Poemas neste tema

Noite e Lua

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noite

Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,

Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
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Tamara Baroni

Tamara Baroni

Carmem

Suor entre os seios umidade
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VILEGIATURA

O sossego da noite, na vilegiatura no alto;
O sossego, que mais aprofunda
O ladrar esparso dos cães de guarda na noite;
O silêncio, que mais se acentua,
Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro...
Ah, a opressão de tudo isto!
Oprime como ser feliz!
Que vida idílica, se fosse outra pessoa que o tivesse
Com o zumbido ou murmúrio monótono de nada
Sob o céu sardento de estrelas,
Com o ladrar dos cães polvilhando o sossego de tudo!

Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar lá em casa.
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.
Sempre esta inquietação mordida aos bocados
Como pão ralo escuro, que se esfarela caindo.
Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos
Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.
Sempre, sempre, sempre
Este defeito da circulação na própria alma,
Esta lipotimia das sensações,
Isto...

Tuas mãos esguias, um pouco pálidas, um pouco minhas,
Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,
Como e onde a tesoira e o dedal de uma outra.
Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espaço.
Recordo para ter em que pensar, sem pensar.
De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo.
Olhaste conscientemente para mim, e disseste:
«Tenho pena que todos os dias não sejam assim» –
Assim, como aquele dia que não fora nada...

Ah, não sabias,
Felizmente não sabias,
Que a pena é todos os dias serem assim, assim;
Que o mal é que, feliz ou infeliz,
A alma goza ou sofre o íntimo tédio de tudo,
Consciente ou inconscientemente,
Pensando ou por pensar –
Que a pena é essa...

Lembro fotograficamente as tuas mãos paradas,
Molemente estendidas.
Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti.
Que será feito de ti?
Sei que, no formidável algures da vida,
Casaste. Creio que és mãe. Deves ser feliz.
Porque o não haverias de ser?

Só por maldade...
Sim, seria injusto...
Injusto?

(Era um dia de sol pelos campos e eu dormitava, sorrindo).
(...)
A vida...
Branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar.
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Olegário Mariano

Olegário Mariano

A Velha Mangueira

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa...
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa...

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.


Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).

In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aliança

Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos

Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade

Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro

Ó longa meia-noite em que oscilo nó fluido
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

4 - SPELL

SPELL

From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!

My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?

What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
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Antero de Quental

Antero de Quental

Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos,
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite E a Casa

A noite reúne a casa ao seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Crepúsculo

Horas crepusculares tão magoadas,
Correm de leve, preguiçosamente...
Cai a tardinha sonhadoramente...
Vamos os dois sozinhos, de mãos dadas!...

Sonham as flores das hastes debruçadas...
Fecho os olhos, cansada, languescente...
E todo oiro e púrpura o poente!
Que lindas são as sombras das estradas!...

São sorrisos teus olhos... Teu olhar
Anda abraçado ao meu, sem o beijar
Numa caricia imensa, ardente, louca!

Anda já o luar pelos caminhos...
Há brandas serenatas pelos ninhos...
— Tu fitas num anseio a minha boca!...

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A low, sad wind fills the lone night

A low, sad wind fills the lone night
With its one solitary sound.
I have forgotten what delight
Delight has, in the vague around
All sleep is consecrated ground.

Alas for all I ever hoped!
The sheep crop what it lies beneath.
Its grave is where the mountain sloped
When mountains were, but now the heath
Is all the life above its death.

Moan, solitary wind that wakes
When the day sleeps! Moan vague and low!
That which I never was now slakes
Its thirst where reeds cluster round lakes
Of silence, or mute rivers go.

To-morrow shall be yesterday
Lest life forget what it is ever.
I shall myself cast this away
That I am now, and myself sever
From what of me weeps by this river.

This river of the haunted night
That under stars I do not see
Has neither purpose nor delight.
Moan, solitary wind, and be
This life’s unchanging, shoreless sea!

13/3/1933

now takes
Its sleep where reeds dip into lakes
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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

A mão, o muro, o mundo

A mão preferida pelo silêncio
evoca sobre o muro
um alfabeto sem vincos
não é mão é uma luz que sobe pela colina
um atalho entre as estevas
um incêndio na mata
a rapariga louca,grita contra a noite
na enseada

A mão preferida pelo silêncio
folheia o livro dos incêndios
torna-se irremediavelmente suja
sobre o muro traça os vincos
os primeiros versos

A mão preferida pelo silêncio
não conhece repouso
quando atravessa a noite da enseada
é a mão trémula
pobre
assinalada pela escassez extrema dos nomes
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

O Fado

Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...

Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...

É o fado. A canção das violetas:
Almas de tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!

Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito sejas tu! Ave-Maria!...
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José Duro

José Duro

Alvíssima

(Oração)

Como a Noite, Senhor,é linda
Com seus cabelos de luar…
Não chores mais, Lua bemvinda
Que me fazes também chorar…

Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,
Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos
Sorrisos do luar a angelizar a boca,
Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…

Orações do luar dos lábios de nós ambos,
Orações do luar que os astros não rezaram,
Orações do luar a consagrar os tambos,
Orações do luar, das almas que noivaram.

Cabelos do luar, aveludados, frios,
Cabelos do luar em tranças latescentes;
Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,
Cabelos do luar banhando-se nos rios…

Aromas do luar em revoadas francas,
Aromas do luar, a perfumar o céu…
Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,
Aromas do luar, por noites todas brancas…

Brancuras do luar dispersas pelos montes…
Brancuras do luar — finos lençois de gelo…
Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,
Brancuras do luar, a namorar as fontes…

Veludos do luar tecidos pela lua,
Veludos do luar, de lírios e de rosas…
Veludos do luar, ó vestes preciosas
Veludos do luar vestindo a noite nua…

Trémulos de luar — litanias peregrinas,
Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,
Trémulos de luar, nas bocas aspérulas
Trémulos de luar, e lábios das boninas…

Tristezas do luar caindo-nos no peito,
Tristezas do luar, como um dobrar profundo…
Tristezas do luar anestisiando o Mundo,
Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…

Lágrimas do luar da Lua aventureira,
Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…
Lágrimas do luar da mágua derradeira,
Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…

Saudades do luar, na rama dos ciprestes,
Saudades do luar, há mochos a cantar…
Saudades do luar, são almas a chorar…
Saudades do luar, as podridões agrestes…

Velhinhos corações a verter sangue e máguas,
Velhinhos corações de mocidade negras,
Velhinhos corações — doridas toutinegras,
Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.

Vamos todos pedir à Lua sacrossanta
Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem
Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,
Nos abençõe agora e para sempre amén!

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Un patio

Con la tarde
se cansaron los dos o tres colores del patio.
Esta noche, la luna, el claro círculo,
no domina su espacio.
Patio, cielo encauzado.
El patio es el declive
por el cual se derrama el cielo en la casa.
Serena,
la eternidad espera en la encrucijada de estrellas.
Grato es vivir en la amistad oscura
de un zaguán, de una parra y de un aljibe.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 25 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

A Doida

A Noite passa, noivando.
Caem ondas de luar.
Lá passa a doida cantando
Num suspiro doce e brando
Que mais parece chorar!

Dizem que foi pela morte
D’alguém, que muito lhe quis,
Que endoideceu. Triste sorte!
Que dor tão triste e tão forte!
Como um doido é infeliz!

Desde que ela endoideceu,
(Que triste vida, que mágoa!)
Pobrezinha, olhando o céu,
Chama o noivo que morreu,
Com os olhos rasos d’água!

E a noite passa, noivando.
Passa noivando o luar:
“Num suspiro doce e brando,
Pobre doida vai cantando
Que esse teu canto, é chorar!”
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Sábados

Afuera hay un ocaso, alhaja oscura
engastada en el tiempo,
y una honda ciudad ciega
de hombres que no te vieron.
La tarde calla o canta.
Alguien descrucifica los anhelos
clavados en el piano.
Siempre, la multitud de tu hermosura.

A despecho de tu desamor
tu hermosura
prodiga su milagro por el tiempo.
Esta en ti la ventura
como la primavera en la hoja nueva.
Ya casi no soy nadie,
soy tan solo ese anhelo
que se pierde en la tarde.
En ti esta la delicia
como esta la crueldad en las espadas.

Agravando la reja esta la noche.
En la sala severa
se buscan como ciegos nuestras dos soledades.
Sobrevive a la tarde
la blancura gloriosa de tu carne.
En nuestro amor hay una pena
que se parece al alma.


que ayer solo eras toda hermosura
eres tambien todo amor, ahora.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 50 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai alta no céu a lua da Primavera

Vai alta no céu a lua da Primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.


06/07/1914
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ó Noite, Flor Acesa, Quem Te Colhe?

Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser?
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Luar

Toma-me ó noite em teus jardins suspensos
Em teus pátios de luar e de silêncio
Em teus adros de vento e de vazio.

Noite
Bagdad debruçada no teu rio
País dos brilhos e do esquecimento
Com teu rumor de cedros e teu lento
Círculo azul do tempo.
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Hilda Hilst

Hilda Hilst

Dez chamamentos ao amigo

Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
2 155 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

44 - Acordo de noite subitamente

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...


07/05/1914
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro –
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.


11/05/1928
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noite

Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com seu rosto altíssimo de estrelas.
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Anjo Hazel

Anjo Hazel

Soneto à musa materializada

Ah, menina de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...

Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.

Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...

Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.

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