti!
Vejo chegar alguém que me procura
Alguém à porta, alguma desgraçada
Que se perdeu, a voz no telefone
Que não sei de quem é, a com que moro
E a que morreu... Quem és, responde!
És tu a mesma em todas renovada?
Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu!
Havia elfos alados nos gelados
Raios de sol da sala quando entrei.
Sentada na cadeira de balanço
Resplendente, uma fada balançava-se
Numa poça de luz. Minha chegada
Gigantesca assustou os gnomos mínimos
Que vertiginosamente se escoaram
Pelas frinchas dos rodapés. A estranha
Presença matinal do ser noturno
Desencadeou no cerne da matéria
O entusiasmo dos átomos. Coraram
Os móveis decapês, tremeram os vidros
Estalaram os armários de alegria.
Eram os claros cristais de luz tão frágeis
Que ao tocar um, desfez-se nos meus dedos
Em poeira translúcida, vibrando
Tremulinas e harpejos inefáveis.
Era o inverno, ainda púbere. Bebi
Sofregamente um grande copo de ar
E recitei o meu epitalâmio.
Nomes como uma flor, uma explosão
De flor, vieram da infância envolta em trevas
Penetrados de vozes. Num segundo
Pensei ver o meu próprio nascimento
Mas fugi, tive medo. Não devera
A poesia...
Tão extremo era o transe matutino
Que pareceu-me haver perdido o peso
E esquecido dos meus trinta e quatro anos
Da clássica ruptura do menisco
E das demais responsabilidades
Pus-me a correr à volta do sofá
Atrás de prima Alice, a que morreu
De consumpção e me deixava triste.
Infelizmente acrescentei em quilos
E logo me cansei; mas as asinhas
Nos calcanhares eram bimotores
A querer arrancar. Pé ante pé
Fui esconder-me atrás da geladeira
O corpo em bote, os olhos em alegria
Para esperar a entrada de Maria
A empregada da Ilha, também morta
Mas de doença de homem — que era aquela
Confusão de querer-se e malquerer-se
Aquela multiplicação de seios
Aquele desperdício de saliva
E mãos, transfixiantes, nomes feios
E massas pouco a pouco se encaixando
Em decúbito, até a grande inércia
Cheia de mar (Maria era mulata!).
Depois foi Nina, a plácida menina
Dos pulcros atos sem concupiscência
Que me surgiu. Mandava-me missivas
Cifradas que eu, terrível flibusteiro
Escondia no muro de uma casa
(Esqueci de que casa...) Mas surpresa
Foi quando vi Alba surgir da aurora
Alba, a que me deixou examiná-la
Grande obstetra, com a lente de aumento
Dos textos em latim de meu avô
Alba, a que amava as largatixas secas
Alba, a ridícula, morta de crupe.
Milagre da manhã recuperada!
A infância! Sombra, és tu? Até tu, Sombra...
Sombra, contralto, entre os paralelepípedos
Do coradouro do quintal. Oh, tu
Que me violaste, negra, sobre o linho
Muito obrigado, tenebroso Arcanjo
De ti me lembrarei! Bom dia, Linda
Como estás bela assim descalça, Linda
Vem comigo nadar! O mar é agora
A piscina de Onã, de lodo e alga...
Quantos cajus tu me roubaste, feia
Quanto silêncio em teus carinhos, Linda
Longe, nas águas...Sim! é a minha casa
É a minha casa, sim, a um grito apenas
Da praia! Alguém me chama, é a gaivota
Branca, é Marina! (A doida já chegava
Desabotoando o corpete de menina...)
Marina, como vais, jovem Marina
Deslembrada Marina... Vejo Vândala
A rústica, a operária, a compulsória
Que nos levava aos dez para os baldios
Da Fábrica, e como aos bilros, hábil
Aos dez de uma só vez manipulava
Em francas gargalhadas, e dizia
De mim: Ai, que este é o mais levado!
(Pela mulher, sim, Vândala, obrigado...)
E tu, Santa, casada, que me deste
O Coração, posto que de De Amicis
Tu que calçavas longamente as meias
Pretas que me tiraram o medo à treva
E às aranhas... some, jetatura
Masturbação, desassossego, insônia!
Mas tu, pequena Maja, sê bem-vinda:
Lembra-me tuas tranças; recitavas
Fazias ponto-à-jour, tocavas piano
Pequena Maja... Foi preciso um ano
De namoro fechado, irmão presente
Para me dares, louco, de repente
Tua mão, como um pássaro assustado.
No entanto te esqueci ao ver Altiva
Princesa absurda, cega, surda e muda
Ao meu amor, embora me adorando
De adoração tão pura. Tua cítara
Me ensinou um ódio estúpido à Elegia
De Massenet. Confesso, dispensava a cítara
Ia beber desesperado. Mas
Foi contigo, Suave, que o poeta
Apreendeu o sentido da humildade.
Estavas sempre à mão. Telefonava:
Vamos? Vinhas. Inda virias. Tinhas
Um riso triste. Foi o nada quereres
Que tão pouco te deu, tristonha ave...
Quanta melancolia! No cenário
Púrpura, surges, Pútrida, luética
Deusa amarela, circunscrita imagem...
Obrigado no entanto pelos êxtases
Aparentes; lembro-me que brilhava
Na treva antropofágica teu dente
De ouro, como um fogo em terra firme
Para o homem a nadar-te, extenuado.
Mas que não fuja ainda a enunciada
Visão... Clélia, adeus minha Clélia, adeus!
Vou partir, pobre Clélia, navegar
No verde mar... vou me ausentar de ti!
Vejo chegar alguém que me procura
Alguém à porta, alguma desgraçada
Que se perdeu, a voz no telefone
Que não sei de quem é, a com que moro
E a que morreu... Quem és, responde!
És tu a mesma em todas renovada?
Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu!
1 391
José Bonifácio, o Moço
Adeus de Gonzaga
Adeus, Marília, adeus! O sonho corre,
Vai-se gastando a vida, vai fugindo;
Estremece-me a voz, ei-la que morre,
Inda o teu doce nome repetindo.
Uma hora lá vem, outra decorre,
E eu vejo em pranto o teu rosto lindo!
Adeus, Marília, adeus! A sepultura
Abre-me agora um leito em terra escura.
Ai! como é feia a terra do desterro!
Aqui não sopra a minha pátria aragem;
Aqui lançou-me a liberdade — o erro
De prestar à inocência vassalagem;
Aqui no chão do exílio, onde me enterro
Inda plácida brilha-me tua imagem!
Luar das minhas noites, sol do dia,
O corpo aquece-me — eis a terra fria!
(...)
Ai! Marília, Marília! Que é da vida
Que em meus braços contigo então sonhava?!
A casa, o ribeirão, a luz sumida,
Detrás do monte... além... que desmaiava;
Da ovelha desgarrada a voz perdida,
O gado que sozinho ali pastava;
O chão, a relva, a fonte, as lindas flores,
Nosso céu, nossa luz, nossos amores?!
Nada, nada ficou!... neste deserto
O tênue sopro desta vida expira;
Mal bate o coração, já não aceito
Esses hinos de amor que a alma delira!
Eis lá na sepultura vejo ao perto
Murchas coroas e quebrada lira,
Trevas, silêncio... solidão... horror!
Nem um pranto... um gemido... uma só flor!
S. Paulo, 1848.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado nas Harmonias Brasileiras, São Paulo, 185
Vai-se gastando a vida, vai fugindo;
Estremece-me a voz, ei-la que morre,
Inda o teu doce nome repetindo.
Uma hora lá vem, outra decorre,
E eu vejo em pranto o teu rosto lindo!
Adeus, Marília, adeus! A sepultura
Abre-me agora um leito em terra escura.
Ai! como é feia a terra do desterro!
Aqui não sopra a minha pátria aragem;
Aqui lançou-me a liberdade — o erro
De prestar à inocência vassalagem;
Aqui no chão do exílio, onde me enterro
Inda plácida brilha-me tua imagem!
Luar das minhas noites, sol do dia,
O corpo aquece-me — eis a terra fria!
(...)
Ai! Marília, Marília! Que é da vida
Que em meus braços contigo então sonhava?!
A casa, o ribeirão, a luz sumida,
Detrás do monte... além... que desmaiava;
Da ovelha desgarrada a voz perdida,
O gado que sozinho ali pastava;
O chão, a relva, a fonte, as lindas flores,
Nosso céu, nossa luz, nossos amores?!
Nada, nada ficou!... neste deserto
O tênue sopro desta vida expira;
Mal bate o coração, já não aceito
Esses hinos de amor que a alma delira!
Eis lá na sepultura vejo ao perto
Murchas coroas e quebrada lira,
Trevas, silêncio... solidão... horror!
Nem um pranto... um gemido... uma só flor!
S. Paulo, 1848.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado nas Harmonias Brasileiras, São Paulo, 185
1 589
Fernando Pessoa
Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Sempre que a humana alegria
Renasce, eles se voltam
Para a nossa saudade.
Sempre que a humana alegria
Renasce, eles se voltam
Para a nossa saudade.
1 333
Vinicius de Moraes
Soneto de Florença
Florença... que serenidade imensa
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença
Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença...
Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada
Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...
Rio, janeiro de 1953
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença
Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença...
Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada
Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...
Rio, janeiro de 1953
1 130
Vinicius de Moraes
Soneto da Hora Final
Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.
Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: — Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás: — Sê forte.
E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.
Montevidéu, julho de 1960
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.
Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: — Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás: — Sê forte.
E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.
Montevidéu, julho de 1960
1 043
Carlos Drummond de Andrade
Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem
Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
605
Fernando Pessoa
NAVAL ODE
Alone, on the deserted quay, this summer morning,
I look towards the bar, I look towards the Indefinite,
I look and find pleasure in seeing,
Little, black and clear, a steamer coming in.
It is very far yet, distinct and classic after its own fashion.
It leaves on the distant air behind it the vain curls of its smoke.
It is coming in, and morn comes in with it, and on the river
Here, there, naval life awakes,
Sails arise, tugs advance,
Small boats jut out from behind the ships in the port.
There is a vague breeze.
But my soul is with the things that I see least,
With the in-coming steamer,
Because it is with Distance, with Morn,
With the naval meaning of this Hour,
With the painful softness that rises in me like a qualm,
Like a beginning of sea-sickness, but in my soul.
I look from afar at the steamer, with a great independence of mind
And a whell begins to spin in me, very slowly.
The steamers that enter the bar in the morning,
Bring to my eyes with their coming
The glad and sad mystery of all who arrive and depart.
They bring memories of distant quays, and of other moments
Of another kind of the same mankind in other ports.
Every (...), every departure of a ship,
Is — I feel it in me like my blood —
Unconsciously symbolic, terribly
Threatening metaphysical meanings
That startle in me the being I once …
Ah, every quay is a regret made of stone!
And when the ship leaves the quay
And we note suddenly that a space is widening
Between the quay and the ship,
There comes to me, I know not why, a recent anguish,
A mist of feelings of sadness
That shines in the sun of my mosy anguishes
Like the first window the morning strikes on,
And clings round me like some one else's remembrance
Which is somehow mysteriously mine.
Ah, who knows, who knows,
If I did not leave long ago, before Myself,
A quay; if I did not depart, a ship in
The oblique sun of morning,
From another kind of port?
Who knows if I did not leave, before the hour
Of the exterior world as I see it
Dawned for me,
A large quay full of few people,
Of a great half-awakened city,
Of a great city commercial, overgrown, apopletical,
As much as that can be outside Time and Space?
Ay, from a quay, from a quay somehow material,
Real, visible as a quay, really a quay,
The Absolute Quay on whose type, unconsciously imitated,
Insensibly evoked,
We men have built
Our quays in our harbours,
Our quays, of actual stone overlooking true water,
Which, once built, suddenly show themselves to be
Real-Things, Things-Spirits, Entities in Stone-Souls,
At certain moments of ours of root-sentiments
When it seems that a door is opened in the outer world
And, without anything changing
Everything reveals itself to be different.
Ah, the Great Quay whence we embarked in Ship-Nations!
The Great Earlier Quay, eternal and divine!
Of what port? Over what waters? And why do I think of this?
A Great Quay like all other quays, but the Only One.
Full, as they are, of murmurous silences in the fore-dawns
And budding with the dawns in a noise of cranes
And arrivals of goods-trains
And under the black, occasional and light cloud
Of the smoke of the chimneys of the near factories
Which clouds its ground, black with small shining coal,
As if it were the shadow of a cloud passing over dark water.
Ah, what essentiality of mystery and arrested senses
In a divine revealing ecstasy
At the hours coloured like silences and anguishes
Is the bridge between any quay and THE QUAY!
Quay blackly reflected in the still waters,
Suddle [?] on board the ships,
Oh wandering and unstable soul of the people who live in ships,
Of the symbolic people who pass and for whom, nothing lasts
For when the vessel returns to the port,
There is always some change on board!
On continual flights, goings, drunknness of the Different!
Eternal soul of navigators and navigations!
Hulls slowly reflected in the waters
When the ship leaves the port!
To float as soul of life, to depart as voice,
To live the moment tremulously on eternal waters!
To wake to more direct days than the days of Europe,
To see mysterious ports over the loneliness of the sea,
To double distant capes and see sudden great landscapes
Of unnumbred astonished alones!
Ah, the distant beaches, the quays seen from afar,
And then the near beaches and the quays seen from near.
The mystery of each departure and of each arrival,
The painful instability and incomprehensibility
Of this impossible universe
At each naval hour ever more deeply felt right in my skin.
The absurd sob that our souls spill
Over the ever-different tracts of seas with islands afar,
Over the distant lines of the coasts we merely pass by,
Over the clear growing-clear of ports, with their houses and their people,
When the ship nears the land.
Ah, the freshness of morns when we arrive,
And the paleness of the morns when we depart,
When our entrails are gripped up
And a vague sensation resembling a fear
— The ancestral fear of going away and leaving,
The mysterious ancestral terror of Arrivals and New Things —
Grips up our skin and gives us qualms
And all our anguished body feels,
As if it were our soul,
An unexplained desire to feel this in some other way:
A regret at something,
A perturbation of tendernesses towards what vague fatherland?
What coast? what ship? what quay?
That thought sickens within us
And only a great vaccum remains in us,
A hollow satiety of naval minutes,
And a vague anxiety that would be weariness or pain
If it knew how to be that…
The summer morning is, nevertheless, slightly cool,
A slight night-dullness lies yet on the shaken air.
The wheel within me quickens its motion slightly.
And the steamer keeps on coming in, because surely it must coming in,
And not because I see it moving in its excessive distance.
In my imagination it is already near and visible
In all the extent of the lines of its portholes,
And everything trembles in me, all my flesh and all my skin,
On account of that creature that never arrives in any ship
And whom I have come to await to-day on this quay, through an oblique command.
I look towards the bar, I look towards the Indefinite,
I look and find pleasure in seeing,
Little, black and clear, a steamer coming in.
It is very far yet, distinct and classic after its own fashion.
It leaves on the distant air behind it the vain curls of its smoke.
It is coming in, and morn comes in with it, and on the river
Here, there, naval life awakes,
Sails arise, tugs advance,
Small boats jut out from behind the ships in the port.
There is a vague breeze.
But my soul is with the things that I see least,
With the in-coming steamer,
Because it is with Distance, with Morn,
With the naval meaning of this Hour,
With the painful softness that rises in me like a qualm,
Like a beginning of sea-sickness, but in my soul.
I look from afar at the steamer, with a great independence of mind
And a whell begins to spin in me, very slowly.
The steamers that enter the bar in the morning,
Bring to my eyes with their coming
The glad and sad mystery of all who arrive and depart.
They bring memories of distant quays, and of other moments
Of another kind of the same mankind in other ports.
Every (...), every departure of a ship,
Is — I feel it in me like my blood —
Unconsciously symbolic, terribly
Threatening metaphysical meanings
That startle in me the being I once …
Ah, every quay is a regret made of stone!
And when the ship leaves the quay
And we note suddenly that a space is widening
Between the quay and the ship,
There comes to me, I know not why, a recent anguish,
A mist of feelings of sadness
That shines in the sun of my mosy anguishes
Like the first window the morning strikes on,
And clings round me like some one else's remembrance
Which is somehow mysteriously mine.
Ah, who knows, who knows,
If I did not leave long ago, before Myself,
A quay; if I did not depart, a ship in
The oblique sun of morning,
From another kind of port?
Who knows if I did not leave, before the hour
Of the exterior world as I see it
Dawned for me,
A large quay full of few people,
Of a great half-awakened city,
Of a great city commercial, overgrown, apopletical,
As much as that can be outside Time and Space?
Ay, from a quay, from a quay somehow material,
Real, visible as a quay, really a quay,
The Absolute Quay on whose type, unconsciously imitated,
Insensibly evoked,
We men have built
Our quays in our harbours,
Our quays, of actual stone overlooking true water,
Which, once built, suddenly show themselves to be
Real-Things, Things-Spirits, Entities in Stone-Souls,
At certain moments of ours of root-sentiments
When it seems that a door is opened in the outer world
And, without anything changing
Everything reveals itself to be different.
Ah, the Great Quay whence we embarked in Ship-Nations!
The Great Earlier Quay, eternal and divine!
Of what port? Over what waters? And why do I think of this?
A Great Quay like all other quays, but the Only One.
Full, as they are, of murmurous silences in the fore-dawns
And budding with the dawns in a noise of cranes
And arrivals of goods-trains
And under the black, occasional and light cloud
Of the smoke of the chimneys of the near factories
Which clouds its ground, black with small shining coal,
As if it were the shadow of a cloud passing over dark water.
Ah, what essentiality of mystery and arrested senses
In a divine revealing ecstasy
At the hours coloured like silences and anguishes
Is the bridge between any quay and THE QUAY!
Quay blackly reflected in the still waters,
Suddle [?] on board the ships,
Oh wandering and unstable soul of the people who live in ships,
Of the symbolic people who pass and for whom, nothing lasts
For when the vessel returns to the port,
There is always some change on board!
On continual flights, goings, drunknness of the Different!
Eternal soul of navigators and navigations!
Hulls slowly reflected in the waters
When the ship leaves the port!
To float as soul of life, to depart as voice,
To live the moment tremulously on eternal waters!
To wake to more direct days than the days of Europe,
To see mysterious ports over the loneliness of the sea,
To double distant capes and see sudden great landscapes
Of unnumbred astonished alones!
Ah, the distant beaches, the quays seen from afar,
And then the near beaches and the quays seen from near.
The mystery of each departure and of each arrival,
The painful instability and incomprehensibility
Of this impossible universe
At each naval hour ever more deeply felt right in my skin.
The absurd sob that our souls spill
Over the ever-different tracts of seas with islands afar,
Over the distant lines of the coasts we merely pass by,
Over the clear growing-clear of ports, with their houses and their people,
When the ship nears the land.
Ah, the freshness of morns when we arrive,
And the paleness of the morns when we depart,
When our entrails are gripped up
And a vague sensation resembling a fear
— The ancestral fear of going away and leaving,
The mysterious ancestral terror of Arrivals and New Things —
Grips up our skin and gives us qualms
And all our anguished body feels,
As if it were our soul,
An unexplained desire to feel this in some other way:
A regret at something,
A perturbation of tendernesses towards what vague fatherland?
What coast? what ship? what quay?
That thought sickens within us
And only a great vaccum remains in us,
A hollow satiety of naval minutes,
And a vague anxiety that would be weariness or pain
If it knew how to be that…
The summer morning is, nevertheless, slightly cool,
A slight night-dullness lies yet on the shaken air.
The wheel within me quickens its motion slightly.
And the steamer keeps on coming in, because surely it must coming in,
And not because I see it moving in its excessive distance.
In my imagination it is already near and visible
In all the extent of the lines of its portholes,
And everything trembles in me, all my flesh and all my skin,
On account of that creature that never arrives in any ship
And whom I have come to await to-day on this quay, through an oblique command.
1 670
Fernando Pessoa
OPIARY
Life tastes to me like golden tobacco.
I have never done anything but smoke life.
After all of what use was it to me to have
Gone to the East and seen India and China?
The earth is similar and little
And there is only one way of living.
I pretended to study engineering.
I lived in Scotland. I visited Ireland.
My heart is a poor grandmother who goes about
Begging at the doors of Joy.
I am unfortunate by primogeniture.
The gipsies stole my luck.
Perhaps I shall not even find near death
A place to shelter me from my cold.
And I was a child like other people.
I was born in a Portuguese province,
And have met English people
Who say I speak English perfectly.
I have never done anything but smoke life.
After all of what use was it to me to have
Gone to the East and seen India and China?
The earth is similar and little
And there is only one way of living.
I pretended to study engineering.
I lived in Scotland. I visited Ireland.
My heart is a poor grandmother who goes about
Begging at the doors of Joy.
I am unfortunate by primogeniture.
The gipsies stole my luck.
Perhaps I shall not even find near death
A place to shelter me from my cold.
And I was a child like other people.
I was born in a Portuguese province,
And have met English people
Who say I speak English perfectly.
1 700
Vinicius de Moraes
Copacabana
Esta é Copacabana, ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram à lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo!
- Esta é a areia
Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas
- Aquele é o bar maldito. Podes ver
Naquele escuro ali? É um obelisco
De treva - cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.
Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Vês tu essa estrutura
De apartamento como uma colmeia
Gigantesca? em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um sexo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava de seu nicho me assistindo
Beber, e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia.
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava:
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Existe em algum lugar um gesto alto,
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo aberto
Embaixo, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o Tempo!) Ou também o desespero
De andar como um metrônomo para cá
E para lá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.
Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram à lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo!
- Esta é a areia
Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas
- Aquele é o bar maldito. Podes ver
Naquele escuro ali? É um obelisco
De treva - cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.
Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Vês tu essa estrutura
De apartamento como uma colmeia
Gigantesca? em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um sexo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava de seu nicho me assistindo
Beber, e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia.
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava:
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Existe em algum lugar um gesto alto,
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo aberto
Embaixo, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o Tempo!) Ou também o desespero
De andar como um metrônomo para cá
E para lá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.
Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.
1 192
da Costa e Silva
O Carrossel Fantasma
Ganhei o dia a meditar na minha vida,
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!
Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...
Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...
O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...
— Upa! upa! meu pensamento!
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.318-319. Poema integrante da série Alhambra
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!
Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...
Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...
O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...
— Upa! upa! meu pensamento!
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.318-319. Poema integrante da série Alhambra
2 879
Fontoura Xavier
VI - Dogaressa
Veneza; um grande sol, numa púrpura acesa,
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 092
Vinicius de Moraes
Poema de Auteil
A coisa não é bem essa.
Não há nenhuma razão no mundo (ou talvez só tu, Tristeza!)
Para eu estar andando nesse meio-dia por essa rua estrangeira com o nome
de um pintor estrangeiro.
Eu devia estar andando numa rua chamada Travessa Di Cavalcanti
No Alto da Tijuca, ou melhor na Gávea, ou melhor ainda, no lado de dentro
de Ipanema:
E não vai nisso nenhum verde-amarelismo. De verde quereria apenas um
colo de morro e de amarelo um pé de acácias repontando de um quintal
entre telhados.
Deveria vir de algum lugar
Um dedilhar de menina estudando piano ou o assovio de um ciclista
Trauteando um samba de Antônio Maria. Deveria haver
Um silêncio pungente cortado apenas
Por um canto de cigarra, bruscamente interrompido
E o ruído de um ônibus varando como um desvairado uma preferencial
vizinha.
Deveria súbito
Fazer-se ouvir num apartamento térreo próximo
Uma fresca descarga de latrina abrindo um frio vórtice na espessura
irremediável do mormaço
Enquanto ao longe
O vulto de uma banhista (que tristeza sem fim voltar da praia!)
Atravessaria lentamente a rua arrastando um guarda-sol vermelho.
Ah, que vontade de chorar me subiria!
Que vontade de morrer, de me diluir em lágrimas
Entre uns seios suados de mulher! Que vontade
De ser menino, em vão, me subiria
Numa praia luminosa e sem fim, a buscar o não-sei-quê
Da infância, que faz correr correr correr...
Deveria haver também um rato morto na sarjeta, um odor de bogaris
E um cheiro de peixe fritando. Deveria
Haver muito calor, que uma sub-reptícia
Brisa viria suavizar fazendo festa na axila.
Deveria haver em mim um vago desejo de mulher e ao mesmo tempo
De espaciar-me. Relógios deveriam bater
Alternadamente como bons relógios nunca certos.
Eu poderia estar voltando de, ou indo para: não teria a menor importância.
O importante seria saber que eu estava presente
A um momento sem história, defendido embora
Por muros, casas e ruas (e sons, especialmente
Esses que fizeram dizer a um locutor novato, numa homenagem póstuma:
"Acabaram de ouvir um minuto de silêncio…")
Capazes de testemunhar por mim em minha imensa
E inútil poesia.
Eu deveria estar sem saber bem para onde ir: se para a casa materna
E seus encantados recantos, ou se para o apartamento do meu velho Braga
De onde me poria a telefonar, à Amiga e às amigas
A convocá-las para virem beber conosco, virem todas
Beber e conversar conosco e passear diante de nossos olhos gratos
A graça e nostalgia com que povoam a nossa infinita solidão.
Não há nenhuma razão no mundo (ou talvez só tu, Tristeza!)
Para eu estar andando nesse meio-dia por essa rua estrangeira com o nome
de um pintor estrangeiro.
Eu devia estar andando numa rua chamada Travessa Di Cavalcanti
No Alto da Tijuca, ou melhor na Gávea, ou melhor ainda, no lado de dentro
de Ipanema:
E não vai nisso nenhum verde-amarelismo. De verde quereria apenas um
colo de morro e de amarelo um pé de acácias repontando de um quintal
entre telhados.
Deveria vir de algum lugar
Um dedilhar de menina estudando piano ou o assovio de um ciclista
Trauteando um samba de Antônio Maria. Deveria haver
Um silêncio pungente cortado apenas
Por um canto de cigarra, bruscamente interrompido
E o ruído de um ônibus varando como um desvairado uma preferencial
vizinha.
Deveria súbito
Fazer-se ouvir num apartamento térreo próximo
Uma fresca descarga de latrina abrindo um frio vórtice na espessura
irremediável do mormaço
Enquanto ao longe
O vulto de uma banhista (que tristeza sem fim voltar da praia!)
Atravessaria lentamente a rua arrastando um guarda-sol vermelho.
Ah, que vontade de chorar me subiria!
Que vontade de morrer, de me diluir em lágrimas
Entre uns seios suados de mulher! Que vontade
De ser menino, em vão, me subiria
Numa praia luminosa e sem fim, a buscar o não-sei-quê
Da infância, que faz correr correr correr...
Deveria haver também um rato morto na sarjeta, um odor de bogaris
E um cheiro de peixe fritando. Deveria
Haver muito calor, que uma sub-reptícia
Brisa viria suavizar fazendo festa na axila.
Deveria haver em mim um vago desejo de mulher e ao mesmo tempo
De espaciar-me. Relógios deveriam bater
Alternadamente como bons relógios nunca certos.
Eu poderia estar voltando de, ou indo para: não teria a menor importância.
O importante seria saber que eu estava presente
A um momento sem história, defendido embora
Por muros, casas e ruas (e sons, especialmente
Esses que fizeram dizer a um locutor novato, numa homenagem póstuma:
"Acabaram de ouvir um minuto de silêncio…")
Capazes de testemunhar por mim em minha imensa
E inútil poesia.
Eu deveria estar sem saber bem para onde ir: se para a casa materna
E seus encantados recantos, ou se para o apartamento do meu velho Braga
De onde me poria a telefonar, à Amiga e às amigas
A convocá-las para virem beber conosco, virem todas
Beber e conversar conosco e passear diante de nossos olhos gratos
A graça e nostalgia com que povoam a nossa infinita solidão.
614
Affonso Romano de Sant'Anna
Adolescência
Bom teria sido
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
1 135
Herberto Helder
Releio E Não Reamo Nada
releio e não reamo nada,
a minha vida abrupta é absurda,
a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora,
e fiquei cego dentro da casa cuja, e pelo mundo, e na memória, e na maneira
das palavras quentes que eu amava,
com as costuras das gramáticas inventadas tortas mas tão amadas também elas,
nessa língua das músicas,
e desfaleço então de tudo e nunca mais ressuscito,
e só a dor,
só o pobre de mim com seu ramilhete de rosetas bravas,
suas mínimas corolas desirmãs que mexo
entre os dedos aos nós, eruditos e ardentes,
e os trabalhos do diabo, pobre diabo, deixo-os,
e a sopa e o pão meio comidos que nem esses sequer hei merecido nunca:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
a minha vida abrupta é absurda,
a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora,
e fiquei cego dentro da casa cuja, e pelo mundo, e na memória, e na maneira
das palavras quentes que eu amava,
com as costuras das gramáticas inventadas tortas mas tão amadas também elas,
nessa língua das músicas,
e desfaleço então de tudo e nunca mais ressuscito,
e só a dor,
só o pobre de mim com seu ramilhete de rosetas bravas,
suas mínimas corolas desirmãs que mexo
entre os dedos aos nós, eruditos e ardentes,
e os trabalhos do diabo, pobre diabo, deixo-os,
e a sopa e o pão meio comidos que nem esses sequer hei merecido nunca:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
1 053
Manuel Bandeira
Mônica Maria
Seu avô me disse:
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
1 060
Ana Maria Ramiro
Lembranças
Em um final de tarde ensolarado
sigo por uma estrada poeirenta
meus dedos tocam galhos rebuscados
art nouveau do acaso e do momento.
E se um belo caboclo, com malícia
me acenar ainda, à distância
Ansiarei seu toque, uma carícia
que guardarei como paixão de infância.
Mas tudo não passa de lembranças
enquanto eu piso a pedra fria
e o sol da tarde, e a bonança
se foram em um nebuloso dia.
Assim a vida passa indiferente
levando o viço, o gozo e a emoção
Ficam porém as lembranças gravadas na mente,
e a dor das paixões, cravada no coração.
sigo por uma estrada poeirenta
meus dedos tocam galhos rebuscados
art nouveau do acaso e do momento.
E se um belo caboclo, com malícia
me acenar ainda, à distância
Ansiarei seu toque, uma carícia
que guardarei como paixão de infância.
Mas tudo não passa de lembranças
enquanto eu piso a pedra fria
e o sol da tarde, e a bonança
se foram em um nebuloso dia.
Assim a vida passa indiferente
levando o viço, o gozo e a emoção
Ficam porém as lembranças gravadas na mente,
e a dor das paixões, cravada no coração.
899
Fernando Pessoa
Quando eu era pequenino
Quando eu era pequenino
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
4 728
Ana Maria Ramiro
Monólogo
Anseio por uma infância perdida.
Foi-se a sinceridade encontrada apenas
nos gestos imaturos,
e com ela minha alegria.
Almejo uma loucura incoerentemente sóbria,
que finalmente traga minha alma à tona
e desatole tantas emoções contidas.
Cultivo pequenos momentos de minha existência
e não sou exigente, pois sei que a mediocridade
é inerente a todos os sonhadores.
Busco minha própria sombra,
alguém que me complete.
Que me faça ver que valeu a pena encarar o desconhecido,
descobrir que não há nenhum prêmio
por bom comportamento...falsos ícones.
Só um jovem do outro lado da linha.
Foi-se a sinceridade encontrada apenas
nos gestos imaturos,
e com ela minha alegria.
Almejo uma loucura incoerentemente sóbria,
que finalmente traga minha alma à tona
e desatole tantas emoções contidas.
Cultivo pequenos momentos de minha existência
e não sou exigente, pois sei que a mediocridade
é inerente a todos os sonhadores.
Busco minha própria sombra,
alguém que me complete.
Que me faça ver que valeu a pena encarar o desconhecido,
descobrir que não há nenhum prêmio
por bom comportamento...falsos ícones.
Só um jovem do outro lado da linha.
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