Poemas neste tema

Noite e Lua

António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

Barcarola

Deseja a noite, primeiro,
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana,
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!

1 404
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Haicai

Noite de Domingo

Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.

O Lago Habitado

Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.

1 878
Aureliano Lessa

Aureliano Lessa

Tu

Teus olhos são como a noite
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!

Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.

Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!

Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!

Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!

Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!

1 418
Cláudio Alex

Cláudio Alex

Samba-Canção

1.

Dentro de um mundo espesso
ainda te tenho apreço.
Tenho um samba guardado
no fundo da gaveta ao lado.
Ele diz de um dia
e de um lugar marcado.
Fala de teu endereço
mas por enquanto calado.

Se esconde atrás do recado,
um velho samba-canção.
Cantado na mesma escala
das cordas do teu coração.
Venha, abre a porta,
o meu palácio é só teu.
Venha que sei que comportas
um amor todo meu.

2.

Deixe a lâmpada acesa,
espere um minuto.
Me ouça um instante
e então eu te escuto.
Não durma tão cedo.
Não quero ir dormir.

Diga uma coisa sincera,
não feche os ouvidos.
Receba meu corpo
em todos sentidos.
Não poupe palavras,
não poupe gemidos.

Deixe-me ver parte a parte,
me prende e me solta.
A porta está aberta
e o tempo não volta
e a mim pouco importa
que venha insistir.

De um abat-jour policromo
reflete em teu rosto
uma luz submersa
num ar de meu gosto.
Magia do incerto.
Logia vital.

3.

Daquele dia em diante
você roubou minha paz.
Minha ilusão passageira
está duradoura demais.
Meu pensamento no escuro
está pervertido demais.
Meus obscuros segredos
estão misteriosos demais.

Um copo d’água com açúcar
senão percebo miragens.
Passo a vagar pela casa
lembrando as tuas bobagens.
Veja, não esqueça, se lembre,
telefone, me inspire coragem,
a solidão me carcome
não é uma vantagem.

4.

Não diga que eu te induzi
que me calo.
Não peça opinião sobre amor
eu não sei nada.
Eu bem mal só sei quem sou eu.
Eu não sei se você mereceu.
De que vale explicar tanta coisa
tanta coisa tão falha.

Eu não sei se eu sofro algum mal,
só você que repara.
Eu não sei como é ter prazer,
é uma coisa tão rara.
Eu não sei como se sucedeu
eu beijei e você respondeu.
Eu vivi e você me acolheu.
Foi o que aconteceu.

5.

Olhar atento prá porta.
Que duro silêncio comporta!
Frio aposento vazio
o pensamento saiu.

Saiu prá fora do quarto
a procurar já tão farta
de apaziguar a saudade
percorre a cidade.

A campainha não toca.
O telefone não chama.
Na mesa, o copo, a bebida,
cigarro que queima a cama.

Apago a luz, adormeço
me abraço com meu silêncio,
e aconchego o vazio
nesta noite de frio.

881
Angela Santos

Angela Santos

Lua

Nocturna
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua

Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua

Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…

A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim

1 123
Angela Santos

Angela Santos

Noite

Do
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo

meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito

Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…

Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.

1 062
Angela Santos

Angela Santos

Estrela Guia

Vem
comigo
descobrir a estrela
que brilha num lugar
que não sabemos

Vem
a tua mão está quente
(é bom senti-la)
sinto-me nela…

Vem
a hora tarda, cedo cai a noite
e a lua não luz
na noite que atravessamos

Olho-te,
tu foges dos meus olhos
só a tua mão me diz que estás
aqui…

Eu,
eu estou lá longe
e aqui também,
já que firme a tua
minha mão presa tem.

878
Angela Santos

Angela Santos

Vaga-lume

Se
um vaga-lume
no seu bater de asas de seda
chegasse junto da tua janela
e nesse som imperceptível que notasses
te dissesse:

Amor aqui me tens, Vaga-lume feita
adornando a tua noite cortando o silencio
com meu leve bater de asas
olhando a clara luz que me vem de ti
me atrai, cega e extenua
quando perdida na luz do meu rodopiar constante
sou vaga-lume na noite
vaga-lume, feita amante.

1 138
Aída Godinho

Aída Godinho

Haicai

Sabiás não cantam
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?

No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.

1 051
Susana Thénon

Susana Thénon

Oração

Quando deixará a lua
de preferir a esses poucos
que tanto à meia-noite
como ao amanhecer
gritam seu ardor sem freio.
Quando será definitivo
o direito a sonhar
sem verificar números
papéis rasgados, sexos,
velocidade sem pressa do sangue.
Quando morrerá o céu
- seus castigos -
e o raio será um menino
entre as folhas.
Quando arderão os ventos
sepultados.
734
Angela Santos

Angela Santos

Volúpia

Noite
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…

E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…

1 144
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Poema ao Amor Recém-Nascido

Vê, é crescente,
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.

Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.

Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.

Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.

Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.

Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.

Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!

Em uma lua crescente de 1996.

1 957
Ricardo Akira Kokado

Ricardo Akira Kokado

Verão

Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!

Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.

1 117
Ascendino Leite

Ascendino Leite

Qualidade Noturna

Noite cinza mas não suja.
Noite de homem, insenil,
senão que imaginoso,
tendendo ao viril,
ainda que só fitando o teto.

915
Susana Thénon

Susana Thénon

Ela

Pela madrugada
(ela se deu conta das mãos).
Pela madrugada, apenas.
Ela lembra que nada importa
embora sua sombra siga correndo
em volta da noite.
Algo se deteve em algum momento
algo marchava debilmente
e se deteve em algum momento.
Ela tremeu como um som
congelado entre os lábios de um morto.
Ela se desvaneceu como uma lembrança
evocada até a saciedade.
Ela se dobrou sobre sua respiração
e compreendeu que ainda vivia.
Deu-se conta da liberdade
e a deixou escorrer como uma pequena noite.
Amarrou a angústia ao redor do pescoço
e lembrou sua cor desaparecida.
Ela mordeu às cegas na escuridão
e escutou gritar o silêncio.
E aprendeu a rir
do cheiro antigo que dava adeus a seu sangue.
Pela noite
(ela cortou as mãos).
Pela noite, apenas.
Ela recolhe seu pequeno ocaso.
Ela sonha na ereção da rosa.
810
Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Faraó

Escavo ideológico deserto
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.

Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.

Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.

Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.

Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.

Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.

Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.

982
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Hino

Reconheço a voz errante e longínqua, o sopro
mergulhado na volúpia da sombra, o castanho claro
dos cabelos estéreis num retrato de epílogo. Re-
conheço o frio número da água, a noite perdida
num hálito de anjos, no fontanário grito do ganso.
Essa noite suspensa de um desmaio de nebulosas,
imobilizada pelo tremor dos prelúdios, apressada
amante na descida do abismo, avançou, breve maré,
submergindo a obscura nudez das estrelas no
finito oriente do olhar. Reconheço a falésia
do dormente desejo de eternidade, um flutuar
de precipitações no ritmo das pálpebras, o si-
lêncio, vago íman da impaciência. Murmúrio
de génesis num pousar de dedos, rebordo de limites
na abdicação do gesto. Mágico círculo divino.



Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 17 | Na regra do jogo, 1982
1 234
Susana Thénon

Susana Thénon

Poema

"Eu creio nas noites".
R. M. Rilke

Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica
o amor que se afoga desaforadamente em minha boca
e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo,
nenhuma tarde com mais sol que de costume
é o bastante para formar a sílaba,
o sussurro esperado como um bálsamo,
noite e noite.
Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe
quando o não, o adeus,
o minuto morto agora, irreparável,
se levantam inesperadamente e cega,
até morrermos em todo o corpo, infinitos.
Como uma fome, como um sorriso, penso,
deve ser a solidão
assim nos engana bem e entra
e assim a surpreendemos uma tarde
reclinada sobre nós.
Como uma mão, como um canto simples
e sombrio
deveria ser o amor
para tê-lo perto e não renegá-lo
cada vez que nos invade o sangue.
Não há silêncio nem canção que justifiquem
esta morte tão lenta,
este assassinato que nada condena.
Não há liturgia nem fogo nem exorcismo
para deter o fracassar ridículo
dos idiomas que conhecemos.
A verdade é que não me afogo sem lamentar,
pelo menos tenho resistido ao engano:
não participei da festa mansa, nem do ar cúmplice,
nem da metade da noite.
Mordo entretanto e ainda que pouco o bastante
meu sorriso guarda um amor que assustaria a deus.
1 101
Olga Savary

Olga Savary

Gazel

De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.

O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo

sem cessar.

Belém, julho de 1953


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 968
Domingos Carvalho da Silva

Domingos Carvalho da Silva

Soneto Ocasional

Nas fronteiras do sonho eu te esperava,
aurora de olhos rubros e mãos frias.
Para o meu canto volatilizado,
eras um tema azul de águas marítimas.

Tinha estrela nas mãos. E surpreendia
pelo ruivo cabelo algas de encanto.
Em viagens sempre breves percorria
o cais das nuvens junto a um mar de palmas.

E quando aos poucos se despetalou
no ocaso o sonho, e a noite se tornou
realidade solitária e nua.

surgiu sobre as estrelas hesitantes,
como um lírio ofuscando diamantes,
a rosa do teu sexo em meia lua.


Publicado no livro Praia oculta: poemas (1949).

In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
1 615
Manoel de Barros

Manoel de Barros

Exercícios Adjetivos

(...)

Rolinhas-casimiras

Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados

Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro

Adeus rolinhas-casimiras.

O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence

Vermelhas trevas

O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas

Silêncio rubro

Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas

Modos ávidos

Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos

Visgo tátil

O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas

Os caramujos-flores

Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos

(...)


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 585
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Perdas e Danos

Losses and Privations

Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.

Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.

Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.

Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo.

He who sleeps forfeits the night.
He shuns eternity,
a captive candelabrum
in the darkness of the sky.

He who sleeps forfeits love,
the mature vigil
of the fiesh that dreams itself
awakened.

He who sleeps forfeits death
that breathes unseen
like the hare in the forest.

He who sleeps forfeits everything
that fortune places
on the table of the universe.

1 371
António Tomé

António Tomé

Nunca é tarde

Quando no cais só fica ancorada
A indiferença e já não resta nada
Senão as ilusões a que te agarras.

Ouve a voz inefável das guitarras
Tingindo de paixão a madrugada
No fim duma viagem povoada
Do canto indecifrável das cigarras.

Saberás então que há sempre um começo
No profano rio em que a vida arde,
E é nessa maré viva que estremeço.

Mas, ainda que saibas que nunca é tarde,
Não tardes, que sem ti eu anoiteço,
E não peças jamais ao rio que aguarde.
1 217
Cirstina Areias

Cirstina Areias

A Mulher e a Lua

A lua está cheia esta noite
Absoluta ela
Me enche, clareia, consome

Meus poros suam o luar cheio
Molho lençóis
Ouço músicas mágicas
E tenho em minha cama mais que a mim

Gozo amores arqueados
Memórias em transe
Incêndio
Olhos vadios

E a lua algema a mim e a ele
E ilumina, nele, meu desvario
Ele não sabe
Ele não sabe que dentro desta mesma noite
De luz cheia, o meu desejo
Galopa.

1 108