Poemas neste tema
Noite e Lua
Chico Buarque
Mar e lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
1 968
Luís Miguel Nava
A noite
A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
1 499
Jaime Rocha
38 Ela diz
Ela diz, é a sua primeira fala depois de morta,
tapar-te-ei com os meus cetins como se o meu
corpo fosse um risco no céu.
O homem sabe que as palavras são apenas uma
memória. A sua cintura procura reviver depois
de os cães o terem dilacerado. É um grito, um
beijo frio. Ela avança com a roupa ensanguentada.
Mas é apenas uma moldura envolvida pelo âmbar,
uma luminosidade difusa, saída de uma necrópole.
Um dos lados do seu rosto fica negro, como se a
lua tivesse passado por cima dele e o deixasse
marcado por uma dor.
tapar-te-ei com os meus cetins como se o meu
corpo fosse um risco no céu.
O homem sabe que as palavras são apenas uma
memória. A sua cintura procura reviver depois
de os cães o terem dilacerado. É um grito, um
beijo frio. Ela avança com a roupa ensanguentada.
Mas é apenas uma moldura envolvida pelo âmbar,
uma luminosidade difusa, saída de uma necrópole.
Um dos lados do seu rosto fica negro, como se a
lua tivesse passado por cima dele e o deixasse
marcado por uma dor.
1 055
Affonso Romano de Sant'Anna
Alta Noite Em Mântova
Aconteceu-me alta noite entrar na Piazza delle Erbe,
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
1 024
Luiza Neto Jorge
A porta aporta
a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
2 155
Affonso Romano de Sant'Anna
Carta a Virgílio
Caro Virgílio:
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
506
Luiza Neto Jorge
Do Medo I
Do Medo I
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
1 881
Luiza Neto Jorge
As casas
I
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
3 721
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 039
Pablo Neruda
Solidões
Estava redonda a lua e estático o círculo negro
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.
Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?
E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.
E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.
Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?
E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.
E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
739
Pablo Neruda
O Lago
(Fala o lago Rupanco
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)
1 136
Caetano de Brito e Figueiredo
Soneto
Se adormecida, ó Clícia, te parece
que amor neste letargo se minora,
é engano, que tanto mais adora
quanto entregue ao pesar mais se adormece:
à Luz do Sol o seu Amor floresce,
restaura alentos, quando sai a Aurora;
o meu da Lua a vista sente e chora
e quando se retira, desfalece.
O Sono, não descanso, mas tormento
com impulso cruel, com rigor forte
faz que este amor se julgue esquecimento.
Tu no Sol tens o objeto, o alívio, a Sorte:
eu sem sentido entregue ao sentimento,
sou vítima de amor, morro sem Morte.
que amor neste letargo se minora,
é engano, que tanto mais adora
quanto entregue ao pesar mais se adormece:
à Luz do Sol o seu Amor floresce,
restaura alentos, quando sai a Aurora;
o meu da Lua a vista sente e chora
e quando se retira, desfalece.
O Sono, não descanso, mas tormento
com impulso cruel, com rigor forte
faz que este amor se julgue esquecimento.
Tu no Sol tens o objeto, o alívio, a Sorte:
eu sem sentido entregue ao sentimento,
sou vítima de amor, morro sem Morte.
735
Fernando Py
Canto de Muro
A Mário Quintana
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.
Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.
Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.
Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.
Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.
Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.
Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.
1 024
Carlos Drummond de Andrade
O Relógio
Nenhum igual àquele.
A hora no bolso do colete é furtiva,
a hora na parede da sala é calma,
a hora na incidência da luz é silenciosa.
Mas a hora no relógio da Matriz é grave
como a consciência.
E repete. Repete.
Impossível dormir, se não a escuto.
Ficar acordado, sem sua batida.
Existir, se ela emudece.
Cada hora é fixada no ar, na alma,
continua sonhando na surdez.
Onde não há mais ninguém, ela chega e avisa
varando o pedregal da noite.
Som para ser ouvido no longilonge
do tempo da vida.
Imenso
no pulso
este relógio vai comigo.
A hora no bolso do colete é furtiva,
a hora na parede da sala é calma,
a hora na incidência da luz é silenciosa.
Mas a hora no relógio da Matriz é grave
como a consciência.
E repete. Repete.
Impossível dormir, se não a escuto.
Ficar acordado, sem sua batida.
Existir, se ela emudece.
Cada hora é fixada no ar, na alma,
continua sonhando na surdez.
Onde não há mais ninguém, ela chega e avisa
varando o pedregal da noite.
Som para ser ouvido no longilonge
do tempo da vida.
Imenso
no pulso
este relógio vai comigo.
1 498
Dílson Catarino
Passado Quebrado
Não há muros intransponíveis
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
729
Carlos Nóbrega
Terceiro Exemplo
Exemplo de coisa líquida
o sono.
Um rio que não se explica
correndo com a lua em cima
o sono.
Um rio que não se explica
correndo com a lua em cima
878
Carlos Nóbrega
O Sonho
o cão dorme.
Seus ossos
estão cheios de lua
Seus ossos
estão cheios de lua
839
Ricardo Silvestrin
Haicai
fiapos de sol
o cachorro se espreguiça
depois fica pensando
céu escuro
lua branca
apago todas as lâmpadas
o cachorro se espreguiça
depois fica pensando
céu escuro
lua branca
apago todas as lâmpadas
2 273
Ribeiro Couto
Serenata em Coimbra
Por vós e de um só nome eu te chamaria,
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.
Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)
Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.
Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.
Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)
Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.
Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...
1 115
Ribeiro Couto
O Longe e o Perto
Logo que a noite envolve em sombras o jardim
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
1 377
Ricardo Moraes Ferreira
Soneto em Sonho
Vivia um sonho em terras distantesUm
bosque viçoso que douro se enchia
Um céu de esmeralda espelhava o semblante
Da deusa Diana que em plumas dormia
Passeavas desfilando galhardias
Seduzindo a natureza esplendorosa
E a lua que outrora então dormia
Se oferece - nua, branca, indecorosa.
Raios brancos tosam nuvens espaçadas
Conduzindo à nau estrelas naufragadas
Qual um tolo te adoro e não reparo
Seus olhares que por mim tão distraídos
Belas flores em jardins imaginários,
Verdes olhos - firmamento esquecidos.
bosque viçoso que douro se enchia
Um céu de esmeralda espelhava o semblante
Da deusa Diana que em plumas dormia
Passeavas desfilando galhardias
Seduzindo a natureza esplendorosa
E a lua que outrora então dormia
Se oferece - nua, branca, indecorosa.
Raios brancos tosam nuvens espaçadas
Conduzindo à nau estrelas naufragadas
Qual um tolo te adoro e não reparo
Seus olhares que por mim tão distraídos
Belas flores em jardins imaginários,
Verdes olhos - firmamento esquecidos.
951
Ribeiro Couto
No Jardim em Penumbra
Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.
Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.
Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.
E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.
Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.
Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.
E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.
3 663
Rozania Moraes
Amor de Mar
Noite de luzes.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
416
Paulo Augusto Rodrigues
Moça
É de noite, noite de sábado.
Há movimento de gente, copos,
Mas em mim não há nada.
Para mim, as ruas estão vazias,
As pessoas perdidas,
Os caminhos escuros.
É de noite, noite de qualquer dia.
Há estrelas no céu
Iluminando a semente.
Fazendo crescer na lembrança,
O ponto luminoso e brilhante,
Que acende,
A imagem sorrisamente cativante
Da amizade calada.
É de noite, noite que aumenta a distância,
Mas, é de dia que a saudade gritante
Da amiga,
Estoura.
É momentâneo, mas é profundo.
Que vontade descabida
De estar neste momento,
Ao seu lado, tranqüilo,
Numa quieta cidade.
Talvez até,
Curitiba.
Há movimento de gente, copos,
Mas em mim não há nada.
Para mim, as ruas estão vazias,
As pessoas perdidas,
Os caminhos escuros.
É de noite, noite de qualquer dia.
Há estrelas no céu
Iluminando a semente.
Fazendo crescer na lembrança,
O ponto luminoso e brilhante,
Que acende,
A imagem sorrisamente cativante
Da amizade calada.
É de noite, noite que aumenta a distância,
Mas, é de dia que a saudade gritante
Da amiga,
Estoura.
É momentâneo, mas é profundo.
Que vontade descabida
De estar neste momento,
Ao seu lado, tranqüilo,
Numa quieta cidade.
Talvez até,
Curitiba.
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