Poemas neste tema

Noite e Lua

Olavo Bilac

Olavo Bilac

Vila Rica

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro de sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião, que o tempo enegreceu...
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.


Publicado no livro Tarde (1919).

In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 269. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
9 020 3
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Amor

Quand la mort est si belle,
Il est doux de mourir.
V. Hugo

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

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Sousândrade

Sousândrade

O Guesa - Canto Terceiro

As balseiras na luz resplandeciam —
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
"Acordem, olhos meus, dizia, acordem!"
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia pra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já sinclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
— Está ele assombrado?... Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.

Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma; imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos dáureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Na abóbada dos céus, — negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.

7 847 3
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Poema Antigo

O
homem que percorro
com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio


o oceano
penso paralelo - ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio

ciclames-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo - bússola
com raiz - grito de relevo

O homem que percorro
com as mãos

a estátua que consinto
a lua que concebo.

4 612 3
Al Berto

Al Berto

Clamor

Tudo bem ao chamamento
Noite após noite o que dissemos e
O que nunca diremos - a viagem
Com uma giesta de algodão presa nos cabelos e
A sensação fresca de um sulco de aves na pele

Tudo vem ao chamamento- os lobos
Os anões as fadas as putas as bichas e
A redenção dos maus momentos - enquanto te barbeias

Vês no espelho o homem
Cuja solidão atravessou quase cinco décadas e
Está agora ali a olhar-te - queixando-se da tosse
Da dor de dentes e do golpe que a lâmina fez
Num deslize perto da asa do nariz

Não sei quem é - sei porém que vai afogar-se
Naquela superfície clara quando dela se afastar e
Abrir a porta para sair de casa murmurando: tudo
Vem ao chamamento
Por dentro do clamor da noite.

7 472 3
Georg Trakl

Georg Trakl

AOS EMUDECIDOS

Oh a loucura da grande Cidade, quando à noite
junto ao muro negro aleijadas árvores se erguem boquiabertas,
e por uma máscara de prata o Espírito do Mal se ri;
a luz com flagelo magnético a pétrea noite expulsa.
Oh, o submerso dobrar dos sinos pelo anoitecer.

Prostituta, que em convulsões de gelo pares uma criança morta.
A ira de Deus chicoteia a fronte do homem possesso,
purpúrea pestilência, fome, verdes olhos quebra.
Oh, o horrendo riso do ouro.

Mas quieta na caverna escura uma humanidade mais silente sangra,
forja no duro metal a redentora cabeça.

3 158 3
Castro Alves

Castro Alves

Maria

ONDE VAIS à tardezinha,
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?

A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...

Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!

Serão amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom daragem,
Sonhar na rede selvagem...
À sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros — por círios,
Por leito — um leito de lírios...
E por tenda — a solidão!

6 960 3
Machado de Assis

Machado de Assis

Horas Vivas

Noite: abrem-se as flores . . .
Que esplendores!
Cíntia sonha seus amores
Pelo céu.
Tênues as neblinas
Às campinas
Descem das colinas,
Como um véu.

Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos,
A voar.

— "Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Ilusões!

— "Quantas, quantas vidas
Vão perdidas,
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Anos após anos,
Tão insanos,
Vêm os desenganos
Afinal.

— "Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? — por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos — horas vivas
De dormir. —"

2 003 3
Abel Pereira

Abel Pereira

Haicai

Na estrada deserta,
um simples cair de folhas
quebrou o silêncio.

Aquelas lanternas
ziguezagueando nos montes...
Quantos vaga-lumes!

2 500 3
Carl Sandburg

Carl Sandburg

Dunas

Que vemos aqui, entre as dunas de areia batidas
de luar, sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
sozinhos com os nossos sonhos, Bill, tão leves como
os véus que adejam sobre a cabeça das mulheres
que dançam,
sozinhos com urna imagem, uma imagem a seguir
a outra, de todos os mortos,
os mortos mais numerosos que os grãos de areia
amontoados um a um aqui, sob o luar,
amontoados no horizonte e com a forma que as mãos
do vento lhes querem dar,
que vemos aqui, Bill, além daquilo que desespera
os sábios,
além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
que os soldados se lancem para a frente e percam
a vida à luz do sol: que será, Bill?
3 096 3
Jerónimo Baía

Jerónimo Baía

A uma trança de cabelos negros

Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre de Sofala,
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores noite, na beleza dia.

Negra, porém de amor na monarquia
Reinais senhora, não servis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala;
Tristeza, mas venceis toda a alegria.

Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora
Negra, noite, tristeza, sombra, luto.

Porém na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?
3 245 3
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todas as coisas que há neste mundo

Todas as coisas que há neste mundo
Têm uma história,
Excepto estas rãs que coaxam no fundo
Da minha memória.

Qualquer lugar neste mundo tem
Um onde estar,
Salvo este charco de onde me vem
Esse coaxar.

Ergue-se em mim uma lua falsa
Sobre juncais,
E o charco emerge, que o luar realça
Menos e mais.

Onde, em que vida, de que maneira
Fui o que lembro
Por este coaxar das rãs na esteira
Do que deslembro?

Nada. Um silêncio entre juncos dorme.
Coaxam ao fim
De uma alma antiga que tenho enorme
As rãs sem mim.


13/08/1933
5 663 3
Castro Alves

Castro Alves

Pedro Ivo

Sonhava nesta geração bastarda
Glórias e liberdade!...
...................................
Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava,
E vossa gente pálida recuava,
Quando ele aparecia.
ÁLVARES DE AZEVEDO


I

Rebramam os ventos... Da negra tormenta
Nos montes de nuvens galopa o corcel...
Relincha — troveja... galgando no espaço
Mil raios desperta co'as patas revel.

É noite de horrores... nas grunas celestes,
Nas naves etéreas o vento gemeu...
E os astros fugiram, qual bando de garças
Das águas revoltas do lago do céu.

E a terra é medonha... As árvores nuas
Espectros semelham fincados de pé,
Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,
Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito... Co'a boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
Ao longe o oceano sacode as espáduas
— Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por ínvio caminho
Um vulto sombrio sozinho passou,
Co'a noite no peito, co'a noite no busto
Subiu pelo monte, — nas cimas parou.

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
P'ra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procela — nem ele escutava!...
Mil raios choviam — nem ele os fitou!
Com a destra apontando bem longe a cidade,
Após largo tempo sombrio falou!...

..........................................


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986

NOTA: Poema composto de 5 partes, datado de Recife, maio de 1865
5 979 2
Affonso Ávila

Affonso Ávila

Os Negros de Itaverava

Três negros de Itaverava,
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.

Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.

Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.

(...)


In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
1 627 2
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Amanhecimento

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

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Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

Sorte

Depois que se casara aquela criatura,
Que a negra traição das pérfidas requinta,
Eu nunca mais a vi, pois, de ouropéis faminta,
De um bem fingido amor quebrara a ardente jura.

Alta noite, porém, vi-a pela ventura,
Numa avenida estreita e lobrega da quinta...
Painel é que se cuida e sem color se pinta,
De alvo femíneo vulto ou madrugada escura.

Maldito quem sentindo o pungitivo açoite
Do desprezo e na sombra a sombra de um afeto
A pular uma grade, um muro não se afoite.

— Prometes ser discreto? - O' meu amor! prometo...
Se não fosses tão curta, o'bem ditosa noite!
Se fosses mais comprido, o'pálido soneto!


In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
3 234 2
Bruno Kampel

Bruno Kampel

O convite

Se vieres...

...esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço
sobre-humano
uma estrada
e seu atalho
uma valsa
e seu compasso
uma dança
na esperança
de que a noite
cheire a vinho
e tenha gosto
e que o encontro
seja um pacto
e tenha essência.

Se quiseres...

...esta noite teremos
nossa pele
dedilhando suores
nossas mãos
visitando os calores
nossas bocas
cheirando sabores
nossa urgência
implorando favores
nossa cama
hospedando os clamores
nossos ais
declamando os ardores
nosso amor
desenhando os louvores.

Se deixares...

...esta noite veremos
os silêncios cantando
sem palavras
os poemas tremendo
de alegria
as estrelas gemendo
sem vergonha
a emoção delirando
docemente
a canção galopando
sem arreios
a ternura gerando
gestos quentes
eloquentes
dementes
frementes
urgentes.

Se pedires...

...esta noite
será então
um planeta
sem fronteiras
a pergunta
e a resposta
um delírio
sem limites
dois amantes
e seus jogos
o desejo
realizado
um encontro
de mutantes
sem idade
procurando
sem receio
prometendo
sem descanso
conjugando
grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua
e sua esquina
uma noite
ensolarada
o deserto
e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.

Esta noite
então...
se vieres
e quiseres...
se deixares
e pedires...
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Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

A Dama Ausente

Brilhará a lua que não vejo
nas montanhas de minha terra?
Para que amores na serra
Brilhará a lua que não vejo?

Mais um dia longe, tão longe
que nem mesmo a intuição alcança
os gestos da dama ausente.
As sombras enchem os meus olhos
fechados para o presente.
Mais um dia longe tão longe
que nem mesmo o amor alcança
os gestos da dama ausente...

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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Spleen e Charutos - III Vagabundo

Eat, drink and love; what can the rest avail us?
BYRON. Don Juan.


Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada....

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!..

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora, e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 880 2
Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

Soneto de Ofélia

Lírio do val perdido na corrente,
Sigo formosa e fria entre outros lírios...
Na cabeça, uma c’roa de martírios;
Nos olhos virginais, a paz silente.

As estrelas virão acender círios
No fundo deste leito, suavemente:
E a lua beijar-me-á, calma e dolente,
– A lua que abençoou os meus delírios.

Que venha o vago luar que anda nas covas
Atorçalar-me a fronte, onde vagueia
O beijo etéreo e trágico de Hamleto...

Formosa como vou, com flores novas
Beijando a minha cor de lua-cheia,
O Príncipe ter-me-á Eterno Afeto.


Publicado no livro Poesias (1938). Integrante da série Pulvis que, segundo João Alphonsus, reúne "os últimos versos do poeta". Segundo da série Lendo Shakespeare, constituída por quatro sonetos.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 329. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
5 528 2
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

O Morcego

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.63. (Ensaios, 32
3 451 2
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Cinema

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5. p. 60-6
4 800 2
Sousândrade

Sousândrade

Canto Quinto

Noite. Está reclinado o Guesa Errante,
Olhando, — as grandes selvas se aclararam
À fogueira que acesa foi distante...
— Gritam das ruínas! as soidões gritaram!

E luzente na noite, para as chamas
Voa longo sibilo, serpentinos,
No ar desatando laços repentinos,
Fósfor nas bruno-lúcidas escamas,

E à fogueira lançou-se, do ar alado,
Surucucu-de-fogo! — árido ouvidos
Eram crebos funestos estalidos
Dos seus dúcteis anéis, o incêndio ateado!

Oh! quanto a chama e a cobra, tormentosas,
Uma à outra envolviam-se raivando
Por mútua antipatia! e mais lutando,
Mais, deslocando-se achas resinosas,

Em labareda as chamas se laceram,
Que ao meio delas, rúbida, convulsa,
S'esmalta a cobra e relampeia e pulsa,
Desdobrada espiral! — Emudeceram

Do Guesa os servos, que dispersos foram
E brandando e bradando amedrontados;
Grupam-se ao longo; enquanto os apagados
Incêndios vêem braseiros que descoram.

Mas, desondeando pela terra o açoite,
A cobra, em todo o orgulho de serpente,
Alça o colo; e ciciando, e lentamente,
O Guesa a vê passar través da noite;

E luminosa e qual se então se houvesse,
Vencidas chamas, acendido nelas,
Traço de luz, lhe nota as malhas belas
Do vermelhão, que às iras resplandece.

Ora apagou-se; e dum brunido umbrio,
Penetrou das ruínas na caverna:
Lá, viva tocha o crânio, vela eterna;
Os viandantes a vêem — quem nunca a viu?

Umbrosa e tarda, à do silêncio guarda,
Oh! paz e amor ao gênio bom dos lares,
Que a luz ofende, que importuna acende
Pródigo filho, a dor destes lugares!

E esta Equidade eterna, que aos céus dera
O raio serpentino, deu à terra
A serpente radiante — açoite e açoite,
Ou relâmpago, ou ação fugaz da noite.

A dor foi longa, viu-se a pausa que houve —
E continua a Guesa, tristemente
A fronte a alevantar, que tão pendente
Taciturna caía —
...........................................

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In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
3 636 2
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Plenilúnio

Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...


Publicado no livro Poesias (1898).

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.156-157.
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