Poemas neste tema

Noite e Lua

Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Pálida à Luz

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens dalvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!

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Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Caboclo-d'Água

Caboclo-d'água Ô
caboclo-d'água.

Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.

Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.

Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!

A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.

O vento chora
mais que reza
uma oração.

Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.

Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.


Publicado no livro O Menino Poeta (1943).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
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Raquel Naveira

Raquel Naveira

Jasmim-do-Cabo

Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
aquela flor que perfuma,
embalsama,
derrama óleo grosso
nos pés da noite.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
o dia transcorreria em agonia,
mas a lua viria
desatar os laços da magia
e nos tiraria o fôlego.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
absorveríamos no pulmäo
uma torrente de pétalas brancas
e voaríamos como anjos
tocando banjos na noite.
(1994)

1 424
Sylvia Plath

Sylvia Plath

Auge

A mulher está perfeita.
Morto,

Seu corpo mostra um sorriso de satisfação
A ilusão de uma necessidade grega

Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés

Parecem dizer:
Fomos tão longe, é o fim.

Cada criança morta, uma serpente branca
Em volta de cada

Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou

Todas em seu selo como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim

Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.

A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.

Ela já está acostumada a isso.
Seu lado negro avança e draga

(5 fevereiro 1963)



1 358
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Madrugada

Na placidez da noite,
o apito do guarda-noturno.
Um silvo longo e um breve.
A cadela ladra assustada
com medo da madrugada cálida.
Deitada no meio da rua,
de pernas para o alto,
a gata se lambe sossegada, tranqüila.
Um sibilo agudo se faz presente
na solidão noturna.
Nas casas silenciosas
as pessoas dormem,
cerradas entre quarto paredes,
revelam os segredos da familiaridade.
A gata permanece sobre o asfalto
fazendo confidências individuais.
A cadela frente ao portão
assiste a quietude da noite.
O homem sonha profundo,
o colchão grita frases de amor.
O guarda da noite vigia as casas,
observa as amigas da vida noturna.
Em frente à minha janela assovia
três vezes e prossegue a caminhada.
Acompanhada do meu isolamento
escuto silvos e observo as pessoas
caladas em suas privacidades.
Deitada no meu leito,
coberta com meu manto,
repouso com sofreguidão.
A gata, a cadela, o guarda,
companheiros da madrugada.

1 087
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Carência na Noite

Procurei-te por todos os cantos e bares.
Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.

982
Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

Londres

Como um gigante suarento, dorme
Nos pardos mantos d'uma névoa estranha,
A Cidade opulenta em cuja entranha
Rasteja a fome como um verme enorme.

Dos lampeões à dúbia claridade,
Passam, repassam vultos cautelosos:
Este procura no mistério os gozos,
Procura aquele um pão, na realidade.

Contra o cais solitário o rio escuro
Geme convulso e espuma,—e novamente
Volta a gemer, de encontro ao velho muro;

Retine o oiro:—vela a Indústria ingente,
Cresce a miséria, e aumenta o vício impuro...
Oh milionária Londres indigente!


Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 833
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Alma Gêmea

Sou tão solitária quanto a lua
rodeada de estrelas.
O céu está nublado,
nenhum habitante me acompanha.
Sou luar sem multidão,
raio-de-luz no azul.
Não escuto vozes e não vejo sombras.
Sou indivisível no universo,
tão pequena diante da terra,
tão grande frente aos homens.
Sou luz que brilha e não se apaga,
um corpo perdido no espaço.
Ninguém me percebe no planeta.
Grito frases de silêncio,
ninguém me escuta.
Murmuro pausas,
ninguém me ouve.
Sou tão pequena e frágil
quanto um milésimo de segundo.
Sou tão forte quanto as Muralhas da China,
ninguém descobre meus segredos,
ninguém sabe a minha história.
Sou pastora das galáxias,
caminho sobre pedras,
procuro sonhos e castelos.
Minha alma gêmea está a quilômetros de distância.
Não tenho nave nem foguete.
Hei de encontrá-la num futuro próximo.

947
Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

Noite Tropical

Desceu a calma noite irradiante
Sobre a floresta e os vales semeados:
Já ninguém ouve os cantos prolongados
Do negro escravo, estúpido e arquejante.

Dorme a fazenda:—apenas hesitante
A voz do cão, em uivos assustados,
Corta o silêncio, e vai nos descampados
Perder-se como um grito agonizante.

Rompe o luar, ensanguentado e informe,
Brotam fantasmas da savana nua...
E, de repente, um berro desconforme

Parte da mata em que o luar flutua,
E a onça, abrindo a rubra fauce enorme,
Geme na sombra, contemplando a lua.

1873


Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 755
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Aquário

Tudo frio na madrugada.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.

808
Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

A Voz de Moema

"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa,
E sem mais vista ser sorveu-se n'água.
DURÃO — Caramuru.


Gemem as ondas mansamente; — a quilha
Do barco ondeia, ao som da vaga clara;
Cai do farol a luz longínqua e rara,
E a Lua cheia sobre as ondas brilha...

Do mar na ardente e luminosa trilha
Nem um batel por estas horas pára:
Sonha a Bahia, ao longe, — a altiva e cara
Filha dos deuses, de Colombo filha.

Tudo silente dorme. O bardo, entanto,
Que tudo vê e em tudo colhe o tema
Que amor produz no flácido quebranto,

Ouve pairar nos ares sons d'um Poema...
Ai! é a voz, — a voz, rouca de pranto,
A triste voz da pálida Moema!

A bordo do Senegal


Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 679
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Templo de Zeus

A solidão invade a noite do sábado,
o silêncio toma conta das ruas.
Não escuto cachorros latindo,
apenas o escapamento solto da motocicleta
voando sobre o asfalto como um relâmpago.
Aguardo uma eternidade teu chamado mudo,
o telefax e secretária eletrônica se calaram.
Tento me comunicar contigo por telepatia,
não entendes meus códigos.
Viajo pelo túnel do tempo rumo à terra de Homero
para ouvir tua voz e codificar meus sinais.
Percorro o Bosque Sagrado do Olimpo,
Parthenon, Palácio Cnosso, Pórtico de Cariátides,
Acrópole de Lindos, Templo de Apolo,
Templo de Posêidon, o Templo de Zeus,
e assumo formas de touro, cisne, anfitrião,
chuva de ouro para me aproximar de ti
como fizera Zeus com Europa, Leda, Danae e Alcmene.
Zeus mais feliz que eu com as mortais,
de suas aproximações surgiram Perseu, Pólux e Helena.
A máquina do tempo me traz de volta
ao silêncio do fim de semana.
Nada valeu me transformar em cisne,
touro branco, chuva de ouro e anfitrião.
O aparelho de Graham Bell se calou no tempo.

923
Irene Lisboa

Irene Lisboa

Jeito de escrever

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.



1 711
Fernando Py

Fernando Py

Canto de Muro

A Mário Quintana
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.

Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.

Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.

Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.

1 024
Maria Teresa M. Carrilho

Maria Teresa M. Carrilho

Como uma flor vermelha, a abrir

Na noite pálida
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor

O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor

Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor

Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...

789
Lúcia Villares

Lúcia Villares

Lua

Lua,
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)

Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.

1 077
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Sempre em Todos na Manhã

Sempre em todos na manhã
A noite na face

De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.

Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.

Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.

775
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Noturno

Os teus noturnos lábios débeis pedem
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.

O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.

Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.

A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.

981
Arlete Nogueira da Cruz

Arlete Nogueira da Cruz

Rua dos Afogados

Rua de verdade e de sobrado
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.

1 376
Angela Santos

Angela Santos

Flores Orvalhadas

De
toques suaves
são feitos os momentos
em que olho o corpo que amo
e desnudo

Vibrações, vozes, sussurros
os dias e as noites se enchem
feitos em clarões que abrasam
inteiros o corpo e a alma…

e são pétalas orvalhadas que embelezam
nossos corpos e perfumam como essências
a alma límpida que emerge em nós
depois do amor

Do querer que em nós é grito
cúmplice é o silêncio e a noite
que nos abriga em seu seio
e nos segreda em murmúrio
que o sonho é esse lugar que não é longe nem perto
e dentro de nós está
como o caminho mais certo.

1 138
Angela Santos

Angela Santos

Lua Prateada

Lua
poderosa, prateada lua
como um diadema
sobre a minha fronte

Lua que eu amo e me quer também
e dançando nua a dança da lua
é luz que ilumina minha noite fria

E sobre os que a amam
aos cachos derrama branca a sua luz ,
Lua prateada onde vou beber
os últimos raios que ainda
emanam ao amanhecer

1 356
Mário Del Rey

Mário Del Rey

Verão

Asas ao vento
campos de um só verde
pódios de pardais

Um aguaceiro
noite de relâmpagos
ideogramas

1 045
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

O Portão

O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.

The Gate Poema em Inglês

2 253
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

A Recompensa

Eis a dádiva da noite:
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa
na noite misteriosa.

1 300