Poemas neste tema

Música

Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

O Minuete

Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;
Admira-se o lavor do tecto de pau santo.

Cadeiras de espaldar corri fulvas pregarias:
Um enorme sofá: largas tapeçarias.

O purpúreo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre ansiosa uma gazela.

Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Toro as mãos de Afonso o armaram cavaleiro.

Era arcebispo aquele: esta foi açafata:
Que frescura sensual nos lábios de escarlata!

Olhos revendo o azul que sobre a Itália assoma:
Em finos caracóis, a loura e ondada coma:

Colo robusto e nu: cabeça triunfante:
Consta que certo rei... passemos adiantei

Este que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do áspero Pombal.

Desse olhar na expressão infinda e inenarrável
Desabrocha uma dor profunda e inconsolável.

Defronte, uma donzela, o rosto meigo e aflito,
Num êxtasis adora o pálido proscrito.

O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tão cedo se desfez, ó mísera e mesquinha!

No burel escondeste o viço e a formosura,
E desmaiaste, flor, no chão de uma clausura!...

Repara nos desdéns do fofo conselheiro,
Que sorridente aspira a flor de um jasmineiro!

Em cânones doutor: no paço foi benquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um hábito de Cristo.

Esse outro combatendo às portas de Baiona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragona.

Vibra flamas o olhar; cabeça ereta e audaz;
Ilumina-lhe o rosto a glória de um gilvaz.

Assistimos, ao vê-lo, às pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangor das músicas guerreiras...

No antiquíssimo espelho, à sombra das cortinas,
Reflete-se o primor de argênteas serpentinas.

Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.

Ao lado um cofre encerra, em amorável ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.

Uma noite estendi a música na estante,
E o cravo suspirou... naquele mesmo instante

Da ebúrnea palidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o aroma do passado.

E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,

A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,

A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete...

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Giselle del Pino

Giselle del Pino

Navegador Coração

Escuta
o fado
E agoniza hereditária.
Se a dor e a solidão
É teu brasão,
Desprenda-se do destino fatal.

Quantas pontes,
Abismos,
Escalar montanhas.
Quantas dores,
Arranhões,
Fissuras.
Ai! Como dói crescer!

Escuta o ritmo de corações afinados,
É pro teu peito que o meu grita.
Leva-me pra sala,
Bote-me ao seu lado
Num pôster sobre o bar...
Escuta o fado.

Minha alma,
É além mar.
Navegador coração
Que aprisionado em porões corsários,
Só deseja chegar.

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Nocturno

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

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António Feijó

António Feijó

A Uma Mulher Formosa

Nas límpidas canções que me inspiraste
ao som da flauta d'ebano cantadas,
narrava as minhas mágoas desoladas,
mas tu não me escutaste!

Depois compus estâncias primorosas,
que lêste em carinho e sem ternura,
lançando ao rio as páginas formosas
onde eu cantava a tua formosura.

Quis ser então mais fino e mais amável:
dei-te um presente fabuloso e raro,
uma enorme safira comparável
a um céu nocturno imensamente claro.

E em paga d'essa joia deslumbrante,
d'esse primor, d'uma riqueza louca,
mostraste-me, sorrindo um só instante,
as pequeninas pérolas da boca.

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Corsino Fortes

Corsino Fortes

De boca a barlavento

I


Esta
a minha mão de milho & marulho
Este
o sól a gema E não
o esboroar do osso na bigorna
E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
o
t
e
j
a
De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
para dentro das violas


II


Poeta! todo o poema:
geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
árvores de fruto
ao meio do dia
E tambores
erguem
na colina
Um coração de terra batida
E lon longe
Do marulho á viola fria
Reconheço o bemol
Da mão doméstica
Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio
Pão pedra palmo de terra
Pão & património
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Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

A Granja dos Séculos

A Natureza, enamorada, um dia,
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.

E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...

E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...

Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.

E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!

Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...

Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.

O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.

E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...

E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.

Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.

Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.

Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!

Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.

Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!

Granja, 30 de agosto de 1957

2 220 2
Luís Carlos Patraquim

Luís Carlos Patraquim

Metamorfose

quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta
de serem vagens e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e a metáfora

mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não
e a sete de Março chama-se Junho desde um dia de há muito
com meia dúzia de satanhocos moçambicanos
todos poetas gizando a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim
percutem outros tendões de memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos
e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
Aos Gritos
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António Nobre

António Nobre

Virgens que passais

Virgens
que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o Mar
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!

Cantai! Cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai....
Ó suaves e frescas raparigas,
adormecei-me nessa voz...cantai !

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, já está tudo lido,

AH, JÁ ESTÁ tudo lido,
Mesmo o que falta ler!
Sonho, e ao meu ouvido
Que música vem ter?

Se escuto, nenhuma.
Se não ouço ao luar
Uma voz que é bruma
Entra em meu sonhar

E esta é a voz que canta
Se não sei ouvir...
Tudo em mim se encanta
E esquece sentir.

O que a voz canta
Para sempre agora
Na alma me fica
Se a alma me ignora.

Sinto, quero, sei que
Só há ter perdido -
E o eco de onde sonhei-me
Esquece do meu ouvido.

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Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Nós

Nós somos a forma bonita, completa, de se cantar
Nós somos a voz e a palavra que nunca vão acabar
Cantando e amando vivendo
Com toda a vontade que é possivel ter
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver

Nós somos o ser extravazado que o nosso sentir nos dá
O mito complexificado em busca do que não há
Cantando e amando e vivendo
Com toda a verdade que é possivel ter
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver

E eu canto e eu quero o que eu canto
Eu preciso de cantar para encher essa forma
Eu sou o que eu canto
É na voz que eu rebento de mim
Alguém completado na vida
Prolongado na morte que já ninguém tem
A partir do momento em que a forma bonita
Se encheu de uma essência qualquer de ser

Nós somos a dor mais profunda que existe em todo o planeta
Mas somos também a alegria melhor que se inventa
Se alguém perguntar afinal
O que é que nós somos de tão lindo assim
A resposta é tão simples
Basta olhar pra vocês e pra mim
1 366 2
Herberto Helder

Herberto Helder

Demão

Retorna à escuridão
o rosto: entre centelhas, Ficasse tão maduro quando
de te tragar
estremecesses, Que o animassem
os elementos: um interior: um limite do mundo,
E se afinasse como
um galho de marfim
cheio de lume, Que fosse um instrumento
de crescer na terra: um golpe
nela, Abraço,
Com a mão coroada,
Até à bolsa com a lua dentro,
No ovo está o astro, Se pelos dedos
nesse rosto
te plantasses todo na riqueza do sono,
Soldado a nervos: osso:
feixes de fibras:
tímpanos, E as faíscas saltando pelas unhas
as deixassem ígneas,
E uma veia arpoasse igneamente a massa
muscular, Ou
a aorta sorvesse a matéria
tremenda
ao seu abismo, E te encharcasse até às pálpebras,
Essa púrpura por válvulas
contra os dentes, Nos fundamentos há
vezes
em que és ligeiro ao movimento da água,
Ou nas paredes onde os canos se cruzam
como um corpo onde se cruzam
órgãos
tubos, Um alento das coisas: dos tecidos
do mundo, E por exemplo se a louça e o inox
brilhados de dentro: à mesa,
E a madeira respira mais rápida,
E uma grande massa orgânica magnífica
cercada de membros
como um homem,
Essas pinças na cabeça entre as meninges
extraindo
uma estrela, Os canais luminosos da cabeça
iluminam-te todo, Iluminas-te
quando se arranca a língua e há um soluço da fala,
Levantas-te soberbamente
ao rosto, Como a vara
do vèdor fica acesa
pelas ramas de água, Como que salga
o aparelho
do corpo: e o torna substância
alta: giratória, Ou se fulgura a trama
cristalográfica
terrífica da música, Se levanta
entre dedos e cordas
fundidos, De sangue e ar no escuro:
música,
O medo do poder: esta ferida
tão de um nó de músculos estrangulando
uma leveza,
O barro violento, A manobra
das vozes, Fechas os olhos: e as
coisas não te vêem,
As mãos brilham-te abertas,
A morte aumenta a cara


1981.
5 106 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A música, sim a música...

A música, sim a música...
Piano banal do outro andar.
A música em todo o caso, a música..
Aquilo que vem buscar o choro imanenre
De toda a criatura humana
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal.
Mas é música...

Ah quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas?,
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!
5 499 2
Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino

Aula de Música

O violino principiante
arranha a pele do dia.
Ó dura, lenta porfia
da mão, soletrando o arco.
Ó marinheiro hesitante
— difícil carpintaria —
na construção do teu barco.

1 473 2
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

San Geminiano

Sob as arcadas da Collegiata
– um afresco ao fundo –
um oboé e uma harpa destacam-se
nessa tarde de outono
ressoando o adágio de Albinoni.
Pelas tríforas e aposentos outrora medievais
os sons passeiam até pousarem
no poço da praça principal.
Dentro da igreja, o afresco de Guirlandaio
conta a sofrida estória de Santa Fina
que definhou de paixão por Cristo aos 10 anos.
Lá fora, nas arcadas, abrimos nossos sanduíches,
as frutas da estação,
o vinho apropriado
e nos refastelamos piamente
em pura contemplação.
1 098 1
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El tango

¿Dónde estarán? pregunta la elegía
de quienes ya no son, como si hubiera
una región en que el Ayer, pudiera
ser el Hoy, el Aún, y el Todavía.

¿Dónde estarán? (repito) el malevaje
que fundó en polvorientos callejones
de tierra o en perdidas poblaciones
la secta del cuchillo y del coraje?

¿Dónde estarán aquellos que pasaron,
dejando a la epopeya un episodio,
una fábula al tiempo, y que sin odio,
lucro o pasión de amor se acuchillaron?

Los busco en su leyenda, en la postrera
brasa que, a modo de una vaga rosa,
guarda algo de esa chusma valerosa
de Los Corrales y de Balvanera.

¿Qué oscuros callejones o qué yermo
del otro mundo habitará la dura
sombra de aquel que era una sombra oscura,
Muraña, ese cuchillo de Palermo?

¿Y ese Iberra fatal (de quien los santos
se apiaden) que en un puente de la vía,
mató a su hermano, el Ñato, que debía
más muertes que él, y así igualo los tantos?

Una mitología de puñales
lentamente se anula en el olvido;
Una canción de gesta se ha perdido
entre sórdidas noticias policiales.

Hay otra brasa, otra candente rosa
de la ceniza que los guarda enteros;
ahí están los soberbios cuchilleros
y el peso de la daga silenciosa.

Aunque la daga hostil o esa otra daga,
el tiempo, los perdieron en el fango,
hoy, más allá del tiempo y de la aciaga
muerte, esos muertos viven en el tango.

En la música están, en el cordaje
de la terca guitarra trabajosa,
que trama en la milonga venturosa
la fiesta y la inocencia del coraje.

Gira en el hueco la amarilla rueda
de caballos y leones, y oigo el eco
de esos tangos de Arolas y de Greco
que yo he visto bailar en la vereda,

en un instante que hoy emerge aislado,
sin antes ni después, contra el olvido,
y que tiene el sabor de lo perdido,
de lo perdido y lo recuperado.

En los acordes hay antiguas cosas:
el otro patio y la entrevista parra.
(Detrás de las paredes recelosas
el Sur guarda un puñal y una guitarra.)

Esa ráfaga, el tango, esa diablura,
los atareados años desafía;
hecho de polvo y tiempo, el hombre dura
menos que la liviana melodía,

que solo es tiempo. El Tango crea un turbio
pasado irreal que de algún modo es cierto,
el recuerdo imposible de haber muerto
peleando, en una esquina del suburbio.


"El otro, el mismo"



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 196, 197 e 198 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
8 958 2
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aniversário

Os cinco anos de tua morte
esculpiram já uma criança.
Moldada em éter, de tal sorte,
ela é fulva e no dia avança.

Este menino malasártico,
Macunaíma de novo porte,
escreve cartas no ar fantástico
para compensar tua morte.

Com todos os dentes, feliz,
lá de um mundo sem sul nem norte,
de teu inesgotável país,
ris. Alegria ou puro esporte?

Ris, irmão, assim cristalino
(Mozart aberto em pianoforte)
o redondo, claro, apolíneo
riso de quem conhece a morte.

Não adianta, vê, te prantearmos…
Tudo sabes, sem que isso importe
em cinismo, pena, sarcasmo.
E, deserto, ficas mais forte.

Giras na Ursa Maior, acaso,
solitário, em meio à coorte,
sem, nas pupilas, flor ou vaso.
Mas o jardim é teu, da morte.

Se de nosso nada possuímos
salvo o apaixonado transporte
— vida é paixão —, contigo rimos,
expectantes, em frente à Porta!
1 961 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Depravação de Gosto

O maestro Aschermann, violinista,
dirige o requintado quinteto de cordas.
Guadagnin, segundo violino. Gioglia na viola.
O violoncelo é de Targino.
Ao piano, Nazinha Prates.
Haydn flutua no ar da Rua da Bahia.
Por que maligna inclinação,
vou ver o melodrama dos Garridos
no palco-poeira do Cinema Floresta?
841 1
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Soneto del vino

¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
conjunción de los astros, en qué secreto día
que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
y singular idea de inventar la alegría?

Con otoños de oro la inventaron. El vino
fluye rojo a lo largo de las generaciones
como el río del tiempo y en el arduo camino
nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

En la noche del júbilo o en la jornada adversa
exalta la alegría o mitiga el espanto
y el ditirambo nuevo que este día le canto

otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 230 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 171 1
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Musicalidades

E eu que pensava, fosse o amor
um calmo oboé de Mozart.
Sim, também o é.
Mas súbito, pancadas do destino
arrebentando as portas se ouvem.
É o amor, e é Beethoven.
1 183 1
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Acordes gastos

Acordes gastos
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.

Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.

Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.

Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.

2 036 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

16 - LULLABY

LULLABY *

My heart is full of lazy pain
And an old English lullaby
Comes out of that mist of my brain.

Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

I would give all my singing trade
To be the distant English child
For whom this happy song was made.

When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me;
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullably, mine only joy!

There must have been true happiness
Near where this song was sung to small
White hands clutching a mother's dress.

I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

O what a sorrow comes to me
Knowing the bitterness I have
While that child had this lullaby!

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine,
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

My heart aches to be able to weep.
O to think of this song being sung
And the child smiling in its sleep!

Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

I was a child too, but would now
Be the child, and no other hearing
This song low-breathed upon its brow.

When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me,
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

O that I could return to that
Happy time that was never mine
And which I live but to regret!

I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Ay, sing on in my soul, old voice,
So motherfully laying to sleep
The babe that quietly doth rejoice.

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Sing on and let my heart not weep
Because sometime a child could have
This song to lull him into sleep!

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Somehow somewhere I heard this song,
I was part of the happiness
That lived its idle lines along.

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy
Sing lullaby, mine only joy!

Ay, somehow, somewhere I was that
Child, and my heart lay happy asleep.
Now – oh my sad and unknown fate!


* The «Lullaby» quoted is the 134th. poem in Palgrave's Golden Treasury. It was taken by him from Martin Peerson's Private Music, a Song-Book of 1620. The «Lullaby» is here given twice over, and the last stanza twice again.
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Chico Buarque

Chico Buarque

A Banda

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

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Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

Lundum em Louvor de uma Brasileira Adotiva

Eu vi correndo hoje o Tejo
Vinha soberbo e vaidoso;
Só por ter nas suas margens
O meigo Lundum gostoso.

Que lindas voltas que fez
Estendido pela praia
Queria beijar-lhe os pés.

Se o Lundum bem conhecera
Quem o havia cá dançar;
De gosto mesmo morrera
Sem poder nunca chegar.

Ai rum rum
Vence fandangos e gigas
A chulice do Lundum.

Quem me havia de dizer
Mas a coisa é verdadeira;
Que Lisboa produziu
Uma linda Brasileira.

Ai beleza
As outras são pela pátria
Esta pela Natureza.

Tomara que visse a gente
Como nhanhá dança aqui;
Talvez que o seu coração
Tivesse mestre d'ali.

Ai companheiro
Não será ou sim será
O jeitinho é Brasileiro.

Uns olhos assim voltados
Cabeça inclinada assim,
Os passinhos assim dados
Que vêm entender com mim.

Ai afeto
Lundum entendeu com eu
A gente está bem quieto.

Um lavar em seco a roupa
Um saltinho cai não cai;
O coração Brasileiro
A seus pés caindo vai.

Ai esperanças
É nas chulices de lá
Mas é de cá nas mudanças.

Este Lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua.
Que Lundum me há de matar.

Ai lembrança
Amor me trouxe o Lundum
Para meter-me na dança.

Nhanhá faz um pé de banco
Com seus quindins, seus popôs,
Tinha lançado os seus laços
Aperta assim mais os nós.

Oh! doçura
As lobedas de nhanhá
Apertam minha ternura.

Logo que nhanhá saiu
Logo que nhanhá dançou,
O cravo que tinha ao peito
Envergonhado murchou.

Ai que peito
Se quiser flores bem novas
Aqui tem Amor perfeito.

Pois segue as danças de lá
Os de lá deve querer;
E se tem de lá melindres
Nunca tenha malmequer.

Ai delírio
Ela semeia saudades
De enxerto no meu martírio.

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Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Quindins: dengues, meiguices, encantos. Popôs: possivelmente "dengues". Lobedas: possivelmente "fitas". Melindre: planta também conhecida como beijo-de-frad
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

O Fado

Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...

Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...

É o fado. A canção das violetas:
Almas de tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!

Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito sejas tu! Ave-Maria!...
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