Poemas neste tema

Noite e Lua

Sebastião Alba

Sebastião Alba

Como os outros

Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.


1 131
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

do poema longo Iararana

Esse bicho da Oropa tinha parte com o diabo.
Esse bicho da Oropa foi o diabo neste rio
Ele fez guerra com espingarda aos cabocos do mato
tinha corpo de cavalo e andava de quatro pés
Mas ele dava na gente de taca e facão
e ensinou a gente a tirar broto de cacau
e o cacau desbrotado ficou parrudo
e bonitão como danado.
(Roda)
E o cacau foi chamado o alimento do céu,
a baba-de-moça comida na lua.
E o cacau ficou na coroa da lua,
e os meninos fizeram a roda na rua,
pedindo à lua manjar do céu.
Carinha de anjo,
moça do céu,
bença, dindinha,
me dê chá do céu,
me dê chocolate,
me dê bombom,
baba de lua
com manuê.
Chá de santinho
me dê me dê,
café de anjo
me dê me dê.
Dindinha, lua,
carinha de anjo,
me dê chá da lua
mais uma broa
pra meu pintinho
que saiu do ovo
que pinta pôs,
vestido de pelo
como um morcego,
feito uma poncã
de pó-de-arroz.
Me dê chocolate,
me dê bombom,
a teobroma
de seu Linneu.
A lua batiza
menino que nasce
depois que o cavalo
andou na lua
botando aquilo
que faz bombom.
E o retrato do cavalo ficou na lua
e ainda se vê o bichão na lua
que está redonda como um botão.
Não é S. Jorge que está na lua.
Quem está na lua é aquele bichão.
1 301
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Tankas

"He querido adaptar a nuestra prosodia la estrofa
japonesa que consta de un primer verso de cinco sílabas,
de uno de siete, de uno de cinco y de dos últimos de siete.
Quién sabe cómo sonarán estos ejercicios a oídos orientales.
La forma original prescinde asimismo de rimas".

1
Alto en la cumbre
todo el jardín es luna,
luna de oro.
Más precioso es el roce
de tu boca en la sombra.

2
La voz del ave
que la penumbra esconde
ha enmudecido.
Andas por tu jardín.
Algo, lo sé, te falta.

3
La ajena copa,
la espada que fue espada
en otra mano,
la luna de la calle,
¿dime, acaso no bastan?

4
Bajo la luna
el tigre de oro y sombra
mira sus garras.
No sabe que en el alba
han destrozado un hombre.

5
Triste la lluvia
que sobre el mármol cae,
triste ser tierra.
Triste no ser los días
del hombre, el sueño, el alba.

6
No haber caído,
como otros de mi sangre,
en la batalla.
Ser en la vana noche
el que cuenta las sílabas.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 343 e 344 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 849
Amália Bautista

Amália Bautista

Um pátio ao sul

Um pátio, um pátio qualquer, num buraco a sul,
limoeiros de odor enjoativo,
a luz do dia morrendo indiferente,
tal como num dia qualquer,
repetindo aquele rito
que conserva o mistério das coisas sabidas
e temidas ao mesmo tempo:
e se esta tarde fosse a última?
Bandos de andorinhas cruzam o céu escuro,
bordejam a alta torre,
chegam-me a despistar com o voo errático
de que desconheço o frágil destino.
Os sinos começam a tocar
e as andorinhas fazem que se assustam com o som,
mas é só brincadeira,
e tragédia, e cabriola, e desenho de círculos perfeitos
contra o cinzento avermelhado de agonia
do altíssimo e largo céu.
O céu escureceu de todo. Lá no alto,
entre os ramos do limoeiro, deslumbra-me, rindo,
uma estrela.

523
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Heráclito

El segundo crepúsculo.La noche que se ahonda en el sueño.
La purificación y el olvido.
El primer crepúsculo.
La mañana que ha sido el alba.
El día que fue la mañana.
El día numeroso que será la tarde gastada.
El segundo crepúsculo.
Ese otro hábito del tiempo la noche.
La purificación y el olvido.
El primer crepúsculo...
El alba sigilosa y en el alba
la zozobra del griego.
¿Qué trama es ésta
del será, del es y del fue?
¿Qué río es éste
por el cual corre el Ganges?
¿Qué río es éste cuya fuente es inconcebible?
¿Qué río es éste
que arrastra mitologías y espadas?
Es inútil que duerma.
Corre en el sueño, en el desierto, en un sótano.
El río me arrebata y soy ese río.
De una materia deleznable fuí hecho, de misterioso tiempo.
Acaso el manantial está en mí.
Acaso de mi sombra
surgen, fatales e ilusorios, los días.


"Elogio de la Sombra" (1969)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 297| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 450
Xavier F. Conde

Xavier F. Conde

Quero fazer uma confissão

Quero fazer uma confissão esta noite
porque a noite e a rua foram jantar juntas.
Quero dizer que amo uma mulher
cujo corpo não me dá
o seu calor esta noite,
cuja ausência é um ronsel laranja.
Quero dançar com minha sombra
para que o seu rumor chegue até ela
e ela saiba que eu lhe dou a noite,
toda senhora.
Quero escrever coisas que não se esvaeçam
com o sol,
que a chuva as faça flores
que cheirem a ela.
Quero que as minhas mãos voem,
voem em silêncio
onde ela guarda os seus sonhos...
sonhos que me pertencem
porque eu lhe pertenço.
Quero que ela fique, fique sempre,
quero ser a sua voz
quero ser o seu sorriso verde,
quero ser a sua chuva no cabelo,
quero amá-la mais do que ninguém
ama ninguém.
Quero dizer-lhe, aqui e agora, que a amo
com a minha voz baixa,
com o meu ar de outono lento,
com o meu sabor de beijos possíveis.
Quero que os pássaros sejam
os meus mensageiros de saudade.
Quero que o mundo comece quando ela vir.
Quero sonhar acordado com o seu tacto entre as
minhas mãos
a percorrer ela em silêncio o meu peito
e acordar com ela junto de mim,
calada e doce.
Quero só eu dizer-lhe sentimentos
que aceleram o coração,
o seu coração apaixonado,
eu gosto da sua timidez.
Quero nadar na sua boca sem horizontes.
Quero os versos todos do planeta
a falarem dela,
versos curtos de violetas,
versos firmes de cravos,
versos perfumados de rosas.
Quero suster os seus pés no ar
e trazer ao seu peito gaivotas fiéis
que sempre deixam pegadas na praia.
Quero ser eu no seu corpo
da alva ao sol-pôr,
de lua a lua
de eternidade a eternidade.
Quero amá-la até o meu último alento.

546
Ivaldo Gomes

Ivaldo Gomes

Olha pro céu meu amor

Delba.

Você já viu a lua?
Pois é, esta ai fora,
Nua, que nem você.
Linda, muito linda.
Os raios entram pela
Fresta da janela.
Parece uma festa,
Que nem você que fica
De calcinhas e aninha as
Minhas fantasias,
Fantasminhas, da mina cabeça.
E eu aqui agarrado nesse lápis,
nesse papel, de gin tônica,
queijos e azeitonas.
Poemas atonal, atual, banal,
Que nem jornal, afinal,
É assim que eu tento ser feliz.
Brinco de ser feliz...
E por um triz, que nem chão de giz,
Riscado, desenhado nas paredes
Desse querer, e eu querendo o
Teu querer, sem querer ser muito
Exigente, inteligente...
Só um pouco.
Muito mais carnal, do que normal.
Talvez meio colegial, mas é legal
Te sentir assim.
Mas, você já viu a lua?
Pois é, tá nua, crua,
Que nem você...
E bebo o gin, assim,
Que nem você...
Os desejos sobem a cabeça,
Me imagino peregrino
Dos teus beijos.
Cigano, e não me engano,
Dos teus desejos.
Incenso na casa,
Cheiro doce de lotus ,
Intenso, e as vezes penso,
Através da luz bruxuleante dessas
Velas, que tu estás a caminho...
Aninho esse sonho, essa vontade,
E olho a lua, com olhos sisudos,
Mudos de te ver.
Você já viu a lua?
Pois é, tá na rua,
Pra todo mundo ver.
Alguns vêem... Outros não...
Então, eu penso no Pessoa...
E através do Pessoa, penso na
Pessoa de ti, que nem a lua.
É só a lua, e pronto.
Me invade, me preenche,
Enche e pronto.
Sem maiores explicações...
Não vim pra explicar.
Vim pra conquistar e
Ser conquistado.
Longe de mim ser colonizador.
A dor? Eu convivo com ela...
Vela? Não. Bela é a lua...
Bela é você.
Que vem vindo pela brecha da janela,
De cabelos soltos ao vento,
No meu pensamento, ungüento
Das minhas saudades.
Tarde? Não, é muito cedo
Pra ser infeliz.
Você já viu a lua?
Pois devia, tá linda.
Escorre no horizonte,
Qual chuva de prata.
As estrelas? Pobres das estrelas,
Nem brilham.
Também poderá...
Você e a lua juntas,
É covardia...
Tardia? Talvez, freguês
Dos teus afagos,
E o Alceu? Percebeu,
Escorre da vitrola, que nem
Lágrimas das velas.
Escorre quente, decente,
Indolente, entrementes,
Eu penso em você.
E a lua?
Tá lá ela...
Singela, donzela, e você,
É mais ela dentro de mim.
Only you!... Pois é...
Belchior na vitrola,
Controla o meu pensamento, e
Intenso eu me lembro de você.
Por quê? Ora.. "Diana, suburbana,
Suja de baton"...
Dê o tom, me suja de baton...
Eu te quero assim.
E esse poema, sem fim.
Eu acabo como?
De quimono? Não..
De quimono não.
Acabo sim, acabo!...
Acabo mesmo?
Não tenho tanta certeza.
Só a certeza dos teus afagos...
Assim fulgás, atrás dos teu carinhos.
Olha!... Olha pro céu...
Olha pro céu meu amor...
Tá vendo a lua?
Eu não... Só você.
Quer mais que isso?
Impossível.

1 246
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Noite da Rua

Mão longe
da mão         longe         a apagar-se

ao fim da mão         a rua         extrema fria
ao fim da mão         a rua         os olhos frios
mão da terra para
o sol frio
mão ou lâmpada
nos arbustos

Língua de sol         a sombra         nas esquinas
Mão fria tropeçada     rente ao fim da rua
rente ao longe     nua
no sol frio da noite
1 211
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Menino Chorando Na Noite

Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora.
O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.

Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
longe um menino chora, em outra cidade talvez,
talvez em outro mundo.
E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça
e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).
E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.
1 289
Juan Gelman

Juan Gelman

Uma mulher e um homem

Uma mulher e um homem levados pela vida,
uma mulher e um homem cara a cara
moram na noite, transbordam por suas mãos,
se ouvem subir livres na sombra,
suas cabeças descansam numa bela infância
que eles criaram juntos, em pleno dia de sol, de luz,
uma mulher e um homem arados por seus lábios
enchem a noite lenta com toda sua memória,
uma mulher e um homem mais belos no outro
ocupam seu lugar na terra
1 832
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Equívoco

Na noite sem lua perdi o chapéu.
O chapéu era branco e dele passarinhos
saíam para a glória, transportando-me ao céu.

A neblina gelou-me até os nervos e as tias.
Fiquei na praça oval aguardando a galera
com fiscais que me perdoassem e me abrissem os rios.

Um jardim sempre meu, de funcho e de coral,
ergueu-se pouco a pouco, e eram flores de velho,
murchando sem abrir, indecisas no mal.

Ressurgi para a escola, e de novo adquiri
a ciência de deslizar, tão própria de meus netos:
Sou apenas um peixe, mas que fuma e que ri,
e que ri e detesta.
1 925
José Fernandes Fafe

José Fernandes Fafe

Exegese

De que é feito esse amor?, perguntam-me e não sei...
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...

Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva

(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )

Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )

Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida

donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.

845
Jorge Fonseca Jr.

Jorge Fonseca Jr.

Haicai

Este abacateiro
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas...

Ah! Uns olhos sem luz
vêm ver jasmins florescer
diante de uma cruz...

1 252
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

À Memória de Vítor Matos E Sá

Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra

E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz

Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas

Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia

Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto

Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva

Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra

É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
962
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Penha Brava

Há uma penha brava
aqui, na costa,
o vento furibundo,
o sal do mar, a ira,
desde e desde sempre, agora
e ontem, e cada século
atacaram-na:
tem rugas,
cavernas,
gretas, figuras, degraus,
faces de granito
e rebenta o mar na rocha
amando-a,
rompe o beijo maligno,
relâmpagos de espuma,
brilho de lua raivosa.
É uma penha gris,
cor de idade, austera,
infinita, cansada, poderosa.
1 070
Pablo Neruda

Pablo Neruda

11

Quase fora do céu ancora entre duas montanhas
a metade da lua.
Girante, errante noite, a escavadora de olhos.
A ver quantos fragmentos de estrelas nas poças.

Faz uma cruz de luto em minha testa, foge.
Forja de metais azuis,noites de lutas silenciosas,
meu coração dá voltas como um volante louco.
Menina que vem de tão longe,trazida de tão longe,
às vezes teu olhar fulgura sob o céu.
Queixume, tempestade, redemoinho de fúria,
cruza meu coração, sem te deteres.
Vento dos sepúlcros carrega, destroça, dispersa tua raiz sonolenta.
Decepa as grandes árvores do outro lado dela.
Mas você, alva menina, pergunta de fumo, espiga.
Era a que ia formando o vento com folhas luzidias.
Atrás das montanhas noturnas, lírio branco de incêndio,
ah nada posso dizer! Era feita de todas as coisas.
Ansiedade que partiu meu peito a cuteladas,
é hora de seguir outro caminho,onde ela não sorria.
Tempestade que enterrou campanários, turva revoada de tormentas
para que tocá-la agora, para que entristecê-la.

Ai, seguir o caminho que se afasta de tudo,
onde não estejam vagando a angústia, a morte, o inverno,
com seus olhos abertos entre o orvalho.
1 139
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Noturno À Janela do Apartamento

Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração na noite.

Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.

A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como um líquido, circula.

Suicídio, riqueza, ciência. . .
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.

Triste farol da ilha Rasa.
3 777
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

ANOITECER NO GANGES

Lembras-te da «pequenina luz bruxuleante» do verso de Sena?
Anoitece no Ganges, tudo nos é tão estranho aqui, e no entanto,
vinda de onde não sabemos, de uma casa, de uma ruína, de um templo,
vem uma pequena luz chamar-nos para dizer do nosso comum destino.

Vou contar: íamos para Belur,
onde ensinaram Ramakrishna e Vivekananda,
compenetrados, atentos aos pormenores do caminho fluvial
(os ghats, o povo que lava e queima os seus mortos no rio,
com troncos e tábuas, mas sem caixão) e íamos a meditar em coisas muito sérias
e muito hindus e multiculturais.
Mas de repente tudo o que nos rodeava perdeu o seu sentido,
porque anoitecia simplesmente e uma luz nos chamava dentre o lusco-fusco.
Uma pequenina luz bruxuleante. Just a little light…
Tudo se tornou ao mesmo tempo mais comum e mais simples na sua estranheza

São momentos em que entendemos que somos da mesma gente,
neste país de tão diversa gente…
Mas só porque uma luz se acendeu na margem do Ganges
entre Calcutá e Belur – uma pequena luz vitoriosa!
1 063
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Revelação do Subúrbio

Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
êle reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.
1 705
Pablo Neruda

Pablo Neruda

9

Ébrio de terebentina e longos beijos,
entorpecido, o veleiro das rosas dirijo,
voltado para a morte do delgado dia,
Cimentado no sólido frenesi marinho.

Pálido e amarrado à minha água devorante
atravesso o aroma acre do clima descoberto,
ainda vestido de gris e de sons amargos,
e de uma crista triste de espuma abandonada.

Vou, rijo de paixões,montado em minha onda única,
lunar, solar, ardente e frio, repentino,
adormecido na garganta das fortunosas
ilhas brancas e doces como tenros quadris.

Treme na noite úmida meu traje de beijos
loucamente impregnado de cargas elétricas,
heroicamente dividido em sonhos
e rosas embriagantes atando-se a mim.

Água acima, em meio a ondas externas,
a meus braços sujeitas teu corpo paralelo
como um peixe infinitamente preso à minha alma
rápido e lento na energia subceleste.
575
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Aliança (Sonata)

Nem o coração cortado por um vidro
num campo de espinhos,
nem as águas atrozes vistas nos cantos
de certas casas, águas como pálpebras e olhos,
poderiam sujeitar a tua cintura nas minhas mãos
quando o meu coração ergue as suas azinheiras
para o teu inquebrantável fio de neve.

Nocturno açúcar, espírito
das coroas,
redimida,
sangue humano, os teus beijos
desterram-me,
e um golpe de água com restos do mar
golpeia os silêncios que te esperam
rodeando as cadeiras gastas, gastando portas.

Noites com eixos claros,
partida, material, unicamente
voz, unicamente
nua em cada dia.
Sobre os teus seios de curso imóvel,
sobre as tuas pernas de dureza e água,
sobre a permanência e o orgulho
do teu cabelo nu,
quero estar, meu amor, já atiradas as lágrimas
para o áspero cesto onde se acumulam,
quero estar, meu amor, só com uma sílaba
de prata despedaçada, só com uma ponta
do teu seio de neve.

Já não é possível, às vezes,
ganhar a não ser caindo,
já não é possível, entre dois seres
tremer, tocar a flor do rio:
fibras de homem vêm como agulhas,
tramitações, pedaços,
famílias de coral repulsivo, tormentas
e duras travessias pelas passadeiras
de inverno.

Entre lábios e lábios há cidades
de grande cinza e húmida crista,
gotas de quando e como, indefinidas
circulações:
entre lábios e lábios como por uma costa
de areia e vidro, o vento passa.

Por isso és sem fim, recolhe-me como se fosses
toda solenidade, toda nocturna
como uma zona, até te confundires
com as linhas do tempo.

Avança na doçura,
vem ao meu lado até que as digitais
folhas dos violinos
se tenham calado, até que os musgos
ganhem raiz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
1 316
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Quando Eu Decidi

Quando eu decidi ficar límpido
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.

Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
1 093
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Nomes

Ai, Eduvigis, que nome tão belo tens,
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.

Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.

Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
1 161
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Um Animal Pequeno

Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.

Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.

O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.

Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,

contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
1 149