Poemas neste tema
Noite e Lua
Florbela Espanca
À Janela de Garcia de Rezende
Janela antiga sobre a rua plana...
Ilumina-a o luar com o seu clarão...
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no poético balcão...
Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez... Quem sabe?... Tonto de ilusão,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcão...
Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado...
Bandeiras! Pagens! O pendão real!
E na tua mão, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!...
Ilumina-a o luar com o seu clarão...
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no poético balcão...
Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez... Quem sabe?... Tonto de ilusão,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcão...
Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado...
Bandeiras! Pagens! O pendão real!
E na tua mão, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!...
1 655
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
441
Florbela Espanca
Chopin
Não se acende hoje a luz... Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar,
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala...
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar,
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala...
1 960
Luís Amaro
A Um Poeta
(memorando Manuel Ribeiro de Pavia)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 007
Luís Amaro
Poema dos 20 Anos aReinaldo Ferreira
Uma sombra passou na noite morta,
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 053
Cândido da Velha
As idades da pedra - II
As pálidas luas das tuas ma~os negras,
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.
A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.
A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
1 080
António Jacinto
Vadiagem
Naquela hora já noite
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)
e a noite quebrada na luz das nossas vozes
Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
- cheiro gravido de terra fértil -
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar
Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar
Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bebadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor...
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)
e a noite quebrada na luz das nossas vozes
Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
- cheiro gravido de terra fértil -
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar
Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar
Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bebadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor...
3 244
Castro Alves
Virgem dos Últimos Amores
CENA ÚNICA
É noite. A cena representa uma
floresta americana. Longe dos fogos
sangrentos da tribo. Perto os guerreiros
que rodam ao clarão do luar. O prisioneiro
espera a noiva
POR DETRÁS daquele outeiro
A morte espera a manhã!
É a morte do guerreiro,
Do bravo que não recua!...
Geme ao longe a mãe-da-lua,
Responde perto a cauã...
Nas sombras passa uma sombra!...
Balançaram nos cipós!...
Pé de moça pisa a alfombra...
Da cova enfeitam-lhe as flores...
Flor dos últimos amores!
Traz o beijo dos heróis!
Da lua a teia amarela
Estende as malhas de luz...
Na riba o caboclo vela
Ao rubro fogo da taba...
Aqui a murta desaba
Mulher! nos teus peitos nus!
A lagoa se debruça
Pra cair no ribeirão...
É minha mie quem soluça?
Não sabes filha estrangeira,
Tens a trança da palmeira...
Palmeira do coração!
Foi de jasmins amarelos
Que trançaste o canitar!
Criança, eu morro de anelos,
Dá-me beijo sobre beijo...
Tenho um séclo — por desejo!
E uma noite — por amar!
Amanhã todo este fogo
A morte vai apagar,
Arranca-me est’alma logo...
— Amai! — a noite nos clama —
— Enquanto houver uma flama! —
Um grito! um sopro! um olhar!
Teu sangue ardente galopa
Na fronte morna a bater;
Teu lábio meu lábio ensopa...
Moça! que mel nestes lábios...
São das abelhas ressábios?
São ressábios do morrer?
Pois eu já vi mil gentias
Chorar nestes braços meus,
Aquelas frutas bravias
Não São frutas que embriagam,
Teus dedos quando me afagam
Parecem dedos dos céus...
Existe uma flor na mata
Que aparece à noite só:
Abre as pétalas de prata,
Se espaneja, se colora...
Mas, aos fulgores da aurora
Murcha, expira, faz-se em pó.
Chama-se... o nome qu’mporta?
Lembro agora um sonho meu:
... Uma águia tombava morta
Das nuvens... na correnteza...
Nas garras tinha uma presa
Rolando viva... Era eu!
Por que derrubas as gotas
Do cacho do ouricuri?
São tuas miçangas rotas
Que rolam na minha frente?
Teu colar estava quente...
As contas quentes senti!
Bem sabes! Se o filho expira,
A mãe, que triste o perdeu,
Na selva o berço lhe estira
Entre a flor, a brisa, a palma...
Quando eu morrer, prende estalma
Aqui, no cabelo teus
Minha noiva derradeira,
És bela e triste ao luar!
Eu fui a garça altaneira
Cruzando as tardes vermelhas...
Dos arcos das sobrancelhas
Por que frechaste um olhar?
Caí! Caí nos teus braços,
Dela filha de Tupá!
São serpentes teus abraços,
Mas são serpentes que beijam!...
São lianas que festejam
Os galhos de piquiá.
Já, mais fria a serenada
Resvala pelos bambus...
Os ventos da madrugada
Vêm da picha, vêm do norte...
Não ouves, falando em morte?
... Eu amo os teus ombros nus!...
Teus ombros... Mas ficas branca
Vendo o céu enbranquecer!?
É a alvorada que espanca
Os mochos e dentre as flores,
Aos pombos arruladores
Manda cantar... Vou morrer!
Vem! Os astros emurchecem...
Só resta um deles nos céus.
Seus raios grandes parecem
As pétalas da magnólia...
É a estrela que se esfolha
Quando a noite diz adeus.
Fita os olhos nela... um beijo...
Um beijo... antes do arrebol!...
Inda brilha... inda um desejo...
Eia! Ao raio derradeiro!...
..................................
Adeus! noiva do guerreiro!
Salve, ó morte! Salve, ó sol!!!
É noite. A cena representa uma
floresta americana. Longe dos fogos
sangrentos da tribo. Perto os guerreiros
que rodam ao clarão do luar. O prisioneiro
espera a noiva
POR DETRÁS daquele outeiro
A morte espera a manhã!
É a morte do guerreiro,
Do bravo que não recua!...
Geme ao longe a mãe-da-lua,
Responde perto a cauã...
Nas sombras passa uma sombra!...
Balançaram nos cipós!...
Pé de moça pisa a alfombra...
Da cova enfeitam-lhe as flores...
Flor dos últimos amores!
Traz o beijo dos heróis!
Da lua a teia amarela
Estende as malhas de luz...
Na riba o caboclo vela
Ao rubro fogo da taba...
Aqui a murta desaba
Mulher! nos teus peitos nus!
A lagoa se debruça
Pra cair no ribeirão...
É minha mie quem soluça?
Não sabes filha estrangeira,
Tens a trança da palmeira...
Palmeira do coração!
Foi de jasmins amarelos
Que trançaste o canitar!
Criança, eu morro de anelos,
Dá-me beijo sobre beijo...
Tenho um séclo — por desejo!
E uma noite — por amar!
Amanhã todo este fogo
A morte vai apagar,
Arranca-me est’alma logo...
— Amai! — a noite nos clama —
— Enquanto houver uma flama! —
Um grito! um sopro! um olhar!
Teu sangue ardente galopa
Na fronte morna a bater;
Teu lábio meu lábio ensopa...
Moça! que mel nestes lábios...
São das abelhas ressábios?
São ressábios do morrer?
Pois eu já vi mil gentias
Chorar nestes braços meus,
Aquelas frutas bravias
Não São frutas que embriagam,
Teus dedos quando me afagam
Parecem dedos dos céus...
Existe uma flor na mata
Que aparece à noite só:
Abre as pétalas de prata,
Se espaneja, se colora...
Mas, aos fulgores da aurora
Murcha, expira, faz-se em pó.
Chama-se... o nome qu’mporta?
Lembro agora um sonho meu:
... Uma águia tombava morta
Das nuvens... na correnteza...
Nas garras tinha uma presa
Rolando viva... Era eu!
Por que derrubas as gotas
Do cacho do ouricuri?
São tuas miçangas rotas
Que rolam na minha frente?
Teu colar estava quente...
As contas quentes senti!
Bem sabes! Se o filho expira,
A mãe, que triste o perdeu,
Na selva o berço lhe estira
Entre a flor, a brisa, a palma...
Quando eu morrer, prende estalma
Aqui, no cabelo teus
Minha noiva derradeira,
És bela e triste ao luar!
Eu fui a garça altaneira
Cruzando as tardes vermelhas...
Dos arcos das sobrancelhas
Por que frechaste um olhar?
Caí! Caí nos teus braços,
Dela filha de Tupá!
São serpentes teus abraços,
Mas são serpentes que beijam!...
São lianas que festejam
Os galhos de piquiá.
Já, mais fria a serenada
Resvala pelos bambus...
Os ventos da madrugada
Vêm da picha, vêm do norte...
Não ouves, falando em morte?
... Eu amo os teus ombros nus!...
Teus ombros... Mas ficas branca
Vendo o céu enbranquecer!?
É a alvorada que espanca
Os mochos e dentre as flores,
Aos pombos arruladores
Manda cantar... Vou morrer!
Vem! Os astros emurchecem...
Só resta um deles nos céus.
Seus raios grandes parecem
As pétalas da magnólia...
É a estrela que se esfolha
Quando a noite diz adeus.
Fita os olhos nela... um beijo...
Um beijo... antes do arrebol!...
Inda brilha... inda um desejo...
Eia! Ao raio derradeiro!...
..................................
Adeus! noiva do guerreiro!
Salve, ó morte! Salve, ó sol!!!
2 059
José Sarney
Meditação sobre o Bacanga
As águas passam
É lua e as casas aparecem.
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece.
Tudo é sombra, sombra e nada,
água e silêncio nas folhas e vales
rompidos pelo Bacanga em sulcos
de madrugada.
Faixa de vento na montanha a encher e vazar:
címbalos onde o tédio geme.
É o gigante do não esquecer e as vozes do mangue.
Sangue correndo das imagens mordidas
pelos dentes estranguladores da noite.
Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
buscam
o que não existe mais.
Ele vivia além e tinha fome, mas pensava.
Comeu os pensamentos devorando os dias
o nome e a noite.
Doce rio que vem e bóia
na enseada.
Águas barrentas, sujas,
Liberdade que morreu
e se afoga
no Mar.
Medito sobre mim que já sou morto:
as canções fúnebres que me pesam
como pedras no vazio do
lembrar.
— Barquinho de vela
que vai sobre o mar.
Boneca amarela
que me vem roubar.
meus olhos fenecem e o presságio dorme
no espelho das águas que
escorrem.
(A Canção Inicial / l954)
É lua e as casas aparecem.
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece.
Tudo é sombra, sombra e nada,
água e silêncio nas folhas e vales
rompidos pelo Bacanga em sulcos
de madrugada.
Faixa de vento na montanha a encher e vazar:
címbalos onde o tédio geme.
É o gigante do não esquecer e as vozes do mangue.
Sangue correndo das imagens mordidas
pelos dentes estranguladores da noite.
Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
buscam
o que não existe mais.
Ele vivia além e tinha fome, mas pensava.
Comeu os pensamentos devorando os dias
o nome e a noite.
Doce rio que vem e bóia
na enseada.
Águas barrentas, sujas,
Liberdade que morreu
e se afoga
no Mar.
Medito sobre mim que já sou morto:
as canções fúnebres que me pesam
como pedras no vazio do
lembrar.
— Barquinho de vela
que vai sobre o mar.
Boneca amarela
que me vem roubar.
meus olhos fenecem e o presságio dorme
no espelho das águas que
escorrem.
(A Canção Inicial / l954)
1 706
Jorge Pedro Barbosa
Canção de embalar
"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."
Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.
Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...
Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...
Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."
Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...
"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."
Volta-se e torna a dormir...
Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...
pra não vir Ti Lobo..."
Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.
Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...
Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...
Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."
Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...
"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."
Volta-se e torna a dormir...
Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...
1 300
Castro Alves
A Bainha do Punhal
Fragmento
Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólmã azul!
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Stambul.
Salve, serralhos severos
Como a barba dum Paxá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fiéis de Alá! ...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre os quiosques!
Mulheres nuas do Harém!.
Mas embalde a lua inclina
As loiras tranças pra o chão
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afã...
Soam tímbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Irã!...
Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólmã azul!
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Stambul.
Salve, serralhos severos
Como a barba dum Paxá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fiéis de Alá! ...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre os quiosques!
Mulheres nuas do Harém!.
Mas embalde a lua inclina
As loiras tranças pra o chão
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afã...
Soam tímbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Irã!...
2 147
Francisco José Tenreiro
Ciclo do álcool
1
Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
Bebeu metade...
E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.
2
A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
È o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!
3
Mãe Negra contou:
"eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!..."
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
"Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele..."
Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.
"Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!.
Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
Bebeu metade...
E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.
2
A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
È o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!
3
Mãe Negra contou:
"eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!..."
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
"Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele..."
Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.
"Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!.
2 333
Emiliano Perneta
Vencidos
Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?
Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?
Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!
Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?
Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?
Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!
Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 658
António Lampreia
Sombras da Madrugada
Vi uma sombra bem unida
a dela e a tua
e a minha sombra já esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu não queres
mas já te amou!
É madrugada não importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu não te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.
Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
já não tem nada
anda perdida
quando a manhã, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!
a dela e a tua
e a minha sombra já esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu não queres
mas já te amou!
É madrugada não importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu não te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.
Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
já não tem nada
anda perdida
quando a manhã, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!
917
Emiliano Perneta
Canção
Pára um negro cavaleiro
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.
Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."
— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —
Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?
— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?
"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.
1897
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.
Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."
— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —
Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?
— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?
"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.
1897
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 945
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 530
Laura Amélia Damous
Torres da Sé
Garças altivas beliscam
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
1 001
Mário Faustino
Carpe Diem
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 757
Luís António Cajazeira Ramos
Entre o Sono e a Vigília
(soneto sonolento, ao dormir)
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
1 103
Renata Pallottini
Olha, que no Verão
Olha, que no verão a lua nasce
vermelha dentro d'água
nesta praia.
Acendamos o fogo para vê-la
e para ver-nos. Já é quase noite
o mar só faz de conta com sua água múltipla
breve virá o rastro de ouro e sangue.
A lua sempre comoveu mulheres
seus ciclos, suas datas,
seus períodos
a lua sempre motivou os gatos
maré de bons resquícios
sexo e fluido;
gemendo nos amamos
e gemendo explodimos nos sismos do parto.
As mulheres são fossos onde a lua dorme
e desperta furiosa
a cada quatro casas.
Nada mais do que sou
me basta
neste instante;
o que fui já passou há muito tempo;
não devemos voltar nem pra recolher os destroços
fossem de ouro os restos
não voltemos;
deixa na praia os pedaços de troncos
ou joga-os na fogueira
de areia e ossos.
Pode tardar a lua; a hora não importa
à senhora dos sulcos e das lavras do mar.
Ela tem o seu tempo, o tempo das crateras
o lívido da pele do seu centro
o ouro do seu carmim
no nascimento.
Pode tardar a lua
Vem
O fogo
é dentro
In: PALLOTTINI, Renata. Ao inventor das aves. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebaran
vermelha dentro d'água
nesta praia.
Acendamos o fogo para vê-la
e para ver-nos. Já é quase noite
o mar só faz de conta com sua água múltipla
breve virá o rastro de ouro e sangue.
A lua sempre comoveu mulheres
seus ciclos, suas datas,
seus períodos
a lua sempre motivou os gatos
maré de bons resquícios
sexo e fluido;
gemendo nos amamos
e gemendo explodimos nos sismos do parto.
As mulheres são fossos onde a lua dorme
e desperta furiosa
a cada quatro casas.
Nada mais do que sou
me basta
neste instante;
o que fui já passou há muito tempo;
não devemos voltar nem pra recolher os destroços
fossem de ouro os restos
não voltemos;
deixa na praia os pedaços de troncos
ou joga-os na fogueira
de areia e ossos.
Pode tardar a lua; a hora não importa
à senhora dos sulcos e das lavras do mar.
Ela tem o seu tempo, o tempo das crateras
o lívido da pele do seu centro
o ouro do seu carmim
no nascimento.
Pode tardar a lua
Vem
O fogo
é dentro
In: PALLOTTINI, Renata. Ao inventor das aves. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebaran
1 488
Henriqueta Lisboa
Assim é o Medo
Assim é o medo:
cinza
Verde.
Olhos de lince.
Voz sem timbre
Torvo e morno
Melindre.
Da sombra espreita
à espera de algo
que o alente.
Não age: tenta
porém recua
a qualquer bulha.
No campo assiste
junto ao títere
à cruz que esparze
vivo gazeio
de nervosismo
com vidro moído
grácil granizo
de pássaros.
E que rascante
violino brusco
não arrepia
ao longo o azul
dos meus veludos
se, a noite em meio
cá no fundo
quarto escuro,
a lua arrisca
numa oblíqua
o olhar morteiro.
Dentro da jaula
(mundo inapto)
do domador
em fúria à fera
subsinuosa-
mente resvala.
Aos frios reptos
do ziguezague
em choque, súbito
relampagueio,
as duas forças
se opõem dúbias
se atraem foscas
para a luta
pelo avesso:
despiste e fuga
ouro e vermelho
desde a entranha.
As duas forças
antagônicas:
qual delas ganha
acaso
ou perde
o medo
frente a
frente ao
medo?
Publicado no livro Além da Imagem (1963).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
cinza
Verde.
Olhos de lince.
Voz sem timbre
Torvo e morno
Melindre.
Da sombra espreita
à espera de algo
que o alente.
Não age: tenta
porém recua
a qualquer bulha.
No campo assiste
junto ao títere
à cruz que esparze
vivo gazeio
de nervosismo
com vidro moído
grácil granizo
de pássaros.
E que rascante
violino brusco
não arrepia
ao longo o azul
dos meus veludos
se, a noite em meio
cá no fundo
quarto escuro,
a lua arrisca
numa oblíqua
o olhar morteiro.
Dentro da jaula
(mundo inapto)
do domador
em fúria à fera
subsinuosa-
mente resvala.
Aos frios reptos
do ziguezague
em choque, súbito
relampagueio,
as duas forças
se opõem dúbias
se atraem foscas
para a luta
pelo avesso:
despiste e fuga
ouro e vermelho
desde a entranha.
As duas forças
antagônicas:
qual delas ganha
acaso
ou perde
o medo
frente a
frente ao
medo?
Publicado no livro Além da Imagem (1963).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 906
Luís António Cajazeira Ramos
O Jogo das Contas de Vidro
Aos poetas que li.
Qual alvo tisne, a lua tinge a noite
em tons argênteos, grises, plúmbeos, brancos.
A escuridão se esquina e cinge os flancos,
mal traçando o recanto em que se acoite.
O luar, com mãos de seda, audácia e zelo,
retira à noite o véu que a cobre espúrio;
e ilumina, de lilás a purpúreo,
tudo o que ao sol vai do azul ao vermelho.
À lua, o chão rural é mais bucólico
e o mundo urbano é um tanto mais insólito
do que revelam ser à luz do sol?
Talvez... Assim, qual lua, sem luz própria,
do corpo da poesia o poeta é cópia
— sinal especulado do farol.
Qual alvo tisne, a lua tinge a noite
em tons argênteos, grises, plúmbeos, brancos.
A escuridão se esquina e cinge os flancos,
mal traçando o recanto em que se acoite.
O luar, com mãos de seda, audácia e zelo,
retira à noite o véu que a cobre espúrio;
e ilumina, de lilás a purpúreo,
tudo o que ao sol vai do azul ao vermelho.
À lua, o chão rural é mais bucólico
e o mundo urbano é um tanto mais insólito
do que revelam ser à luz do sol?
Talvez... Assim, qual lua, sem luz própria,
do corpo da poesia o poeta é cópia
— sinal especulado do farol.
972
Albano Dias Martins
Concitas para
os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
1 123
Ricardo Silvestrin
Haicai
fiapos de sol
o cachorro se espreguiça
depois fica pensando
céu escuro
lua branca
apago todas as lâmpadas
o cachorro se espreguiça
depois fica pensando
céu escuro
lua branca
apago todas as lâmpadas
2 272