Poemas neste tema

Nação e Patriotismo

Carlos Nejar

Carlos Nejar

No Ombro das Coisas

Como recolher-te, povo,
no ombro das coisas?

Preciso juntar tua bandeira
no caminho
do sol, das oliveiras.

Preciso recolher-te
onde não minto
e sou rebelde.

Pão.
Prego, espectro.
A alma imortal
e a outra alma
que é povo.

Casaco batido e longo,
o tempo se adivinha.
Tu também te adivinhas
cada manhã, embora
em fatias. A aurora
te adivinha na pura
distração, sem nuvem.
O menino ao nascer te adivinha
e é o mundo
chorando, adivinhando
o outro lado. O escuro.
É teu lábio: respiras.

Em cacos teu espelho.
Em cacos e sementes.
Já viajam sem ver-te.

E vão-se estilhaços
de ti, vão-se de braços
com o ar, as horas todas.
E o meu velho desespero.

O povo é remo
e a pátria, imóvel barco.

Teus fragmentos viajam
absurdos, indomáveis
e recolher-te, faz-me
nascer de novo.

Bendito seja o teu fruto,
América. Bendito seja
o ventre que tanto amei
e escuto pulsar, povo.
Teu fruto
no pomar da memória.

Quero-te inteiro. Ouso
por ti sofrer.
Vou recolher-te, fio
a fio. Medo a medo.
E quando fores completo,
virás me recolher.


Publicado no livro Árvore do mundo (1977).

In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.113-11
1 060
Lindolf Bell

Lindolf Bell

Exercício para Garcia Lorca

Quando o vento das primaveras anuncia as florações
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.


Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 951
Amador Ribeiro Neto

Amador Ribeiro Neto

Poesia de Nêumanne é seca e exuberante

O jornalista e poeta reúne em livro seus melhores poemas e traduções de poesia

O jornalista e poeta José Nêumanne, paraibano de Uiraúna, acaba de publicar Solos do Silêncio - Poesia Reunida, uma antologia - em que pese o subtítulo - organizada pelo próprio poeta, com seus melhores poemas. Uma obra repleta de dedicatórias e de referências, evidenciando, de imediato, as ligações biobibliográficas do autor. Direto do sertão para o mundo, numa fala de muitas línguas. Ao final do volume, uma antologia bilíngüe, selecionada e traduzida pelo poeta. Yeats, Rimbaud, René Char, Joan Brossa, Octavio Paz. E até Bob Dylan. Aliás, o poeta publica poemas que ele mesmo chama de "letras", uma clara alusão à música popular. Um poeta em busca de parcerias musicais? Por que não?
Entre as referências de sua poesia, aquelas feitas à Paraíba, em particular, são muito importantes. O Estado possui uma respeitável produção artística, infelizmente, quase sempre, à margem da produção cultural do País. Convém lembrar que são nomes de destaque na Paraíba de hoje, por exemplo, Ariano Suassuna (teatro e literatura), Ascendino Leite (literatura), Antônio Dias (artes plásticas), Bráulio Tavares (literatura e música popular), Elba Ramalho, Zé Ramalho, Herbert Vianna, Vital Farias (música popular), entre outros. Além da unanimidade de crítica e público, o compositor e intérprete "revelação" Chico César.
A poesia de Nêumanne nasce do sertão e se desenvolve na cidade. Traz as marcas da vida do poeta, mescladas nas memórias da infância e nas vivências jornalísticas da cidade grande.
Vivências que vão do silêncio fumegante do sertão ao farfalhar sereno das árvores das serras e da beira-mar. Das páginas nervosas do jornalismo ao mundo mágico dos deuses da mitologia clássica.
Das incursões líricas de um eu amoroso às denúncias sociais de um eu engajado.
Assim se apresenta a poesia de Nêumanne: seca e exuberante. Sempre acompanhando os movimentos da natureza nordestina e das cidades mundo afora. Na Espanha de Gaudí o poeta ouve as vozes da Serra da Borborema e vê desdobrarem-se os passos ritmados dos seus dançarinos, mundialmente conhecidos.
Os nomes mais expressivos da arte paraibana são lembrados pelo poeta com muita propriedade. Destaco dois, a título de ilustração: o do renomado poeta Sérgio de Castro Pinto, autor de O Cerco da Memória, comemorando 25 anos de poesia, e o de Carlos Aranha, ativista cultural que integrou as fileiras do Tropicalismo e hoje é uma das inteligências mais inquietas do jornalismo da Paraíba.
A poesia de Nêumanne é assim: de um lado a dicção coloquial dos repentistas, generosa e fluente. De outro, os versos econômicos, quase monossilábicos, à semelhança dos cacos de fala do personagem Fabiano, de Vidas Secas.
Para José Paulo Paes, os poemas de José Nêumanne, na sua grande maioria, são verbais, mas "nunca são verbosos". Por isso mesmo prefere os marcados por "certa concisão epigramática".
De fato, a veia incisiva do jornalista pulsa também no poeta. Versos-cactos irrompem em chicotadas rápidas e secas. Poemas explodem na cara do leitor. O tiro certeiro ganha o alvo. Um exemplo encontramos no poema In Love, que é quase um Catulo revisitado com a irreverência oswaldiana: "- Juro amar-te./- Tesconjuro!".
Ivan Junqueira não tem dúvidas. Diz: "O que li é bom. É bom sobretudo porque me presta uma informação essencial: Nêumanne é poeta."
O título do livro pede mais de uma leitura. Solos, referindo-se ao chão, à terra. Solos, referindo-se ao ato de solar em música: uma só voz ou um só instrumento. Sempre, como denominador comum, o silêncio. No chão, na música. Na terra esturricada, áspera. Na delicadeza e no virtuosismo de um destaque musical. Um chão. Uma música. O grotesco e o sublime. Ou vice-versa.
Amador Ribeiro Neto é mestre em Teoria Literária pela USP, doutorando em Semiótica na PUC-SP e professor do Departamento de Letras da UFPB

(in Caderno 2, O Estado de São Paulo, 10.10.96)

Leia obra poética de Frederico Barbosa

1 098
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Soneto à Pátria

Sonnet aan mijn land

Nesta noite em Toronto junto ao lago gelado
que o grasnido dos gansos não ousa estremecer
minha pátria ofendida surge na escuridão
e vem ao meu encontro com o seu sol e andrajos.

Ao seu redor estão os goiamuns que moram
no chão mudo dos mangues, o sinal semafórico
que ao lado da guardamoria freme na maresia
e os mendigos que esperam a morte sob os viadutos.

Caminhando na neve nesta noite estrangeira,
entre as sílabas negras dos frígidos pinheiros,
murmuro no vento o teu nome desmatelado.

ó pátria desamada, ó rameira insultada,
quanto mais longe estás, teu espinho distante
mais dói na minha mão inútil e gelada.

Op deze avond in Toronto dicht bij het bevroren meer
dat het gegak der ganzen niet durft te doen beven
verschijnt mij uit het duister mijn verwonde land
en het komt tot mij met zijn zon en met zijn lompen.

Rondom bevinden zich de strandkrabben die wonen
in de stille grond der slikken, het verkeerslicht
dat ter zijde van het tolhuis flikkert in de zeelucht
en de bedelaars die onder bruggen wachten op de dood.

Wandelend door de sneeuw in deze buitenlandse nacht,
tussen de zwarte lettergrepen van de kille sparren,
fluister ik in de wind je verfomfaaide naam.

O gekleineerde hoer, mijn onbeminde land,
hoe verder weg je bent, hoe meer je verre stekel
schrijnt in mijn onnutte en verkilde hand.

1 725
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

À Brasília de Oscar Niemeyer

Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.

Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"

ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.


Publicado no livro Museu de tudo (1975).

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 587
Cirstina Areias

Cirstina Areias

O Mapa de coxilha do fogo

Na luta pela minha terra,
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...

Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio

Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...

Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...

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Cirstina Areias

Cirstina Areias

Rio de Janeiro

É de enfiar a mão na terra que se se contamina de paixão?...
É de pisar descalço?...

Olho pra minha cidade, com jeito mesmo, de cidadã,
E não vejo, dela, a identidade...
(Ao contrário do que o Gerardo falou)
Não tem barro que palpite, em minha gente...
Tem piche e cheiro de obra...
Suor, queda e Hospital!
Tem nome de vento, sim! É o Sudeste:
Dono de chuva, mar zangado,
Dizendo que quem manda é ele!
Outro vento? Não sei, não!
Só se for o que vejo e não sinto,
Desgrenhando os cabelos dos miseráveis...

Tinha rua com palmeira,
Mas agora, não tem mais...
Tem olhar de criança pedinte, que não vejo...
Tem muita estrela no céu, que não vejo...
Tem porto! Tem cais!
Navio indo e vindo à toda hora!
- Deve haver bússula pra tanta viagem -
Mas eu não sei, não!
Boi e cavalo?
Nem pensar!
E bode, que nunca vi?!!!
Tem montanha, a minha cidade...
Lua que rouba fôlego
E, de vez em quando, uma flor...
Tem luz e tanta janela!
Tem Cristo iluminado!
(Iluminai, Cristo! a identidade perdida de minha cidade!)
Tem viajante, retirante,
Mendigo, assaltante,
Vadia...
Chorinho, jeitinho,
Samba, cerveja
Minha terra tem preguiça
Onde nem canta o sabiá...

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Neves e Sousa

Neves e Sousa

Ilha de Moçambique

Ilha de oiro e angustia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.

Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...

Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.

Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.

Riquexos vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados

E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...

Portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...

Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.
1 296
Reis Ventura

Reis Ventura

Baião de Luanda

Tão velhinha e tão linda, e tão presa
nos mistérios das ondas do mar,
é Luanda uma flor, uma beleza
com perfume e encantos sem par.

De S. Paulo à Marginal
- Vem ver , meu amor! -
Luanda ao sol-pôr,
Como é sem favor, divinal!

Raparigas do Bungo e da Samba,
do Cruzeiro e da Sé, do Balão,
na Paris, Polo Norte ou Mutamba,
são a nossa maior tentação.

Nesta terra onde eu nasci
eu quero casar
e ter o meu lar
e rir e chorar
só por ti.

Pelos bailes selectos da Alta,
nos batuques tão ricos de côr,
é Luanda que dança e que salta,
numa festa de vida e amor.

Bungo, Samba e Sambizanga
ou Portas do Mar
- Tudo isto é Luanda,
cidade e quitanda
ao luar...

Tão velhinha e tão bela e fagueira,
debruçada nas ondas do mar,
É Luanda sagaz, feiticeira.
Quem cá chega, cá quer ficar!
1 184
David Mestre

David Mestre

Espera

Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.

aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.

num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
896
Geraldo Bessa-Victor

Geraldo Bessa-Victor

O feitiço do batuque

Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.

Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.

Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!

A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
2 210
Castro Alves

Castro Alves

Saudação a Palmares

Nos altos cerros erguido
Ninho dáguias atrevido,
Salve! — País do bandido!
Salve! — Pátria do jaguar!
Verde serra onde os palmares
— Como indianos cocares —
No azul dos colúmbios ares
Desfraldam-se em mole arfar! ...

Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam...
E as trompas da caça atroam...
E os corvos negros revoam
Sobre o campo abrasador! ...

Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio,
Das liberdades paládio,
Pegaste o punho do gládio,
E olhaste rindo pra o val:
"Descei de cada horizonte...
Senhores! Eis-me de fronte!"
E riste... O riso de um monte!
E a ironia... de um chacal!...

Cantem Eunucos devassos
Dos reis os marmóreos paços;
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir ...
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua!...
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir.

Crioula! o teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Luzidio, firme, duro,
Guardaste pra um nobre amor.
Negra Diana selvagem,
Que escutas sob a ramagem
As vozes — que traz a aragem
Do teu rijo caçador! ...

Salve, Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
— Aos urros da cachoeira —
Sabes bater e lutar...
Salve! — nos cerros erguido —
Ninho, onde em sono atrevido,
Dorme o condor... e o bandido!...
A liberdade... e o jaguar!

2 800
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Claro Calar sobre uma Cidade sem Ruínas (Ruinogramas)

Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
a vida das pessoas
penetrando nos esquemas
como a tinta sangue
no mata borrão,
crescendo o vermelho gente,
entre pedra e pedra,
pela terra a dentro.

Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
criminoso por estar
fora da quadra permitida.
Sim, Brasília.
Admirei o tempo
que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.

Adeus, Cidade.
O erro, claro, não a lei.
Muito me admirastes,
muito te admirei.


Poema integrante da série Distraídos Venceremos.

In: LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 199
5 028
Yehuda Amichai

Yehuda Amichai

Judeus na terra de Israel

Nós nos esquecemos de onde viemos. Nossos nomes
judaicos do Exílio nos denunciam,
trazem de volta a memória de flores e frutos, vilas medievais,
metais, cavaleiros que viraram pedra, rosas,
temperos cujo perfume dissipou-se, pedras preciosas, muito rubro,
artesanatos já extintos no mundo
(as mãos também extintas).

A circuncisão causa-nos isso,
como no relato bíblico de Siquém e os filhos de Jacó,
para que sigamos com dor pelo resto de nossas vidas.

O que estamos fazendo, voltando a esta terra com tal dor?
Nossos desejos foram drenados junto com os pântanos,
o deserto se nos floresce, e nossos filhos são lindos.
Mesmo os destroços de navios que afundaram a caminho
chegam a estas praias,
mesmo ventos chegaram. Mas não todas as velas.

O que estamos fazendo
nesta terra escura com suas
sombras amarelas que perfuram os olhos?
(De vez quando alguém diz, mesmo após quarenta
ou cinquenta anos: "Este sol está me matando.")

O que estamos fazendo com estas almas de névoa, com estes nomes,
com nossos olhos de floresta, com nossos filhos lindos,
com nosso sangue veloz?

Sangue derramado não serve de raiz para árvores
mas é o mais próximo que temos
por raízes.
1 102
Monteiro Santos

Monteiro Santos

Tudo treme

tudo treme
neste poiso de espanto breve.

apresso a palavra e digo país:

e o teu corpo se despenha vertical
aqui entre as cordas desta febre.

digo espaço e as águas demoram.

de que me servem dedos
no contorno estéril da mão?
935
António Diniz da Cruz e Silva

António Diniz da Cruz e Silva

A francesia

Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.

- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
770
Aires Teles

Aires Teles

De pungentes estimulos ferido

De pungentes estimulos ferido
O Regedor dos ceos e humilde terra,
Sôbre ti manda, desastrada Lysia,
Effeitos da sua íra.

A peste armada destruir teu povo
A um seu leve aceno vôa logo:
Estraga, fere, mata sanguinosa,
Despiedada e crua.

Despenhada no abysmo da ruina,
Fugir pretendes aos accesos raios,
Qual horrida phantasma, porém logo
Desfallecida cahes.


O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,
Mas inda muito mais os teus errores
Que provocar fizerão contra ti
Contagião mortal.

Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
Da penitencia com as bastas ágoas,
Ja que revel e surda te mostraste

A seus mudos avisos.
Então verás ornada a nobre frente,
Como nos priscos tempos que passárão,
De esclarecidos louros, sinal certo
De teus almos triumphos.
1 075
Luiz Ademir Souza

Luiz Ademir Souza

Favilla 2

ASSALTO. Droga de poder?
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.

992
Castro Alves

Castro Alves

Ao Romper DAlva

Página feia, que ao futuro narra
Dos homens de hoje a lassidão, a história
Com o pranto escrita, com suor selada
Dos párias misérrimos do mundo! ...
Página feia, que eu não possa altivo
Romper, pisar-te, recalcar, punir-te...
PEDRO CALASANS
Sigo só caminhando serra acima,
E meu cavalo a galopar se anima
Aos bafos da manhã.
A alvorada se eleva do levante,
E, ao mirar na lagoa seu semblante,
Julga ver sua irmã.

As estrelas fugindo aos nenufares,
Mandam rútilas pérolas dos ares
De um desfeito colar.
No horizonte desvendam-se as colinas,
Sacode o véu de sonhos de neblinas
A terra ao despertar.

Tudo é luz, tudo aroma e murmurio.
A barba branca da cascata o rio
Faz orando tremer.
No descampado o cedro curva a frente,
Folhas e prece aos pés do Onipotente
Manda a lufada erguer.

Terra de Santa Cruz, sublime verso
Da epopéia gigante do universo,
Da imensa criação.
Com tuas matas, ciclopes de verdura,
Onde o jaguar, que passa na espessura,
Roja as folhas no chão;

Como és bela, soberba, livre, ousada!
Em tuas cordilheiras assentada
A liberdade está.
A púrpura da bruma, a ventania
Rasga, espedaça o cetro que serguia
Do rijo piquiá.

Livre o tropeiro toca o lote e canta
A lânguida cantiga com que espanta
A saudade, a aflição.
Solto o ponche, o cigarro fumegando
Lembra a serrana bela, que chorando
Deixou lá no sertão.

Livre, como o tufão, corre o vaqueiro
Pelos morros e várzea e tabuleiro
Do intrincado cipó.
Que importa’os dedos da jurema aduncos?
A anta, ao vê-los, oculta-se nos juncos,
Voa a nuvem de pó.

Dentre a flor amarela das encostas
Mostra a testa luzida, as largas costas
No rio o jacaré.
Catadupas sem freios, vastas, grandes,
Sois a palavra livre desses Andes
Que além surgem de pé.

Mas o que vejo? É um sonho!... A barbaria
Erguer-se neste séclo, à luz do dia.
Sem pejo se ostentar.
E a escravidão — nojento crocodilo
Da onda turva expulso lá do Nilo —
Vir aqui se abrigar! ...

Oh! Deus! não ouves dentre a imensa orquesta
Que a natureza virgem manda em festa
Soberba, senhoril,
Um grito que soluça aflito, vivo,
O retinir dos ferros do cativo,
Um som discorde e vil?

Senhor, não deixes que se manche a tela
Onde traçaste a criação mais bela
De tua inspiração.
O sol de tua glória foi toldado...
Teu poema da América manchado,
Manchou-o a escravidão.

Prantos de sangue — vagas escarlates —
Toldam teus rios — lúbricos Eufrates
Dos servos de Sião.
E as palmeiras se torcem torturadas,
Quando escutam dos morros nas quebradas
O grito de aflição.

Oh! ver não posso este labéu maldito!
Quando dos livres ouvirei o grito?
Sim... talvez amanhã.
Galopa, meu cavalo, serra acima!
Arranca-me a este solo. Eia! te anima
Aos bafos da manhã!

2 824
António Diniz da Cruz e Silva

António Diniz da Cruz e Silva

Ignorância e mau saber

[...]Pois se francês não foi, replica Lara,
Como monsieur lhe chamam?
Cum sorriso
Lhe torna o padre-mestre: Não se admire,
Que isto está sucedendo a cada passo;
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de monsieurs os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e, como é moda,
A quisemos seguir: e sobre tudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

De tanto peso, pois, lhe volve o Lara,
É, padre jubilado, porventura
O saber francês que disso alarde
Fazer quisessem vossas reverências?
Por acaso sem esse sacramento
Não podiam salvar-se e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês para mim o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.

Não diga, senhor, tal; que, neste tempo,
Ó tempos, ó costumes! Diz o padre,
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar, ver, senhor, como um pascácio
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas
Sem que lhes escape a santa teologia,
Alta ciência aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Scoto,
Aos Bacónios, aos Lulos e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai grassando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa português casta linguagem,
Que em tantas traduções corre envasada
(traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! Se as marmóreas campas levantando
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões que com a pena
Ou com a espada e lança a pátria honraram,
Os vossos ideotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos ridículos autores
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhas modas afrontavam
Segunda vez de pejo morreriam.
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Oswaldo Osório

Oswaldo Osório

Holanda

Holanda companheiros
chegámos
chegámos com barcos guildas nos olhos e desejo de vencer

chegámos intermináveis e actuais às docas
betão aço cargueiros e braços precisados
chegámos numa dimensão nova
(ah as roças de S.Tomé serviçal meu irmão)
e pusemos todo o nosso esforço
lubrificámos máquinas
alimentámos caldeiras
navegámos por oceanos de fogo e fiordes de gelo
mas foi nos mares da terra nova
no tempo em que de Boston a América mandava seus barcos baleeiros
para nos contratar
que ganhámos o bronze da nossa pele

The Best Sailors of the World

sob bandeiras estrangeiras brigámos guerras que não eram nossas
para agora amarmos ao ritmo de torno novo
e múltiplas bocas ao nos verem dizem

Let them get by

chegámos às docas companheiros
nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos nossos sonhos
chegámos intermináveis para o match
e pusemos todo o nosso esforço na luta
pusemos esperança na nossa força de trabalho
e quando nos vêem chegar dizem

Let them get by

aqui ou ali passaremos sempre porque chegámos companheiros
a esperança transformada em actos nos nossos punhos

a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto
ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos
e o match é em nossa terra que vai terminar
1 347
Castro Alves

Castro Alves

Quem dá aos pobres, empresta a Deus

Eu, que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Duas grandezas neste instante cruzam-sel
Duas realezas hoje aqui se abraçam!
Uma — é um livro laureado em luzes
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam
Nem cora o livro de ombrear coo sabre
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.

E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos —,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravosl"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.

E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram —foi no chão da história
Se tropeçaram — foi na eternidade
Se naufragaram — foi no mar da glória
E hoje o que resta dos heróis gigantes?
Aqui — os filhos que vos pedem pão
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.

Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funéreo chão.

Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.

Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissesses para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.

É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos — os rebentos novos —!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão! ...

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Pedro Ayres de Magalhães

Pedro Ayres de Magalhães

Timor

Andam lá sem descançar
Nas montanhas a lutar
Iluminam todo o mar
De Timor

Nas montanhas sem dormir
Uma luz a resistir
Arde sem se apagar
Em Timor

Andorinha de asa negra
Se o teu voo lá passar
Faz chegar um grande abraço
Dá saudades a Timor

Eles não podem escrever
Porque vão a combater
Vão de manhã defender
A Timor

As crianças a chorar
Não as posso consolar
Que eu nunca cheguei a ver
A Timor

Andorinha de asa negra
Vem ouvir o meu cantar
Ai que dor rasga o meu peito
Sem notícias de Timor

Nunca mais hei-de voltar
Já não posso lá voltar
À idade de lembrar
A Timor

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Castro Alves

Castro Alves

Ao Dous de Julho

(Recitada no Teatro S. João)

É a hora das epopéias,
Das ilíadas reais.
Ruge o vento — do passado
Pelos mares sepulcrais.
É a hora, em que a Eternidade
Dialoga a Imortalidade...
Fala o herói com Jeová! ...
E Deus — nas celestes plagas —
Colhe da glória nas vagas
Os mortos de Pirajá.

Há destes dias augustos
Na tumba dos Briaréus.
Como que Deus baixa à terra
Sem mesmo descer dos céus.
É que essas lousas rasteiras
São — gigantes cordilheiras
Do Senhor aos olhos nus.
É que essas brancas ossadas
São — colunas arrojadas
Dos infinitos azuis.

Sim! Quando o tempo entre os dedos
Quebra um séclo, uma nação ...
Encontra nomes tão grandes.
Que não lhe cabem na mão!...
Heróis! Como o cedro augusto
Campeia rijo e vetusto
Dos séclos ao perpassar,
Vós sois os cedros da História,
A cuja sombra de glória
Vai-se o Brasil abrigar.

E nós, que somos faíscas
Da luz desses arrebóis,
Nós, que somos borboletas — Das crisálidas de avós,
Nós, que entre as bagas dos cantos.
Por entre as gotas dos prantos
Inda os sabemos chorar,
Podemos dizer: "Das campas
Sacudi as frias tampas!
Vinde a Pátria abençoar!. . .

Erguei-vos, santos fantasmas
Vós não tendes que corar...
(Porque eu sei que o filho torpe
Faz o morto soluçar... )
Gemem as sombras dos Gracos,
Dos Catões, dos Espartacos
Vendo seus filhos tão vis...
Dize-o tu, soberbo Mário!
Tu, que ensopas o sudário
Vendo Roma — meretriz? ...

Ai! Que lágrimas candentes
Choram órbitas sem luz! —
Que idéia terá Leônidas
Vendo Esparta nos pauis?!...
Alta noite, quando pena
Sobre Árcole, sobre Iena,
Bonaparte — o rei dos reis —,
Que dor dalma lhe rebenta.
Ao ver suáguia sangrenta
No sabre de Juarez!?...

Porém aqui não há grito,
Nem pranto, nem ai, nem dor...
O presente não desmente
Do seu ninho de condor...
Mãos, que, outrora de crianças
A rir — dentaram as lanças
Dos velhos de Pirajá...,
De homens hoje, as empunhando,
Nas batalhas afiando,
Vão caminho de Humaitá!...

Basta!... Curvai-vos, ó povo!
Ei-los os vultos sem par,
Só de joelhos podemos
Nest’hora augusta fitar
Riachuelo e Cabrito,
Que sobem para o infinito
Como jungidos leões,
Puxando os carros dourados
Dos meteoros largados
Sobre a noite das nações.

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