Poemas neste tema

Namoro e Paixão

Martha Medeiros

Martha Medeiros

não tenho mais idade

não tenho mais idade
pra brincar de esconde-esconde
vem me pegar
1 305
Martim Codax

Martim Codax

Mia Irmana Fremosa, Treides Comigo

Mia irmana fremosa, treides comigo
a la igreja de Vigo u é o mar salido
       e miraremos las ondas.

Mia irmana fremosa, treides de grado
a la igreja de Vigo u é o mar levado
       e miraremos las ondas.

A la igreja de Vigo u é o mar levado
e verrá i, mia madre, o meu amado
       e miraremos las ondas.

A la igreja de Vigo u é o mar salido
e verrá i, mia madre, o meu amigo
       e miraremos las ondas.
1 204
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quero morar

quero morar
no teu lugar comum
fazer previsões
improvisadas
crises pré-datadas
e ser dois em um
bem clichê
batom no copo
lingerie e Sinatra
bem eu e você


kitch por uma noite
adoraria
1 192
Martim Codax

Martim Codax

Mandad'hei Comigo

Mandad'hei comigo
ca vem meu amigo,
       e irei, madr', a Vigo.

Comig'hei mandado
ca vem meu amado,
       e irei, madr', a Vigo.

Ca vem meu amigo
e vem san'e vivo,
       e irei, madr', a Vigo.

Ca vem meu amado
e vem viv'e sano,
       e irei, madr', a Vigo.

Ca vem san'e vivo
e d'el-rei amigo,
       e irei, madr', a Vigo.

Ca vem vivo e sano
e d'el-rei privado,
       e irei, madr', a Vigo.
1 426
Martha Medeiros

Martha Medeiros

à noite

à noite
todos os gatos são pardos
e raros
perdida na noite procuro
leopardos
esses homens secretos que fogem
no escuro
1 196
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a gente é meio on the road

a gente é meio on the road
só que muito mais moderno
adoro estar com ele e esse amor é único
e insiste
sobrevive em nós um sonho torto
a gente se permite cafonices
e se finge de casal
mata o tempo na tevê e quando vê somos
lençóis
morremos de saudade que não dói
ele dança na minha frente
e me atrai essa falta de jeito pra me amar
quando beija a boca me enlouquece
não posso recusar tanta meiguice
superfino bagaceiro engraçadíssimo
máximo de luxo me cobre de promessas
champanhe em Mônaco banho nus
Mediterrâneo
instantâneo ele me pede em casamento
e eu aceito
1 003
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Problemas Relacionados À Outra Mulher

eu tinha lançado todo meu charme sobre ela
por algumas noites em um bar –
não que nosso caso fosse novo,
eu a amara por 16 meses
mas ela não queria ir até minha casa
“porque aquela outra mulher tem andado por lá”,
e eu disse, “tudo bem, tudo bem, o que vamos fazer?”

ela viera do norte e procurava por um
lugar para ficar
enquanto estava hospedada com sua amiga,
e foi até seu trailer alugado
e voltou com alguns cobertores e disse,
“vamos até o parque”.
eu lhe disse que ela estava louca
que os policiais iam nos pegar
mas ela respondeu “não, está agradável e enevoado”,
então fomos para o parque
espalhamos o equipamento e começamos a
trabalhar e então surgiram luzes de faróis –
uma radiopatrulha –
ela disse, “rápido, ponha suas calças! eu já estou com
as minhas!”
eu disse, “não posso. a minha está toda enrolada.”
e eles vieram com lanternas
e perguntaram o que estávamos fazendo e ela disse,
“beijando!” um dos policiais me olhou e
disse, “não posso culpá-lo”, e depois de alguma conversa
fiada eles nos deixaram em paz.
mas ainda assim ela não queria a cama onde aquela mulher
havia estado,
então acabamos num quarto escuro de motel
suando e beijando e trabalhando
mas fazendo a coisa direitinho; depois, claro,
de todo aquele sacrifício...
estávamos finalmente em minha casa
naquela tarde seguinte
fazendo a mesma coisa.

aqueles policiais não foram maus, apesar de tudo
naquela noite no parque –
e é a primeira vez que eu digo alguma coisa desse tipo
sobre policiais,
e,
espero,
que seja
a última.
1 162
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele corre

ele corre
e abre a grande angular


eu foco a fantasia
e a gente ri que dói


ele Fórmula 1
eu capa da Playboy
1 154
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele diz que me ama, deseja

ele diz que me ama, deseja
me quer para sempre, me pede
para ser sua mulher, me corteja
me faz confissões, me venera
me entrega sonetos, me beija
implora meu sim, me calo
depois penso melhor, que seja
1 050
Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquela hora que você me convidou para

aquela hora que você me convidou para
subir até o terraço
eu senti que não podia mais voltar atrás
sabe aquele aperto que dá, aquela vontade
de fugir e ficar
naquele instante eu senti: não posso mais
e fui com você, não querendo pensar
em mais nada
já no elevador sua expressão mudou, me
olhava só eu sei como
e éramos só nós dois, ninguém mais, até
o 16o andar
você não disse uma palavra até chegar
e foi lá em cima que eu senti como
estava frio
e como a cidade havia crescido e como
era bonito
e como eu tremia
você, como eu previa, não disse nada,
só me olhava
eu já estava ficando angustiada, sabia
que o encanto quebraria
caso eu falasse alguma coisa
você mudo, quieto, com as mãos no bolso
talvez até mais nervoso do que eu
e eu então tomei a iniciativa, voraz,
cheguei perto de você
bem perto mesmo, e pensei
timidez, recato, moral, insegurança,
orgulho, machismo
descansem em paz
1 074
Martha Medeiros

Martha Medeiros

vou chegar atrasada

vou chegar atrasada
e distraída
como quem saiu do trabalho
e foi direto pro bar


vou pedir um hi-fi inocente
e olhar toda hora pro relógio
como se tivesse alguém
me esperando em outro lugar


vou rir bastante
manter um ar distante
e esquecer quanto tempo faz


vou perguntar pelos amigos
e se aceitar carona
deixar cair um brinco no banco de trás
1 161
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Lamentável História Dos Namorados

Namorados, namorados,
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!

Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.

Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
1 159
Martha Medeiros

Martha Medeiros

homens são como cofres

homens são como cofres
têm segredos guardados
mulheres são como ladras
precisam arrombá-los
1 054
João Baveca

João Baveca

Como Cuidades, Amiga, Fazer

- Como cuidades, amiga, fazer
das grandes juras que vos vi jurar
de nunca voss'amigo perdoar?
Ca vos direi de qual guisa o vi:
que, sem vosso bem, creede per mi,
que lhi nom pode rem morte tolher.

- Tod'ess', amiga, bem pode seer,
mais punharei eu já de me vingar
do que m'el fez, e, se vos en pesar,
que nom façades ao voss'assi;
ca bem vistes quanto lhi defendi
que se nom foss', e nom me quis creer.

- Par Deus, amiga, vinga tam sem sem
nunca vós faredes, se Deus quiser,
a meu poder, nem vos era mester
de a fazer, ca vedes quant'i há:
se voss'amigo morrer, morrerá
por bem que fez e nom por outra rem.

- Amiga, nom poss'eu teer por bem
o que m'el faz, e a que mo tever
por bem, tal haja daquel que bem quer;
mas, sem morte, nunca lhi mal verrá,
per bõa fé, que mi nom prazerá;
pero del morrer nom mi praz'á en.
708
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Vistes, Mias Donas: Quando Noutro Dia

Vistes, mias donas: quando noutro dia
o meu amigo conmigo falou,
foi mui queixos', e pero se queixou,
dei-lh'eu entom a cinta que tragia,
mais el demanda-m'[or']outra folia.

E vistes (que nunca que m’eu tal visse!):
por s'ir queixar, mias donas, tam sem guisa,
fez-mi tirar a corda da camisa,
e dei-lh'eu dela bem quanta m'el disse,
mais el demanda-mi al - quen'o ferisse!

Sempr'haverá dom Joam de Guilhade,
mentr'el quiser, amigas, das mias dõas,
ca já m'end'el muitas deu e mui bõas;
des i terrei-lhi sempre lealdade,
mais el demanda-m'outra torpidade.
548
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rouxinol que não cantaste,

Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
959
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero lá saber por onde

Quero lá saber por onde
Andaste todo este dia!
Nunca faz bem quem se esconde...
Mas onde foste, Maria?
1 652
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.

E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.

Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.

Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.

Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.

Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!

Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
1 104
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Levava eu um jarrinho

Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
1 750
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Menina de saia preta

Menina de saia preta
E de blusa de outra cor,
Que é feito daquela seta
Que atirei ao meu amor?
1 618
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

As ondas que a maré conta

As ondas que a maré conta
Ninguém as pode contar.
Se, ao passar, ninguém te aponta,
Aponta-te com o olhar.
1 494
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cortaste com a tesoura

Cortaste com a tesoura
O pano de lado a lado.
Porque é que todo teu gesto
Tem a feição de engraçado?
1 963
Rui Queimado

Rui Queimado

Quando Meu Amigo Souber

Quando meu amigo souber
que m'assanhei por el tardar
tam muito, quand'aqui chegar
e que lh'eu falar nom quiser,
       muito terrá que baratou
       mal, porque tam muito tardou.

Nem tem agora el em rem
mui gram sanha que eu del hei;
quando el veer, com'eu serei
sanhuda, parecendo bem,
       muito terrá que baratou
       mal, porque tam muito tardou.

E quand'el vir os olhos meus
e vir o meu bom semelhar
e o eu nom quiser catar
nem m'ousar el catar dos seus,
       muito terrá que baratou
       mal, porque tam muito tardou.

Quando m'el vir bem parecer,
com'hoj'eu sei que m'el verá,
e da coita que por mim há
nom m'ousar nulha rem dizer,
       muito terrá que baratou
       mal, porque tam muito tardou.
522
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vem cá dizer-me que sim.

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P’ra ao pé do meu coração.
1 436