Poemas neste tema

Noite e Lua

Adélia Prado

Adélia Prado

Mote da Viúva

Sol com chuva
casamento da viúva
que de maneira discreta
oferece docinhos.
O noivo não disfarça a pressa
de ficar a sós com a experiente mulher.
É bom ter calma,
até que o último a sair
bata de novo à porta
querendo seu guarda-chuva.
Como de um satélite
que a olhos nus navega devagar,
vê-se a terra lá embaixo,
rios, campinas, cidadezinhas, torres,
entra dia, sai noite,
uma volta completa.
Lambendo o mel da lua a viúva
ensina o homem a raiar.
1 137
Eliana Mora

Eliana Mora

O caminho das nuvens

Senti na pele
os dedos teus
colando em mim
um surfe estranho
a voltejar
em minhas ondas
olhando enfim para as
paisagens tão
redondas
ouvindo o som
do que de longe
já conheces

E tomas posse
do terreno
demarcado
que amanhece
todo dia
em cama fria
Porém que túmido
servil
e orvalhado
sabe mostrar das noites
frias
resultado

Terreno morno
que se tranca a esperar
que possas vir
[de alguma nuvem
despencar]
Para sorver na noite
a fonte
do esplendor

Colhermos juntos
tão sentido
e doce

amor

754
Mary Celeste Bueno

Mary Celeste Bueno

Primavera

A estação libidinosa,
Plena do gosto da vida,
Imprevisível, garrida,
Lânguida e leve, goza.

Plantas, animais e gente,
Cheínhos de seiva e luz,
Erguem-se falicamente,
Ao que o destino os conduz.

Tempo de dor e prazer
Dias de sol e de chuva:
Um novo ciclo amanhece...

Sob a influência da Lua
Assim como tudo, acontece
São as sementes do ser.

343
Adélia Prado

Adélia Prado

Constelação

Olhava da vidraça
derramar-se a Via Láctea
sobre a massa das árvores.
Por causa do vidro, da transparência do ar,
ou porque me nasciam lágrimas,
tinha a impressão de que algumas estrelas
mergulhavam no rio,
outras paravam nos ramos.
Passageiros dormiam,
eu clamava por Deus
como o cachorro que sem ameaça aparente
latia desesperado na noite maravilhosa:
Ó Cordeiro de Deus, ó Cruzeiro do Sul,
ó Cordeiro, ó Cruzeiro!
Como o cão, minha língua ladrava
à aterradora beleza.
1 075
Carlos Queirós

Carlos Queirós

Erótica

A noite descia
como um cortinado
sobre a erva fria
do campo orvalhado.

e eu (fauno em vertigem)
a rondar em torno
do teu corpo virgem,
sonolento e morno,

pensava no lasso
tombar do desejo;
em breve, o cansaço
do último beijo...

E no modo como
sentir menos fácil
o maduro pomo
do teu corpo grácil:

ou sem lhe tocar
– de tanto o querer! –
ficar a olhar,
até o esquecer,

ou como por entre
reflexos do lago,
roçar-lhe no ventre
luarento afago;

perpassando os meus
nos teus lábios húmidos,
meu peito nos teus
brancos
seios
túmidos...

1 863
Nico Fagundes

Nico Fagundes

Mulher querência

Na querência do teu corpo
tem coxilhas e canhadas
cacimbas de luas claras,
matas escuras fechadas
e dois cerros de granito
com pitangas coloradas
só eu sei achar o rumo
dos atalhos e picadas
e bebo a noite em teus olhos
no frescor das tuas aguadas
e fumo a brasa escondida
das coivaras e queimadas
como quem acende um sol
no largo das madrugadas

Eu morro em ti,
e me enterro,
e ressuscito outra vez
semente chuva e mormaço,
berro de potro e de rês.
Gineteio sem espora,
faço o que ninguém fez.
Coração de ressolana
com um ovo guacho de indês.
Nas quatro luas campeiras
de volta em roda do mês:
dono, patrão, bolicheiro,
escravo, peão, e freguês.

2 089
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ir Beber-Te Num Navio de Altos Mastros

No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.

Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
1 204
Calex Fagundes

Calex Fagundes

Face do desejo

Lume.
A dança da chama,
bailarina esguia.

Pele.
Aceso toque da noite
leve invisível.

Antepercebe-se
a flauta do fauno
invadindo a sala.

A boca percorre
palavras de veludo
sorvidas aos tragos.

Sabe-se nada...
a alma é tomada
e tudo é momento.

Agora.
a noite é hora
neste aposento.

Toca o pêlo
entumescimento
das pontas.

Lambe a aura
da divindade
vaga.

Penumbra.
Chama do fogo,
lenho de carne.

Inebriam-se os lábios.
Frêmito.
Espírito absorvente da noite.

Cabelos
dedos em novelos
nebulosas e redondilhas.

Ilhas.
Crespos.
Águas.

Deitam-se a verter
ao sabor do nascituro,
eremita de fogo.

Gomo de fibras.
Lábio sorve a sede

da água que verte.

Um vaso aberto,
gardênia em chamas,
carmesim do fogo.

Ponto de fêmea.
Ambiente.
Atmosfera.

Hálito.
Perfume.
Máscara.

Sangue
em pele
marfim.

Cambraias
abertas
em pernas de mulher.

Heliocêntricos
raios olhos
fixos no nada.

Músculos tesos.
Úmida.
Tépida.

Abre-se a porta.
Rude o peregrino
chega e faz morada.

Língua molhada
ao encontro
de alvéolos e esponjas.

Água salgada
maresia de fêmea
Sede de nervos

e músculos
a forçar
entranhas.

Brumas
sangüíneas,
cama de ferro.

Fêmea de
pernas
escancaradas.

Cortina de gaze.
Vento marítimo.
Odor de dentro.

Envolvente
o prazer
da mulher deitada.

Faze de mim o tempo.
O simples pulsar
dentro de ti.

Anjo, te faço fêmea.
Mulher, te faço anjo.
Faço-te gozo.

O gozo de meu sangue
é o leite
que te serve.

Na águas de tua
fonte afogas
a minha sede.

A língua percorre
um fio na topografia
de montes e vales.

A fêmea é terra
latente na eterna
espera da semente.

Penumbra do quarto
olhos da noite.
Como me achas?

Como me vês?
Como sabes trazer-me
pra dentro de ti?

O vinho.
A noite.
O silêncio.

Nada além das janelas
Nem mesmo horizontes existem
num quarto de casal.

Deposito em ti a minha
Eternidade.
Sou teu amante.

E deito em ti
minhas surpresas em forma
de farsas adocicadas.

Quando dormes – e acordo
com teus gemidos – persigo
teu gozo com meu pensamento .

Vejo-te outra,
longe de mim,
a se espargir no éter.

Teu corpo é belo
tua mente, insana
quando deitas na cama

e te cobres de pétalas.
A alma da mulher
se esconde num beijo.

1 471
Calex Fagundes

Calex Fagundes

Hotel do tempo

Tua nudez branca
exposta ao filtro de luz
da cortina de gaze.

Quarto clássico de mulher,
ambiência mítica
de mãe e sombras
ritmo de relógio na sala de jantar.

Cama larga das cambraias
alvices que se misturam
com teu corpo de mulher.

Bordados e anagramas,
pequenos quadros e bibelots,
móveis de madeira negra,
paredes de tom terroso,
piso persa e poeiras centenárias
dos tempos
nos interstícios
das tábuas corridas.

Repousas nua,
sobre o colchão dos tempos.

Repousas sobre os panos
tua beleza antiga,
tua alvura epidérmica.

Ressonas sonho
de gozo adormecido.

Contrastam...

Teus pentelhos escuros,
ralos e obscenos,
e os cabelos finos
ao ritmo da brisa,
mansa,
que adentra pela fresta
da veneziana
entreaberta.

Tuas pernas alvas
em relaxamento cósmico,
uma dobrada em ângulo
agudo para o teto alto.

Teus olhos,
ora entreabertos,
fitando terrosos, enigmáticos
em suas transparências.

Como se assistissem,
de longe, a mística cena,
do amante recostado,
numa bergère,
olhos ao vento,
a refolhar gravuras antigas
numa edição ocre, perdida,
achada nas estantes do acaso.

Tua nudez branca
espalhada na cambraia do tempo.

Perna em ângulo,
pendular em seu ir e vir.
Olhar perdido ao acaso
de encontrar o amante
ora entretido, distante,
num estelar comprimento,
que de repente pode ser nada.

Tua pele branca
tua perna que balança.

Tua boceta molhada,
ainda, do último gozo.

O relaxamento despudorado
da cumplicidade.
O olhar de pálpebras ao meio
a percorrer o quarto.

Cheiro acre de sexo,
da mistura de todos humores:
porra, gozo, água, suor, saliva,
lágrimas e sangue.

Miscigenam-se homem-mulher
na atmosfera amarela
do fim de tarde.

Brisa marinha
traz o sol do crepúsculo
na janela litorânea.

Olhos e sabores
recheiam as sensações
vívidas da tarde.

Os últimos raios ocidentais
refletidos nas águas da enseada.

A maresia dos cheiros
afasta as cortinas
do último ocaso meridional.

O amante percebe
no sabor do amontillado,
sorvido do cristal,
a necessidade cósmica
da amante receptiva.

A tua pele branca,
despida na noite.
O silêncio tomado
mas pleno de sentido.

A taça repousada,
o vinho dos desejos,
O abat-jour imprimindo
novas sombras
nas paredes da alcova.

Tua pele branca
em imperceptível fremir,
pulsa sobre os panos brancos.

A língua que escolhe um fio
e segue o caminho da noite
no hotel do tempo.

1 276
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eurydice

A noite é o seu manto que ela arrasta
Sobre a triste poeira do meu ser
Quando escuto o cantar do seu morrer
Em que o meu coração todo se gasta.

Voam no firmamento os seus cabelos
Nas suas mãos a voz do mar ecoa
Usa as estrelas como uma coroa
E atravessa sorrindo os pesadelos.

Veio com ar de alguém que não existe,
Falava-me de tudo quanto morre
E devagar no ar quebrou-se, triste
De ser aparição, água que escorre.
1 498
Adélia Prado

Adélia Prado

Viés

Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.
1 520
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Nocturno

Conduzo por uma aldeia à noite, casas que saltam
diante das luzes – acordaram agora, querem beber um copo.
Casas, celeiros, placas de indicação, caminhos sem ninguém
regressam à vida. Seres humanos dormem:

alguns podem dormir em paz, outros têm rostos tensos
como num treino duro para a eternidade.
Não ousam deixar-se ir mesmo em sono solto.
Como cancelas baixas esperam enquanto o mistério vai desfilando.

A estrada passa uma longa temporada fora da cidade pela
floresta.
Árvores, árvores silentes num pacto entre elas.
Têm uma cor melodramática, como um incêndio.
Como é nítida cada uma das folhas. Seguem-me no caminho para casa.

Deito-me por ali para dormir, vejo imagens desconhecidas
e sinais esboçando-se atrás das pálpebras
no muro da escuridão. Pela ranhura entre a vigília e o sono
uma enorme letra esforça-se por entrar sem grande sucesso.
744
Adélia Prado

Adélia Prado

Pensamentos À Janela

O que durante o dia foi pressa e murmuração
a boca da noite comeu.
Estrelas na escuridão são ícones potentes.
Como oráculos bíblicos,
os paradoxos da física me confortam.
Sou um corpo e respiro.
Suspeito poder viver
com meio prato e água.
771
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Luar

O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.
1 405
Giorgos Seferis

Giorgos Seferis

Comentários

Já escurecera na sacada
junto a nós uma urgência esvoaçava
nos dois corações, bem aninhada,
uma confissão correspondida.

Vã, murchou a voz. Enxame de erros
nossos lábios, e nas profundezas
do corpo, Deus, só estava acesa
nossa espera da benção pedida.

Dentro da casa os sonhos zumbiam
e da luz da tarde até o ímã
dos cabelos teus, tudo trazia
à memória o anjo inalcançável
de para com os anéis subitâneos
de chofre caídos, dos abanos
no pensamento que, o mesmo orando,
líamos, evangelho inefável.

Mulher que na minha alma te hospedas
tua surpresa é o que me resta
formosa mulher amada, nesta
tarde que absurdamente definha,
e os teus olhos de círculos negros
e a noite e seu calafrio ligeiro…

Quimera, espada do meu silêncio,
curva-te e entra outra vez na bainha.
640
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

O Sol Quando

O sol quando amanhece
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia

quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece

o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que

um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.

(São Paulo 1976)


Poema integrante da série I. Natural.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
1 067
Mauro Mota

Mauro Mota

DENTRO DA NOITE CHEIA DE LUA-CHEIA

Venha cá, meu amor! olhe: a lua prateada
fica zangada quando lhe vê!
É inveja que ela sente de Você!
Você é linda como um Sonho
vestido de seda… É por isso que eu ponho
a minha vida na sua mão de fada…

A minha mão fria na sua
mão… Mas esta carícia silenciosa é pouca
e, até, pode ser feita com artifício…
O silêncio subiu, foi conversar com a lua…
O amor, meu amor, não mede sacrifício:
Uma sua boca à minha boca…

Depois olhe pra mim…
assim… assim…
como só Você sabe olhar!
Como seus olhos são lindos! E eu vejo
os meus olhos lá no fundo do seu olhar…
Dê-me outro beijo.
Meu amor, satisfaça o meu desejo,
dê-me outro beijo porque
se Você não m’o der não lhe darei minh’alma
para Você
guardar dentro de sua alma!…
883
Mauro Mota

Mauro Mota

Miragem

Amigo:
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…

Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…

Ela é a felicidade deste mundo!

No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…

É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
741
Mauro Mota

Mauro Mota

VALSINHA DA BANDA DE MÚSICA MUNICIPAL

Música da
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata
tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.

Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.
754
Mauro Mota

Mauro Mota

SÓROR FELICIDADE

Sob o outono sem luz, nesta tarde amarela,
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…

Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.

Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!

Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
703
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

A Noite Flutua no Ar

Por saber-te distante,
a noite se fez mais densa
sobre as casas e o desassossego
Parou diante
(por que não defronte?)
diante de mim,
o rosto escondido na bruma.
Agora caminha.
Percorre-me bolsos e alma
por saber-te ausente,
não mais distante
que a sombra que apalpo
no recesso da vida que é minha.
Noite!
Por que não o dia?
Dia pleno de avisos e medo
oculto na roupa que despi.
A noite, flutua no ar sozinha
por saber-te distante
(e fez-se o quê? lembrança?),
nuvem perdida, lentidão, rainha.


Poema integrante da série Urna Diurna, 1965/1973.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 197
851
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas e meia da madrugada. Acordo e adormeço.

Duas horas e meia da madrugada. Acordo e adormeço.
Houve em mim um momento de vida diferente entre sono e sono.

Se ninguém condecora o sol por dar luz,
Para que condecoram quem é herói?

Durmo com a mesma razão com que acordo
E é no intervalo que existo

Nesse momento em que acordei, dei por todo o mundo —
Uma grande noite incluindo tudo
Só para fora
1 409
Xavier F. Conde

Xavier F. Conde

Quero fazer uma confissão

Quero fazer uma confissão esta noite
porque a noite e a rua foram jantar juntas.
Quero dizer que amo uma mulher
cujo corpo não me dá
o seu calor esta noite,
cuja ausência é um ronsel laranja.
Quero dançar com minha sombra
para que o seu rumor chegue até ela
e ela saiba que eu lhe dou a noite,
toda senhora.
Quero escrever coisas que não se esvaeçam
com o sol,
que a chuva as faça flores
que cheirem a ela.
Quero que as minhas mãos voem,
voem em silêncio
onde ela guarda os seus sonhos...
sonhos que me pertencem
porque eu lhe pertenço.
Quero que ela fique, fique sempre,
quero ser a sua voz
quero ser o seu sorriso verde,
quero ser a sua chuva no cabelo,
quero amá-la mais do que ninguém
ama ninguém.
Quero dizer-lhe, aqui e agora, que a amo
com a minha voz baixa,
com o meu ar de outono lento,
com o meu sabor de beijos possíveis.
Quero que os pássaros sejam
os meus mensageiros de saudade.
Quero que o mundo comece quando ela vir.
Quero sonhar acordado com o seu tacto entre as
minhas mãos
a percorrer ela em silêncio o meu peito
e acordar com ela junto de mim,
calada e doce.
Quero só eu dizer-lhe sentimentos
que aceleram o coração,
o seu coração apaixonado,
eu gosto da sua timidez.
Quero nadar na sua boca sem horizontes.
Quero os versos todos do planeta
a falarem dela,
versos curtos de violetas,
versos firmes de cravos,
versos perfumados de rosas.
Quero suster os seus pés no ar
e trazer ao seu peito gaivotas fiéis
que sempre deixam pegadas na praia.
Quero ser eu no seu corpo
da alva ao sol-pôr,
de lua a lua
de eternidade a eternidade.
Quero amá-la até o meu último alento.

547
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

CAPRICHOS

Escurece em Huelva: as palmeiras fuliginosas
e os morcegos prateado - claros apressados
do apito do comboio.

As ruas encheram-se de gente.
E a senhora, que caminha apressada por entre a multidão,
pesa cuidadosamente a última luz do dia na balança dos seus olhos.

As janelas dos escritórios abertas. Ainda se ouve,
como o cavalo bate com os cascos lá dentro.
O velho cavalo com os cascos de carimbo.

As ruas só ficam vazias depois da meia-noite.
Finalmente, é azul em todos os escritórios.

O espaço lá em cima:
troteando sem ruído, dispersa e negra,
despercebida e solta,
atirada ao cavaleiro:
uma nova constelação que eu chamo “ Cavalo “.
706