Poemas neste tema
Namoro e Paixão
Charles Bukowski
Quem, Diabos, É Tom Jones?
por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
1 067
Adélia Prado
A Paciência E Seus Limites
Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você.’
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você.’
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.
1 359
Pablo Neruda
19
Menina morena e ágil, o sol que coalha
os trigos, que dá os frutos e que torce as algas,
fez teu corpo alegre, teus olhos luminosos
e tua boca que tem o sorriso da água.
Um sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negras madeixas, quando esticas os braços.
Tu brincas com o sol como com o estuário
e ele te põe nos olhos escuros remansos.
Menina morena e ágil, nada em ti acerca.
Tudo de ti me afasta, como do meio dia.
És a delirante juventude da abelha,
a embriaguez da onda, e a força da espiga.
Meu coração sombrio te busca, sem demora,
e amo teu corpo alegre, a voz solta e delgada.
Mariposa morena, doce e inalterável,
como o trigal e o sol, a papoula e a água.
os trigos, que dá os frutos e que torce as algas,
fez teu corpo alegre, teus olhos luminosos
e tua boca que tem o sorriso da água.
Um sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negras madeixas, quando esticas os braços.
Tu brincas com o sol como com o estuário
e ele te põe nos olhos escuros remansos.
Menina morena e ágil, nada em ti acerca.
Tudo de ti me afasta, como do meio dia.
És a delirante juventude da abelha,
a embriaguez da onda, e a força da espiga.
Meu coração sombrio te busca, sem demora,
e amo teu corpo alegre, a voz solta e delgada.
Mariposa morena, doce e inalterável,
como o trigal e o sol, a papoula e a água.
1 434
Leila Mícollis
Bons tempos
ou
Saudosa maloca
Namoro antigo: titia
na sala bordava um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...
Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...
Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.
E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...
Saudosa maloca
Namoro antigo: titia
na sala bordava um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...
Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...
Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.
E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...
1 206
Eugénia Tabosa
Prelúdio
A noite era quase dia
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar
Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar
Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia
Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar
Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar
Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia
Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.
1 312
Carlos Seabra
Beijo
mãos que se tocam
olhos que se encontram
beijo na boca
olhos que se encontram
beijo na boca
1 067
Ibn Ammar
A Al-mu’tâmid (II)
Quantas noites passadas lá no açude
Sinuosas deslizavam as correntes do rio
Como manchadas serpentes.
As correntes murmuravam junto a nós
Ao passar, qual gente ciumenta,
A querer magoar-nos à força da calúnia.
Mas no recanto escolhido
Era o jardim que vinha visitar-nos
Enviando seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.
Sinuosas deslizavam as correntes do rio
Como manchadas serpentes.
As correntes murmuravam junto a nós
Ao passar, qual gente ciumenta,
A querer magoar-nos à força da calúnia.
Mas no recanto escolhido
Era o jardim que vinha visitar-nos
Enviando seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.
1 281
Fernando Pessoa
Maria, se eu te chamar,
Maria, se eu te chamar,
Maria, vem cá dizer
Que não podes cá chegar.
Assim te consigo ver.
Maria, vem cá dizer
Que não podes cá chegar.
Assim te consigo ver.
1 363
Fernando Pessoa
Boca de riso escarlate/E de sorriso de rir...
Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.
1 652
Fernando Pessoa
Não creio ainda no que sinto -
Não creio ainda no que sinto -
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
1 362
Adélia Prado
Formas
De um único modo se pode dizer a alguém:
‘não esqueço você’.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido:
‘não esqueço você’.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.
‘não esqueço você’.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido:
‘não esqueço você’.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.
1 437
Vando Coutinho
Anal
Nesta transa sem igual,
agindo como animal,
mas sendo mais racional,
já sei o nosso final:
beijinhos mil e pau-pau!
Rotina muito normal
na vida a dois de um casal;
camisetas no varal,
camisinhas no quintal...
agindo como animal,
mas sendo mais racional,
já sei o nosso final:
beijinhos mil e pau-pau!
Rotina muito normal
na vida a dois de um casal;
camisetas no varal,
camisinhas no quintal...
1 385
Charles Bukowski
Pobre Al
não sei como ele consegue
mas toda mulher que ele conhece é
louca.
ele até pode se livrar de uma
mulher louca
mas nunca obtém o menor
descanso –
outra louca vem morar com ele
na mesma hora.
é só quando já estão na casa
e começam a se comportar
de um jeito mais do que estranho
que elas admitem para ele
que já passaram por
hospício
ou que suas famílias têm
um longo histórico de doença
mental.
a última louca
ele mandava para o psiquiatra
uma vez por semana:
$75 por 45 minutos.
depois de 7 meses
ela abandonou o
psiquiatra
e disse para o Al
“aquele maldito veado não sabe de
nada”.
não sei como todas elas acham
o Al.
segundo ele não dá pra dizer à primeira
vista
elas ficam resguardadas
mas depois de 2 ou 3 meses o
resguardo cai
e lá está o Al com
outra louca.
chegou a tal ponto que Al pensou
ser ele
o problema
então procurou um psiquiatra
e perguntou
e o psiquiatra disse
“você é um dos homens mais sãos
que eu já conheci”.
pobre Al.
com isso ele ficou se sentindo
pior
do que nunca.
mas toda mulher que ele conhece é
louca.
ele até pode se livrar de uma
mulher louca
mas nunca obtém o menor
descanso –
outra louca vem morar com ele
na mesma hora.
é só quando já estão na casa
e começam a se comportar
de um jeito mais do que estranho
que elas admitem para ele
que já passaram por
hospício
ou que suas famílias têm
um longo histórico de doença
mental.
a última louca
ele mandava para o psiquiatra
uma vez por semana:
$75 por 45 minutos.
depois de 7 meses
ela abandonou o
psiquiatra
e disse para o Al
“aquele maldito veado não sabe de
nada”.
não sei como todas elas acham
o Al.
segundo ele não dá pra dizer à primeira
vista
elas ficam resguardadas
mas depois de 2 ou 3 meses o
resguardo cai
e lá está o Al com
outra louca.
chegou a tal ponto que Al pensou
ser ele
o problema
então procurou um psiquiatra
e perguntou
e o psiquiatra disse
“você é um dos homens mais sãos
que eu já conheci”.
pobre Al.
com isso ele ficou se sentindo
pior
do que nunca.
1 352
Liz Christine
Senha
será que um dia
encontro alguém
que ame poesia
e vá além
odeie hipocrisia
será que eu acho
quem adore se divertir
quem goste de sair
mas... diacho!
não encontrei
ainda
apenas sonhei
com alguém
que vai me completar
além
de me fazer gozar
alguém que tenha
a minha senha
a chave perdida
em algum lugar
da minha vida
encontro alguém
que ame poesia
e vá além
odeie hipocrisia
será que eu acho
quem adore se divertir
quem goste de sair
mas... diacho!
não encontrei
ainda
apenas sonhei
com alguém
que vai me completar
além
de me fazer gozar
alguém que tenha
a minha senha
a chave perdida
em algum lugar
da minha vida
862
Peter Salém
Sol lindo
Sentamos pra ver o sol indo.
Grama, grilos, coceirinhas...
(O sol
aquela bolona amarela
E nós
sonhos pra dar e dormir.)
Lá ia, lá longe, o sol indo...
Senti o calor que cê tinha
Na pele que, ali, era só minha.
Aquele gosto quente no dente,
Um beijo, um toque, a mão no joelho...
Epa!
Olha que até o sol ficou vermelho.
Grama, grilos, coceirinhas...
(O sol
aquela bolona amarela
E nós
sonhos pra dar e dormir.)
Lá ia, lá longe, o sol indo...
Senti o calor que cê tinha
Na pele que, ali, era só minha.
Aquele gosto quente no dente,
Um beijo, um toque, a mão no joelho...
Epa!
Olha que até o sol ficou vermelho.
1 049
Olegário Mariano
O Flirt
Retirei um breve instante
Das minhas cogitações,
Para falar-vos do Flirt,
A epidemia elegante
Dos salões.
Nasce de um sorriso mudo,
De um quase nada que, enfim
Vale tudo
Para elas e para mim.
O Flirt. Haverá no mundo
Quem não sinta essa embriaguez
De um momento, de um segundo,
De quinze dias, de um mês?
Ele é efêmero e fortuito,
Vale pouco ou vale muito,
Conforme o Diabo o compôs.
É um simples curto-circuito
Entre dois.
Uma carícia inflamável
Doidinha por incendiar,
Um micróbio insuportável
Que vai de olhar para olhar.
Ou antes: um precipício
Que a gente olha sem pavor.
O divino instante, o início
Do êxtase imenso do amor.
Um galanteio, uma frase
Intencional
Que sendo frívola, é quase
Um madrigal.
A mão que outra mão afaga,
O pé que pisa outro pé.
Carícia lânguida e vaga...
Só quem ama e quem divaga
Pode saber o que isto é.
A orquestra soluça um tango:
Dois. Ela folle, ele fou.
Flor de Tango. — A flor de Tango,
Diz ele baixinho, és tu.
E assim vai num tal crescendo,
Que ela se debate em vão.
Parece que está morrendo
Nos braços do cidadão.
Quando passa o áureo momento,
Vem a tragédia em três atos.
Três atos
Com um epílogo. Depois,
Um noivado, um casamento,
Um bruto arrependimento
E ao fim divórcio entre os dois.
In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
Das minhas cogitações,
Para falar-vos do Flirt,
A epidemia elegante
Dos salões.
Nasce de um sorriso mudo,
De um quase nada que, enfim
Vale tudo
Para elas e para mim.
O Flirt. Haverá no mundo
Quem não sinta essa embriaguez
De um momento, de um segundo,
De quinze dias, de um mês?
Ele é efêmero e fortuito,
Vale pouco ou vale muito,
Conforme o Diabo o compôs.
É um simples curto-circuito
Entre dois.
Uma carícia inflamável
Doidinha por incendiar,
Um micróbio insuportável
Que vai de olhar para olhar.
Ou antes: um precipício
Que a gente olha sem pavor.
O divino instante, o início
Do êxtase imenso do amor.
Um galanteio, uma frase
Intencional
Que sendo frívola, é quase
Um madrigal.
A mão que outra mão afaga,
O pé que pisa outro pé.
Carícia lânguida e vaga...
Só quem ama e quem divaga
Pode saber o que isto é.
A orquestra soluça um tango:
Dois. Ela folle, ele fou.
Flor de Tango. — A flor de Tango,
Diz ele baixinho, és tu.
E assim vai num tal crescendo,
Que ela se debate em vão.
Parece que está morrendo
Nos braços do cidadão.
Quando passa o áureo momento,
Vem a tragédia em três atos.
Três atos
Com um epílogo. Depois,
Um noivado, um casamento,
Um bruto arrependimento
E ao fim divórcio entre os dois.
In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
1 150
Paulo Setúbal
A Forasteira
Dissera-me o barbeiro da vilota,
Que essa elegante, essa gentil devota,
Que freqüentava assim as ladainhas,
Também quisera, em busca de bons ares,
Passar o mês das férias escolares,
Na mesma terra onde eu passava as minhas.
E ali, na vila, nessa pobre aldeia,
Tão incolor, tão rústica, tão feia,
Povoada de caboclos indigentes,
A forasteira, com seu ar touriste,
Com seu chapéu de plumas, com seu chiste,
Chocava o povo e deslumbrava as gentes!
E eu, que vivia a padecer nesse ermo,
A definhar-me, torturado e enfermo,
Nas nostalgias dessa vila odiosa,
Eu bem sentia, ao ver essa estrangeira,
Que na minh'alma, pela vez primeira,
Brotara a flor duma paixão furiosa...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Que essa elegante, essa gentil devota,
Que freqüentava assim as ladainhas,
Também quisera, em busca de bons ares,
Passar o mês das férias escolares,
Na mesma terra onde eu passava as minhas.
E ali, na vila, nessa pobre aldeia,
Tão incolor, tão rústica, tão feia,
Povoada de caboclos indigentes,
A forasteira, com seu ar touriste,
Com seu chapéu de plumas, com seu chiste,
Chocava o povo e deslumbrava as gentes!
E eu, que vivia a padecer nesse ermo,
A definhar-me, torturado e enfermo,
Nas nostalgias dessa vila odiosa,
Eu bem sentia, ao ver essa estrangeira,
Que na minh'alma, pela vez primeira,
Brotara a flor duma paixão furiosa...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
1 219
Alfred Edward Housman
IN THE MORNING
De manhã, pela manhã,
No feliz campo de feno,
Oh, fitaram-se um ao outro
À luz do dia sereno.
Na manhã de azul e prata
Sobre o feno se deitavam,
Oh, fitaram-se um ao outro,
E seus olhares desviavam.
No feliz campo de feno,
Oh, fitaram-se um ao outro
À luz do dia sereno.
Na manhã de azul e prata
Sobre o feno se deitavam,
Oh, fitaram-se um ao outro,
E seus olhares desviavam.
1 411
Marcial
IV, 82 - ACERCA DE FÁBULA
Porque o epigrama, Fábula, meu lesse,
Em que me queixo que ninguém se nega
Rogada até três vezes repeliu
Do amante as preces. Fábula, promete:
Negar é justo, trinegar não é.
Em que me queixo que ninguém se nega
Rogada até três vezes repeliu
Do amante as preces. Fábula, promete:
Negar é justo, trinegar não é.
1 108
Luiz Pimenta
Nós
Nós
à minha namorada
Quando eu te vejo criança
e me vejo-
também criança-
nós dois brincamos
de viver a vida.
Teus olhos brilham
e eu te beijo,
profundamente,
apaixonado.
Belo Horizonte, natal de 93
à minha namorada
Quando eu te vejo criança
e me vejo-
também criança-
nós dois brincamos
de viver a vida.
Teus olhos brilham
e eu te beijo,
profundamente,
apaixonado.
Belo Horizonte, natal de 93
1 045
Mauro Mota
Eu gosto muito de você
Talvez você saiba, talvez,
talvez não
saiba bem
desta muito espiritual
e romântica paixão,
que vive em meu coração,
desde a hora sonâmbula, na qual,
linda como ninguém,
você me apareceu pela primeira vez !
Eu, um fino galanteador,
─ nem precisa dizer ! como todo rapaz,
doidinho por você, que é, como ninguém, linda,
não consegui ainda
dizer-lhe uma palavra lírica de amor
ou uns versos sentimentais.
As inúmeras mulheres,
que, sempre, namorei por distração,
sabiam, logo, do meu pensamento !
No meio
esplêndido dum salão,
às vezes, muito cheio
de gente, ou em outra qualquer parte,
com um engano sutil e muita arte,
eu desfolhava os malmequeres
de suas mãos e lhes dizia, num momento,
mil frases de galanteio!
Mas você vê
que
quando me animo para
fazer-lhe uma levíssima declaração
sinto um aperto no coração!
O amor puro e sincero nunca se declara:
eu gosto muito de você!
talvez não
saiba bem
desta muito espiritual
e romântica paixão,
que vive em meu coração,
desde a hora sonâmbula, na qual,
linda como ninguém,
você me apareceu pela primeira vez !
Eu, um fino galanteador,
─ nem precisa dizer ! como todo rapaz,
doidinho por você, que é, como ninguém, linda,
não consegui ainda
dizer-lhe uma palavra lírica de amor
ou uns versos sentimentais.
As inúmeras mulheres,
que, sempre, namorei por distração,
sabiam, logo, do meu pensamento !
No meio
esplêndido dum salão,
às vezes, muito cheio
de gente, ou em outra qualquer parte,
com um engano sutil e muita arte,
eu desfolhava os malmequeres
de suas mãos e lhes dizia, num momento,
mil frases de galanteio!
Mas você vê
que
quando me animo para
fazer-lhe uma levíssima declaração
sinto um aperto no coração!
O amor puro e sincero nunca se declara:
eu gosto muito de você!
728
Paul von Heyse
SE O AMOR TE ATINGIU
Se o amor te atingiu
tranquila entre buliçosa gente
numa nuvem dourada segues para frente
imune, guiada por Deus.
Parecendo estar sem rumo
deixas teu olhar vagar em volta
e a seus prazeres a distante escolta
–governada por um só desejo.
Em vão negando, contestarias,
assim, timidamente, em si mesma encantada,
que, neste instante, a coroa da vida
resplandecendo, enfeita tua fronte.
tranquila entre buliçosa gente
numa nuvem dourada segues para frente
imune, guiada por Deus.
Parecendo estar sem rumo
deixas teu olhar vagar em volta
e a seus prazeres a distante escolta
–governada por um só desejo.
Em vão negando, contestarias,
assim, timidamente, em si mesma encantada,
que, neste instante, a coroa da vida
resplandecendo, enfeita tua fronte.
665
Quirino dos Santos
O saci
"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
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Madi
Novo Amor
Novo Amor
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
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